Luiz Antonio Guerra
Luiz Antonio Guerra é violeiro e doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo. É professor da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Sua tese de doutorado recebeu os prêmios CAPES e Destaque USP, em 2022, o Prêmio Sílvio Romero do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP-Iphan) em 2021, e foi publicada pela Edusp com o título “Uma Sociologia da Viola Caipira: os mestres de ontem e de hoje” (Edusp, 2026).
Segue abaixo entrevista exclusiva com Luiz Antonio Guerra para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 10/07/2026:
01) RM: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?
Luiz Antonio Guerra: Nasci no dia 28/08/1987, na época do acidente do césio 137, na cidade de Goiânia (GO). Cresci em uma família muito ligada à cultura do interior. Minha infância foi dividida entre Goiânia, pequenas cidades do interior e a fazenda da minha família, um ambiente onde a música sempre esteve presente e fazia parte da vida cotidiana. Registrado como Luiz Antonio Barbosa Guerra Marques.
02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.
Luiz Antonio Guerra: Meu primeiro contato com a música aconteceu ainda na infância. Em casa eu ouvia de tudo um pouco: muita MPB, rock internacional que tocava nas rádios e, principalmente, música sertaneja. Pelo lado da família do meu pai, sempre houve um gosto muito forte pela música caipira e sertaneja, desde as duplas mais tradicionais até o sertanejo romântico das décadas de 1980 e 1990.
Curiosamente, meu interesse inicial por tocar um instrumento veio através do rock. Por volta dos dez ou onze anos comecei a estudar violão em uma escola de música no meu bairro. Meu primeiro professor foi Fleury Derllys, que teve uma importância enorme na minha formação inicial.
Na mesma escola também lecionava Marquito, um dos professores de viola mais respeitados de Goiânia. Foi ali que tive meu primeiro contato com a viola caipira. Desde o começo, aprendi violão e viola praticamente ao mesmo tempo.
Guardo uma lembrança muito especial desse período. Durante as férias, meu professor Fleuri deixou uma viola comigo e me ensinou os primeiros acordes. Eu tinha cerca de onze anos e, desde então, a viola passou a fazer parte da minha vida.
Na adolescência, por volta dos treze ou quatorze anos, mergulhei no rock pesado, especialmente no punk rock. Passei a tocar contrabaixo em bandas da cena alternativa e abandonei a viola caipira. Anos depois, já na casa dos vinte anos, viajei por países como Argentina, Bolívia, Peru e Colômbia. Esse contato com diferentes culturas acabou me aproximando novamente das minhas próprias raízes. Foi nesse retorno que reencontrei a viola caipira, instrumento que desde então ocupa um lugar central na minha vida.
03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?
Luiz Antonio Guerra: Minha formação musical aconteceu principalmente de forma prática. Fiz aulas de violão, viola e guitarra, mas nunca segui uma formação acadêmica em música. Aprendi muito estudando pelas antigas revistas de cifras, tirando músicas de ouvido, tocando em bandas e convivendo com outros músicos. Mais tarde, a internet também passou a ser uma importante ferramenta de aprendizado.
Como sou professor universitário e pesquisador na área das Ciências Sociais, foi justamente a pesquisa acadêmica que acabou aproximando minha trajetória profissional da viola caipira.
04) RM: Quais as suas influências musicais?
Luiz Antonio Guerra: Costumo dizer que escuto desde Tonico & Tinoco até Ratos de Porão. Nunca enxerguei essas influências como contraditórias. Pelo contrário, acredito que elas vão se costurando ao longo da vida e ajudam a construir nossa identidade musical. De certa forma, todas essas influências contribuíram para a construção da minha forma de compreender a música e a viola.
Durante minha pesquisa conheci muitos violeiros que também carregam referências muito diversas. Um exemplo interessante é Ricardo Vignini e o projeto Moda de Rock, que mostram como a viola pode dialogar com diferentes universos musicais.
05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?
Luiz Antonio Guerra: Na verdade, nunca desenvolvi uma carreira profissional como músico. Toquei durante muitos anos em bandas de rock, mas nunca com a intenção de viver da música. Minha trajetória profissional seguiu outro caminho. A viola passou a ocupar um espaço central na minha atuação profissional através da pesquisa acadêmica.
Entre 2017 e 2021 desenvolvi minha pesquisa de doutorado, acompanhando festivais, rodas de viola, folias e entrevistando inúmeros violeiros. Esse trabalho resultou na tese “Mestres de Ontem e de Hoje”, publicada em 2026 pela Editora da USP com o título “Uma Sociologia da Viola Caipira”.
06) RM: Como você se define como violeiro?
Luiz Antonio Guerra: Não me considero um músico profissional. Minha relação com a viola é profundamente afetiva e intelectual. Ao mesmo tempo em que estudo o instrumento como pesquisador das Ciências Sociais, continuo aprendendo como instrumentista.Essa dupla condição talvez seja a melhor definição da minha relação com a viola.
07) RM: Quais afinações você usa na viola?
Luiz Antonio Guerra: Hoje utilizo principalmente o Cebolão em Ré. Comecei aprendendo no Cebolão em Mi, disseminado pelas duplas caipiras, mas, com o tempo, percebi que, para mim, o Cebolão em Ré oferece mais conforto, menor tensão nas cordas (arrebentam menos…) e se adapta melhor à minha voz.
Já toquei também em outras afinações, como a Boiadeira e a Rio Abaixo. E tenho experimentado também utilizar afinações inspiradas na viola em outros instrumentos, como a guitarra, mas apenas como exercício criativo.
08) RM: Quais os violeiros que você admira?
Luiz Antonio Guerra: Entre os grandes nomes da tradição, tenho enorme admiração por Helena Meirelles e Tião Carreiro. Para minha geração, porém, acredito que Almir Sater tenha sido o grande responsável por abrir novos caminhos para a viola, mostrando que o instrumento podia dialogar com diferentes linguagens musicais sem perder sua identidade. Toda vez que ouço o Almir, algo diferente acontece dentro de mim.
Entre os violeiros contemporâneos, poderia citar uma lista de dezenas de nomes, mas vou ficar com aqueles que mais me influenciam enquanto violeiro: Ivan Vilela, Ricardo Vignini e Pereira da Viola.
09) RM: Quais as principais diferenças técnicas entre a viola e o violão?
Luiz Antonio Guerra: O violão resulta de um processo de padronização ocorrido principalmente entre os séculos XVIII e XIX. A viola, ao contrário, preservou durante muito tempo uma enorme diversidade de construções, afinações e formas de tocar.
No século XX, com a consolidação da música caipira gravada, algumas características se padronizaram, especialmente a afinação em Cebolão. Do ponto de vista técnico, a viola trabalha com cordas graves e agudas intercaladas e com afinações abertas, o que produz outra lógica de execução, acompanhamento e construção harmônica. Mais do que possuir dez cordas, a viola representa uma forma diferente de pensar a música.
10) RM: Como você analisa o cenário da música sertaneja e da música caipira?
Luiz Antonio Guerra: Essa é uma discussão que não possui um ponto final. Ela envolve diferentes concepções sobre tradição, inovação e autenticidade. Hoje podemos encontrar a viola tanto nos grandes shows do sertanejo contemporâneo — com artistas como Gusttavo Lima e inúmeras duplas do sertanejo universitário que incorporam o instrumento em momentos pontuais dos seus shows — quanto nas Folias de Reis, no Cururu, na Catira, nas universidades e nos festivais de viola.
Ao mesmo tempo, existem músicos profundamente identificados com a tradição de mestres como Tião Carreiro, Goiano e Bambico, para os quais determinadas mudanças podem representar uma descaracterização da viola. Essas diferentes posições fazem parte da história do instrumento.
No meu livro Uma Sociologia da Viola Caipira, não procuro dizer quem está certo ou errado. Meu interesse é compreender sociologicamente como esses debates sobre autenticidade influenciam o desenvolvimento da viola, das práticas musicais e das trajetórias dos artistas.
Procuro mostrar como as histórias individuais dos violeiros, articuladas às transformações das relações entre campo e cidade na história brasileira, ajudam a explicar a enorme diversidade da viola contemporânea. A meu ver, é justamente essa capacidade de preservar tradições e, ao mesmo tempo, dialogar com novas linguagens que faz da viola um dos instrumentos mais fascinantes da cultura brasileira.
11) RM: Apresente seu livro Uma Sociologia da Viola Caipira.
Luiz Antonio Guerra: Uma Sociologia da Viola Caipira é resultado da minha pesquisa de doutorado, desenvolvida entre 2017 e 2021 e publicada pela Editora da USP em 2026.
O livro procura compreender a viola para além de suas características musicais. Meu interesse foi investigar as práticas socioculturais dos violeiros, as transformações históricas da relação entre campo e cidade e os debates que envolvem a tradição do instrumento e as múltiplas identidades dos violeiros e violeiras. Em vez de apresentar respostas definitivas, proponho uma leitura sociológica sobre como esses conflitos e transformações ajudam a explicar a riqueza e a diversidade da viola caipira na atualidade.
12) RM: Quais seus contatos para shows e para os fãs?
Luiz Antonio Guerra: [email protected]
Luiz Antônio Guerra na Prosa em Terças: https://www.youtube.com/watch?v=3vKi2_65hRQ
Tese “Mestres de Ontem e de Hoje”: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-01102021-203832/publico/2021_LuizAntonioBarbosaGuerraMarques_VCorr.pdf


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