Cantora Clara
Clara é uma artista da MPB. Cantora, compositora e produtora musical paulistana, tem música autoral na novela “Segundo Sol – Rede Globo” e na série “Detetives do Prédio Azul”.
Em 2020, criou o show “Música com Consciência” que promove o acesso à cultura e formação de público por meio da música autoral com temática emocional. Com este show, tornou-se vencedora do “Prêmio Profissionais da Música 2023” e do concurso internacional “Artist Wanted Edition do Spotify 2023”.
Clara se apresentou no SESI-SP, SENAC, CEUs, Fábricas de Cultura, Memorial da América Latina, Bienal do Ibirapuera, Vale do Anhangabaú, entre outros. Em março de 2024, participou do programa Altas Horas com Serginho Groisman.
Em 2025, fez uma linda turnê com 12 shows pela Secretaria de Educação, promovendo o autoconhecimento por meio da música. Em 2026 foi atração do Festival Eles e Elas Sertão Diverso na Vila Itororó.
Este show já impactou mais de 2500 alunos em shows presenciais nas escolas, diversas empresas nacionais e multinacionais, mais de 2 milhões de pessoas nas redes sociais com canções sobre empatia, resiliência, motivação, respeito às diferenças e saúde mental.
Segue abaixo entrevista exclusiva com Cantora Clara para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01/05/2026:
01) RitmoMelodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?
Cantora Clara: Nasci no dia 10/11/ em São Paulo – SP. Registrada como Suellen Luz Silva e desde 2020 uso Cantora Clara como meu nome artístico .
02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.
Cantora Clara: Meu primeiro contato com a música foi brincando de cantar aos dois anos e meio, com “meu primeiro gradiente”, era meu brinquedo favorito, passava horas ouvindo música e cantando.
Não venho de uma família de músicos, porém meus pais (Maria Clara e Roberto) sempre foram grandes apreciadores de boa música, todo domingo era som alto enquanto meu pai lavava o carro ao som de Martinho da Vila, Raul Seixas, minha mãe ouvia Roberta Miranda, Clara Nunes, Marisa Monte, ou seja, tive a dádiva de referências ecléticas que me permitiram fazer constantes descobertas e ter a liberdade de escolha.
03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?
Cantora Clara: Comecei a cantar aos 9 anos de idade, compor aos 10 e aprendi de forma autodidata a tocar violão aos 12 anos. Aos 15 anos, venci um festival na escola onde ganhei uma bolsa de estudos para canto e coral no Conservatório Orestes Sinatra onde estudei Canto e Coral por dois anos.
Aos 17 anos consegui uma bolsa de estudar Gestão e Organização de Eventos na Universidade Anhembi Morumbi, escolhi esse curso para entender mais sobre o mercado de eventos e poder criar oportunidades para minha carreira musical.
04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?
Cantora Clara: Comecei a gostar de música ao som de Xuxa e Roberto Carlos, quando criança vivia cantarolando suas músicas.
Na adolescência ouvia muito Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Charlie Brown Jr, Gabriel o Pensador, Raul Seixas, até que a MPB tomou conta da minha playlist com Djavan, Pedro Mariano, Cazuza, Cássia Eller, Zélia Duncan, aprendi muito sobre como tocar violão tocando músicas de João Bosco, Jorge Vercillo, Ana Carolina, Lenine. Aprendi muito sobre presença de palco e interpretação com Clara Nunes, Ivete Sangalo, Elis Regina.
No presente confesso que amo descobrir novos artistas, muito antes dele ganhar quatro Grammy Latinos, Jota.Pê já morava em minhas playlists, ouço muito BaianaSystem, Larissa Luz, Bia Ferreira, Rincon Sapiência, além dos clássicos Seu Jorge, Vanessa Damata, Maria Rita, Maria Bethânia, Caetano Veloso.
Acredito que nenhum artista deixa de ter importância, pois cada um marcou um momento, uma história, uma memória afetiva, os artistas ou suas obras que parei de ouvir apenas deixaram de fazer sentido para o momento atual, seja por posicionamentos ou atitudes discordantes.
05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?
Cantora Clara: Aos 9 anos de idade, vivia brincando de cantarolar na doceria de minha mãe (Maria Clara), onde fui descoberta por um senhor (Macedo) que ficou admirado com aquela voz grave de uma garota tão pequena e me perguntou se eu tinha vontade de ser cantora e se gostaria de aprender mais sobre música, eu disse sim, ele conversou com minha mãe, me ensinou as primeiras notas musicais e uma semana depois das poucas aulas, subi em meu primeiro palco acompanhada de uma banda, em uma churrascaria chamada “Compacto”, que ficava no bairro do Itaim Paulista, onde tive a certeza que aquela era minha vocação.
Comecei a participar de diversos festivais de música, seja na escola, regionais, venci vários deles e cheguei a cantar no programa do Raul Gil no quadro “A mais bela voz do ano 2000”.
Mas nesse momento minha mãe ficou muito doente com problemas de saúde mental, com isso, não dei sequência na carreira, porém mantive a música viva, cantando todos os domingos na Paróquia São Marcos, aos 15 anos me tornei locutora de uma rádio comunitária, após vencer um festival ganhei uma bolsa de estudos onde pude estudar canto e coral.
Aos 17 anos fui aprovada no Prouni e consegui uma bolsa de estudos integral para cursar Gestão e Organização de Eventos na Universidade Anhembi Morumbi.
Escolhi esse curso, pois sendo uma garota que nasceu e cresceu na periferia, não tinha contatos e nem verba para viver da música, escolhi um curso onde teria a oportunidade de aprender a criar eventos, conhecer pessoas que pudessem abrir portas para meu trabalho musical.
Com isso criei um projeto que me possibilitou gravar meu primeiro CD nos estúdios da faculdade e que me rendeu o Prêmio Inovação Empreendedora na categoria Aluna do Ano.
Após as aulas, comecei a tocar nos bares próximos à faculdade, onde meus shows eram apelidados de 5° aula, pois ninguém voltava para a sala para me assistir tocar, gerando até a comunidade “Suellen Luz pague minhas DP’s”. Nessa época recebi diversos convites para tocar nas principais casas de shows e fui consolidando meu nome na cena alternativa e de casas LGBTQIAPN+ de São Paulo.
Até que em 2020 adotei o nome artístico Cantora Clara e durante a pandemia covid-19, criei o premiado projeto “Música com Consciência”, onde promovo os cuidados com a saúde mental, saúde social e bem-estar por meio da MPB. Nesse projeto, levo meu show autoral com músicas que falam sobre empatia, resiliência, motivação, autoestima para empresas, escolas, feiras, congressos e eventos para conscientizar sobre diversidade, equidade, inclusão e ESG.
06) RM: Quantos álbuns lançados?
Cantora Clara: Lancei: “Na rua”, “Brazuka”, “Naruê” como Suellen Luz e quatorze singles como Cantora Clara.
Durante a faculdade fiz um projeto para gravar um CD Demo, que me custou a minha própria DP na faculdade, pois, no dia da reunião para a aprovação do projeto do CD, foi no dia da prova final na faculdade. Faltei à prova, nesta época eu mal tinha o dinheiro para comprar um lanche, imagine pagar o valor da prova.
Mas valeu a pena, o projeto foi aprovado, dez músicas gravadas, com os músicos: Lucas Marinho (Baixo), Jedie (Bateria), Jhonatan (Guitarra), Joci (Percussão) e Suellen Luz (Voz e violão). Com este material meu trabalho ficou conhecido em São Paulo. A música que mais se destacou foi a “Idiota”, “Eu não quero te Perder” e “Bicho Assustado”, em que o público até hoje vai à loucura.
Em novembro de 2010, nasceu meu primeiro CD – Suellen Luz – Na Rua. No lançamento do CD, lotamos o Club Roxy (casa de renome na Rua Augusta), o local para mil pessoas. Gravado nos estúdios: SP Áudio (do produtor Sergio Ferreira), direção musical de Rodrigo Matos e Suellen Luz, na bateria contamos com Alexandre Aposan (banda Oficina G3) e Grégory Paoly, Rodrigo Matos (Baixo e Teclado), Dante de Almeida e Koká Pereira (Percussão), Suellen Luz (Voz, Backvocal e Violão) e tivemos a participação do grupo Pegada de Gorila na música “Um samba pra Cartola”, esta canção levou meu trabalho as semifinais do concurso Exposamba (Rede Globo), em que me apresentei no HSBC Brasil.
07) RM: Como você define o seu estilo musical?
Cantora Clara: Defino como a Nova MPB, ou seja, uma mistura de ritmos e estilos, sem perder a identidade musical, buscando sempre a inovação.
08) RM: Como você se define como cantora/intérprete?
Cantora Clara: Defino como MPB Contemporânea, onde além da música, meu objetivo é despertar a consciência que a música vai muito além do entretenimento, ela pode colaborar ativamente no desenvolvimento humano e nos cuidados com a Saúde Mental.
Tenho mais de 150 composições, mas sou fã da música brasileira, então faço questão de levar ao público estas lindas obras. Confesso que quando interpreto músicas de outros artistas, gosto de colocar a minha personalidade na melodia. A música é sentimento, não me prendo a padrões, gosto de transmitir emoções.
09) RM: Você estudou técnica vocal?
Cantora Clara: Dos 9 aos 14 anos, aprendi de forma autodidata e dos 15 aos 16 aprendi mais sobre técnicas vocais no Conservatório Orestes Sinatra. A minha professora me colocava junto as vozes contraltos e eu saía da posição, para ficar ao lado das sopranos e dos barítonos e baixos, etc. Meu desejo era aprender também a cantar em outros tons, graças a esta travessura, hoje domino bem estas tessituras vocais.
10) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?
Cantora Clara: A importância é gigantesca! Quanto mais a gente escuta os grandes artistas, a gente cresce em nossa arte. Sempre que alguém me pergunta qual o segredo de cantar, eu respondo é desenvolver a arte de “ouvir”.
Digo isso, pois minha voz é contralto, nas aulas eu aprendia sobre como dominar as técnicas de contralto, mas curiosa que sou, eu ficava prestando atenção em como as sopranos faziam, como os barítonos e baixos cantavam, e ia aprendendo com cada um deles.
Os cuidados com a voz são cruciais para definir quanto tempo você viverá dessa profissão, temos grandes exemplos como Xororó, Maria Bethânia, Alcione, Ivete que já estão a décadas cantando e encantando desde a juventude.
E tantos outros cantores que não respeitaram os aquecimentos e repousos vocais, não buscaram uma qualidade de vida com hábitos saudáveis, e hoje não conseguem cantar uma música inteira sem desafinar ou sem ajuda de tecnologias para mascarar a voz.
11) RM: Quais as cantoras que você admira?
Cantora Clara: A lista é gigantesca: Elis Regina, Clara Nunes, Ivete Sangalo, Cazuza, pela potência vocal, interpretação, originalidade e visceralidade.
Djavan, João Bosco, Pedro Mariano e Jorge Vercillo pelo domínio vocal e criatividade. Seu Jorge, Maria Bethânia, Alcione, Jota.Pê, pelo grave e identidade vocal. Rita Benneditto, Ana Cacimba, Larissa Luz pela ancestralidade e força no cantar.
Levei muito tempo para me colocar nessa lista, crescemos em uma cultura onde exaltar suas qualidades é quase um pecado, mas ao estudar sobre desenvolvimento humano, compreendi que precisamos aprender a aceitar e respeitar as nossas qualidades.
E, por isso também me coloco nessa lista, pois admiro muito aquela garotinha que aos 9 anos de idade se apaixonou pela música e decidiu que viveria dessa arte, que aprendeu sozinha dominar sua voz, lapidar suas técnicas, ao invés de perder o foco, seguiu firme e tenho uma carreira linda com mais de 20 anos de estrada, também admiro a Cantora Clara.
12) RM: Como é seu processo de compor?
Cantora Clara: Tenho dois processos: o primeiro é o intuitivo, geralmente nasce do inesperado, seja durante um banho, ou quando vem uma vontade absurda de tocar violão e com isso começa a surgir as inspirações.
O segundo é o criativo, faço muitos jingles conscientes para empresas, campanhas publicitárias, ou temas específicos, este processo nasce da necessidade de algo, assim a letra vem instantaneamente para preencher esse espaço vazio e suprir essa demanda. Os publicitários brincam que sou como “Chico Xavier da música”, pois eles apresentam o briefing e minutos depois já tenho a obra pronta.
Em ambos os processos, a música surge completa, ou seja, é como se eu estivesse ouvindo a canção pronta, com arranjo, melodia, letra e voz assim como ouvimos nos streams, depois tenho que correr para gravar a melodia e escrever a letra, apenas lapidando alguns pequenos detalhes.
13) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?
Cantora Clara: A maioria das letras componho sozinha, mas tive a honra de compor a música “Naruê” com as lendas Rodrigo Leite, Cauique Façanha (compositores das músicas Clareou, Pé na areia, Falta Você, etc), e Serginho Meriti (compositor de Deixa a Vida Me levar, Vida que Segue, etc). Fiz a música “Viver e Sonhar” com Mano Dáblio e Melaninaemsi. Com a Paulinha Alves, escrevi as músicas Florescer e Gira Gira Girassol, além de algumas parcerias que ainda não posso revelar.
Uma música, eu fiz com meus pais quando era criança em homenagem a Nossa Senhora. Outra “Maresia”, eu fiz com um amigo Vinicius Cazé (Ex. Integrante da novela Chiquititas, ele detesta que fale isso, mas tenho que citar (risos).
Outra “Duas Taças”, eu fiz com um amigo poeta chamado Nario Rabelo e meu último parceiro, que na verdade me intrometi em seu trabalho (risos)…
Após escutar o lindo CD – Lagoinha de Sandro Bernardes, eu fiquei encantada com as músicas, porém, elas eram curtas, pontos originalmente tocados em terreiros e ele transformou em samba.
O CD é muito bom, mas, faltava o desenvolvimento, a música havia apenas o refrão, com isso, perguntei se poderia “brincar” com elas. Desta brincadeira nasceram doze músicas em que mantenho o refrão criado por Sandro e complemento com a história da música. Para ter ideia, bastava escutar uma vez a música, que surgia toda composição em menos de cinco minutos.
14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?
Cantora Clara: Os prós é fazer o que se ama e seguir a arte com propósito. Ser uma artista independente te dá a liberdade de explorar sua criatividade, seguir o que você acredita, desenvolver habilidades de empreendedorismo, marketing, produção musical e produção de eventos, você cresce tanto como profissional, quanto no pessoal.
O contra é justamente o acúmulo de funções que muitas vezes limita o tempo criativo e o tempo fazendo o que você mais ama que é a música. É cansativo mentalmente? Sim! É necessário aprender muito sobre educação financeira para lidar com a sazonalidade? Sim! Você precisa ter muito foco e disciplina? Sim! Mas vale a pena fazer tudo isso? Com certeza vale muito!
15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?
Cantora Clara: Ao contrário do clássico “Deixa a vida me levar” de Serginho Meriti eternizado na voz de Zeca Pagodinho, que diz “espero ainda a minha vez”… pra viver de música de forma independente, você precisa ter muita disciplina, foco, ação, proatividade e dedicação para criar oportunidades, antecipar tendências e tirar do papel suas ideias, sem apenas esperar que algo aconteça, mas sendo um agente de sua transformação.
Dentro e fora do palco procuro fazer o melhor que eu posso, com o que eu tenho agora, procuro transmitir a verdade e fazer arte com propósito, em cada canção e ação busco melhorar minha vida e a vida de quem se permite ouvir e sentir.
Meu estilo musical é a MPB contemporânea, busco sempre desenvolver e ampliar os talentos e habilidades, além de cantora, sou compositora, produtora musical e cultural.
No lado empreendedor, de forma independente coloquei uma música na novela da Rede Globo e duas músicas na série Detetives do Prédio Azul. Fui vencedora do “Prêmio Profissionais da Música 2023” e do “Artist Wanted Edition do Spotify 2023”, me apresentei no “Sim São Paulo 2023”, o maior encontro de música da América latina.
Busco sempre criar diferenciais como o show “Música com Consciência” onde as canções autorais, são baseados nas vivências pessoais, abordando temas necessários para a sociedade como falar sobre formas de combater a ansiedade, depressão, ajudando a vencer os medos e desconstruir preconceitos.
Além do show, também crio produtos como o E-BOOK e Jingles Conscientes que ajudam diversas empresas a transmitir sua missão, visão e valor aos colaboradores com a ajuda da música popular brasileira para engajar, treinar e motivar equipes.
Resumindo, a estratégia é estar sempre atenta, em movimento e “deixando a criatividade me levar” e transformar sonhos em realidade.
16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?
Cantora Clara: Diversas!!! Desde fazer a gestão das redes sociais, criar estratégias para os lançamentos, criar campanhas de divulgação, participar ativamente das gravações, ensaios, arranjos e amo fazer a produção musical.
Manter uma rede de contato com os fãs que carinhosamente chamo de “conscientes”. Gerencie suas redes sociais, não apenas terceirize ou torne automático, busque sempre que possível uma rede de comunicação humana e direta com seu público.
Crie diferenciais, no meu caso, além das canções e conteúdo que crio semanalmente para as redes sociais, criei um podcast, fizemos um Ebook sobre o projeto, escrevemos uma coluna musical para Revista Raça e Nova Brasil, entre outras ações.
Saiba selecionar, lapidar, valorizar e descobrir talentos em sua equipe, procure se cercar de músicos e equipe técnica comprometida e alinhadas ao seu propósito.
Acredito que a busca de conhecimento é o nosso maior tesouro, eu e a Paulinha (produtora, fotógrafa e videomaker) sempre buscamos estar antenadas nas novidades, tendências, participar de feiras, congressos, cursos e treinamentos sobre o mercado musical.
Outra ação muito importante na construção de uma carreira, é compreender que ninguém faz nada sozinho, sou eternamente grata a Paulinha Alves que me dá todo suporte técnico, profissional e emocional para seguir nessa jornada. Dividimos as tarefas, desde as burocráticas, técnicas, até o olhar artístico, uma complementa a outra.
Se você é músico independente e ainda está só nessa jornada, aconselho que busque pessoas de confiança, que realmente acreditem no seu talento ou proposta para te ajudar a construir a sua estrada. Sabemos que é difícil encontrar pessoas de confiança, mas fique atento na intuição e nas ações, para saber diferenciar quem realmente quer te apoiar e crescer junto.
17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?
Cantora Clara: A internet sempre foi uma grande aliada em minha carreira, desde os tempos de Orkut onde as pessoas usavam para conversar, eu já utilizava com estratégia para divulgar os shows e fortalecer a fan base.
Antigamente uma carreira se consolidava apenas para quem tinha uma grande gravadora, e a internet mudou esse jogo, permitindo que cada artista tenha a liberdade de divulgar suas criações.
Como nem tudo são flores, o que prejudica é que o poder de colocar nas grandes playlists, tráfego pago expressivo, entrada em grandes rádios ainda continua restrita a poucos, sem falar em muita gente que ainda compra plays, likes, gerando falsos números de ouvintes que descredibiliza quem trabalha de forma orgânica e ainda depende da “sorte” para furar as bolhas dos grandes investimentos para conseguir viralizar.
Por isso, quem é artista independente, não deve se prender a números de visualizações ou plays, mantenha seu foco no impacto que sua arte está gerando, na reação do público em cada show e siga trabalhando, fazendo o que acredita, que no momento certo as coisas acontecem.
18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?
Cantora Clara: A vantagem é que a arte se torna mais acessível e democrática, gerando mais oportunidades para quem sonha em viver de música e colocar suas ideias e inspirações em prática.
Eu mesma, tenho meu home estúdio e a música que mais tive visualizações foi “Dia da mulher é todo dia” que obteve mais de 2.4 milhões de plays, foi feita em um aplicativo de celular onde gravei cada faixa, trilha a trilha, fiz toda produção musical e masterização em casa.
A desvantagem é que com essa liberdade e o avanço da Inteligência Artificial, a produção musical que é algo tão complexo vem se tornando banal e a falta de troca de informações com um produtor musical experiente, faz com que a qualidade e curadoria de obra e letra declinem, mas sempre a gosto para tudo.
19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?
Cantora Clara: Acredito que para se destacar você tem que ter um conceito artístico bem definido para sair da “linha de produção”, que infelizmente o mercado se tornou.
Independente do seu estilo musical ou proposta artística, você tem que fazer a sua verdade, o que faz seu olho e alma brilhar, assim, quem tiver que se conectar com você e sua arte, mais cedo ou mais tarde vai se identificar. Precisamos entender que quanto mais nichado sua mensagem, você encontra os fans e admiradores que buscam o mesmo propósito.
No meu caso específico, transformei a dor em resiliência, mesmo antes de virar lei e hoje fazer parte da NR1, desde 2020 utilizo minha arte para falar sobre saúde mental, autoconhecimento, empatia, afroestima.
Quando comecei com o projeto “Música com consciência”, muitos não acreditavam, não compreendiam sua missão de romper tabus sobre o tema e incentivar as pessoas a cuidar de sua saúde emocional.
Hoje todos compreendem como fui pioneira nesse propósito e comprovaram a relevância de falar sobre esse tema, um dos resultados desta jornada inovadora, foi receber o Prêmio Profissionais da Música com o projeto “Música com Consciência” na categoria projetos musicais sociais.
20) RM: Como você analisa o cenário da Música Popular Brasileiro. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?
Cantora Clara: Analiso como um dos cenários mais promissores do mercado, afinal, o público brasileiro ama música, o povo brasileiro é criativo pela própria natureza, precisamos apenas de mais oportunidades e visibilidade para conectar as músicas certas as pessoas dispostas a ouvir e sentir.
Uma das grandes revelações com certeza foi o Jota.Pê (que tive a oportunidade de entrevistar em meu podcast “Música com Consciência”, Liniker que vem com uma sofisticação, qualidade vocal e arranjos surreais, BaianaSystem uma das bandas mais inovadoras dos últimos tempos, Agnes Nunes com sua força e doçura.
Artistas consistentes com certeza vem a lista: Djavan, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Vanessa da Mata, Marisa Monte, Seu Jorge, Lenine, cada um deles tem o dom de se reinventar, trazer novidades mesmo com tantas obras e tanta genialidade, sempre conseguem surpreender.
Não diria artistas que regrediram, mas confesso que eu ia amar ouvir novidades tão profundas de letras e arranjos quanto foram os quatro primeiros álbuns da Ana Carolina que me inspiraram muito a tocar violão.
Eu gostaria de ouvir mais músicas de artistas no estilo Elis Regina, Cássia Eller e bandas no estilo Charlie Brown JR, Legião Urbana, Capital Inicial, acredito que está faltando visibilidade para bandas.
E artistas que assim como eu, usam suas letras para gerar transformações sociais, que falem de temas complexos para todas as idades, de forma simples, sem apelos à sexualidade ou apologias, mas que façam músicas que inspiram o prazer de trocar playlists, usar camisetas e quem ouvir possa dizer “essa música mudou minha vida”.
21) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?
Cantora Clara: Eita, são tantas emoções (risos). Mas uma das situações mais inusitadas, foi quando fui fazer um show na festa junina na Granja Vianna – Cotia e após minha apresentação me convidaram para participar de uma corrida de sacos…
Eu gentilmente aceitei, peguei o saco, me posicionei entre os fans e fui participar… 3..2..1… todos saíram pulando e correndo, quando de repente (poft) eu cai pior que um saco de batatas, detalhe, quebrei o dente da frente, a boca sangrando, um desespero só… mas como sou escorpiana, olhei pra trás e vi que eu estava na frente, então, me levantei, voltei pulando e venci a corrida com dente quebrado, sangrando e tudo mais, sai do show direto para o hospital.
22) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?
Cantora Clara: O que me deixa feliz é ver que sim, é possível você mudar a sua vida através da sua arte, é possível você se conectar com pessoas que acreditam no seu trabalho e tem o mesmo propósito. É possível viver do que você mais ama.
O que me deixa triste é a espera, lidar com as incertezas do mercado musical, é sempre ter que criar oportunidades, pois sabemos que para furar as “bolhas” e chegar ao Mainstream você precisa de um grande investimento e muita sorte.
23) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?
Cantora Clara: Afirmo que existe o dom musical! Sou prova viva que existe o dom, desde criança a música pulsava em minhas veias, aprendi a tocar violão de ouvido, aprendi diversas técnicas vocais apenas pela observação, se colocar qualquer instrumento musical em minhas mãos em poucos instantes já começo a tocar.
Porém defino o dom musical como “democrático”, mesmo que você não tenha altas habilidades para aprender rapidamente, se você se dedicar, treinar, focar, ensaiar, você consegue aprender a cantar afinado, tocar um instrumento, produzir, basta doar seu tempo para a música que terá bons resultados.
24) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?
Cantora Clara: Meu conceito de improvisação é se permitir sentir. Não sou uma artista técnica, que vai descrever com maestria uma partitura ou explicar sobre melismas e técnicas complexas, mas sou de fazer, ouvir o que a alma pede e soltar na voz e na caneta tudo que sinto.
25) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?
Cantora Clara: Acredito que existe improvisação de fato, sou a prova do improviso pois antes de saber as técnicas eu já fazia intuitivamente, mas quando nos permitimos buscar conhecimento, estudar, treinar, lapidamos o que já existe e se ainda não existia, aprendemos a criar.
26) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?
Cantora Clara: Prós é que todo conhecimento é bem-vindo. Contras, quando a pessoa se prende muito em técnica ela corre o risco de ficar engessada e deixa de ser improvisação para reprodução.
27) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?
Cantora Clara: Não posso opinar, pois confesso que por ser autodidata só tenho conhecimentos básicos sobre cifras, sempre tive muita dificuldade de estudar partituras, decorar harmonias, minha relação com a música sempre foi relacionada a ouvir e sentir.
Tive um professor de violão que não teve paciência comigo (risos), ele me passava a partitura, eu tocava mais lento que uma tartaruga, eu pedia para ele tocar e mostrar como era, na sequência eu fazia igual, não por que eu li e entendi a partitura, mas sim porque eu ouvi o que ele tocou (risos).
28) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?
Cantora Clara: Com toda certeza, diversas rádios comunitárias, universitárias como a Rádio USP, web rádios, já tocam minhas músicas na programação, pois além de fazer parte da MPB contemporânea, minhas letras têm a proposta de falar sobre autoconhecimento, empatia, respeito às diferenças.
Mas como por enquanto, ainda falta o pagamento do jabá para entrar na programação das grandes emissoras do segmento, porém, como sempre digo: tudo é possível e se não tem oportunidade, a gente arruma um jeito.
29) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?
Cantora Clara: Coragem (risos), quem vê close não vê corre. Se é o que você ama, se é o que você acredita, vai e faz! Se lembre que o impossível não existe para quem persiste.
E para quem diz que viver de música é difícil e tenta banalizar teu sonho, se lembre que em tudo na vida precisa de uma pitada de determinação, estudos, foco, lapidação, resiliência.
Afinal, um médico não sai operando na primeira aula, um advogado leva anos estudando até desempenhar sua função, por mais velocidade que exista nas redes sociais, no rolar a tela que em três segundos já te deixa entediado, para construir e consolidar uma carreira também necessita controlar a ansiedade e respeitar o tempo.
30) RM: Festival de Música revela novos talentos?
Cantora Clara: Depende (risos), sabemos que muitos line up de festivais de música e prêmios de novos talentos, são feitos dos mesmos nomes, mesmos grupos, dos mesmos artistas que estão a muitos anos na cena e ainda aparecem como artistas “revelação”.
Mas a acredito que ainda existem curadores que realmente estão dispostos a abrir portas para novos nomes e novos projetos com potencial, que estão abertos a dar oportunidade para quem já faz muito barulho, com qualidade musical e conceito mesmo sem estar no mainstream e se tornando de fato uma revelação.
31) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?
Cantora Clara: Sabemos que a grande mídia gira em torno de quem tem mais investimento, mais streamings e público, para manter o mercado girando, mas ao mesmo tempo, fico muito feliz ao ver mais portas se abrindo com o crescimento de colunistas, canais e páginas dedicados a músicas, com pessoas apaixonadas por boa música e que de fato abrem espaço para novidades.
Um exemplo foi quando eu e a Paulinha recebemos o convite da Revista Raça em parceria com a Nova Brasil para ser colunistas, nossa primeira atitude foi escrever sobre artistas como Alaíde Costa, Marília Lopes, Pretinho da Serrinha, Frequências Preciosas, entre outros nomes que precisam estar em evidência, ocupar cada vez mais lugar de destaque por seus projetos geniais.
Procuramos fazer pelos outros o que gostaria que fizessem por nós, assim como a revista RitmoMelodia me fez esse lindo convite para responder essa entrevista e todo trabalho que vocês desde 2001 seguem dando voz aos artistas independentes.
32) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?
Cantora Clara: Acho fundamentais esses espaços, pois amplia o acesso ao público a atrações de qualidade e de forma acessível. Como artista, é muito gratificante ver sua arte rompendo fronteiras, circulando, servindo a comunidade tanto na parte do entretenimento quanto educacional.
Desejo de coração mais ações como essas e mais portas abertas, com curadorias atentas no diferencial, no impacto social da arte, não apenas nos números e likes de determinado artista. Acredito que a curadoria focada em temas que sirvam como transformação social e colaborem com o desenvolvimento humano, faz toda diferença.
33) RM: Quais os seus projetos futuros?
Cantora Clara: A saúde mental é um dos maiores desafios da atualidade, criei esse show para levar esse tema necessário para onde as pessoas estão: seja em casa, no trabalho, na academia, na condução, através da música, rompemos barreiras, quebramos preconceitos e geramos reflexões.
O show “Música com Consciência” recebeu o Prêmio Profissionais da Música 2023 e venceu o concurso internacional Artist Wanted do Spotify por sua inovação de unir a MPB a temas transversais como autoconhecimento, empatia, afroestima e bem-estar.
Estamos em busca de parceiros e oportunidades para escalar o projeto que em São Paulo já impactou mais de 2500 alunos presencialmente, com shows realizados no SESI, SENAC, Fábricas de Cultura, CEUs, Escolas Municipais e Estaduais, Bienal do Ibirapuera, Memorial da América Latina, shows em datas comemorativas como Dia da Mulher, Setembro Amarelo e eventos sobre Diversidade, Equidade e Inclusão em grandes empresas e mais de 2 milhões de pessoas impactadas nas redes sociais.
Nosso projeto presente e futuro é levar o show para mais estados e países. Vamos transformar o e-book do projeto em livro para ampliar o alcance e tornar ainda mais acessível.
Temos diversos lançamentos programados para soltar em 2026 nas plataformas de músicas e desejamos colocar as músicas nas grandes emissoras de rádio para tornar ainda mais popular as canções e se tornar acessível a quem não tem acesso à internet.
Nosso objetivo é consolidar a música com consciência no mercado musical e demonstrar que é possível chegar ao mainstream com músicas sobre autoconhecimento.
34) RM: Quais seus contatos?
Cantora Clara: Se você precisa falar sobre a NR1 de Saúde mental na sua empresa, está em busca de uma atração musical que fale sobre Diversidade, Equidade e Inclusão, estando alinhada à missão, visão, valor e ESG da sua empresa, será um prazer levar o show “Música com Consciência” pra seu evento.
Fale comigo e com a Paulinha Alves no WhatsApp (11) 98620-8530 | [email protected] e garanta sua data.
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Roberto Menescal e Cantora Clara | O que a Bossa Nova pensa da Música com Consciência?: https://www.youtube.com/watch?v=YPwAF4I-wGQ
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Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=Bzt_vNxyA8Q&list=PLprSFOXLvAeGzHbeJnT2nriaNpswAqfwj
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