O cenário da músicas compostas para campanhas políticas
Por Johnatha Barbosa da Silva
Há pouco mais de um século, os artistas brasileiros já se associavam com candidatos políticos para ganhar notoriedade na carreira. Ao mesmo tempo, os candidatos se aliaram aos artistas para conquistar popularidade com os fãs dos cantores. Afinal, o que mudou da primeira participação de um músico na política até aqui? Descubra nesse artigo a influência da música quando instrumentalizada.
Apesar de artistas humanos ainda participarem de jingles políticos, nas eleições municipais e estaduais mais recentes, os profissionais passaram a aplicar a Inteligência Artificial nos ritmos eleitorais. Você já deve ter notado a vocalização mais metálica ou robótica de uma propaganda política, como se a voz estivesse abafada ou houvesse microfonia. Além disso, os sotaques podem estar misturados, a faixa com o som saturado devido à voz, o instrumento sobreposto e rimas muito clichês (embora os ritmos sem IA também possam ser).
Vale lembrar que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exige que qualquer conteúdo eleitoral gerado ou modificado por Inteligência Artificial contenha aviso claro ao eleitor.
Voltando à música humana, o peso de um (a) cantor (a) emprestar sua voz a uma campanha eleitoral hoje em dia é muito maior quando comparamos às primeiras vezes que isso ocorreu. Os registros mais antigos desse vínculo músico-político datam de 1930, com a colaboração do cantor e compositor Francisco Alves na canção “Eu Ouço Falar” para a corrida eleitoral do candidato à presidência do país: Julio Prestes. Francisco ainda compôs “Retrato do Velho” em 1950 para a cruzada presidencial de Getúlio Vargas.
Em paralelo a essas décadas, artistas regionalmente conhecidos apoiavam candidaturas de prefeitos, vereadores, deputados estaduais e assim por diante. O ponto é que essas colaborações de antigamente não se disseminavam com tamanha velocidade e amplitude como atualmente.
Antes, rádios, espaços reservados para a publicidade em jornais impressos, panfletos (“santinhos”) e televisões atingiam a massa, mas com etapas de análise e maior morosidade de divulgação por parte dos veículos. É fundamental analisarmos também que nem toda a população tinha acesso a certos meios de comunicação por conta de suas condições econômicas precárias.
Em contrapartida, com a adesão efetiva da maioria dos brasileiros aos dispositivos que se conectam à internet, essas associações tomam outra proporção. Os consumidores das redes sociais acompanham as celebridades da música com um clique, opinam sobre a relação delas com determinado aspecto partidário (não mais sobre a pessoa que contratou seu serviço) e são capazes de interagir com o jingle através do compartilhamento, comentário, curtida e da mimetização.
O que podemos aprender com isso? O marketing político adotou novas práticas para a instrumentalização da música em razão da mudança comportamental dos brasileiros em relação às mídias sociais digitais, o que torna a contratação de músicos reais obsoleta. Para reduzir custos, o marqueteiro adota a Inteligência Artificial Generativa, adaptando os jingles aos diferentes formatos (vídeos verticais e horizontais, comerciais para TV Aberta, anúncios de tráfego pago, etc). Essa adequação a cada mídia pode ser feita por apenas uma pessoa com domínio intermediário de edição audiovisual, já que a IA é facilitadora de grande parte do processo.
Outro ponto é o fato do público ser mais interativo, ter mais acesso aos veículos de comunicação e à instantaneidade que esses meios proporcionam. Os artistas assumem um compromisso com seus fãs baseado em seus princípios, mas também precisam sustentar a carreira. Se é ofertada uma proposta de parceria a um artista para promover um candidato, ele é encurralado pelos boletos a pagar e pelos comentários negativos em relação à parceria. Em poucas horas, os desdobramentos da escolha de fechar o contrato pode torná-lo alvo de muitas críticas, pois vivemos em um país muito polarizado com espaços de bate-papo onde não há filtros e nem garantias de moderação enquanto não for interessante à plataforma.
Esse artigo foi escrito como forma de análise a músicos que receberam ou procuram propostas de trabalho em uma candidatura eleitoral. É necessário levar em consideração diversos fatores antes de fechar um contrato no Brasil atual. Não está mais em jogo a qualidade da música, os consumidores/eleitores pesquisam além da composição. Logo, é necessário prudência para avaliar as alternativas e prever os resultados, os quais nunca foram de tão curto prazo quanto hoje.
Confira as músicas citadas:
“Eu Ouço Falar”: https://youtu.be/F6vNpB3n5JU?si=qbPQ2Vb-7_pOnQ7P
“Retrato do Velho”: https://youtu.be/XzNuLlUkptw?si=Ymf5faqIhwijdDOQ


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