Johnny Mau
O músico, compositor e produtor cultural Johnny Mau com carreira iniciada em 1985, encontrou no washboard seu instrumento de identidade, desenvolvendo um som que mistura folk, blues e elementos brasileiros.
Integrante das bandas Criança Vodu e Frajolas Vadios e toca Washboard na Orquestra de Violeiros de Araras, tem composições lançadas nos streamings e prepara o primeiro álbum autoral da Criança Vodu.
Segue abaixo entrevista exclusiva com Johnny Mau para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 27/04/2026:
01) RitmoMelodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?
Johnny Mau: Nasci no dia 28/12/1971, em Santo André, SP. Atualmente resido em Araras, SP. Registrado como João Mauro de Assis.
02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.
Johnny Mau: A música sempre esteve presente em casa. Comecei a me envolver mais ativamente com ela a partir de 1985, quando passei a tocar bateria em bandas de rock, blues e baile em Campinas, SP. Ao mesmo tempo, já cultivava uma pesquisa paralela sobre blues e jazz, estudando as origens, os instrumentos, as harmonias e as construções harmônicas desses estilos.
03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?
Johnny Mau: Musicalmente, toquei bateria, violão e percussão em bandas de rock, blues, MPB e baile. Participei de um coral em Campinas – SP, onde fiz estudo de voz. Atualmente me dedico ao washboard, instrumento que estudei e desenvolvo em vários estilos.
Fora da música, atuo desde 1989 como designer gráfico e ilustrador, tendo trabalhado para gráficas, birôs e agências de publicidade, periódicos e prefeituras. Tenho passagem por grupos de teatro, tendo atuado como ator, músico e diretor musical em festivais nacionais e internacionais.
04) Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?
Johnny Mau: Minha formação musical foi muito influenciada pela família. Minha avó (Ângela) ouvia música de orquestra, com preferência pelo barroco, mas também pelo clássico e pelo período romântico. Meu avô (Leonardo) apreciava Lupicínio Rodrigues, Assis Valente e artistas daquele universo.
Minha mãe (Neuza) me apresentou a Elis Regina, Chico Buarque, os Beatles, Benito Di Paula e o jazz. Minha irmã (Evelyn) me abriu as portas para o Kraftwerk, Peter Frampton e o Tom Tom Club.
As trilhas de novelas também tiveram papel importante — meu primeiro vinil, depois dos disquinhos infantis, foi a trilha da novela Saramandaia. Todas essas influências, de alguma forma, ainda carregam algum peso. A diversidade foi a grande escola.
05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?
Johnny Mau: Comecei em 1985, em Campinas – SP, tocando bateria em bandas de rock, blues e baile. Desde o início, já me envolvia também com a organização e produção de eventos e bandas.
Depois passei por Americana, onde atuei como percussionista e violonista em grupos de MPB. Em Araras, além da MPB, retomei a bateria no rock e no blues e me especializei no washboard. Ao longo dessa trajetória, também tive passagens marcantes pelo teatro musical, tanto em festivais nacionais quanto internacionais.
06) RM: Quantos álbuns lançados?
Johnny Mau: Tenho três composições autorais: ‘Sangue nas Mãos’, ‘Estrada da Paz’, ‘Washboarder na Estrada’. Já tive gravações lançadas nos streamings pelas bandas autorais Pub Art e À Há À Margem. Há ainda a música ‘Lhe Encontrar’, de minha composição, gravada pelo intérprete Effe Brasil para a coletânea ‘Ilhabela Autoral’, de 2016. Com Os Frajolas Vadios têm registros de covers. Não tenho um álbum solo lançado até o momento — mas esse projeto está nos planos para um futuro próximo.
07) RM: Como você define seu estilo musical?
Johnny Mau: Meu som pessoal é uma mistura de pop com folk, com elementos bem brasileiros. Nas bandas em que atuo, transito pelo folk, ragtime, bluegrass, jazz, blues, Música Sertaneja — universos que, a meu ver, dialogam naturalmente com a musicalidade brasileira.
08) RM: Você estudou técnica vocal?
Johnny Mau: Sim, fiz estudo de voz voltado para coral, quando participei de um coral em Campinas – SP. Não canto mais, mas a experiência foi valiosa para entender a importância do cuidado com a voz como instrumento.
09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?
Johnny Mau: Mesmo não sendo mais cantor, tenho clareza de que o cuidado, os exercícios e o aquecimento vocal precisam ser levados a sério. Isso vale para qualquer instrumento: a disciplina e o estudo são essenciais. A voz é um instrumento especialmente delicado — ignorar isso tem um preço.
10) RN: Quais as cantoras (es) que você admira?
Johnny Mau: Adam Levine, Gregg Alexander, Elis Regina, Renato Russo e Neil Young. Artistas com identidades muito distintas entre si, mas que têm em comum uma entrega genuína e uma relação profunda com o que cantam.
11) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?
Johnny Mau: O maior pró é o controle total sobre o projeto — você decide o repertório, a imagem, o ritmo. O contra é o tempo: construir uma base de fãs de forma consistente exige muito tempo e dedicação, e não há garantia de retorno financeiro imediato. É preciso ter certeza de que as pessoas vão consumir o seu produto para que a carreira se sustente.
12) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?
Johnny Mau: No palco, procuro participar do maior número possível de festivais de blues, folk e jazz. Fora do palco, me inscrevo para dar oficinas e workshops para prefeituras e instituições, mantenho o Instagram ativo e invisto na produção de vídeos e nos figurinos. A imagem e a presença constante nas redes são fundamentais hoje em dia.
13) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?
Johnny Mau: O primeiro passo foi ter um CNPJ. Além dos shows e oficinas, mantenho uma loja com camisetas e outros produtos com a temática do washboard. Esse conjunto — música, educação e merchandising — forma um ecossistema que sustenta a carreira de forma mais sólida do que depender só dos shows.
14) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?
Johnny Mau: A internet facilita muito a divulgação e o contato com outros instrumentistas. Até criei uma Comunidade de Washboard online. Não enxergo lado negativo na internet — se você usar direito, ela trabalha a seu favor. O problema está no uso descuidado, não na ferramenta em si.
15) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?
Johnny Mau: A vantagem é não precisar gastar com demos e poder testar ideias com agilidade. Mas só isso. O produto final, feito em estúdio profissional com bons técnicos, sempre será superior. O home estúdio é uma ferramenta de processo, não de resultado final.
16) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco. Hoje a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?
Johnny Mau: O principal é ter uma base de fãs consolidada e não tratar os streamings como um fim em si mesmos, mas como um meio — uma vitrine para contratações e outros serviços. No meu caso, isso se traduz nas oficinas de washboard e na venda de produtos da minha marca. Quem entende isso sai na frente.
17) RM: Como você analisa o cenário do Folk no Brasil? Quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quem permaneceu com obras consistentes e quais regrediram?
Johnny Mau: Tem muita gente boa no folk atualmente — seria injusto citar alguns e esquecer outros. Há playlists de folk no Spotify criadas por ouvintes, não pelo algoritmo, que sempre trazem coisas novas e interessantes. Vale garimpar, como fazíamos na época das lojas de discos. A curadoria humana ainda é insubstituível.
18) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?
Johnny Mau: Músico veterano já passou por tudo, rs. Uma vez toquei num espaço sofisticado — um restaurante em uma fazenda — e o cachê seria por couvert. O local lotou, a rotatividade era intensa e, pelos meus cálculos, o valor ia chegar a uns R$ 4 mil.
Mas, ao fim do show, descobrimos que o dono havia esquecido de avisar a equipe para cobrar o cachê. Com muito custo, conseguimos R$ 500 para cobrir uma parte da viagem. Público sem reação também é comum em botecos, onde a banda é apenas uma música de fundo. Já os bares de verdade têm palco e sistema de som — nesses, a música é a atração.
19) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?
Johnny Mau: A felicidade vem da realização pessoal: viajar, conhecer gente nova, tocar o que você gosta. A parte triste é, muitas vezes, ser desrespeitado por proprietários e até funcionários dos locais. Casas sem estrutura adequada também desanimam. Dá para aguentar tudo — menos a falta de respeito.
20) RM: Existe o Dom musical? Como você o define?
Johnny Mau: Acredito que o dom existe, mas ele precisa vir acompanhado de vontade e disciplina. Noventa por cento é estudo — e não só do instrumento em si, mas da sua história, de como surgiu o estilo que você toca, do contexto histórico de tudo aquilo. Isso dá foco. O dom sem dedicação se perde; a dedicação sem dom pode suprir muito.
21) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?
Johnny Mau: A improvisação só acontece de verdade quando você domina a técnica e o contexto do que está tocando. Sem isso, você está apenas brincando de tocar — o que é diferente de improvisar de fato.
22) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?
Johnny Mau: Há sim o improviso de fato. Mas para que ele fique bonito e coerente, é necessário dominar a técnica e o contexto da música. O estudo anterior é o que dá liberdade real para improvisar no momento.
23) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?
Johnny Mau: O maior problema é quando o músico fica bitolado na regra e perde a ousadia de criar. Quem se destaca é quem tem coragem de ir além — e, para ser ousado com consistência, é preciso estudar muito. O método é um ponto de partida, não um teto.
24) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?
Johnny Mau: Vejo só lado positivo. O estudo da harmonia te dá base suficiente para ousar além dela com consciência do que está fazendo. Quem conhece as regras sabe quando e como quebrá-las com intenção.
25) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?
Johnny Mau: Há rádios e programas que se encarregam de tocar o que está fora do mainstream. O calcanhar de Aquiles está na formação e no fomento desse público. Para as rádios tradicionais, se você conhece — ou tem quem conheça — um radialista do seu nicho, ele toca sem cobrar jabá. As relações pessoais ainda funcionam.
26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?
Johnny Mau: Tem que gostar muito, porque é sofrido. Se você já tem uma base financeira para investir, fica muito mais fácil. Se não tiver, vá juntando e investindo em estudo, imagem e equipamento. Depois, ensaios e shows. Com experiência adquirida, participe de editais. A carreira se constrói em camadas — não existe atalho.
27) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?
Johnny Mau: A grande mídia só divulga o que mandam divulgar. Tem muita coisa boa que você só vai conhecer se acompanhar canais alternativos de música. Hoje, graças à internet, o acesso a essas fontes nunca foi tão fácil.
28) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para a cena musical?
Johnny Mau: São espaços excelentes para quem já tem experiência e são ótimos para o currículo. Representam uma vitrine importante e uma oportunidade real de visibilidade para artistas fora do circuito comercial.
29) RM: O que é a washboard?
Johnny Mau: A washboard, ou tábua de lavar, é um instrumento de percussão inusitado que surgiu a partir de um objeto doméstico comum usado para lavar roupas. Sua origem como instrumento remonta às comunidades afro-americanas do sul dos Estados Unidos, no final do século XIX e início do século XX. Com acesso limitado a instrumentos musicais tradicionais, músicos criativos passaram a utilizar objetos do cotidiano — como colheres, garrafas e tábuas de lavar — para criar ritmos e acompanhar canções.
A washboard se popularizou principalmente nos estilos blues tradicional, jazz de Nova Orleans, jug band music e zydeco (um gênero típico da Louisiana). Nestes estilos, o instrumento é tocado com dedais de metal nos dedos ou baquetas adaptadas, criando batidas secas, arranhadas e estalos que complementam perfeitamente a sonoridade rústica e dançante dessas músicas.
Apesar de sua forte ligação com ritmos tradicionais americanos, a washboard é extremamente versátil. Hoje, músicos de diferentes partes do mundo a utilizam em gêneros variados como forró pé de serra, samba, rockabilly, folk, bluegrass, ska e até mesmo música eletrônica. Com criatividade e técnica, é possível tocar praticamente qualquer ritmo nela.
Essa capacidade de adaptação faz da washboard não apenas um instrumento curioso, mas uma verdadeira peça de resistência cultural e expressão rítmica.
30) RM: Quais seus projetos futuros?
Johnny Mau: Para um futuro não muito distante, começar a gravar músicas próprias com minha banda, a Criança Vodu, da qual fazem parte Guto Meneghin no violão e André Nardi no oboé. É um projeto folk autoral que carrega a identidade sonora que desenvolvi ao longo de todos esses anos.
31) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?
Johnny Mau: https://beacons.ai/washboard | https://www.instagram.com/johnnywashboard
Canal: https://www.youtube.com/@johnnymau
Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=3PZnKObWzF4&list=OLAK5uy_kqbKARpPF-vRXMYBmcTLPJ0pDMbSzl3wY


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