Antônio Carlos e Jocafi

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Antônio Carlos e Jocafi fazem parte de uma geração talentosa e pródiga entre os muitos ícones da música, literatura e arte que a Bahia teve a felicidade de conceber.

A dupla foi unida pelo poeta e letrista Ildásio Tavares, de quem ganharam poemas e letras para suas músicas no início de carreira. Descobertos pelo maestro Carlos Lacerda (o “guru” musical da Bahia, responsável pelo sucesso de vários músicos, cantores e compositores da Boa Terra), participaram com êxito de vários festivais em Salvador, quando foram chamados pelo produtor Rildo Hora para gravarem seu primeiro LP – Mudei de Idéia – um sucesso imediato que confirmou a competência de ambos.

Daí em diante, músicas como “Você Abusou”, “Mas que Doidice”, “Morte do Amor” e “Toró de Lágrimas” conquistaram corações na voz do povo brasileiro. Era a consagração da dupla, que explodiu em proporções gigantescas com o advento do Festival Internacional da Canção, onde 36 mil pessoas, numa só voz, cantavam “Desacato”, classificada entre os primeiros lugares.

Como compositores, tiveram a oportunidade de gravar com os maiores nomes da música popular brasileira, como Vinícius de Moraes, Orlando Silva, Maísa, Nelson Gonçalves, Toquinho, Clara Nunes, Os Originais do Samba, Dóris Monteiro, Jorge Aragão, MPB-4, Ângela Maria, Emílio Santiago, Alcione, Djavan, Daniela Mercury, Célia Cruz, José Feliciano, e foram interpretados por Ella Fitzgerald e Stevie Wonder, entre outros.

Uma carreira de sucesso que inclui a autoria de trilhas sonoras, aberturas e temas para novelas e seriados, como Supermanoela, O Primeiro Amor e Shazam e o Xerife na TV Globo. No cinema, a convite do cineasta francês Marcel Camus (internacionalmente conhecido pelo seu trabalho em “Orfeu do Carnaval”), foram convidados para fazer a trilha do filme Otália da Bahia, baseado no romance Pastores da Noite de Jorge Amado, além de músicas para o filme espanhol Jamón Jamón.

No exterior, obtiveram consagração total com a música “Você Abusou”, gravada na França por Michel Fugain, na versão “Fais Comme L’oiseau”, que vendeu mais de três milhões de cópias e lhes abriu o mercado mundial. Desde então, “Você Abusou” foi gravada em vários idiomas e interpretada por estrelas internacionais como Sérgio Mendes, Célia Cruz, Paul Mauriat e Stevie Wonder. A dupla também participou de turnês pela Europa, EUA e Japão, onde esteve em duas edições do World Popular Song Festival, em Tóquio, como finalista com os temas “Luanda Silê” e “Diacho de Dor”.

A simplicidade cativante de suas letras e o forte apelo popular dos sambas-de-roda da Bahia servem de alicerce para composições envolventes e inesquecíveis, que encantam desde a década de 70. “Música popular é para ser cantada e dançada pelo povo”, dizem, acostumados com as noitadas de samba no antigo Mercado Modelo, onde todos cantavam e dançavam ao som de suas melodias.

Com toda essa trajetória de sucesso, o compositor, escritor e roteirista Antônio Carlos Marques Pinto também percorre outros caminhos desafiadores. Alguns de seus textos idealizados e desenvolvidos ao longo dos anos estão ganhando uma nova linguagem. É o caso da peça infantil O Boi Fujão e do livro Vidas Paralelas, entre outros.

Como a natureza e a ecologia são hoje parte primordial da vida brasileira, Antônio Carlos desenvolveu seu projeto O Agonizante Mundo Verde, usando uma história de ficção científica para traduzir uma maior conscientização ambiental nos jovens.

O texto é complementado por músicas de Antônio Carlos Marques Pinto sobre temas ambientais, interpretadas pela dupla, com participações de Elomar, Xangai e Jatobá, todas apropriadas ao tema, que resgatam mensagens educativas muito relevantes, sob o título do álbum inédito Chico Santo de Assis.

Considerando que o Brasil tem uma dívida histórica com a população indígena, e que esta tem um conjunto de lendas bastante conhecidas, Antônio Carlos estudou o idioma tupi-guarani para auxiliar no desenvolvimento de textos com personagens baseados na mitologia brasileira.

Com uma ótica especial, os contos Amazônia, Terra dos Xamãs são envolventes e agradam desde as crianças aos mais velhos, passando pelos jovens que gostam de ler e entender o folclore nacional.

Além de buscar consolidar todas as composições com Jocafi em um songbook, Antônio Carlos desenvolveu outro projeto voltado a mostrar em linguagem musical os principais personagens e lugares da Bahia que Jorge Amado criou e divulgou ao mundo. O projeto As Amadianas, com 45 músicas e um documentário sobre o tema, está em vias de ser produzido.

Uma conquista recente se refere a um sonho antigo de realizar um trabalho social ligado aos jovens, que foi concretizado há 10 anos através da parceria entre a ONG Instituto Rudá e sua empresa, o Fórum da Cultura.

A música tem sido, em todas as comunidades carentes, o melhor instrumento para atrair a participação dos jovens, e tendo como alvo a cidadania, o programa é destinado a crianças a partir dos 10 anos, com produto sendo uma orquestra, privilegiando o resgate, valorização e divulgação do repertório popular brasileiro, ampliando o acesso ao universo cultural, especialmente nas escolas públicas. 

De uns anos para cá, a dupla passou a compor com Russo Passapusso. Confiantes em um 2022 promissor, lançaram Alto da Maravilha. O álbum ganhou o prêmio da APCA, reconhecimento máximo entregue pela Associação Paulista de Críticos de Artes para diversos profissionais de várias áreas das artes.

Com repertório inédito e autoral composto pelo trio ao longo dos últimos anos, a parceria rendeu os primeiros títulos no terceiro álbum da banda BaianaSystem O Futuro Não Demora (2019), lançado em fevereiro, com músicas como “Água”, “Salve” e “Miçanga”, que ganhou o Grammy Latino.

Também em 2022, o álbum Afro Funk Brasil, com a Orquestra Violões do Forte de Copacabana, trouxe uma mistura criativa que apresentou às novas gerações um repertório de músicas que poucos no Brasil conhecem bem, mas que são tocadas amplamente no exterior.

Joias guardadas no meio de uma discografia recheada de sucessos populares e inesquecíveis. Uma combinação bem planejada do antigo com o novo, da batida nativa com a suavidade das cordas e sopros, que resultou num balanço irresistível.

Toda a riqueza rítmica e forte vibração dos sons nativos do continente africano pode ser considerados a base de muitos outros ritmos, até mesmo os nascidos depois de sua chegada a terras distantes, junto com grande parte de seu povo escravizado.

Em alguns cantos do mundo, o funk começou a nascer da inspiração no jazz, no rhythm & blues e no gospel, na década de 60. No Brasil, onde tudo se reinventa com muita criatividade, o funk ganhou nossas tintas culturais e rimas fortes a partir da década seguinte. Ainda assim, em todos esses ritmos, a inspiração de uma batida compassada e marcante continua.

Em 2023, Antônio Carlos & Jocafi intensificaram suas apresentações pelo Brasil, participando de grandes festivais que celebram a música e a cultura afro-brasileira.

A dupla se uniu a nomes de peso como BaianaSystem, Russo Passapusso com o projeto Alto Maravilha, e Afro Funk Brasil com a banda Yemalá, proporcionando ao público experiências musicais vibrantes e carregadas de identidade. Entre os eventos de destaque, estão: Queremos! Festival – Marina da Glória, Rio de Janeiro, em 15 de abril, onde tocaram faixas do álbum Alto da Maravilha.

Casa Natura Musical – São Paulo, nos dias 25 e 26 de maio, com DJ Nyack aquecendo a noite e participações especiais de Karina Buhr e Djalma Corrêa, em interpretações marcantes de músicas como “Olhar Pidão” e “Mirê Mirê”.

Circo Voador – Rio de Janeiro, em 16 de junho, num show que celebrou o encontro de gerações e misturou afrofunk e afrobeat com a presença de Russo Passapusso e a banda Yemalá.

MECA Caldeira – Porto Alegre, em 21 de outubro, onde Antônio Carlos & Jocafi celebraram o Alto da Maravilha em uma apresentação especial com grandes convidados, marcando um momento único para os fãs e entusiastas da música afro-brasileira.

Em 2024, Antônio Carlos & Jocafi continuaram a levar sua música por diversos palcos no Brasil. Uma das paradas de destaque foi o Circuito Sesc Pinheiros, onde a dupla se apresentou em São Paulo de 24 a 26 de maio, atraindo o público com uma performance repleta de grandes sucessos e novas composições.

Além disso, a dupla também subiu ao palco do Sesc Pompeia, também em São Paulo, com o espetáculo Afrofunk Brasil. Ao longo do ano, a dupla participou ainda de diversos festivais pelo Brasil, reforçando sua presença em eventos que celebram a música popular brasileira.

Em 2025, no Festival da Primavera, Antônio Carlos lançou seu mais recente projeto literário, o livro “CNOOC – A Inteligência do Futuro”, onde CNOOC, um visitante do futuro, chega à Terra com a missão de ensinar aos humanos lições sobre preservação ambiental e História.

Durante sua jornada, ele se une a três jovens com características e origens distintas: Talita, uma estudiosa apaixonada por História; Juju, uma jovem funkeira e inteligente, que prefere a televisão aos livros; e Boyou, uma jovem chinesa conhecedora da cultura de seu país.

Juntos, CNOOC e suas amigas embarcam em viagens no tempo para explorar eventos históricos, como a Descoberta do Brasil, a Abolição da Escravatura, a Inconfidência Mineira e aspectos da cultura chinesa, como a construção da Grande Muralha. Este projeto multicultural é produzido em dois idiomas, com versões em português e mandarim, ampliando o alcance das lições e celebrando a diversidade cultural de suas histórias.

Em 2026, Antônio Carlos & Jocafi deram mais um passo internacional importante com o lançamento de seu novo álbum gravado em Los Angeles. Este projeto, realizado em parceria com o projeto Jazz is Dead, de Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad (A Tribe Called Quest), busca conectar o legado da dupla aos universos do jazz e da música contemporânea americana.

Em 2026, a dupla também prepara o lançamento de “Tá com Medo Por Quê?”, uma composição de Antônio Carlos e Jocafi que segue a linha afro-brasileira presente em trabalhos anteriores.

Em entrevista de outubro de 2022, Antônio Carlos mencionou que essa canção é “totalmente africana” e estará no novo disco da dupla. A música promete trazer a essência rítmica e cultural que sempre marcou a carreira dos artistas, reafirmando seu compromisso com as raízes afro-brasileiras e a inovação musical.

Segue abaixo entrevista exclusiva com a dupla Antônio Carlos e Jocafi para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistados por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 18/09/2026:

01) RM: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Antônio Carlos: Nasci no dia 24 de outubro de 1945 em Salvador, Bahia, sou soteropolitano, do Largo do Garcia. Tenho 80 anos, quase 81. Registrado como Antônio Carlos Marques Pinto.

Jocafi: Nasci no dia 21/12/1944 às 7h30, em Salvador, Bahia. Registrado como José Carlos Figueiredo.

02) RM: Fale o seu primeiro contato com a música.

Antônio Carlos: A musicalidade baiana chegava aos nossos ouvidos das mais variadas formas. As crianças nasciam embaladas pelos sons dos atabaques que desciam os morros, vindos dos terreiros de candomblé. 

Em quase todas as casas havia um piano ou um acordeon. Na minha casa, tinha os dois. Sem falar nos serviços de alto-falante, que eram a nossa trilha sonora enquanto jogávamos futebol descalços nas ruas de paralelepípedos. 

Ouvíamos as músicas mais variadas, que iam dos clássicos, como Bach e Beethoven, a Orlando Dias e Waldick Soriano. Uma trilha sonora que dava ao compositor baiano aquilo que Gilberto Gil, sabiamente, chamou de “régua e compasso”.

Quanto a mim, que nessa época era chamado de Vieira, comecei a me interessar por música motivado pelos atabaques do terreiro de Mãe Menininha, já que eu morava na Rua Lucaia, no Rio Vermelho, ao lado da casa de Dona Carmem, sua filha mais velha e herdeira do posto máximo do Terreiro do Gantois. 

Anos depois, com o falecimento de Mãe Menininha, ela assumiu seu lugar, tornando-se Mãe Carmem, uma das ialorixás mais festejadas pela sua força espiritual e pelo senso de justiça na cidade de São Salvador. Daí saíram as minhas primeiras músicas, como “Ingorôssi”, “Enterro da Ialorixá”, gravada pelos Tincoãs, e “Festa no Terreiro de Alaketu”, classificada no Festival da Record de 1967.

Acho que as pessoas devem estar pensando: “E o violão entra onde?” Bem, o violão entrou quando alguém, remexendo em cima do guarda-roupa, apareceu com um violão sem cordas que havia pertencido ao meu avô. A ideia era dá-lo a algum interessado, contudo me antecipei e, depois de uma luta para colocar as cordas, finalmente dei início à minha história violonística.

Foi através da minha mãe, que tocava piano, que aprendi os dois únicos acordes que ela sabia: G (Sol) e D7 (Ré com 7). Foi através deles e de uma música que dizia “Quero um dia bem lindo quando for me casar” que parti para a luta. Com o passar do tempo, fui pegando gosto, até que, com o disco “Sorongaio”, de Baden Powell, mergulhei de cabeça e passei a estudar violão a sério.

Jocafi: O canto da minha mãe nos afazeres domésticos, onde conheci toda sorte de músicas antigas. O rádio do meu pai, sempre ligado na Rádio Nacional e na Mayrink Veiga. E o serviço de alto-falante da minha rua, tocando todo tipo de música, de Wagner, Bach e Mozart a Waldick Soriano.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Antônio Carlos: Na minha formação musical, posso citar os estudos de harmonia e improvisação com os maestros Flávio Goulart de Andrade e Luiz Potter. Fora da música, terminei o que, naquele tempo, chamávamos de curso clássico.

Jocafi: Os primeiros acordes aprendi com Guilherme Baruki, amigo e seresteiro. Depois, fui pupilo do grande violonista e compositor Codó, Clodoaldo Brito, e de seus filhos.

Conheci os eruditos na granja do Sr. Juca, que fazia sua sesta, aos sábados, ouvindo música clássica de modo geral. Isso tudo, e mais os cânticos da própria cidade, me levaram ao caminho da música.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Antônio Carlos: Diferentemente dos meus pares e dos grandes compositores da minha época, inclusive meu parceiro Jocafi, que tinha na Bossa Nova e na figura de João Gilberto sua maior bandeira, eu trilhei outro caminho. Como já disse anteriormente, minhas influências, tanto nas letras quanto na música, vieram dos cultos aos orixás e dos tambores do Gantois.

Posteriormente, me apaixonei pelo trabalho de Gilberto Gil, a quem considero o melhor e mais completo artista brasileiro de todos os tempos. Quanto aos que deixaram de ter importância, na minha opinião, eles não existem. Todo trabalho tem que ser respeitado. Não posso desprestigiar um trabalho só porque não é do meu agrado. Ninguém faz sucesso por acaso.

Jocafi: Os cotidianos e universais de Salvador: vendedores ao mercar seus produtos pelos bairros da cidade; o batecum dos atabaques na madrugada das festas de Candomblé; os sambas de roda na rampa do Mercado Modelo, trazendo seus produtos do Recôncavo Baiano e difundindo sua musicalidade.

O Trio Elétrico, que nos alegrava no Carnaval e nas festas de largo; a Rádio Nacional e seus cantores maravilhosos; os grandes compositores eruditos; o swing de James Brown e sua musicalidade afro.

Os filmes da Metro e suas músicas inesquecíveis; João Gilberto e sua batida perfeita, que revolucionou a música do mundo; Gil, Edu Lobo, Tom Jobim, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Lupicínio Rodrigues, Dolores Duran e, principalmente, Mário Reis. Também a música africana, caribenha e sua mistura santa com a música russa de Rachmaninoff e, principalmente, a música brasileira. Música boa é inesquecível!

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Antônio Carlos: Comecei minha carreira musical nos anos 60 na Bahia, com um conjunto chamado Barquinho, influenciado pela música de Roberto Menescal, que era o que eu melhor improvisava (risos).

Porém, não demorei para entrar na orquestra do maestro Carlos Lacerda, muito prestigiada pelos baianos da época. Daí surgiram convites em 1967 para tocar na televisão em São Paulo, não só como músico, mas também como cantor.

Jocafi: Iniciei minha carreira musical em 1969.

06) RM: Quantos álbuns lançados?

Antônio Carlos e Jocafi

Mudei de ideia (1971) – RCA Victor – LP

Cada segundo (1972) – RCA Victor – LP

Antonio Carlos & Jocafi (1973) – RCA Victor – LP

Definitivamente (1974) – RCA Victor – LP

Ossos do ofício (1975) – RCA Victor – LP

Louvado seja (1977) – RCA Victor – LP

Elas por elas (1978) – RCA Victor – LP

Trabalho de Base (1980) – RCA Victor – LP

Pássaro fugido (1984) – Lança/Polygram – LP

Feitiço moleque (1986) – Continental – LP

Samba, prazer e mistério (1994) – RCA/BMG – -LP/CD

Grandes autores: Antônio Carlos e Jocáfi (1995) – BMG – CD

Alto da Maravilha (2022) – Máquina de Louco

Músicas de sucesso: “Você abusou”, “Jesuíno Galo-Doido”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Desacato”, “Toró de lágrimas”, “Mas que doidice”.

“Você abusou” é o primeiro sucesso da dupla quefoi defendida no V Festival de Música Popular Brasileira da TV Record em 1969 por Maria Creuza. A música teve versão gravada em francês e espanhol.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Antônio Carlos: Acho que um compositor de música popular brasileira tem que transitar por todos os estilos, principalmente se for nordestino.

Se analisar a obra de Antônio Carlos e Jocafi, vai encontrar de tudo: “Catendê, toada, gravada por Maria Creuza; “Chuculatêra”, forró, gravada por Luiz Gonzaga; “Laura”, bolero, com Pery Ribeiro; “Gato Angorá”, música caipira, com as Irmãs Galvão; “Kabaluerê”, funk, com Marcelo D2; “Festa Crioula”, folclore gaúcho, com Antônio Carlos e Jocafi; “Água”, afoxé, com BaianaSystem. E por aí vai.

Jocafi: Baiano universal. Fazemos música para a humanidade.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Antônio Carlos: Não estudei técnica vocal. Meus estudos vocais se resumem a horas de estúdio como cantor e produtor. E aquilo que, no meu entendimento, é primordial para se ter uma boa afinação chama-se solfejo.

Jocafi: Não estudei técnica vocal. Aprendi a cantar por necessidade de compor e cantar minhas músicas e composições preferidas de outros compositores. Eu gostava de cantar em saraus e serenatas.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e do cuidado com a voz?

Antônio Carlos: Na minha opinião, tudo o que vier para aprimorar a sua técnica é muito saudável. Contudo, não se pode pecar pelo excesso. Seu timbre é a sua identidade. Não deixe que a busca pela perfeição possa comprometê-lo.

Jocafi: Acho muito boa a orientação de um mestre para quem está começando. No nosso tempo, escola de canto popular não existia. Existiam corais de igreja e canto sinfônico.

10) RM: Quais as cantoras e os cantores que você admira?

Antônio Carlos: São muitos! Vou começar por uma por quem sou perdidamente apaixonado: a maior cantora cubana de todos os tempos, Celia Cruz, que gravou magistralmente “Usted Abusó”. Sem esquecer de Ella Fitzgerald, que também nos deu a honra de gravar nossa música. 

Voltando ao Brasil, do alto dos meus 80 anos, escutei cantoras e cantores fantásticos. Começando pelos homens, posso citar três: Emílio Santiago, Miltinho e Pery Ribeiro. Entre as mulheres, aí a coisa fica difícil, são tantas! Por isso, vou citar apenas cinco.

Primeiro, Elis Regina. Essa eu coloco em um pedestal; ela é incomparável. Depois, podemos citar Maria Bethânia, Marisa Monte, Maria Creuza e Dalva de Oliveira. Tem muita gente maravilhosa. É um crime citar apenas esses (risos).

Jocafi: Cantoras: Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Claudia, Doris Monteiro, Evinha, Alcione, Elza Soares, Bethânia, Gal, Sueli Safira, Maria Creuza, Leila Pinheiro, Zizi Possi, Negra Li, Anitta, Iza, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Elba Ramalho, Paula Fernandes, Marília Mendonça, Marisa Monte e a grande Celia Cruz.

Cantores: João Gilberto, Gilberto Gil, Emílio Santiago, Ivan Lins, Caetano, Russo Passapusso, Simonal, Aloísio Silva, Jair Rodrigues, Roberto Carlos, Djavan, Ney Matogrosso, Pery Ribeiro, Raul Seixas, o grande Luiz Gonzaga, Roberto Ribeiro, Fagner, Ferrugem, Jorge Aragão, Jorge Vercillo, Peninha, Biafra, Márcio Greyck, Freddie Mercury, Michael Jackson, Elvis Presley, Agnaldo Timóteo, Moacyr Franco, Tony Bennett e o maravilhoso Frank Sinatra.

11) RM: Como é seu processo de compor?

Antônio Carlos: Meu processo de compor variou muito ao longo dos anos. Logo no início, a influência dos tambores na minha infância me levou a uma paixão descontrolada pela música preta religiosa. Assim, os cânticos dos orixás não desgrudavam da minha cabeça e foi nessa época que fiz várias músicas com esse tema. 

Uma delas, “Kabaluerê”, já tendo Jocafi como parceiro, após 60 anos ganhou o mundo, fez sucesso com Marcelo D2 e está nos filmes sobre Pelé e Ronaldo Fenômeno. Depois, junto com o nosso disco “Mudei de Ideia”, considerado um dos melhores discos de todos os tempos, vieram as novelas “O Primeiro Amor” e “Supermanoela”, nas quais toda a trilha é de autoria de Antônio Carlos e Jocafi.

Nesse momento, a criação precisou de ajustes, já que tínhamos que compor de acordo com um release e com o papel de cada personagem. Isso nos fez crescer como compositores.

O desafio era grande e, graças aos orixás, as coisas deram muito certo, principalmente com uma música chamada “Shazam”, que acabou dando origem ao seriado “Shazan, Xerife & Cia.”.

Com esse formato, ainda fizemos o filme “Otália da Bahia”, que tinha como diretor o genial Marcel Camus, o mesmo diretor do premiadíssimo filme “Orfeu Negro”, com músicas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

Complementando a pergunta, devo dizer que as músicas que surgem completamente inspiradas são raríssimas. Na verdade, na grande maioria das vezes, temos que quebrar a cabeça e trabalhar até cansar, principalmente nas letras.

Jocafi: São vários: através de um sistema harmônico de notas do baixo do violão; outras vezes, usamos uma sequência de acordes e montamos a melodia. Também fazemos a melodia e, em seguida, colocamos os acordes e a letra.

Quando é para um personagem, seja ele literário, de filme ou TV, fazemos a melodia de acordo com a personalidade dele e, então, colocamos a letra. Às vezes, a música vem completamente pronta. Aí sentimos a manifestação divina através de nós.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Antônio Carlos: Nossos principais parceiros foram Ildásio Tavares, Renato Lobo, Paulo Brito, Júlio Sampaio, Russo Passapusso, Bira Marques e Beto Seco. Esses três últimos nos proporcionaram a felicidade de ganhar dois Grammys com os discos “O Futuro Não Demora” e “O Mundo Dá Voltas”. Uma parceria abençoada, que nos trouxe de volta às paradas de sucesso.

Jocafi: Os parceiros mais efetivos são Antônio Carlos e Ildázio Tavares e, agora, Russo Passapusso. Mas trabalhamos também com Júlio César São Paio, Wando, Bira, Beto — os dois últimos do Baiana — e um menino muito talentoso chamado Gil Vicente, filho do Ildázio.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Antônio Carlos: O que posso dizer a esse respeito é que não me recordo, nos anos 70, de alguém com talento que não tivesse conseguido fazer sucesso. Hoje, a coisa ficou muito, muito difícil. Infelizmente, devo dizer que o investimento precisa ser alto. Contudo, admito ter pouco conhecimento a respeito desse assunto.

Jocafi: Nunca pensei no “contra”, porque nascemos predestinados a amar e fazer música. O restante é consequência existencial de cada um.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Antônio Carlos: Não existe uma estratégia específica. Existe uma longa estrada percorrida durante todos esses anos. “Você Abusou” é uma das músicas brasileiras mais tocadas mundo afora, constantemente utilizada em propagandas de grandes empresas e em filmes. Inclusive, neste momento, há um filme francês, com o título “Apego”, em cartaz nos cinemas brasileiros.

Jocafi: Não penso no futuro, porque nunca me preocupei com as ações do futuro. Simplesmente vou vivendo.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Antônio Carlos: Essas estratégias ficam a cargo da nossa produtora, Márcia Melchior, que mantém contato com grandes empresas musicais ao redor do mundo. Como nossas músicas são editadas por nossa própria editora, a Fórum da Cultura, isso se torna um facilitador quando precisamos comercializar nossas obras no mercado internacional.

Jocafi: Procuro me adequar aos novos tempos, que me parecem muito interessantes. Por enquanto, tudo vai bem.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

Antônio Carlos: Na verdade, a internet não tem grande interferência na nossa carreira. As plataformas musicais, sim, pois o percentual destinado a nós, compositores, é uma vergonha.

A essa altura do campeonato, temos uma carreira sólida e podemos compensar essa queda dos direitos autorais no Brasil com o que chega do exterior, já que somos filiados a sociedades arrecadadoras internacionais.

Jocafi: Ela só nos ajuda a definir os caminhos, as levadas rítmicas e as letras para as nossas composições.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação, como o home studio?

Antônio Carlos: Para quem, como nós, vivenciou o apogeu das grandes gravadoras, existe um certo saudosismo, já que, para fazer um disco do nível de “Mudei de Ideia”, seria necessário desembolsar hoje uma quantia muito alta. E o que assusta o eventual investidor é não enxergar retorno, nem mesmo a longo prazo.

Mas, voltando à pergunta, a grande vantagem do home studio é conseguir, por uma quantia mínima, registrar sua obra. Entre as desvantagens, estão a qualidade dos músicos e do próprio som.

Jocafi: Procuramos não entrar em disputa com ninguém. Fazemos o nosso trabalho o mais bonito possível, com honestidade e, na verdade, o mais inusitado possível. E me encanto: cada música é uma descoberta especial.

18) RM: No passado, a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje, gravar um disco não é mais o grande obstáculo, mas a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Antônio Carlos: Como disse em uma das respostas no começo da entrevista, naquela época aqueles que mostravam talento sempre tinham uma primeira e até mesmo uma segunda oportunidade.

Com Antônio Carlos e Jocafi não foi diferente. Antes do sucesso de “Você Abusou”, gravamos dois compactos, “Roberto, Não Corra” e “O Zé”, que não aconteceram. Mesmo assim, a gravadora RCA não nos abandonou e continuou acreditando no potencial da dupla.

Quanto ao nosso nicho (risos), acho que ele aconteceu graças aos nossos parceiros Russo Passapusso e BaianaSystem. Mas não só por isso. Temos um disco inteiro, chamado “Alto da Maravilha”, que gravamos com Russo, e fizemos vários concertos juntos. Também não podemos esquecer que velhas canções, como “Teimosa” e “Tereza Guerreira”, foram regravadas por novas vozes, como Céu, Iza e Xênia França.

Jocafi: Não há como atuar nesse contexto, porque todos estão buscando os mesmos propósitos. Que Deus nos ajude e nos escolha. Amém!

19) RM: Como você analisa o cenário da Música Popular Brasileira? Em sua opinião, quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Antônio Carlos: O cenário ficou nebuloso com a entrada, a todo vapor, da inteligência artificial. Já não sabemos quem realmente é o autor da música. Não tenho intenção de ser vidente, contudo, parece que a música, no andar da carruagem, neste momento está respirando por aparelhos, podendo parar de respirar a qualquer momento.

Quanto às novas revelações musicais, diria que foram muitas, e é muito difícil enumerá-las.

Com a queda de certos preconceitos contra nós, artistas — “violão não dá camisa a ninguém”, “moça de família não canta na noite”, entre outros —, muitas mulheres, graças àquelas artistas dos anos 50 e 60 que bateram de frente com uma sociedade machista, puderam mostrar sua arte. Daí essa enorme quantidade de talentos.

Na última parte da pergunta, você fala de obras consistentes e, certamente, eu citaria Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque. Só que essa mídia massificada atropela grandes talentos, como Pedro Canuto e Rui de Carvalho (https://ritmomelodia.mus.br/rui-de-carvalho) dentre outros que estão pedindo passagem, lutando com unhas e dentes, sem conseguir espaço.

Quanto às obras inconsistentes, tenho uma opinião: se um trabalho foi admirado por uma única pessoa, deve haver ali alguma coisa que eu não consegui entender.

Jocafi: Não há, a meu ver, regressão na música. Beber das fontes do passado é inteiramente legítimo. O perigo está na parada total, em deixar de produzir. A MPB está em compasso de transição, como se buscasse algo inovador e grandioso. Vejo nesse passo lento a busca do esplendor. Mas me alegro com o sucesso da música romântico-sertaneja, incólume a qualquer tipo de manifestação negativa. Ela vai de vento em popa.

20) RM: Quais as situações mais inusitadas que aconteceram na sua carreira musical — falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou para público difícil, cantar e não receber, ser cantado etc.?

Antônio Carlos: Com quase 60 anos de carreira, já aconteceu de tudo. Vou tentar responder na ordem. Fomos fazer uma apresentação em um clube e, ao chegarmos ao palco, não havia um instrumento sequer para os músicos. Microfone, só tinha um para a dupla.

Certa vez, uma jornalista no Maranhão foi nos entrevistar e começou me perguntando quais músicas eu iria cantar. Minha resposta foi: “Você Abusou”, “Teimosa” etc. Foi então que ela se virou para Jocafi e continuou: “E você, Jocafi?”. Ele respondeu o óbvio (risos).

Outra situação interessante de que me lembrei aconteceu quando estava cantando no Rock in Rio, com aquele público imenso, de capa, debaixo de chuva. Em outra ocasião, igualmente chuvosa, em Brasília, ao chegarmos ao clube, não havia uma só pessoa para assistir. Fiquei incrédulo, pois já cantamos para 30, até 15 pessoas, mas para ninguém, ninguém mesmo, nunca! Rsrs.

E, para finalizar, fomos inaugurar um hotel em Recife. Como a verba era curta, levamos apenas nosso maestro com as partituras, com a promessa de que lá encontraríamos o restante da banda.

Durante o ensaio, depois de voltarmos a música várias vezes porque a banda não conseguia acompanhar, veio uma frase que jamais esquecerei: “Oxente, tô é cansado, home! Cada um dá sua nota e vamos ganhar esse dinheiro!”.

Jocafi: No passado, som ruim era recorrente. A surpresa era acontecer o contrário e o som ser maravilhoso. Brigas, no nosso grupo, só para melhorar o nosso trabalho. Eram mais discussões, porque todos nós tínhamos opiniões para melhorar alguma coisa. Éramos todos — e ainda somos — grandes amigos e nos amamos. O calote nunca nos afetou. Acontece com todos.

21) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Antônio Carlos: Feliz seria fazer um concerto bonito, compor uma música que mexa com a sua cabeça ou escutar um trabalho de alguém especial, por exemplo, Hermeto Pascoal, Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Ruim é ter um som que atrapalhe o nosso trabalho no palco.

Jocafi: Quando recebo um prêmio importante por um trabalho maravilhoso, fico emocionado e feliz. Muito triste eu fico quando algo triste e inesperado nos impede de fazer o nosso trabalho. Um exemplo é o caso do nosso querido e talentoso Arlindo Cruz, um dos maiores compositores do nosso tempo. 

22) RM: Existe o dom musical? Como você define o dom musical?

Antônio Carlos: Na minha opinião, existe 10%, talvez 20% de dom. Mas o resto, pode ter certeza, é trabalho.

Jocafi: Claro que existe o dom, aquela escolha divina e gloriosa que agracia os escolhidos e os envolve de talentos raros. O dom musical é a manifestação artístico-musical das divindades.

23) RM: Qual é o seu conceito de improvisação musical?

Antônio Carlos: Eu estudei improvisação, mas confesso que não sou um bom improvisador no instrumento. Porém, improvisando melodias com a boca, dou meus pulinhos.

Jocafi: É uma manifestação musical que requer conhecimento do campo harmônico em que se está trabalhando e a noção dos acordes de acompanhamento escolhidos para receber a melodia improvisada.

Ela precisa, ou não, dessa cama de acordes em acompanhamento funcional, porque, mesmo sem acordes acompanhantes, a própria intuição do executante busca o seu campo harmônico oculto. Pode-se chamar de campo harmônico possível.

24) RM: Existe improvisação musical de fato ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Antônio Carlos: Boa pergunta. Claro que existe um campo harmônico que lhe dá uma base, mas apenas isso. O resto fica por conta da criatividade do músico. 

O “inside” é uma improvisação mais tonal, portanto um pouco mais fácil. Contudo, no “outside”, o bicho pega. Mas tem muita gente boa que arrasa improvisando fora do campo harmônico. Adoro ouvir. É instigante e levanta a plateia.

Jocafi: Existe, sim. É a atuação artístico-virtuose de grandes e competentes músicos, quando essa atuação se faz necessária. É improvisação, como diz o nome.

25) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre improvisação musical?

Antônio Carlos: Eu adoraria me aprofundar nesse assunto, mas acho que ficaria muito pesado para o leitor que não conhece harmonia. Contudo, devo dizer que, para mim, a improvisação só tem prós.

Ajuda na criatividade do aluno e, o mais importante, com duas aulas ele já se sente violonista. Quando você mexe na autoestima de alguém, o resultado é sempre maravilhoso. Você deve estar pensando: “E como ensinar a improvisar em duas aulas?”

Primeiro, ensina-se ao aluno as notas da escala: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó. Depois, o professor fica fazendo o campo harmônico de dó e deixa os alunos à vontade para tocar qualquer uma daquelas notas, uma, duas vezes, não importa. Vai dar sempre certo, porque todas as notas pertencem ao campo harmônico de dó.

Jocafi: Não existe o pró nem o contra. Existe a necessidade que a música pede.

26) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o estudo de harmonia musical?

Antônio Carlos: Diria que os prós já foram maravilhosos, e o nosso querido maestro Tom Jobim foi quem mais soube usar essa ferramenta. Mas hoje eu não aconselharia quem faz música a utilizar essas regras desde o início, pois hoje todo mundo as conhece.

Por que estou dizendo isso? Antigamente, poucos conheciam esses caminhos. Hoje, todo mundo sabe. Então, diante disso, resolvemos fazer a música sem harmonia e, só quando ela está pronta, vamos vesti-la harmonicamente da melhor forma possível.

Jocafi: Não vejo nada contra em aprender a harmonizar. Esse quesito é cabal. A harmonia musical é necessária e fascinante. É maravilhoso saber harmonizar, com competência e beleza, uma melodia. É dom, dádiva e prazer. Antes de tudo, é matéria estudantil nas universidades de Música.

27) RM: Você acredita que, sem o pagamento do jabá, as suas músicas tocarão nas rádios?

Antônio Carlos: Meu amigo, acredito que, quando começamos nossa carreira, nos anos 70, os “jabazeiros” estavam começando a colocar a cabeça para fora. As gravadoras tinham vários divulgadores. O trabalho deles era pegar os artistas por volta das cinco horas da manhã para começarem a divulgação. Saíamos de rádio em rádio até depois do almoço.

Foi então que surgiu o primeiro grande “jabazeiro”. Desculpem-me por não poder dizer o nome dele nem do programa. Porém, devo dizer que tocar no programa dele significava o disco ser sucesso no dia seguinte. 

Com isso, programas com muita audiência criaram um jabá mais sofisticado: o artista pagava com shows. Logo chegaram os programadores e, não demorou muito, os próprios donos das rádios. Complementando sua pergunta, acho que, pelo que contei acima, não faria sucesso nem ontem, nem hoje (risos).

Jocafi: Antes, as nossas músicas tocavam nas rádios pelo mérito de serem agradáveis, interessantes e bonitas. Aí alguém inventou o famigerado “jabá” — jabaculê —, esse desastre para a MPB.

Consequentemente, mudou todo o sistema de operação das rádios. Não havia mérito nem beleza, somente a função monetária. Aí, a boa música subiu no telhado. Quase todas as rádios FM adotaram esse dúbio sistema, adotado covardemente pelas gravadoras. Hoje, tocamos menos nas emissoras, mas, quando tocamos, é inteiramente por mérito.

28) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Antônio Carlos: Quer saber? Deixe o coração mandar. As dificuldades são muitas, mas as alegrias são ainda maiores. Sucesso!

Jocafi: Vai fundo e que Deus lhe ajude, porque não sei como lhe ajudar!

29) RM: Festival de música revela novos talentos?

Antônio Carlos: Um festival de música sério é tudo o que essa nova geração precisava. Vamos fazer uma retrospectiva para lembrar alguns nomes que vieram graças aos festivais, começando por Antônio Carlos e Jocafi, com “Desacato”; Elis Regina, com “Arrastão”; Caetano Veloso, com “Alegria, Alegria”; Edu Lobo, com “Ponteio”; Gilberto Gil, com “Domingo no Parque”. E por aí vai. 

Não consigo ver, nos dias de hoje, um festival como os de antigamente. Digo isso com profunda tristeza. Era um acontecimento, todo mundo torcendo em frente à televisão. Basta dizer que, quando tiramos o segundo lugar com “Desacato”, dormimos totalmente desconhecidos e acordamos conhecidos no Brasil inteiro.

Jocafi: Sempre ajuda. Mesmo não tendo notícias de Festivais de Música Popular, apenas rezo para que retornem, com muita força e prestígio, às nossas vidas culturais.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Antônio Carlos: Juro que não sei responder essa pergunta de uma maneira definitiva, porque hoje vejo claramente a existência de duas mídias diferentes. Eu chamaria de “mídia A” aquela formada pelo rádio, televisão aberta e jornais impressos, e de “mídia B” aquela que nasceu e cresceu com a internet, as redes sociais e as plataformas digitais. 

São poucos os artistas que, na minha percepção, conseguiram ocupar com a mesma força esses dois universos — Caetano Veloso, Gilberto Gil, Anitta, entre alguns outros. Esse comportamento dos novos tempos ainda gera uma certa confusão na minha cabeça.

Nos anos 70, 80 e 90, quando o sucesso passava principalmente pelas rádios, pela televisão e pela mídia impressa, os artistas que estavam em evidência — amados ou odiados — tinham suas músicas, seus rostos e seus nomes reconhecidos praticamente em todos os lugares.

Hoje, um artista pode ser gigantesco na internet, ter milhões de seguidores e de visualizações e, ainda assim, ser praticamente desconhecido por uma parcela enorme da população. E o contrário também acontece. Acho que a cena musical se fragmentou, assim como a própria mídia e a maneira como cada geração consome música e informação.

Jocafi: A cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira busca emoções novas na musicalidade atual.

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para a cena musical?

Antônio Carlos: Acho que a cultura é um dos pilares na grandeza de um País. Assim toda iniciativa é válida agradecemos o apoio dessas entidades, porém ainda é muito pouco diante das nossas necessidades.

Jocafi: Muito interessante, benfazejo e de uma importância cabal. Esse incentivo deveria alcançar toda a família musical brasileira, principalmente os que estão começando.

32) RM: Quais os seus projetos futuros?

Antônio Carlos: Do alto dos nossos 81 e 82 anos ainda nos sentimos dois garotos que chegaram da Bahia ontem prontos para enfrentar os desafios do Sul maravilha.

Jocafi: Estamos empenhados na empreitada de gravar as músicas restantes dos personagens de Jorge Amado, os lugares onde viveram, suas peculiaridades e vivências. Estamos trabalhando arduamente no contato e na disponibilidade dos cantores que integrarão esse projeto artístico-cultural.

Também temos shows com os nossos meninos da Orquestra Forte de Copacabana, maravilhosamente administrada por Márcia Melchior. Para finalizar, trabalhos musicais com Russo Passapusso e o BaianaSystem, nos quais implementaremos composições e eventuais shows. E lá se vai o ano da graça de Deus de 2026.

33) RM: Quais seus contatos?

Antônio Carlos e Jocafi: Fórum da Cultura Produções pelo (21) 99971 – 3000 | [email protected] | https://antoniocarlosejocafi.com.br | https://www.instagram.com/antoniocarlosejocafi

Canal: https://www.youtube.com/@AntonioCarloseJocafiOficial

Antônio Carlos & Jocafi – Você Abusou: https://www.youtube.com/watch?v=S29COaOxyH0

Você Abusou – Maria Creuza – https://www.youtube.com/watch?v=aHx04fC4IzA

Voce Abusou – Pauline Croze (Clip officiel) em francês: https://www.youtube.com/watch?v=4BmSOtQx-1U

Antonio Carlos e Jocafi no CONVERSA com Bial dupla de músicos baianos: https://www.youtube.com/watch?v=05sf2BlcsLI

PARTE 2 Antonio Carlos e Jocafi no CONVERSA com Bial dupla de músicos baianos: https://www.youtube.com/watch?v=N95UrdQhXZY


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