Karol Schittini

Compartilhe conhecimento

Karol Schittini é uma artista multilinguagem brasileira nascida em Coronel Fabriciano (MG) e radicada no Rio de Janeiro, com uma trajetória de mais de duas décadas dedicada às artes cênicas, musicais e visuais.

Com extensa formação, e experiências marcantes, sua atuação profissional se caracteriza pela transversalidade, integrando teatro, música, circo, dança e audiovisual. Sua carreira musical está fundamentada nas tradições brasileiras.

Atua como Microempreendedora Individual (MEI) já há quase 15 anos, tendo produzido dezenas de projetos, entre espetáculos e oficinas, coproduzindo também festivais de música e exposições de artes visuais.

Desenvolve um trabalho sólido como violeira, sendo uma das idealizadoras do Movimento Rio de Violas, projeto dedicado a fomentar e valorizar a cultura das Violas brasileiras.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Karol Schittini para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 19/08/2026:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Karol Schittini: Nasci no dia 16/06/1984 em Coronel Fabriciano, Minas Gerais. Registrado como Karoline Schittini Garcia.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Karol Schittini: Minha mãe (Rosa Maria Spinola Schittini Garcia) tinha um violão da marca di Giorgio, que ela ganhou do meu avô (Orlando Schittini Terra) quando fez 18 anos de idade. Ela e meu pai (Moacir Garcia da Silva) gostavam de dedilhar violão aos finais de semana. Ela fazia alguns acordes, e gostava muito de cantar. Nesse violão aprendi a tocar.

Tínhamos também um toca-discos, ficava no alto para as crianças não mexerem e estragar. Eu subia numa cadeira para colocar os LPs, e para gravar numa fita K7 virgem as minhas preferidas do rádio. O primeiro show ao vivo que assisti foi da banda João Penca e seus Miquinhos Amestrados, fomos a família toda, cinco pessoas num fusquinha, acho que eu tinha uns 7 anos de idade.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Karol Schittini: Ainda adolescente frequentei semanalmente aulas particulares de violão popular, por quatro anos consecutivos. Eu já estudava teatro desde os nove anos de idade, e estreei aos 11 anos.

A minha formação acadêmica segue toda nas artes vivas.  Aos 18 anos, recebi meu DRT, registro profissional de Artista. Depois entrei para o Bacharelado em Artes Cênicas na UFMG e posteriormente fiz o técnico em ator na Escola Martins Penna. Tenho duas Pós-Graduação na área de performance decolonial. E agora estou terminando Licenciatura em Teatro.

A música ao vivo sempre esteve presente nas minhas atuações. Entre 2010 e 2020 estudei e atuei como percussionista, como foco no pandeiro. Quando a Viola Caipira entrou na minha vida em 2013, eu senti o chamado para também compor e cantar.

Estudei com violonistas e violeiros/violeiras mestres renomados. Alguns deles seguem até hoje compartilhando seus conhecimentos. O estudo da música, assim como de todas as artes, parece um processo infinito, de vida toda.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Karol Schittini: Na infância eu ouvia muito Gilberto Gil, Os Novos Baianos, Fagner, Jair Rodrigues, Elis Regina, Os Mutantes, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, e claro, alguma coisa de criança, como A arca de Noé, de Vinícius de Moraes, Os Saltimbancos, de Chico Buarque, e a Turma do Balão Magico.

Quando adolescente, meu irmão mais velho (Jefferson) me apresentou o álbum Cantoria, o Quinteto Armorial e Bezerra da Silva. Referências que ampliaram minha escuta, e minha visão de Brasil.

Aos 16 anos comecei a lecionar teatro e dança num jardim de infância e trabalhava com a obra do Palavra Cantada, foi logo quando Ari Colares integrou o grupo com uma contribuição gigante de conteúdo popular para crianças.

Na década de 90 e anos 2000, também fiquei encantada com os artistas do álbum Grande Encontro (Elba Ramalho, Alceu Valença, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo), e ouvia toda a obra do Djavan. Nesse período eu tomei conhecimento de Hermeto Pascoal, e virou mais uma chave.

Na última década, cada vez mais dedicada a viola caipira, tenho escutado tudo o que posso desse universo, passando a revisitar o cancioneiro do século XX.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Karoline Schittini: Mesmo estudando música desde a adolescência, e tocando ao vivo em peças teatrais, considero que minha carreira musical foi iniciada em 2017 quando passei a acompanhar bandas como percussionista, quando percebi que precisava viver a música para além do teatro.

Quando entra a Viola, sinto uma reconexão com outras expressões do meu ser que pareciam ter ficado adormecidas…  Devo dizer que foi a viola que me escolheu. Com a chegada desse instrumento, a música ocupou um lugar ainda mais especial na minha profissão.

06) RM: Quantos álbuns lançados

Karoline Schittini: Preparando para lançar meu primeiro EP no segundo semestre de 2026, com músicas autorais.

07) RM: Como você se define como Violeiro?

Karoline Schittini: A Viola entrou na minha vida sem avisar. Ganhei uma de presente de Natal da minha mãe. Senti que ela fez minha musicalidade se manifestar de uma forma diferente. Sou uma violeira eclética, gosto de tocar o cancioneiro, e faço arranjos e adaptações de algumas canções que considero que “deveriam” ser tocadas na viola.

08) RM: Quais afinações você usa na Viola?

Karoline Schittini: Cebolão em Ré, e aprendendo Rio Abaixo. 

09) RM: Quais as principais técnicas o violeiro tem que conhecer?

Karoline Schittini: Para tocar Viola e preciso conhecer o som dos pares de cordas, os ritmos tradicionais da Viola Caipira, e saber executar técnicas de ponteio e contracantos. O mais importante é se aproximar da música de quem veio antes. Conhecer a história da Viola Caipira, das violas brasileiras, ouvir muito, e se inteirar dos toques, das levadas, das escalas.

10) RM: Quais os violeiros que você admira?

Karoline Schittini: Helena Meirelles, Inezita Barroso, Tavinho Moura, Ivan Villela, Lais de Assis, Roberto Corrêa, Adriana Farias,

11) RM: Como é seu processo de compor?

Karoline Schittini: A composição acontece comigo de forma espontânea e geralmente vem pelos versos. Versos que chegam com melodia, ou num ritmo. Escrevo muito, e as vezes quando escrevo um poema e vou reler, já percebo, isso é uma música! Também acontece de chegar uma melodia, e ela ficar repetindo na cabeça por dias, e fico cantarolando, até compreender o que ela está querendo “dizer”, por onde ela está “pedindo” pra seguir, então a música toma forma.

12) RM: Quais as principais diferenças técnicas entre a Viola e o Violão?

Karoline Schittini: Além do tamanho do instrumento, possuem diferentes afinações. Entre as violas brasileiras contam dezenas de afinações, algumas tem variação pequena, de uma nota ou duas, mas recebem distintos nomes. Então, exceto para a afinação chamada “Natural”, feita a partir das notas do violão, as outras tem a digitação dos acordes, ponteados em diferentes posições. 


As técnicas de levadas e dedilhados do violão e da viola tem alguma semelhança, mas acabam variando também, pois o universo das violas segue guardando muitos mistérios e peculiaridades.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Karoline Schittini: Com muita ousadia, faz-se necessário saber sobre o empreendedorismo cultural, sem romantizações sobre o acúmulo de funções, mas é preciso conhecer como funciona.

Existir somente artisticamente envolve começar caminhando com as próprias pernas. Concretizar as ideias, realizar os projetos, criar redes, gerar renda. O jogo do mercado é duro, então esse ponto pode levar ao cansaço.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Karoline Schittini: Ocupar espaços que tenham significados, agregar valores mútuos, fazer parcerias com afinidades musicais, e éticas.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Karoline Schittini: Através da criação e produção de espetáculos artísticos e do fomento das expressões culturais, atuo como microempreendedora desde o ano 2012, trabalhando em rede. Pratico o planejamento estratégico, com identidade artística própria, diversificando as fontes de renda para além dos palcos, tentando fortalecer a presença digital.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Karoline Schittini: A internet pode ajudar a carreira musical ao facilitar o networking e o aprendizado online. Por outro lado, ela prejudica ao gerar distrações, sobrecarga de informação e riscos à privacidade.

Toda a questão da tecnologia em si suscita polêmica, pelo caráter da sintetização. Costumo pensar que as máquinas são programadas e operadas por seres humanos. Elas são máquinas, e cada um que opera ou programa precisa saber discernir, ter ética … 

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Karoline Schittini: O Home estúdio favorece a liberdade criativa, a economia de dinheiro a longo prazo e horários flexíveis. Com equipamentos tecnológicos disponíveis em casa adquirimos agilidade, diminui-se tempo de locomoção para um estúdio, tanto para estudos quanto para gravações.

A maior dificuldade que percebo é adquirir bons equipamentos, que precisa de alto investimento, e conseguir isolar a acústica do ambiente para prática diária, diminuir ao máximo as interferências externas.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar o CD não é mais o grande obstáculo. Mas concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Karoline Schittini: Consistência e conexão real com o público são essenciais no meu trabalho. Desenvolvo uma linguagem própria, penso na formação de plateia, e trabalho em rede com colegas, buscando conhecer as estratégias para o meu nicho/público-alvo.

19) RM: Como você analisa o cenário da música Sertaneja Caipira? Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Karoline Schittini: O cenário da Música Sertaneja Caipira e raiz ocupa hoje um espaço de resistência cultural, operando à margem do mercado massivo dominado pelo sertanejo urbano e universitário. Longe dos grandes holofotes comerciais de massa, o gênero se sustenta pela força da tradição da viola caipira, e preserva a memória do campo.

Renato Teixeira é um dos artistas com longínqua e consistente trajetória. No cenário de revelações, a violeira Lais de Assis tem grande destaque na música instrumental, além de Vitoria da Viola com as tradicionais cantadas.

20) RM: Como você analisa o cenário da música Sertaneja pop? Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Karoline Schittini: O sertanejo pop transformou-se na força dominante da indústria fonográfica brasileira ao absorver batidas eletrônicas, estética urbana e parcerias com o pop e o FUNK. Priorizam singles virais a álbuns conceituais. Marília Mendonça revolucionou o mercado ao inaugurar o “feminejo” focado na perspectiva do sofrimento sob o ponto de vista feminino.

21) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Karoline Schittini: A maior alegria na carreira musical é a conexão profunda com o público e a criação de algo que emociona. A maior tristeza é a instabilidade financeira e a falta de valorização da arte.

22) RM: Quais os outros instrumentos musicais que você toca?

Karoline Schittini: Pandeiro e Violão.

23) RM: Quais os vícios técnicos o violeiro deve evitar?

Karoline Schittini: O violeiro deve evitar a rigidez excessiva na execução, que retira a naturalidade do toque, e o hábito de tocar com a postura de Violão, movendo o punho em excesso sobre a boca do instrumento em vez de usar o antebraço.

24) RM: Quais os erros no ensino da Viola?

Karoline Schittini: Os erros mais comuns no ensino da Viola são as falhas de postura, e o atropelamento de etapas práticas.

25) RM: Tocar muitas notas por compasso ajuda ou prejudica a musicalidade?

Karoline Schittini: Dependendo do que a música está pedindo, tocar muitas notas ou poucas não é uma questão em si. O que pode prejudicar a musicalidade é quando o virtuosismo passa por cima do sentimento, da expressão. Assim, quando o artista aparece mais que a arte, pode causar estranhamento ruim, e gera também antipatia. Música é envolvimento.

26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Karoline Schittini: Manter o estudo constante, e desenvolver sua própria linguagem.

27) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Karoline Schittini: Um erro frequente no ensino da música é introduzir, com excesso, teoria abstrata antes da prática, e a desconsiderar o ritmo como base fundamental. Outro erro comum é desrespeitar o ritmo individual do aluno.

28) RM: Existe o Dom musical? Qual a sua definição de Dom musical?

Karoline Schittini: Percebo o dom musical como uma predisposição natural, ou facilidade para o aprendizado e para a manifestação musical. O prazer pela prática também e uma expressão desse dom.

29) RM: Qual a sua definição de Improvisação?

Karoline Schittini: Improvisar é deixar fluir a expressão sonora através do instrumento, a partir do conhecimento técnico e da constante aplicação prática.

30) RM: Existe improvisação de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Karoline Schittini: A improvisação passa a existir como uma criação em tempo real quando se pode aplicar instantaneamente o repertório, o vocabulário musical. Ela não acontece do nada. O estudo de técnicas e teorias são fundamentais e se estendem ao longo de anos. O trabalho do artista pode recombinar o que já domina, para responder ao momento presente.

31) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Karoline Schittini: Os métodos de improvisação favorecem a liberdade criativa, conduzindo para uma identidade musical.  Pode acontecer de o som ficar um pouco frio, pois até soar natural exige horas de estudo mecânico.

32) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Karoline Schittini: O estudo de harmonia auxilia na independência de vozes, do contraponto. O risco é focar em fórmulas prontas, e desenvolver uma rigidez auditiva.

33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro?

Karoline Schittini: Acredito que a mídia age a favor da Indústria Cultural, um conceito cunhado na metade do século XX, que observou a crescente utilização das artes para geração de lucro, e para determinações estéticas-sociais. Percebo que nas últimas décadas, muitos artistas independentes têm conquistados espaços midiáticos que antes eram mais restritos.

34) RM: Qual a importância de espaço como SESC, Itaú Cultural, Caixa Cultural, Banco do Brasil Cultural para a música brasileira?

Karoline Schittini: Esses espaços promovem constante acesso a shows a preço popular, de distintos gêneros musicais, dando importância a diversidade e acessibilidade.

35) RM: Quais os seus projetos futuros?

Karoline Schittini:

Em setembro/26 estreio “Eu me agarro na viola – 100 anos de Inezita Barroso”, uma peça musical para celebrar o legado dessa artista, com a qual me identifico muito, em relação ao repertório, a multiversalidade e a constante superação dos desafios de gênero na profissão.

Sigo também com o show intimista “Viola e Verso” desde 2022, que passeia pelo cancioneiro e traz releituras de paisagens dos quatro cantos do Brasil, e sul-americanas.

36) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Karoline Schittini: (21) 97937 – 1790 / https://kkschittini.wixsite.com/karolschittini/musica  / [email protected] / https://www.instagram.com/karol_schittini

Canal: https://www.youtube.com/@KSchittini

Clássicos na Viola Caipira: https://www.youtube.com/watch?v=5gu0_tCsVcw


Compartilhe conhecimento

Leave a Comment

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Related Post

Revista Ritmo Melodia
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.