Roberto Corrêa 

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Uma das maiores referências da viola caipira no Brasil, Roberto Corrêa lançou 22 discos dedicados ao instrumento e já se apresentou em todo o país e em diversas partes do mundo, como Áustria, China e Portugal.

Músico, compositor, intérprete, pesquisador e professor, desenvolve um trabalho profundamente ligado às tradições interioranas brasileiras, em permanente diálogo com a contemporaneidade e a música de concerto.

Chamado pelo crítico Tárik de Souza de “Guimarães Rosa encordoado”, o mineiro Roberto Corrêa descende de uma família de violeiros de Campina Verde e se dedica ao estudo, à composição, à interpretação e ao ensino da viola há mais de 40 anos.

É graduado em Física e Música pela Universidade de Brasília (UnB) e doutor em Artes (Musicologia) pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), onde defendeu, em 2014, a tese “Viola caipira: das práticas populares à escritura da arte”.

Pesquisador dedicado à compreensão e à difusão do universo da viola, construiu ao longo de sua trajetória uma obra que articula criação artística, pesquisa, registro e transmissão de conhecimentos ligados ao instrumento.

É autor de cinco livros dedicados à viola: Viola caipira, de 1983, uma das primeiras publicações voltadas ao instrumento no Brasil; A arte de pontear viola, de 2000, método de ensino e aprendizagem que se tornou referência para violeiros e estudiosos; Viola caipira: das práticas populares à escritura da arte, de 2019, resultado de sua pesquisa de doutorado.

Concerto para Vaca e Boi, de 2022, que apresenta 12 composições para violas brasileiras — viola caipira, viola de cocho, viola de buriti, viola caiçara e machete baiana — em duo com a viola da gamba baixo.

A Viola Solo de Roberto Corrêa, de 2025, que reúne todas as suas composições solo para viola caipira, viola de cocho e viola repentista.

Essas publicações, juntamente com sua produção fonográfica, composicional e pedagógica, constituem um amplo trabalho de pesquisa, criação, registro e difusão das violas brasileiras.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Roberto Corrêa para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 07/09/2026:

01) RM: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Roberto Corrêa: Nasci no dia 11/03/1957, em Campina Verde, Minas Gerais. Registrado como Roberto Nunes Corrêa.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Roberto Corrêa: Venho de uma família de violeiros e meu contato com a música começou ainda na infância, em Campina Verde – MG.

Lembro especialmente dos grupos de catira e das companhias de Reis que visitavam as casas da cidade. Comecei ainda criança tocando violão, em Campina Verde e, já em Brasília – DF, em 1977, comecei a tocar viola. Com o tempo, deixei o violão para me dedicar à viola, que acabou se tornando o centro de toda a minha trajetória musical.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Roberto Corrêa: Sou formado em Física e Música pela Universidade de Brasília e doutor em Artes (Musicologia) pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, a ECA/USP. Minha tese, defendida em 2014, chama-se Viola caipira: das práticas populares à escritura da arte. 

Minha formação, no entanto, passa também pelo contato direto com os mestres e com as tradições populares. Sempre procurei aproximar esses diferentes campos do conhecimento: a prática musical, a pesquisa, a universidade e o saber dos violeiros tradicionais.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente?

Roberto Corrêa: Minha principal referência está na música tradicional do Brasil interiorano e nos violeiros com quem tive oportunidade de conviver e aprender. Badia Medeiros, Zé Coco do Riachão, João Souza e Zé Mulato são alguns deles.

Ao mesmo tempo, nunca enxerguei tradição como algo parado no passado. Minha escuta sempre foi ampla e meu trabalho foi se construindo também no diálogo com outros universos musicais. A música que faço parte da tradição da viola, mas procura caminhos contemporâneos para essa tradição.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Roberto Corrêa: Comecei a tocar viola em Brasília – DF, em 1977, no grupo musical Olho d’Água e, logo em seguida, segui carreira solo.

Minha trajetória profissional foi se formando na passagem dos anos 1970 para os anos 1980, ao mesmo tempo em que estudava, pesquisava e começava a desenvolver um repertório próprio para o instrumento.

Desde o início, essas atividades caminharam juntas para mim: tocar, compor, pesquisar e ensinar. Em 1985 passei a integrar a Escola de Música de Brasília como professor, onde permaneci até 2017. Ao longo desses anos, fui construindo uma carreira dedicada à viola e à música do Brasil interiorano.

06) RM: Quantos álbuns lançados?

Roberto Corrêa: Tenho 22 discos lançados ao longo da carreira, entre trabalhos solo e projetos realizados em parceria com outros artistas e grupos musicais.

VIOLA NOVA (2026). Solos de Unha e Carne (2025). Concerto para Vaca e Boi (2022). Viola de Arame (2012). Canções Brasileiras (2010). Temperança (2009). Extremosa-Rosa (2001). No Sertão – Viola & Cordas (1998) — gravado com Mauro Rodrigues e um quinteto de cordas. Crisálida (1996). Uróboro (1994) — Clássico trabalho composto inteiramente por peças solos para viola caipira e viola de cocho. Viola Caipira – Brazil (1989) — lançado internacionalmente pelo selo da Unesco. Viola Andarilha (1989). Um Pequeno Concerto (1988).

Parcerias e Projetos Coletivos:

Violas de Bronze (2009) — em colaboração com o músico SibaEsbrangente (2003) — em trio formado com Badia Medeiros Paulo FreireCaipira de Fato (1997) — em parceria com a cantora Inezita Barroso. Voz & Viola (1996) — também ao lado de Inezita BarrosoDrummond de Andrade (1989) — projeto especial com declamações do ator Lima DuarteAo Capitão Furtado – Marvada Viola (1986) — álbum coletivo da Funarte em parceria com João Lyra, Adelmo Arcoverde e outros grandes nomes do gênero

07) RM: Como você se define como Violeiro?

Roberto Corrêa: Sou um violeiro profundamente ligado à tradição, mas interessado em fazer uma música do meu tempo.

Minha formação como violeiro passa pelo contato com mestres tradicionais, pela pesquisa e pela observação das diferentes maneiras de tocar viola no Brasil. Ao mesmo tempo, sempre procurei desenvolver uma linguagem própria para o instrumento, tanto como intérprete quanto como compositor.

Para mim, tradição não significa repetição. A cultura é um sistema vivo, que se preserva enquanto se transforma. É dentro desse movimento que procuro situar meu trabalho. A viola carrega referências muito profundas da cultura brasileira, mas continua se transformando, chegando a novos músicos, novos públicos e novos contextos musicais.

08) RM: Quais afinações você usa na Viola?

Roberto Corrêa: As afinações variam conforme o tipo de viola e o repertório. Na viola caipira utilizo principalmente a afinação Cebolão, especialmente a Cebolão em Ré, mas utilizo também a afinação Rio Abaixo.

Nas outras violas brasileiras com que trabalho, utilizo afinações ligadas às tradições próprias de cada instrumento: a afinação Repentista, na viola repentista; a afinação Rio Abaixo, na viola de buriti; a afinação Pelo Meio, na viola caiçara; as afinações Natural e Antiga, na machete baiana; e a afinação Canotio Solto, na viola de cocho.

As afinações são parte fundamental da identidade sonora desses instrumentos. Elas modificam não apenas as notas das cordas soltas, mas também as possibilidades de acordes, ponteados, ressonâncias e a própria maneira de compor e tocar.

09) RM: Quais os violeiros que você admira?

Roberto Corrêa: Admiro muitos violeiros e seria difícil fazer uma lista. Entre aqueles que foram especialmente importantes para minha formação, destacaria Zé Coco do Riachão, João Souza e Zé Mulato.

Tive a oportunidade de conviver com eles no início da minha trajetória e aprendi muito observando suas maneiras de tocar e, principalmente, a relação que mantinham com a tradição.

Também acompanho com muito interesse as novas gerações. Hoje temos excelentes violeiros e violeiras em diferentes regiões do Brasil, desenvolvendo trabalhos muito diversos. Vejo a viola em expansão, inclusive nos centros urbanos, nas escolas, universidades, orquestras de viola e em trabalhos que dialogam com diferentes vertentes da música brasileira.

10) RM: Como é seu processo de compor?

Roberto Corrêa: Meu processo de composição está muito ligado às particularidades da viola, buscando caminhos que o instrumento me apresenta. Muitas vezes, a própria exploração do instrumento — uma afinação, um ponteado, uma sonoridade, uma possibilidade técnica — aponta um caminho para a composição.

Tenho uma relação muito forte com as matrizes musicais do Brasil interiorano, mas não procuro simplesmente reproduzi-las. Elas fazem parte da minha memória e da minha linguagem. 

A partir delas, busco criar uma música autoral e contemporânea. Acho que composição é também resultado de escuta, estudo e experiência.

Depois de tantos anos trabalhando com a viola, existe naturalmente um repertório de sons, gestos e referências que vai se acumulando e que reaparece transformado no momento da criação.

11) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Roberto Corrêa: A independência permite ao artista ter um grande controle sobre o seu trabalho. Posso escolher o repertório, desenvolver projetos de pesquisa, gravar aquilo em que acredito e construir uma trajetória coerente com minhas escolhas artísticas, mesmo quando elas não correspondem às tendências do mercado.

Por outro lado, significa também assumir muitas responsabilidades que vão além da criação musical. É preciso produzir, buscar recursos, divulgar, distribuir, organizar apresentações e pensar continuamente a continuidade do trabalho.

Mas acredito que essa independência foi fundamental para a trajetória que construí. Ela me permitiu desenvolver projetos muito particulares e permanecer fiel às questões artísticas que me interessam.

12) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Roberto Corrêa: Procuro pensar a carreira como um conjunto de ações que se relacionam. O concerto é uma parte importante, mas há também os discos, os livros, as pesquisas, os registros audiovisuais, os projetos de formação e a circulação do trabalho.

Ao longo da minha trajetória procurei também registrar e sistematizar o conhecimento que fui adquirindo. Publiquei livros, métodos, partituras e pesquisas sobre a viola. Isso faz parte do meu trabalho artístico tanto quanto subir ao palco.

Uma carreira longa exige continuidade e, ao mesmo tempo, renovação. É importante preservar aquilo que dá identidade ao trabalho, mas continuar criando novos desafios. Tenho a alegria de ver meu trabalho reconhecido pela crítica, pelas instituições e, principalmente, pelo público que me acompanha e prestigia. 

Mas é natural que, como artista, eu queira falar com mais pessoas, atingir um público cada vez maior. Desejo que a beleza e a mensagem que minha música carrega façam sentido para as pessoas, que as encantem e contribuam para a maneira como elas veem o Brasil e a cultura caipira. Ainda tenho muitas coisas a dizer com meu trabalho criativo e sigo fazendo.

13) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Roberto Corrêa: A tecnologia democratizou muito o acesso à gravação. Hoje um músico pode registrar ideias, estudar arranjos, produzir conteúdo e até desenvolver parte de um trabalho dentro de casa, com uma estrutura relativamente pequena. Isso é muito positivo.

Mas ter acesso à tecnologia não elimina a necessidade do conhecimento. Um bom disco continua dependendo de músicos, técnicos, produtores e profissionais que saibam ouvir e tomar decisões artísticas.

A facilidade de gravar também aumentou enormemente a quantidade de música produzida. O desafio deixou de ser apenas conseguir fazer um registro e passou a ser também fazer com que esse trabalho seja ouvido.

14) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar o CD não é mais o grande obstáculo. Mas a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Roberto Corrêa: Não penso muito em me diferenciar como uma estratégia de mercado musical. Procuro aprofundar aquilo que é próprio do meu trabalho. Há mais de quarenta anos estudo a viola e as tradições musicais do Brasil interiorano.

Esse conhecimento está na minha maneira de tocar, compor e pensar a música. Ao mesmo tempo, nunca tive interesse em simplesmente reproduzir a tradição. Procuro colocá-la em diálogo com o presente. Talvez a singularidade venha justamente daí.

É um trabalho que nasce de uma ligação muito forte com a cultura tradicional brasileira, mas que procura produzir uma música nova, contemporânea e autoral. Vejo a música de viola como parte de uma cena cultural muito viva.

Talvez trabalhemos em um nicho quando comparados ao grande mercado, mas é um espaço forte, com músicos, pesquisadores e artistas criando trabalhos novos a partir das nossas tradições. Para mim, aprofundar essa identidade é mais importante do que seguir os modismos do mercado.

15) RM: Quais os outros instrumentos musicais que você toca?

Roberto Corrêa: Comecei minha vida musical tocando violão, ainda criança, mas posteriormente abandonei o instrumento para me dedicar à viola. Hoje meu trabalho está concentrado na viola caipira.

Mas, além da viola caipira, trabalho com diferentes instrumentos dessa família, como a viola de cocho, a viola de buriti, a machete baiana, a viola caiçara e a viola repentista.

16) RM: Existe o Dom musical? Qual a sua definição de Dom musical?

Roberto Corrêa: Acredito que as pessoas possam ter diferentes sensibilidades e facilidades para a música, mas não vejo o chamado “dom” como alguma coisa pronta, que dispense estudo e dedicação. A música exige escuta, curiosidade, prática e muito trabalho.

Mesmo uma pessoa com grande facilidade musical precisa desenvolver técnica, repertório e conhecimento. Talvez o dom esteja também nessa disposição para escutar, para se emocionar com a música e para dedicar uma parte importante da vida a compreendê-la e fazê-la.

17) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro?

Roberto Corrêa: A grande mídia naturalmente tende a concentrar sua atenção naquilo que alcança os maiores públicos e está mais diretamente ligado ao mercado. Mas a música brasileira é muito maior e mais diversa do que aquilo que aparece nos grandes meios. 

Existe hoje uma cena muito viva de artistas, músicos e pesquisadores trabalhando com o choro, com as violas brasileiras, com as culturas tradicionais e com inúmeras outras expressões brasileiras. São trabalhos que muitas vezes circulam em nichos, mas que têm enorme qualidade e importância cultural.

A internet abriu outras possibilidades de circulação, mas acredito que a grande mídia ainda tem um papel importante na apresentação dessa diversidade ao público. Cuidar dessa diversidade é também cuidar da nossa identidade cultural.

18) RM: Qual a importância de espaços como SESC, Itaú Cultural, Caixa Cultural, Banco do Brasil Cultural para a música brasileira?

Roberto Corrêa: São instituições fundamentais porque criam espaços para uma produção musical que muitas vezes não encontra lugar no mercado comercial.

Ao longo da minha própria trajetória participei de projetos do SESC, da Caixa, do Itaú Cultural e do Banco do Brasil, tanto como artista quanto como pesquisador, curador e consultor. São instituições que tiveram e continuam tendo um papel importante na circulação da música brasileira, na formação de público e na realização de projetos de pesquisa, memória e criação.

Quando falamos em cultura, não podemos pensar apenas em retorno comercial. Existem trabalhos fundamentais para a memória, para a identidade e para a diversidade cultural do país que precisam de espaços e políticas capazes de sustentá-los. A cultura é um sistema vivo: preservar não significa imobilizar, mas criar condições para que essas referências continuem existindo e se transformando.

19) RM: Quais os seus projetos futuros?

Roberto Corrêa: Meu próximo projeto será voltado para minhas canções. Pretendo realizar a escrita em partituras das canções com poesias de minha autoria e das canções com poesias de meus parceiros de composição.

Paralelamente, vou preparar esse repertório para a realização de um novo álbum. É um trabalho que retoma uma parte importante da minha produção como compositor e, ao mesmo tempo, permite organizar e registrar em partitura um repertório construído ao longo da minha trajetória.

Tenho ainda muitas coisas a dizer com meu trabalho criativo e esse projeto abre mais um caminho para continuar fazendo isso.

20) RM: Quais seus contatos?

Roberto Corrêa(61) 99214 – 3051 (para show com Juliana Saenger) | [email protected] | [email protected] | https://www.robertocorrea.com.brhttps://www.instagram.com/robertocorreaviola

Canal: https://www.youtube.com/@RobertoCorreaViola


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