Rui Torneze

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O violeiro e compositor Rui Torneze nasceu em família envolvida ao meio musical (pai trompetista e mãe cantora) aperfeiçoou-se em violão erudito aos 14 anos com o maestro Carmelo Crisafulli e no Conservatório Marcelo Tupinambá/SP.

Violeiro autodidata, pesquisou em campo, por todo o interior do sudeste e centro-oeste a Viola Caipira e o seu tocar, em que aproveitando-se da sua bagagem musical elaborou e desenvolveu uma metodologia de ensino estruturado do instrumento “por música”.

Rui Torneze possuindo 4 livros didáticos publicados pela editora Irmãos Vitale, hoje adotado na maioria das instituições que lecionam o instrumento, como o Projeto Guri.

Rui Torneze foi durante 13 anos professor de Viola Caipira da Universidade Livre de Música – ULM, hoje denominada Escola de Música do Estado de São Paulo – EMESP Tom Jobim. É pioneiro na elaboração e criação de arranjos específicos para orquestras de viola caipira, bem como a sua sistematização.

Formou nos últimos 15 anos, em projetos de parceria com a Secretaria de Estado da Cultura e de iniciativa própria, mais de 16 orquestras de viola caipira, a maioria no estado de São Paulo como Itapira, Monte Alegre do Sul, Socorro, Bragança Paulista, Moji Mirim, Andradina, Joanópolis, Bom Jesus dos Perdões, Piracaia, Guarulhos, Mairiporã, Atibaia, Nazareth Paulista, Tuiuti, Pedra Bela, São José dos Campos.

Além das orquestras de outros estados do sul país como as do Rio Grande do Sul (Orquestra Sul Riograndense de Viola Caipira, em Araricá e Orquestra Gaúcha de Viola Caipira, em Sapiranga), Paraná (Orquestra Paranaense de Viola Caipira, em Cascavel e Orquestra De Viola Caipira São Domingos Sávio, de Londrina), Santa Catarina (cidade de Blumenau e Jaraguá do Sul) Corumbá / MS e Uberlândia – MG em que através destas agremiações floresceram núcleos de ensino do instrumento e consequentemente, da cultura caipira, as quais estavam latentes e foram reavivadas neste processo.

Fundador e regente da Orquestra Paulistana de Viola Caipira (fundada em 29 de outubro de 1997); gravou em outubro de 2002 um CD e um DVD ao vivo no Theatro São Pedro, o CD obteve uma indicação ao Grammy Latino no ano de 2004. Em 2008 e 2009 no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto – SP – gravou o CD e DVD “Viola in Concert”, em que se destacaram arranjos de peças eruditas e MPB para orquestra de violas, conquistando à viola um público de alta exigibilidade e fazendo dessa vertente um marco e um diferencial entre as orquestras do gênero. A Orquestra Paulistana de Viola Caipira – OPVC conta com cinco CDs e dois DVD’s de qualidade internacional;

Rui Torneze atuou como consultor técnico junto à fábrica de cordas Medina Artigas (Argentina), onde desenvolveram-se cordas especiais e inéditas para a viola caipira (lixadas, para evitar o desgaste das unhas do músico).

É colaborador da Revista Viola Caipira, na seção “Executando a Danada” , com matérias didáticas e transcrições para a viola caipira. De 05/2006 a 02/2015 atuou como Regente da Orquestra de Viola Caipira de São José dos Campos da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, atendendo as demandas do município e cidades vizinhas;

Rui Torneze desde 12/04/2002 é diretor presidente do Instituto São Gonçalo de Estudos Caipiras, ONG direcionada ao estudo e difusão da cultura tradicional caipira, o qual abriga as atividades administrativas e técnicas da Orquestra Paulistana de Viola Caipira – OPVC e congrega inúmeros violeiros da tradição caipira em São Paulo.

Hoje, uma das funções mais nobres do Instituto São Gonçalo é a capacitação e a inclusão de grupos situados à margem do convívio social diretamente às atividades da Orquestra, como pessoas da “melhor idade” e em breve adolescentes em situação de vulnerabilidade (em parcerias com o setor industrial).

Recorrem naturalmente ao Instituto São Gonçalo aprendizes do Brasil inteiro, que vem buscar junto a seus instrutores (todos solistas da OPVC) as bases da preservação deste patrimônio que é o toque da viola caipira.

Hoje a Orquestra Paulistana de Viola Caipira – OPVC concentra suas apresentações ao atendimento empresarial e corporativo principalmente do setor dos agronegócios, bem como de diversos ramos cuja boa música é também apreciada, além atendimentos a Prefeituras, feiras e eventos culturais.

De 01/05 a 21/05/2010 a OPVC realizou sua primeira turnê internacional, por diversas cidades de Portugal, sendo que no ano de 2011 fora lançado o CD “Viola sem Fronteiras-Portugal 2010” gravado ao vivo durante a referida turnê.

Rui Torneze é Professor de Viola Caipira do Festival de Música de Londrina, com o patrocínio cultural da Universidade Estadual de Londrina – UEL, nos anos de 2012, 2013, 2014 e 2016.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Rui Torneze para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 13/03/2026:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Rui Torneze: Nasci no dia 06/03/1963 em São Paulo – SP. Registrado como Rui Torneze de Araújo.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Rui Torneze: Nasci em uma família simples, mas de bom gosto musical. Quando eu tinha três anos de idade, os meus pais (Heitor de Araújo Sobrinho e Heidy Aparecida Carmen Torneze de Araújo) começaram a colecionar para mim aqueles fascículos/discos dos grandes mestres da música universal, vendidos nas quinzenalmente nas bancas de jornais: Vivaldi, Bach, Beethoven, Chopin, entre outros. Dezenas de verbetes, eu os tenho até hoje. Olhando os “riscos” nos LPs percebo que o que eu mais escutava era o disco de Bach, seguido do de Vivaldi (risos).

Minha nonna (minha avó era italiana e assim eu a chamava) ouvia desde óperas de Puccini até Jair Rodrigues, além de Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Ataulfo Alves, entre grandes ícones da MPB.

Aos nove anos de idade fui aprender violão em um curso da igreja católica que eu frequentava. As aulas eram baseadas na aprendizagem rítmica das levadas e acordes utilizados nas missas dominicais, em que tocávamos em um grupo de aproximadamente 10 a 15 integrantes, só violão e cantoria.

Aos 11 anos de idade, meu avô (Cleito Araújo) me deu um LP do Paulinho Nogueira (Antologia do Violão) e logo em seguida um de Andrés Segóvia (Platero e Eu). Eu não conhecia esses violonistas, mas fiquei “perturbado” quando escutei! Eu não sabia que aquele som poderia ser produzido por um violão. Peguei o meu Violão, os discos e fui à casa do seminarista que nos ensinava a tocar na missa, e disse a ele que eu queria aprender as músicas que tocavam nos discos!

Ele disse que não poderia me ensinar, pois não sabia ler música. Disse a ele que o meu pai (Heitor de Araújo Sobrinho) tocava trompete e eu já tinha visto ele com livros com as tais notas musicais na partitura. O professor me disse que meu pai poderia me ensinar a ler partitura e depois eu poderia adquirir alguns livros ou métodos para violão. Assim eu fiz

E com poucas instruções básicas que meu pai me ensinou de leitura de partitura e com os livros comecei a me envolver e executar aquelas peças dos discos que eu tinha, isso quando meu avô (Cleito Araújo) conseguia achar as respectivas partituras nas lojas (Casa Manon, Casa Bevilacqua) da época no centro de São Paulo.

Com 14 anos assumi o lugar de instrutor de Violão na paróquia, até os 23 anos, quando me mudei da região, mas nunca mais deixei de lecionar. Estou completando 40 anos de ensino contínuo de Viola. E minha maior ocupação é a elaboração de arranjos para Orquestra Paulistana de Viola Caipira – OPVC e cursos/ oficinas em outros estados e cidades. Introduzi o curso de Viola Caipira na ULM – Tom Jobim (hoje EMESP) onde lecionei por 13 anos e Maria Gadú foi minha aluna na Unidade Luz.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Rui Torneze: No início praticamente autodidata, mas consegui algumas aulas com um maestro italiano, professor Carmello Crisafulli, que morava perto de minha casa. E mais tarde, estudei no tradicional Conservatório Musical Marcelo Tupinambá na rua Vergueiro, 2087 em São Paulo, em que pude receber uma boa formação em Violão Erudito e Popular.

Cursei Ciências Contábeis na FEA – USP, em que iniciei nos anos 80 a carreira de auditoria de empresas, o que me possibilitou a viajar muito pelo Brasil interior e conhecer o instrumento que me encantou, quando vi ele ser tocado ao vivo pela primeira vez, a Viola Caipira.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Rui Torneze: Acredito que pelo fato de eu ter nascido em uma grande metrópole (São Paulo) e algumas duplas e artistas já se apresentavam de uma forma, cujo repertório e a linguagem eram mais “light”, foi o suficiente para seduzir o meu coração e o meu sentimento de quem os ouvia: Pena Branca e Xavantinho, Renato Teixeira, Tonico e Tinoco, Zé Carreiro e Carreirinho e algum tempo depois o encanto pela Viola e o estilo de Tião Carreiro e Pardinho. Não teve como não perceber a grande arte desses mestres.

Atualmente essas influências continuam e deixaram de ser importantes e outros artistas foram se somando e o grande mestre que eu tive a oportunidade de conviver, tocar junto e aprender muito, mas muito mesmo, foi Índio Cachoeira. Tocar com ele era uma aula! Era muita informação, detalhe, sensibilidade, que eu demorava uns dias para digerir toda a situação e experiência de aprendizado.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Rui Torneze: Toco Violão desde nove anos de idade 9 anos (1972). A Viola comecei tocar após 20 anos de idade. Em 1995, comecei profissionalmente, aos 32 anos, na época eu perdi meu “emprego” de auditor e passei a exclusivamente lecionar Viola Caipira.

A partir da necessidade de uma prática de conjunto entre os violeiros surgiu a Orquestra Paulistana de Viola Caipira – OPVC, meu principal trabalho e foco da minha carreira musical.

06) RM: Quantos álbuns lançados?

Rui Torneze: Lance cinco CD’s; dois DVD’s; quatro livros didáticos voltados ao ensino “por música” (partiturado) da Viola Caipira, editados pela Editora Vitale.

07) RM: Como você se define como Violeiro?

Rui Torneze: Violeiro é um modo, é um estilo de vida. E se você toca a Viola pelo fato de ter caído em suas mãos, e que poderia ter sido até outro instrumento, acho que você não entendeu o que é ser de fato um Violeiro. É muito mais do que tocar o instrumento.

Acredito que existe uma egrégora, algo que nos liga a esse instrumento e nos faz ver o mundo, as pessoas, a música de um jeito ímpar, de uma simplicidade a uma complexa profundidade, em que o sentir está no primeiro plano. Tem uma moda de Viola do Carreirinho, intitulada “Mandioqueiro”, em que ele pede à Deus que se pudesse nascer de novo gostaria de voltar como Violeiro. Não me veria também de outro jeito. Violeiros são poucos… Tocadores de Viola, o que chamo de violistas, acredito que tem mais.

08) RM: Quais afinações você usa na Viola?

Rui Torneze: Basicamente o “Cebolão” e raramente e “Rio Abaixo”.

09) RM: Quais as principais técnicas o violeiro tem que conhecer?

Rui Torneze: Então…depende do que você quer fazer com a Viola Caipira, do que você quer tocar com ela. Costumo comparar a faceta “raiz” da Viola Caipira como se fosse um paralelo ao “Violão Flamenco” dentro do mundo do violão.

Não há nada mais entediante e frustrante do que ver um violonista erudito ou popular (mesmo que seja uma celebridade do mundo do violão) tentar tocar uma peça do repertório do Violão Flamenco, pois carece de “traquejo”, vivência e assimilação cultural. A execução fica muito quadradinha, opaca, sem vida.

Assim como o Violão Flamenco que tem suas marcações rítmicas tradicionais como: Bulerias, Alegrias, Sevillanas, as técnicas específicas devem ser estudadas, como a complexa “alzapua”. Isso sem contar que o instrumento em si, fisicamente, o Violão para se tocar o ritmo Flamenco é muito diferente no que tange à sua construção, como madeiras específicas, altura das cordas no cavalete, leque harmônico que busca aquele timbre específico entre outros detalhes.  

No caso da Viola Caipira de Raiz temos diversos ritmos como: cururus, cateretês, recortados, pagodes caipiras, entre outros tantos, cuja rítmica, solos, manuseio e até a estética das mãos ao toque devem ser fiéis à tradição, entre infinitos detalhes.

Se não a comparação do violonista erudito se fará ao violeiro e mostrará que este não é “do ramo”. Houve também, em termos de construção da Viola Caipira uma grande pesquisa entre os construtores (luthiers) na busca do timbre específico do instrumento, onde muitos destes apesar de bem construídos, soavam como violões de 12 cordas, sem o timbre característico da Viola Caipira.

Hoje temos muito violonistas de nacionalidades distintas, sejam russos, chineses, japoneses e brasileiros tocando o Violão Flamenco com a mesma maestria de Sabicas e Paco de Lucia. Isso deve encher de orgulho os tradicionalistas espanhóis fãs da música flamenca que estão vendo suas tradições e técnicas disseminadas pelo mundo inteiro.

Obviamente estes intérpretes foram beber na fonte, sendo impossível estudar essas técnicas por livros. Espero que um dia a nossa Viola Caipira chegue neste patamar, e certamente chegará. A genialidade atual de nossos verdadeiros violeiros, que já estão impressionando plateias estrangeiras, mostrando o que fizemos com este instrumento trazido pelos colonizadores português.

Agora, se não é música de raiz que se queira tocar na Viola, que se busquem as técnicas no meio original das respectivas peças, seja rock, jazz, etc…

10) RM: Quais os violeiros que você admira?

Rui Torneze: Cabe uma observação muito pessoal e profissional: todos os violeiros, os quais eu considero com grande talento, técnica, sensibilidade, virtuosismo e carisma, beberam na fonte da linguagem da Viola Caipira de Raiz! Todos, sem exceção! Quem é “do ramo” sabe o que estou falando.

Na Viola pode se tocar de tudo é um instrumento musical, em que tudo é possível, mas o domínio completo deste instrumento está reservado aqueles que honraram os mestres do passado, pisaram no chão, frequentaram rodas de viola nos rincões do país. E conviveram e principalmente respeitaram a erudição natural das pessoas simples que transmitiram essas dicas, técnicas, detalhes, os “pulos do gato” através da preciosa oralidade, do ver, sentir e da humildade de ensinar.

Hoje estamos vivendo uma explosão de grandes talentos, muito mais ousados, capazes e competentes do que os violeiros do passado e mesmo assim, todos esses expoentes fazem reverências a seus mestres, suas referências que os inspiraram.

Posso citar nomes, os quais devem ser pesquisados, pois a grande maioria destes são apenas de conhecimento do meio musical do ramo violeiro, não da mídia comum…certamente vou esquecer de alguns, os quais já peço perdão antecipado…

Posso citar: Marcos Violeiro, Cleiton Torres, Thácio Cândido, Thiago Viola, Maicon Amaral, Léo Mariani, Felipe Resende, Bruno Takashi, João Bellaver, Lucas Torneze, Marcus Biancardini, Arnaldo Freitas, Marcelo Viola, Lyan, Leandro Valentim, Daniel Viola, Mel Morais, Vitória da Viola, Flor Morena. Esses me inspiram e têm a minha admiração!

11) RM: Como é seu processo de compor?

Rui Torneze: Eu só componho estudos, em que identifico uma situação real (uma música específica) e ao vislumbrar a dificuldade de execução ali instalada, eu crio um estudo ou diversos estudos progressivos que englobem técnicas específicas para serem usadas naquela situação, para dar subsídios ao músico para interpretar a tal peça.

É como um médico ao “aviar” uma determinada receita de medicamento (o estudo) a um paciente doente. No caso, o paciente é o aluno ou o músico, e a sua “doença” a dificuldade mecânica e/ou motora de executar aquele movimento no tempo que a música exige, extraindo um som limpo e satisfatoriamente equilibrado.

12) RM: Quais as principais diferenças técnicas entre a Viola e o Violão?

Rui Torneze: Atualmente temos diversos livros didáticos que auxiliam os iniciantes a obter uma mecânica nas mãos que os capacitem tocar qualquer tipo de música na Viola, bem como professores muito capacitados, sejam em aulas presenciais ou pelo sistema on-line.

Mas dependendo do caminho que se queira tomar ao tocar a Viola, acredito que a música de raiz é muito mais diferenciada e detentora de técnicas específicas se formos comparar ao Violão.

Não só pelo fato de as cordas serem duplas, mas pelos diferentes recursos oferecidos, sejam das afinações, o uso mais ostensivo do polegar, a escassez de registros graves e por conta disso, a forma e a abordagem de se criar e interpretar arranjos, de maneira muito particular, a qual no violão não faria muito sentido.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Rui Torneze: Hoje, acredito que nem temos essa dualidade de escolha, pois quase todos os músicos que eu conheço atuam de forma independente. A realidade nos levou a isso e acredito que seja uma coisa muito positiva no que tange à liberdade de criação e atuação.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco? 

Rui Torneze: Não desperdiçar nenhuma oportunidade de divulgar o nosso trabalho. Antes, durante e depois dos eventos. Isto gera engajamento e organicidade nas redes sociais.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Rui Torneze: Investir em marketing digital, que é um investimento relativamente baixo, acessível e ajuda a quebrar paulatinamente o anonimato que um bom trabalho musical fica exposto, ou melhor, não é exposto (risos).

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Rui Torneze: Fomos fazer uma turnê de 21 dias em Portugal por conta da divulgação de um vídeo nosso no Youtube, em que um produtor se encantou com a nossa Orquestra Paulistana de Viola Caipira – OPVC tocando um fado.

O que prejudica é que na internet se divulga de tudo e como tudo o que é ruim, se tem em maior quantidade (risos). Veja os bilhões de visualizações que algumas músicas no ritmo do FUNK carioca têm. É uma coisa absurda e inimaginável.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)? 

Rui Torneze: Só vantagens no uso do home estúdio! Isso possibilitou à descoberta de muitos talentos em pontos recônditos do país. Sempre foi custoso gravar uma música em estúdio profissional. Hoje gravar uma música se dá de forma muito mais acessível.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar o CD não é mais o grande obstáculo. Mas concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Rui Torneze: Em 2026, a Orquestra Paulistana de Viola Caipira – OPVC completará 29 anos de atividades e atribuo essa longevidade ao cumprimento fiel da nossa missão: formação de público para a Viola Caipira.

Devido às nossas andanças pelo país inteiro constatamos que nem todos conhecem a Viola Caipira e a confundem geralmente com o popular Violão. Alguns técnicos, produtores, contratantes não tem muito a noção dessa distinção entre o Violão e a Viola.

A partir do momento em que escutam o som da Viola parece que uma memória afetiva vem à tona: um encanto, emoção e deslumbre tomam conta do ambiente. Então decidimos pela ousadia de tocar outros ritmos na Viola, fazendo arranjos inusitados e em forma orquestral (diversos naipes operacionais distintos).

E iniciando cada peça tocada com abordagens instrumentais de conhecidas músicas de gêneros distintos como: rock, jazz, erudito, new age, mpb e imediatamente “mixamos” com o que há de mais tradicional da música de raiz, com peças cantadas de Tião Carreiro, Tonico e Tinoco, etc, no melhor estilo da música caipira.

É uma forma que encontramos de seduzir as pessoas e usar das referências que conhecem e trazê-las ao mundo da Viola Caipira. Com esse enfoque podemos atender uma gama enorme de clientes, de todos os setores das cadeias produtivas, bem como eventos de diversas e muitas vezes inimagináveis naturezas.

19) RM: Como você analisa o cenário da música Sertaneja pop? Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Rui Torneze: Eu sempre soube que segundo a Pró-Música Brasil (antiga Associação Brasileira dos produtores de Discos – ABPD) o gênero Sertanejo continua sendo o TOP 10 do Brasil, o tipo de música mais executada.

A maior revelação, em termos de qualidade, no gênero mais popular foi a dupla Maicke e Lyan, a qual conserva e valoriza a nossa música de raiz com uma roupagem mais dinâmica. No passado fiquei perplexo ao escutar do grande musicólogo José Ramos Tinhorão (falecido no dia 3 de agosto de 2021) que a única coisa que poderia se destacar no Brasil em breve seria a “música de viola”, segundo a simplicidade destas palavras.

Todos os grandes nomes do passado se mantiveram, como: Chitãozinho e Xororó, Mato Grosso e Mathias, entre outros tantos. Acredito que não houve regressões, mas infelizmente, perdas, devido à óbitos de alguns artistas.

20) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Rui Torneze: O que me deixa mais triste é a perda do costume de se utilizar mídias físicas como: CD, DVD, e com isso o desuso de equipamentos específicos para se ouvir música, sendo hoje uma exceção na casa dos brasileiros.

Um bom vinho se serve na taça adequada, o rótulo é lido, contemplado, analisado, quais as castas de uvas, local de colheita, vinificação, envase, safra e outros detalhes que um bom apreciador se interessa.

Um encarte de um CD ou DVD nos dava informações preciosas enquanto “degustávamos” a peça musical: autor, compositor, informações sobre os músicos, técnicos de som, local da gravação, curiosidades anotadas por quem apresentava ou apadrinhava o trabalho em questão e até o responsável pela arte gráfica do encarte.

Isso tem diminuído em muito o consumo, a apreciação da boa música. Celular não é lugar de se ouvir música. É como servir um prato bem elaborado, com capricho e carinho em pratos e talheres descartáveis. Sinto que estamos perdendo pessoas que escutam música!

21) RM: Quais os outros instrumentos musicais que você toca?

Rui Torneze: Violão.

22) RM: Como você analisa o cenário da música Sertaneja Caipira/Raiz? Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Rui Torneze: Música Sertaneja Atual: Temática urbana predominantemente voltada às questões amorosas, passionais. O uso de recursos sonoros digitais e eletrônicos, sejam efeitos ou instrumentação eletrônica como sintetizadores, guitarras; a música é feita para atender uma demanda comercial.

Música Sertaneja Caipira: Temática rural, das questões de lida do trabalho no campo. As músicas eram enquadradas nos ritmos tradicionais, como toadas, cateretês, cururus, querumanas entre outras.

Os instrumentos eram restritos a Viola, Violão, Acordeon e Percussão regional. E não refletiam uma necessidade de venda ou comercialização da mesma e eram espontâneas, jocosas, de trabalho e informativas.

O que se mantem na maioria das vezes em termos de semelhança é a manutenção da tradicional formação de “dupla” cantando em primeira e segunda voz.

23) RM: Quais os vícios técnicos o violeiro deve evitar?

Rui Torneze: Deve evitar o vício de: escutar e não ouvir; ouvir e não sentir; não se valer experiência acumulada e querer “inventar moda” antes mesmo de aprender o básico e evitar dar prioridade às coisas casuais ao invés das essenciais.

Um costume muito recorrente no meio violeiro é tocarem as mesmas músicas em detrimento daquela peça que ainda não está boa ou que tem muitos defeitos a serem sanados. E o pior vício técnico é achar que tocar Viola é fácil e não se dedicar aos estudos.

24) RM: Quais os erros no ensino da Viola?

Rui Torneze: Em primeiro erro é não perguntar ao aluno o que ele gosta, o que ele aprecia no instrumento e qual a sua expectativa em aprender tocar Viola. Só a partir daí é que temos condições de orientá-lo num melhor plano de estudo. Tem aluno que já diz que é só para tocar no boteco. O horizonte dele já está definido (risos), mas porque não?

Outro grande erro é querer imputar ao aluno um planejamento fechado de estudos. Isso é típico de professor sem experiência. Cada aluno é um “problema” diferente, que exige “solução” diferenciada. Por exemplo, se o aluno tem um pequeno grau de escolarização, talvez explicações analíticas e detalhadas podem deixá-lo perdido ou criar um grande bloqueio.

25) RM: Tocar muitas notas por compasso ajuda ou prejudica a musicalidade?

Rui Torneze: Vejam os guitarristas B.B. King em contraposição a Steve Vai. O primeiro falava com poucas e sentidas notas e o segundo se expressa mediante a uma combinação em geral de muitas notas. Os dois são fantásticos, geniais! Muita musicalidade e estilos diferentes.  

26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Rui Torneze: Um engenheiro, um médico, um advogado não se formam em suas respectivas profissões para fazerem “bico”. A mesma coisa deve se dar com o músico profissional. Espera-se deste atitudes e ações que o façam um profissional da área. Constância, disciplina, foco! Todos os demais fatores são iguais, como competência, sorte e oportunidades.

27) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Rui Torneze: A criança aprende a falar ouvindo e depois tentando repetir as falas, imitando e sendo corrigida com a ajuda de quem a está ajudando. Ninguém começa ensinando a criança a conjugar verbos, etc, depois que a criança está falando é que aprende a ler e escrever.

Assim deveria ser ensinada a música, um processo mais natural: escutar (apreciação), sendo colocada para tocar e no contato com a Viola ensinando os primeiros acordes, as levadas, de forma imitativa, as cantorias. E só o básico como nome das cordas, distinção entre notas e acordes.

Aprendendo alguns acordes, enquanto se adapta aos ciclos de compassos, o início das peças, as paradas, etc. Um processo de musicalização mais lúdica, já envolvendo a manipulação do instrumento. Muitos abandonam a música no início devido ao pragmatismo e rigidez tradicional de muitos professores.

28) RM: Existe o Dom musical? Qual a sua definição de Dom musical?

Rui Torneze: Nada na vida é gratuito. Certa vez, uma reportagem no Fantástico, há mais de 30 anos, retratou um jovem chinês que nasceu com uma grave deficiência mental. Aparentando uns 20 e poucos anos, ele foi com a mãe em uma loja e ela o acomodou em uma banqueta, enquanto se dirigiu a um balcão para comprar algo.

Ela não percebeu que essa banqueta estava diante de um piano e de repente a loja se encheu de uma belíssima interpretação de uma peça erudita ao piano: era o seu filho, que estava tocando divinamente. As pessoas a cumprimentaram pelo talento de seu filho e o foco daquela reportagem era que eles nunca tiveram piano em casa e que o rapaz não reagia a quase nada devido a seu estado mental. E assim acabou a reportagem com aquele velho e conhecido jargão “isso é Fantástico!”.

Eu, na época dessa reportagem, já era músico e fiquei muito intrigado: o menino tocava com uma perfeita técnica pianística e técnica é formal, precisa ser aprendida, estudada, lapidada, não é natural.

Assim como eu escrevo no teclado do notebook na base do “cata-milho” por não ter estudado datilografia, que me garantiria uma alta performance nesta tarefa de digitar. O menino se valia de uma técnica apurada, que em algum momento de sua existência deveria ter aprendido, porém nascera com uma gravíssima deficiência mental e nunca teve contato com o piano.

Hoje, a internet está forrada de crianças de idades de dois, três anos que executam nos mais variados instrumentos peças de extrema dificuldade, porém não só tecnicamente perfeitas, mas com uma maturidade musical e emocional incompatíveis com a idade.

Já recebemos crianças assim como alunos de Viola e percebemos nestes todas as “bardas” e trejeitos de violeiros antigos, o que à princípio era até engraçado e depois percebia-se toda uma bagagem técnica e emocional que ali estava.

Minha formação religiosa é espiritualista, então isso nunca me assombrou. Só serviu para confirmar que o tal “dom” não existe. Todos temos iguais oportunidades de aprender e que esse “dom” é bagagem trazida, estudo e trabalho feito e que de alguma forma aquele indivíduo o trouxe para esta sua atual existência.

Hoje, universidades e seus estudiosos já pesquisam tais ocorrências e a internet está repleta de documentação à respeito disso. Quem leciona música certamente já teve contato com casos assim. Não é mais questão de acreditar ou não, pois essa fase já passou!

33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro?

Rui Torneze: No geral a grande mídia é desprovida de vida inteligente, salvo raras exceções. A grande mídia vive do produto de massa e o nosso “produto” não está nessa lista. O nosso produto é cultural, incompatível com as expectativas e o entendimento dos divulgadores midiáticos.

34) RM: Qual a importância de espaço como SESC, Itaú Cultural, Caixa Cultural, Banco do Brasil Cultural para a música brasileira?

Rui Torneze: Tais empresas citadas cobrem o buraco que a grande mídia não explora, os músicos que trabalham com uma vertente ligada à cultura.

Estes espaços, geralmente, proporcionam uma exposição acessível, geralmente gratuita de nosso trabalho à população que está lotada em diversos pontos do Brasil, o que eu considero o máximo! As unidades dessas instituições já se encontram devidamente instaladas em locais estratégicos e assim, conseguimos chegar em lugares que às vezes nem cogitávamos!

35) RM: Quais os seus projetos futuros?

Rui Torneze: Continuar espalhando e popularizando a música feita através do som da Viola Caipira. Fomos pouquíssimas vezes ao Nordeste, mas nestas poucas oportunidades o encanto e comoção tomou conta da plateia que não se conformava como a cultura da Viola Caipira nunca tinha chegado até eles!

36) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Rui Torneze: www.orquestradeviola.com.br | (11) 97147 – 1044 e (11) 2682-7780 | https://www.instagram.com/opvc_oficial | https://www.instagram.com/ruitorneze

Canal: https://www.youtube.com/@orquestrapaulistana

Transmissão ao vivo de Orquestra Paulistana Viola Caipira: https://www.youtube.com/watch?v=L4Zes-8MFFE


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