A Música Sertaneja e suas transformações

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A Música Sertaneja passou por uma das maiores transformações da história da música brasileira. Embora as duplas de todas as épocas compartilhem algumas características fundamentais, houve mudanças profundas na forma de cantar, compor, gravar, se apresentar e se relacionar com o público.

Semelhanças: Apesar das mudanças, há elementos que permaneceram ao longo de quase um século:

  • A formação em dupla (duas vozes) continua sendo a principal característica do gênero.
  • As vozes em primeira e segunda continuam sendo uma marca da música sertaneja, ainda que com estilos diferentes.
  • A narrativa de histórias permanece importante.
  • O amor continua sendo o tema predominante.
  • A valorização da identidade brasileira e do interior ainda aparece, embora com menor intensidade atualmente.
  • A viola caipira continua sendo um símbolo do gênero, mesmo não sendo mais o instrumento principal na maioria das gravações.
  • O público continua valorizando a emoção e a identificação com as letras.

As Diferenças:

1. Artistas de 1930 a 1980: grande parte das duplas era formada por artistas que nasceram e viveram no campo. Exemplos: Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Pena Branca e Xavantinho, Liu e Léu, Zilo e Zalo, Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé Di Camargo e Luciano, João Paulo e Daniel.

Vivenciavam diretamente: trabalho rural, festas religiosas, boiadas, folias, catira, mutirões, vida na roça.

Artistas de 1990 até hoje: a maioria nasce em cidades. Mesmo quando possuem origem interiorana, cresceram em ambiente urbano.

Exemplos: Jorge & Mateus, Henrique & Juliano, Zé Neto & Cristiano, Maiara & Maraisa.

2. Instrumentação antigas: instrumentos predominantes: viola, violão, sanfona, acordeom, reco-reco, pandeiro, raramente bateria. O som era bastante acústico.

3. Instrumentação Modernas: predominam: guitarras, bateria, baixo elétrico, teclado, sintetizadores, programação eletrônica, efeitos digitais. A viola aparece como elemento de identidade, mas nem sempre ocupa papel central.

Forma de cantar até os anos 80: Vozes naturais. Pouca edição. Grande preocupação com: afinação, divisão de vozes, timbre. A segunda voz tinha enorme importância.

Forma de cantar a partir dos anos 90: as harmonias continuam presentes, mas há: mais recursos tecnológicos, uso de afinação digital, vocais mais próximos do pop, interpretação mais conversada.

Temas das letras antigas predominavam: saudade da roça, boiadeiros, cavalos, religião, família, trabalho, natureza, migração rural. Canções como: “Tristeza do Jeca”, “Cabocla Tereza”, “Pagode em Brasília”.

Temas das letras Modernas predominam: namoro, baladas, festas, bebida, relacionamentos, término, superação, empoderamento feminino.

Ritmos até os anos 80 baseados em: moda de viola, cururu, cateretê, toada, pagode caipira, rasqueado, guarânia, polca paraguaia.

Ritmo a partir dos anos 90 misturam: sertanejo, pop rock, country, arrocha, forró, funk, eletrônico.

Mercado musical antigo os artistas dependiam: do rádio, de discos de 78 rpm, LP, programas sertanejos. Os shows eram menores.

Mercado musical atual dependem de: streaming, YouTube, redes sociais, festivais, grandes turnês, plataformas digitais.

Produção musical antigas: Gravações quase ao vivo. Poucos canais. Pouca edição.

Produção musical Moderna: é uma produção extremamente sofisticada com gravação em dezenas de canais, edição digital, mixagem internacional, masterização moderna.

Aparência Antigas eram roupas simples. Muito ligadas ao homem do campo: chapéu, botas, camisa xadrez.

Aparência Moderna o visual é inspirado em: moda country, pop, grifes, tendências internacionais

Composição Antiga era o próprio artista que escrevia suas músicas. Exemplos: Tião Carreiro, Pardinho, Teddy Vieira, Lourival dos Santos.

Composição Moderna agrande parte do repertório vem de equipes profissionais de compositores. Há escritórios especializados produzindo músicas para diversos artistas.

Público até os anos 80 predominava: população rural, migrantes, trabalhadores. Público Hoje. O sertanejo tornou-se um gênero nacional, com público em: capitais, Interior, universidades, festivais, casas de shows.

Comparativo resumido:

AspectoAnos 30–80Anos 90–atualidade
OrigemRuralPredominantemente urbana
Instrumento principalViola caipiraViolão, guitarra e produção eletrônica
SonoridadeAcústicaPop, eletrificada
TemasCampo, família, religiosidade, boiadasAmor, festas, relacionamentos, cotidiano urbano
  GravaçãoSimples, quase ao vivoAltamente produzida em estúdio
  DivulgaçãoRádio e discosStreaming, redes sociais e vídeos
  ComposiçãoPrincipalmente pelos próprios artistasFrequentemente por equipes de compositores
  PúblicoRural e migrantesNacional e diversificado
  ShowsPequenos e regionaisGrandes espetáculos com tecnologia de palco

Do ponto de vista histórico, as duplas das décadas de 1930 a 1980 podem ser associadas à música caipira tradicional, profundamente ligada ao universo rural e às tradições do interior. A partir dos anos 1990, consolidou-se o chamado sertanejo moderno, que incorporou influências do pop, do country, do rock e, mais recentemente, do eletrônico e de outros gêneros.

Essa evolução não representa uma ruptura completa. Muitos elementos da tradição — como o canto em dupla, a valorização da melodia e o diálogo com a cultura do interior — permanecem presentes, ainda que reinterpretados. Ao mesmo tempo, diversos artistas contemporâneos têm resgatado a viola caipira, regravado clássicos e homenageado pioneiros, demonstrando que a história da música sertaneja é marcada tanto pela preservação quanto pela renovação.


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