Bento Cruz

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O cantor, compositor e sanfoneiro cearense Bento Cruz é a definição do artista que traz a estrada na veia e a verdade na voz. Com uma trajetória sólida iniciada no final dos anos 90, Bento une a rica experiência de ter integrado algumas das maiores bandas de forró do país ao amadurecimento pleno de sua consolidada carreira solo, iniciada em 2009.

A identidade musical de Bento Cruz foi lapidada diretamente nos palcos e na rota das grandes turnês nacionais. Sua assinatura e instrumentos marcaram época e ajudaram a construir o ecossistema do forró eletrônico e tradicional. Em seu currículo, Bento carrega a bagagem de ter integrado projetos de peso como a Banda Acoxe, Forrotaleza, Bananinha Loura, Solteirões do Forró, Forró Sela Branca e Forró Moral.

Um dos capítulos mais emblemáticos de sua história foi participar da banda da eterna rainha do forró, Rita de Cássia, Redondo e Banda Som do Norte, onde vivenciou intensamente a era de ouro do circuito de shows nordestinos. Toda essa vivência proporcionou a oportunidade de tocar em diversos palcos do Brasil. Em 2009, assumiu o absoluto protagonismo de sua narrativa musical, ingressando em uma jornada solo onde atua como voz principal e sanfoneiro, sendo o mentor de sua própria sonoridade.

No decorrer dos anos, Bento Cruz tem lançado diversos álbuns e singles com releituras e suas próprias composições no mercado musical. Nas plataformas digitais, com destaque para o seu catálogo no Spotify, os ouvintes têm abraçado calorosamente seus lançamentos. É um cantor, músico e compositor cearense que preza genuinamente pelo romantismo e pela cadência do forró pé de serra.

Essa essência fica evidente em dois dos mais recentes lançamentos de sua discografia atual: os singles “Eu te amo tanto” e “Minha morada”. As canções traduzem perfeitamente o “estilo Bento Cruz“, unindo letras que conversam diretamente com o coração, arranjos harmônicos refinados e aquele balanço tradicional que
não deixa ninguém parado.

Para este novo ciclo, o artista promete uma imersão que equilibra com precisão a nostalgia do forró clássico das antigas e as texturas contemporâneas que o mercado exige. Mantendo acesa a chama e o orgulho da cultura nordestina, Bento Cruz consolida seu espaço definitivo na música popular brasileira como um criador autêntico, experiente e em constante evolução.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Bento Cruz para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 17/07/2026:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Bento Cruz: Nasci no dia 06/01/1976 em Tauá, município da região dos Inhamuns, no Ceará. Mas no final da minha infância meus pais (Francisco Galdino Cruz e Francisca Rodrigues da Silva) mudaram Fortaleza – CE, onde passei a maior parte da minha vida. Atualmente moro em São Paulo capital. Registrado como Bento Rodrigues Cruz.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Bento Cruz: Minhas raízes estão profundamente ligadas à música, com uma tradição que se estende por gerações, desde meus avós até meus irmãos. Apesar dessa forte influência, minha história na música teve início aos 14 anos de idade, cantando FUNK em comícios ao lado de amigos, uma época em que a música era, acima de tudo, uma diversão despretensiosa. Aos 16 anos, comecei o aprendizado do violão e, já aos 18 anos, comecei a desenvolver minhas primeiras composições de forma mais madura e estruturada.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Bento Cruz: Sou formado em Pedagogia, pós-graduação em Arte-Educação para o Ensino de Música e uma formação Técnica em Produção Musical pelo IATEC.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Bento Cruz: Minha identidade é moldada por diversos segmentos musicais, mas as minhas maiores influências vêm do pop Rock nacional e do Forró dos anos 90. Tenho uma bagagem muito forte desse período dourado do Forró, pois cresci musicalmente ouvindo e vendo meus familiares interpretarem esse repertório.

Hoje, atualmente tenho profunda admiração por grandes baluartes do Forró, como Flávio José, Santanna o Cantador, Flávio Leandro e Luiz Fidélis, além de acompanhar a nova geração na figura desse fenômeno que encantou o Brasil, que é o João Gomes.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira profissional?

Bento Cruz: Minha estreia profissional ocorreu em 1998, ano em que a banda Cavalo de Pau então uma das maiores potências do Brasil — gravou minha primeira composição, ‘Promessas’, interpretada pela minha irmã, que era a vocalista da banda.Logo em seguida, passei a dividir os palcos com meus irmãos nas principais casas de shows de Fortaleza. Com a vasta experiência que eles já possuíam, fui desafiado a evoluir com rapidez a dinâmica das apresentações ao vivo em um curto espaço de tempo.

06) RM: Quantos álbuns lançados?

Bento Cruz:Tenho quatro albuns e dois single com propostas distintas: Bento Cruz o Melhor do Xote’ (2022), focado nos clássicos do Forró. BENTO CRUZ SÓ XOTE (2025), dedicado a releituras de clássicos do xote. BENTO CRUZ POPXOTE (2025), que traz grandes clássicos da música brasileira dos anos 1970, 1980 e 1990 em ritmo de xote.

ARRAIÁ DO BENTO CRUZ (2026), que resgata e relembra os hinos tradicionais de São João. No campo dos singles, apresento minhas composições autorais: MINHA MORADA, lançada em 2025, e o meu trabalho mais recente, Eu Te Amo Tanto, lançado em maio de 2026.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Bento Cruz: Eu definiria meu trabalho como uma ponte entre a tradição e a inovação. Busco passar a riqueza do Forró com os quais cresci, mas trazendo uma roupagem fresca que converse com o público de hoje. Faço com muito respeito às nossas raízes, mas sem medo de experimentar novos caminhos.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Bento Cruz: Não cheguei a fazer uma formação específica ou isolada em técnica vocal, minha verdadeira escola nessa área foram os palcos e as aulas de canto coral durante a faculdade. Essa vivência prática e coletiva foi fundamental para educar o meu ouvido, desenvolver minha percepção harmônica e me dar segurança com a voz

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Bento Cruz: Cuidar da voz é como cuidar de qualquer instrumento, é o que garante a nossa sobrevivência e longevidade na música, cantar exige respeito aos nossos limites físicos.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Bento Cruz: Em primeiro lugar, sou o fã número um da minha irmã, Francylene Mendes. Foi com ela que aprendi os bastidores reais da profissão, como me comportar nas viagens, a postura nos camarins, a dinâmica dos shows e, acima de tudo, como gerenciar e cuidar da carreira com seriedade. Mas, além dessa grande escola que tive dentro de casa, carrego uma admiração profunda por gigantes como Marinês, Clemilda, Cecéu, Elba Ramalho e tantas outras cantoras nordestinas incríveis que pavimentaram o nosso caminho.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Bento Cruz: Diferente de muitos compositores, eu não tenho rituais, manias ou fico esperando um momento de inspiração divina para criar. Meu processo é muito simples e prático: eu sento, pego papel e caneta, puxo a sanfona, o violão ou me sento ao teclado, e simplesmente começo. A música acontece na ação, no contato direto com o instrumento.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Bento Cruz: Eu componho sozinho a maioria das vezes, mas já fiz grandes músicas com parceiros. O meu irmão, Luizinho Kapaloka, é o parceiro de composição com que mais produzi até hoje. criar ao lado dele é um processo muito natural.

13) RM: Quem já gravou as suas músicas?

Bento Cruz: Tive a felicidade de ter minhas composições gravadas por ícones como Banda Cavalo de Pau, Banda Forrótaleza, Banda Mesa Sete, Pymentta Roza, Adriana Moraes, Trio Zabumbado, Banda Sela Branca e outros que não me vêm na memória.

14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Bento Cruz: Olha, o caminho independente é bonito, mas é de muito suor. Para mim, a maior vantagem disso é a liberdade artística. Você é dono do seu próprio som. Ninguém vai te dizer qual música gravar, como deve soar seu som ou o que você tem que cantar para agradar o mercado. A obra é sua, os direitos são seus, e cada conquista tem um sabor de vitória de verdade, porque foi você quem plantou.

Agora, o contra, é que a gente carrega o peso nas costas. Ser independente é ser o músico, o compositor, o produtor de estúdio, o cara que fecha o show e o que cuida das redes sociais. Se você não tiver uma cabeça de empresário para entender o mercado e planejar cada passo, o lado burocrático engole a sua arte. É preciso investir do próprio bolso e cavar cada espaço no corpo a corpo. No fim das contas, é uma escolha: dá mais trabalho, mas não tem preço olhar para o seu trabalho e ver a sua verdade ali, do jeitinho que você planejou.

15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Bento Cruz: Busco dar um passo de cada vez, priorizando a qualidade do repertório e construindo uma identidade visual e sonora forte que faça o público me reconhecer. Fora dos palcos, meu foco é evoluir constantemente musicalmente, no marketing, além da busca constante de relações no meio artístico. No mercado independente, essa união de crescimento, boa divulgação e uma rede de contatos forte é o que realmente sustenta a nossa caminhada.

16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Bento Cruz: Então, empreender na música hoje vai muito além de subir no palco e tocar. Para fazer a engrenagem girar de forma independente. Eu coloco a mão na massa em algumas frentes, eu não fico esperando gravadora nenhuma fazer por mim. Eu mesmo assumo a frente no estúdio, cuido da produção, dos arranjos e direcionar cada lançamento. Trato a minha carreira como uma empresa. Planejo como a minha identidade vai ser mostrada, crio conteúdo focado no lançamento que vou fazer e usar o marketing digital para impulsionar e fazer o meu som alcançar as pessoas certas.

Hoje em dia, o artista tem que saber vender o seu peixe. Empreender é saber se relacionar. Eu busco sempre estar fazendo novos contatos com parceiros, compositores, radialistas e contratantes. Essa rede forte é o que abre portas para novos shows e parcerias. Isso dinheiro nenhum compra. Parte do que entra na minha carreira volta para ela. Invisto na manutenção e melhoria de instrumentos, em equipamentos de estúdio e tiro tempo para evoluir musicalmente. Quem pára no tempo é estátua, e a gente tem que se atualizar todo dia. No fim das contas, a minha principal ação empreendedora é entender que a minha arte também é a minha empresa.

17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Bento Cruz: Do lado que ajuda, a internet é o nosso canal direto com o povo. Antigamente, para a música de um artista independente tocar lá no outro lado do país, precisava de uma estrutura gigantesca, de gravadora, de jabá nas rádios, de muita indicação. Hoje, se eu gravo uma música no meu estúdio, em poucos minutos ela está disponível no mundo inteiro. A distribuição ficou democrática.

Eu consigo falar direto com o meu público pelas redes sociais, testar repertório novo em tempo real e fechar shows com contratantes de longe. Ela encurtou as distâncias. Por outro lado, para a sua voz se destacar nessa multidão digital, o esforço é triplicado. Outra coisa que atrapalha muito é a cobrança invisível para o artista virar um criador de conteúdo em tempo integral. Você precisa estar postando o dia todo para o algoritmo entregar o seu trabalho.

18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Bento Cruz: Rapaz, essa revolução do home estúdio é uma transformação gigante para o artista independente. Do lado das vantagens, a maior delas é a liberdade de tempo e de criação. Com um computador, uma placa de som e um microfone, você mesmo grava, edita e pré-produz o seu trabalho, no seu tempo e dentro de casa, sem gastar com horas caras de estúdio profissional.

Por outro lado, a facilidade tecnológica trouxe como desvantagem a explosão de falsos professores de produção musical, na internet muita gente sem experiência vende fórmulas mágicas e cursos com informações rasas, o que acaba confundindo o produtor iniciante e fazendo com que ele gaste tempo e dinheiro com truques superficiais, em vez de focar no que realmente importa, o estudo sério a dedicação e a prática constante para desenvolver a sua própria identidade sonora.

19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Bento Cruz: Hoje, o grande desafio não é mais gravar, mas sim conseguir a atenção do povo no meio desse mar de lançamentos diários. Para me diferenciar e não ser apenas mais um, eu sigo um caminho. Primeiro, eu tento não ter pressa. Enquanto muita gente lança qualquer coisa correndo só para bater meta de algoritmo, eu prefiro trabalhar cada música com calma, priorizando a verdade do meu som.

Segundo, eu busco construir uma identidade. Eu quero que, na hora em que a pessoa escutar a minha música, ela a reconheça de imediato. Pelo levada da sanfona e pela batida, ela tem que saber de cara que ali tem o toque do Bento Cruz. Por fim, eu gosto de falar sobre coisas boas em minhas músicas, então faço de tudo para que o som soe simples e verdadeiro. Hoje em dia, o grande diferencial de um artista não é apenas tocar bem. o verdadeiro segredo é saber tocar o coração das pessoas.

20) RM: Como você analisa o cenário do Forró? Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas e quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Bento Cruz: Se a gente olhar para as revelações das últimas décadas, o João Gomes é um fenômeno que não dá para ignorar. Ele apareceu com uma força impressionante, uma simplicidade que conversa direto com o povo, com uma linguagem moderna que a juventude abraçou.

O Mestrinho também é uma realidade que temos hoje. Ele é um músico completo que carrega a herança e a benção do mestre Dominguinhos. Ele manteve o nível do forró lá em cima. Sobre quem regrediu, eu acho que não é quem, mas o quê. O que regrediu no cenário atual foram os artistas que se entregaram totalmente ao modismo. Muita gente acabou se perdendo no caminho em busca do ‘hit’. Quando o artista troca a sua identidade e a sua verdade para correr atrás do ‘hit’, a música dele perde a alma, e uma carreira sem verdade não se sustenta no tempo.

21) RM: Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Bento Cruz: Olhando para trás e ver a nossa base, Dominguinhos é o maior exemplo de tudo um mestre na sanfona, na voz e na humildade. E ao lado dele, gigantes como Flávio José e Santanna, o Cantador, que mantêm a bandeira do forró tradicional lá no alto e o respeito que eles têm ao público. também Jorge de Altinho, Flávio Leandro, Zé Cantor um dos artistas mais humildes que conheci e como poucos entrega uma energia impecável no palco. e a nova geração, o João Gomes, que mesmo com a pouca idade e o sucesso estrondoso, mantém o pé no chão, a simplicidade e o respeito pelo nosso forró. Na verdade tem mais um monte de gente boa que não cabe na lista, mas todos esses têm em comum o amor pelo que fazem e o compromisso de entregar o melhor do forró para o povo.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para o show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

Bento Cruz: Teve uma vez lá em uma cidade do Ceará chamada de Parambu, o sufoco foi grande! o show tinha acabado, e o contratante cismou que a gente tinha que tocar mais uma hora. Ele queria pagar em cheque, mas o empresário não disse: Nós não aceitamos cheque. O cabra era valentão e ficou com muita raiva pois achou que estava duvidando de sua honestidade, e na marra, obrigou a banda a tocar de graça até o amanhecer. Ele simplesmente escalou uns caras armados para ficarem de cada lado do palco vigiando a gente. Não teve conversa, tivemos que tocar o resto da noite inteira olhando para o cano das armas, rezando para o dia clarear logo e a gente sair dali. Pense num sufoco.

23) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Bento Cruz: O privilégio de fazer o que eu amo, poder viver de música, colocar a sanfona no peito, cantar e ver que minha música toca o coração das pessoas é a maior recompensa que existe. Eu me sinto um cara de muita sorte e, de verdade, não tenho absolutamente nada a reclamar. Claro que a estrada tem seus apertos e a gente enfrenta desafios todos os dias, mas quando a música toca, qualquer cansaço some. No final é só gratidão por cada momento que a música me proporciona.

24) RM: Qual a sua opinião sobre o movimento do “Forró Universitário” nos anos 2000?

Bento Cruz: Olha, rapaz, eu vejo o movimento do forró nos anos 2000 como uma época muito bonita e de muita força, porque ajudou a levar o nosso ritmo para o Brasil inteiro. Bandas daquela época fizeram um trabalho muito bonito de resgatar clássicos do Luiz Gonzaga, do Dominguinhos e do Jackson do Pandeiro, apresentando essa riqueza para um público que talvez não a conhecesse. Isso tudo tem um valor enorme.

Agora, se você me perguntar do rótulo ‘Forró Universitário’, eu vou ser bem sincero, eu não gosto desse termo. Para mim, esse nome carrega uma ideia meio torta, quase como uma eugenia musical. Parece que o forró precisou passar pelo filtro de uma classe social diferente para ganhar status, para ser considerado ‘limpo’ ou ‘aceitável’. O forró, na verdade, é do povo, é do pobre, do rico, do preto, do branco, do índio. Ele não precisa de diploma e nem de rótulo gourmetizado para ter valor. A nossa música já nasceu rica. Então, eu celebro demais o movimento, a energia daquela época e as músicas lindas que surgiram, mas defendo sempre que o forró é um só, feito do sentimento de quem toca e de quem dança.

25) RM: Quais os grupos de “Forró Universitário” chamaram sua atenção?

Bento Cruz: Bem, eu conheço poucos, pois eu estava inserido na cena do forró nordestino, e lá não chegou muito forte esse movimento, mas gosto muito do Falamansa e do grupo Rastapé

26) RM : Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Bento Cruz: Infelizmente, o rádio hoje virou um jogo bruto onde o critério não é o talento, o talento não tem relevância e sim o lucro. Sem o jabá, torna-se quase impossível para o artista independente ter a sua música executada no rádio. Talvez com um amigo de rádio, um radialista e um parceiro toque a música. Mas, no fundo, acho isso muito difícil.

27) RM : O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Bento Cruz: Se você quer trilhar uma carreira musical, o meu conselho é bem direto: tenha foco, persistência e dedicação. A música é uma das profissões mais bonitas do mundo, mas a estrada é longa, cheia de curvas e exige couro grosso. Sem foco, você pode se perder no meio do caminho e deixar de lado a sua identidade. Sem persistência, você desiste no primeiro pneu furado, no primeiro não ou quando perceber que o jogo do mercado é bruto. E sem dedicação, você não lapida o seu talento para entregar o seu melhor quando a oportunidade finalmente aparecer. Acredite no seu som, respeite a sua verdade e trabalhe duro todos os dias. O caminho é difícil, mas para quem tem essa base, a recompensa de viver da própria arte não tem preço.

28) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?

Bento Cruz: É uma lindeza sem tamanho ver a nossa cultura celebrada em palcos grandes. Mas, para mim, o festival só cumpre o seu papel bonito de verdade quando ele abraça todo mundo. Porque, na minha ótica, falta o principal: acessibilidade, tanto para o público quanto para os artistas pequenos. O lado bonito é a chance que o artista tem de mostrar o seu show para uma multidão que talvez nunca o conhecesse de outra forma. Essa troca de energia é muito bacana.

Agora, o contra é que muitos festivais estão virando eventos de elite. O ingresso custa os olhos da cara e quase tudo fica concentrado nas capitais, o que acaba afastando o trabalhador do interior e da periferia que ama a música. E, para o artista pequeno, as seleções muitas vezes parecem ter ‘cartas marcadas’ e, quando dá certo, ainda querem pagar com a tal da ‘visibilidade’.

29) RM: Na sua opinião, hoje os Festivais de Música ainda é relevante para revelar novos talentos?

Bento Cruz: Como a gente acabou de conversar, o ‘lado bonito’ do festival é justamente esse, ele continua sendo uma vitrine sem tamanho. Nada substitui a força de um artista pequeno subir num palco grande e mostrar o seu show para uma multidão que talvez nunca o conhecesse de outra forma. Essa troca de energia ao vivo, o olho no olho com o público, tem um poder que a internet não consegue copiar. É ali, no palco, que o artista mostra porque veio.

Mas, para que essa relevância continue viva na prática, a gente precisa bater na mesma tecla, o festival só cumpre esse papel de verdade se ele combater as tais ‘cartas marcadas’ e parar de querer pagar o artista com ‘visibilidade’. Então, respondendo à sua pergunta, sim, eles são essenciais. Quando o festival abre espaço real e trata o artista pequeno com dignidade, ele não é só relevante, ele é essencial para nossa cultura.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Bento Cruz: Se olharmos para trás, o rádio de grande porte e a televisão funcionavam como os únicos ‘porteiros’ do sucesso. Eles ditavam de forma absoluta o que o povo iria ouvir, o que faria sucesso e quem teria espaço no mercado. O artista que não estivesse sob as asas de uma grande gravadora, com forte investimento nesses canais, simplesmente não existia para o país. Hoje, esse poder centralizado desmoronou.

O público não precisa mais esperar a programação de uma rádio ou um programa de TV aos domingos para descobrir novidades, as plataformas de streaming e as redes sociais deram ao ouvinte o poder de escolher o que quer ouvir e quando quer ouvir. Antes, a mídia tradicional criava o sucesso para depois o povo consumir.

Hoje, o fenômeno acontece primeiro na internet, de forma orgânica e popular, e a grande mídia é quem corre atrás para tentar entender o que já está estourado na boca do povo. A mídia tradicional ainda tem o seu papel de amplificadora, mas o poder de ditar as regras do jogo e controlar o gosto popular ela perdeu de vez.

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Bento Cruz: Então, se você me perguntar sobre o trabalho do SESC, do SESI e do Itaú Cultural, eu tiro o chapéu e digo sem medo, esses espaços são, hoje, os verdadeiros oásis para o artista independente e para a música de raiz no nosso país.

32) RM: Qual a sua opinião sobre as bandas de Forró das antigas e as atuais do Forró Estilizado?

Bento Cruz: Se você me perguntar sobre o Forró das Antigas e o Forró Estilizado de hoje, a minha opinião é bem clara, eu sou um apaixonado pelas bandas antigas, mas respeito e não critico a moçada nova que está na estrada. Aquela safra boa dos anos 90 e início dos anos 2000 deixou sua marca. Aquilo ali é a trilha sonora da vida de muita gente. As letras eram verdadeiras poesias, falam de amor, de saudade e do nosso sertão de um jeito muito bonito.

Os arranjos eram bem trabalhados, é um som que eu escuto e defendo com unhas e dentes. Sobre as bandas atuais do Forró Estilizado, eu tenho uma postura de muito respeito e não crítico. O mundo mudou, a internet mudou a velocidade das coisas e a música acompanha o seu tempo. Essa moçada nova trouxe muita tecnologia para o palco, uma estrutura de show gigantesca e uma linguagem que fala direto com a juventude de hoje.

Eles conseguem lotar arenas, mantendo o nome do forró em evidência nos grandes mercados e no topo das plataformas digitais. Eu acho que a música é um rio que corre o tempo todo. Eu escolho beber da água daquela fonte mais antiga, que é o som que me move e me emociona de verdade. Mas compreendo e respeito o espaço de quem quer beber em outra fonte. O sol nasce para todos, o importante é que a sanfona continue roncando e a nossa cultura continue viva.

33) RM: Qual a sua opinião sobre o uso do Teclado no Forró?

Bento Cruz: Olha Quando o tecladista senta na banqueta, bota os dedos nas teclas e toca direitinho, de verdade, eu não tenho nada a dizer. O sol nasceu para todos e a minha ótica segue aquela mesma linha, eu respeito o trabalho do músico e as transformações do nosso tempo. O instrumento eletrônico, quando bem tocado, tem o seu valor e o seu espaço no mercado. Mas eu não penso favorável quando entra a falta de respeito com a nossa profissão.

Quando o cabra pega um playback gravado ou da internet, coloca no teclado e contrata uma pessoa só para ficar ali na frente fingindo que está tocando, isso não é música, é enganação. E o pior, esse tipo de esquema vai para a noite e cobra um valor lá embaixo, um preço muito barato. Esse comércio desleal acaba tirando o trabalho e o pão de cada dia daquele músico profissional seja um sanfoneiro, um zabumbeiro ou o próprio tecladista de verdade que passou meses, anos da vida estudando, gastando calo nos dedos e investindo tempo e dinheiro para aprender a tocar com dignidade.

34) RM: Quais os seus projetos futuros?

Bento Cruz: Sobre o amanhã, é muito claro, os meus projetos futuros são continuar fazendo exatamente aquilo que ferve no meu sangue. Quero continuar tocando, compondo, cantando e produzindo, porque a música não é só o meu trabalho, ela é a minha grande paixão.

O plano é seguir firme no estúdio, botando a cabeça para trabalhar, gravando e lançando as minhas músicas. E, quem sabe um dia, se Deus permitir, alcançar mais e mais pessoas com o meu som. O meu projeto de vida é esse, manter a sanfona roncando, a caneta riscando para escrever novas poesias e a porta do estúdio aberta para botar a nossa cultura no mundo.

35) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Bento Cruz: (11) 95335 – 0249 | [email protected] | https://www.instagram.com/bentocruzoficial | https://www.facebook.com/bento.cruz.921

Canal: https://www.youtube.com/@bentocruz8504

https://www.suamusica.com.br/bentocruzr/bento-cruz


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