João Paulo Amaral
O músico, arranjador, compositor, professor e produtor, é reconhecido como um dos principais violeiros de sua geração. Com mais de 25 anos de carreira, João Paulo Amaral busca unir musicalidade, tradição e modernidade para trilhar novos caminhos para a viola brasileira, sem abandonar suas raízes.
Natural de Mogi das Cruzes-SP, seu primeiro contato com a música caipira foi na infância, ao acompanhar seu pai em cantorias ns sua cidade e interior de Minas Gerais. Graduado e pós-graduado pela Unicamp, com o 1º mestrado em música sobre viola no país (com pesquisa sobre Tião Carreiro), é professor da EMESP Tom Jobim(desde 2005) e idealizador do elogiado Festival Viola da Terra.
Sobre seu trabalho, escreveram: “A música pode ser bonita, difícil, interessante, e muitas outras coisas. Nas mãos do João Paulo, a música é arte!” (Ulisses Rocha). “…além das cores e matizes regionais bem delineados, descobrimos uma viola do futuro” (Paulo Bellinati) “… só pelo tanto que toca já deixou seu nome impresso na história da viola” (Ivan Vilela). “Lindo disco do compositor, violeiro e cantor João Paulo Amaral. Nada como ouvir a boa música tocada e cantada com respeito (…) João Paulo Amaral é dos grandes violeiros de sua geração” (Maria Luiza Kfouri)
Em 2010, com seu trio formado por Alberto Luccas (baixo acústico) e Cleber Almeida (bateria e percussão), lançou “Viola Brasileira”, seu primeiro álbum em carreira solo. O disco foi elogiado pela crítica especializada por inovar ao trazer a viola para um contexto contemporâneo, incluindo a improvisação a partir dessa formação de trio jazzístico.
Seu mais recente album, “Aço da terra”(2021) contou com as participações de Alberto Luccas (baixo acústico), Ana Luiza (voz), Cleber Almeida (bateria), Ricardo Herz (violino) além do seu pai, Valdo (voz) aos 82 anos. Sua composição “Linha Motriz” foi uma das 10 finalistas na categoria instrumental do festival nacional eFestival, além de entrar para uma playlist editorial do Spotify e, em uma versão solo, para o EP o album/coletânea Viola Paulista Vol.2 (Selo Sesc).
Além de sua carreira solo, dirigiu o Trio Carapiá, é integrante do premiado trio Conversa Ribeira e diretor da Orquestra Filarmônica de Violas (fundada por Ivan Vilela).
Participou de festivais e concertos em Portugal, Espanha, Inglaterra, México e Estados Unidos, além da gravação de mais de 40 álbuns e projetos com nomes como Renato Teixeira, Robertinho Silva, Natan Marques, Guinga, Luis Felipe Gama e Ana Luiza, Mônica Salmaso, Renato Braz, Toninho Ferragutti, Nailor Proveta, Ivan Vilela, Neymar Dias, Paulo Freire, Ricardo Herz, Paulo Braga, Weber Lopes, Ricardo Matsuda, Isa Taube, Consuelo de Paula, Jean Garfunkel, Wolf Borges, Harvey Wainapel, Jovino Santos Neto, Fábio Presgrave, Rodrigo Digão Braz, Gustavo Bugni, Orquestra Municipal de Jundiaí, Orquestra Sinfônica de Sorocaba, entre outros.
Segue abaixo entrevista exclusiva com João Paulo Amaral para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 15/05/2026:
01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?
João Paulo Amaral: Nasci no dia 19/12/1977 em Mogi das Cruzes – SP. Registrado como João Paulo do Amaral Pinto.
02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.
João Paulo Amaral: Meu primeiro contato foi na infância, em casa mesmo. Meus pais são mineiros, se conheceram num coral da igreja em Itajubá (MG), então a música sempre esteve presente. Somos eu e mais quatro irmãs, em casa sempre teve violão, piano, então naturalmente crescemos ouvindo e brincando de tocar e cantar. Meu pai sempre cantava e depois começou a aprender violão, aos poucos eu ia brincando com o instrumento.
Lembro também quando eu tinha lá meus cinco anos de idade, e meu primo Heraldo e meu cunhado Omar tocavam violão quando iam em casa, além do meu vizinho que também tinha violão e depois ganhou uma guitarra de brinquedo. Aí com uns 10, 11 anos de idade comecei a me interessar mais pelo violão, tive meus primeiros professores (Vital Medeiros e Jumar Silva) e logo depois me interessei pela guitarra e montei minhas primeiras bandas, ao mesmo tempo em que tocava junto com meu pai em cantorias.
03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?
João Paulo Amaral: Eu fiz bacharelado em Música Popular e mestrado em Música (com pesquisa sobre o violeiro Tião Carreiro), ambos na Unicamp. Entretanto, antes da música, cheguei a fazer pouco mais de um ano de Engenharia Elétrica na mesma universidade, mas não concluí.
04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?
João Paulo Amaral: Várias influências, desde o que eu escutava na minha infância e adolescência nas décadas de 80 e 90, até ao que vim a escutar quando comecei a me interessar pela carreira de músico. Então no início, acabava escutando música caipira, seresta, música antiga da era do rádio, música americana (Frank Sinatra, Elvis Presley, etc) e outras coisas que meu pai gostava e cantava.
Na adolescência, comecei a tocar guitarra, pois gostava de rock, então escutei muitas bandas clássicas e mais recentes de rock internacional e nacional. Também por influencia da minha mãe e irmãs, e das cantorias familiares em casa, acabava escutando MPB e outras formas de canção brasileira, além de música clássica que minha mãe adorava.
Já no período em que decidi ser músico, passei a escutar música instrumental brasileira, MPB, bossa nova, jazz norte-americano e europeu, diversos violonistas e guitarristas brasileiros e de fora, e mais adiante os violeiros desde os mais tradicionais até os mais contemporâneos. Acho que nenhuma influência deixa de ter importância, a gente só nem sempre se utiliza delas de forma evidente nas escolhas artísticas que fazemos, mas elas estão lá no nosso baú de idéias e ferramentas.
05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?
João Paulo Amaral: Dá para dizer que, mesmo de forma amadora, comecei na adolescência, em Mogi das Cruzes – SP, seja nas bandas com meus amigos, seja nas cantorias e gravações que fazia com meu pai informalmente. Num segundo momento, quando realmente já tinha decidido seguir a profissão de músico, comecei a tocar profissionalmente em Campinas e região, a partir de 1999 quando já estava cursando música na Unicamp.
06) RM: Quantos álbuns lançados?
João Paulo Amaral: Além de alguns singles, tenho 11 álbuns dos meus principais projetos artísticos (solo/trio, Conversa Ribeira, Orquestra Filarmônica de Violas, etc):
2021, Aço da terra – João Paulo Amaral
2019, Do verbo chão – Conversa Ribeira
2017, Encontro das águas – Orquestra Filarmônica de Violas convida solistas
2014, Cordal – Almir Côrtes e João Paulo Amaral
2013, Águas Memórias – Conversa Ribeira
2012, Orquestra Filarmônica de Violas II – Orquestra Filarmônica de Violas
2010, Viola Brasileira – João Paulo Amaral trio
2008, Livro/CD Viola Caipira – arranjos instrumentais de músicas tradicionais – João Paulo Amaral (1a edição em 2018 / 2a edição 2019, formato eBook e vídeos)
2007, Conversa Ribeira – Conversa Ribeira
2006, Levante – Trio Carapiá
2005, Orquestra Filarmônica de Violas – Orquestra Filarmônica de Violas
07) RM: Como você se define como Violeiro?
João Paulo Amaral: Assim como outros violeiros da minha geração, eu trago uma proposta que procura utilizar da diversidade de sonoridades e elementos tradicionais da viola, vocabulário que constantemente busco ampliar com minhas pesquisas mas, ao mesmo tempo ampliar o repertório, os universos musicais e as técnicas do instrumento. O desafio é se dar a liberdade de expressar com a viola novos repertórios e caminhos musicais, guiados pelo nosso interesse musical e artístico.
08) RM: Quais afinações você usa na Viola?
João Paulo Amaral: Principalmente o Cebolão (D) e a Boiadeira, mas também outras como Rio-abaixo, Sobre-requinta, Rio-abaixo menor, etc.
09) RM: Quais as principais técnicas o violeiro tem que conhecer?
João Paulo Amaral: Depende do interesse musical e conexão regional de cada um. Do lado tradicional, acho importante conhecer e aprender ao máximo as técnicas, toques, ritmos das diversas tradições da viola brasileira (viola caipira, viola sertaneja, viola nordestina, viola caiçara etc). Mas é claro que isso é muita coisa, então a gente acaba se dedicando mais àquelas com as quais têm maior afinidade.
No meu caso, por eu ter uma ligação familiar com os estados de São Paulo e Minas, a viola caipira sempre foi a que mais me interessou e a que eu mais pesquisei, mas conheço também um pouco das outras linguagens/tradições. Do outro lado estão as possibilidades de expandir o universo da viola, aí entram outras técnicas e estudos que podem ajudar nesse objetivo. Estudei violão popular e um pouco de clássico, estudei guitarra, improvisação. Além disso, aprender o toque, a técnica e as músicas de outros violeiros é muito enriquecedor.
10) RM: Quais os violeiros que você admira?
João Paulo Amaral: Muitos! Helena Meireles, Zé Côco do Riachão, Tião Carreiro, Zé do Rancho, Bambico, Renato Andrade, Tavinho Moura, Almir Sater, Gedeão da Viola, Índio Cachoeira, Paulo Freire, Ivan Vilela, Levi Ramiro, Messias da Viola, Vinícius Alves, Juliana Andrade, Neymar Dias e um tanto de gente.
11) RM: Como é seu processo de compor?
João Paulo Amaral: Normalmente as ideias iniciais surgem quando estou tocando livremente, improvisando, buscando criar alguma pequena e boa ideia no instrumento. Aí é um processo de desenvolver aquela ideia até onde é possível naquele tempo livre que a gente tem. Ao final, eu registro gravando e depois revejo, se achar que a ideia é boa, retomo o processo de onde parei.
12) RM: Quais as principais diferenças técnicas entre a Viola e o Violão?
João Paulo Amaral: Algumas. O timbre e todas as questões determinadas pelas cordas duplas da viola, a postura e as técnicas de mão direita, as afinações e número cordas que determinam uma série de possibilidades e impossibilidades harmônicas/melódicas na viola, o uso das cordas soltas, a abordagem horizontal do braço, entre outras.
13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?
João Paulo Amaral: A vantagem é você poder fazer a música da forma que deseja, sem precisar necessariamente atender a demandas específicas de um mercado/gravadora/empresário. A desvantagem é que você precisa se autogerir em todas as frentes que envolvem a carreira musical, encontrar formas de sobreviver, manter e divulgar seus projetos artísticos.
14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?
João Paulo Amaral: Acho que em primeiro lugar é buscar fazer o seu som de forma honesta musicalmente, com boas parcerias artísticas e profissionais, trazendo a maior qualidade artística e técnica que estiver ao seu alcance, tanto ao vivo como nas gravações que decidir fazer; e aqui na minha opinião, apesar da instantaneidade dos tempos atuais, vale investir em projetos que levam mais tempo para tomarem forma, se desenvolver e amadurecer antes que se possa mostrar ao público. Agora, o que demanda muito tempo e energia é o que vai além da música, a parte de produção, buscar parcerias, apoios/editais para seus projetos, divulgação, manter as redes sociais porque, sem isso, também fica difícil viabilizar.
15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?
João Paulo Amaral: Procuro diversificar as ações, tentando desde busca de oportunidades diretamente com possíveis contatos/parcerias que possam viabilizar shows, até projetos em editais, leis de incentivo etc.
16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?
João Paulo Amaral: Ajuda na democratização do acesso à nossa produção artística e na comunicação direta com o público. Prejudica pelo excesso de informação disponível, muitas vezes desorganizada e sem um filtro digamos mais artístico, mas sim um filtro mais comercial, ditado normalmente pelo algoritmo mercantil das redes. Também é notória a exploração financeira das plataformas de streaming em relação ao pagamento do artista independente. Na mesma direção, o sistema, como está organizado, acaba que explora e exige dos artistas que, para existir, invistam na criação de conteúdo que alimenta e movimenta gratuitamente as redes, as quais de fato lucram com os impulsionamentos, anúncios etc.
17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?
João Paulo Amaral: A vantagem é talvez dar ao músico mais liberdade de experimentação, para testar ideias e então produzir e registrar seus materiais com redução de custos de produção. Também ajuda a viabilizar mais gravações à distância, permitindo conectar pessoas e trabalhos artísticos. A desvantagem é a de nem sempre ter a garantia de um padrão de qualidade no resultado: para isso tem que haver um estudo para dominar o universo do audio e as ferramentas técnicas de gravação – o que também exige tempo de dedicação e investimento nesse aprendizado.
18) RM: O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?
João Paulo Amaral: Creio que a diferenciação ocorre naturalmente a partir do momento em que a gente tem aquela vontade grande de criar o nosso próprio som, do nosso jeito, com a nossa assinatura, sempre procurando algo de novo, fruto da soma da nossa experiência, pesquisa e estudo, fruto da dedicação em lapidar nossos arranjos/composições, fruto do nosso contato íntimo com o instrumento e de inventar novas possibilidades, fruto do aprendizado e troca com outros músicos, etc.
19) RM: Como você analisa o cenário da Música Sertaneja Caipira/Raiz?
João Paulo Amaral: A Música Sertaneja Caipira/Raiz – assim como outros que têm sua base nas culturas populares, muitas delas de origem rural – tem uma força muito grande e ainda tem espaço para crescer e ter maior visibilidade.
Como na música brasileira em geral, vejo um leque amplo de vertentes, protagonizadas por diversas gerações, das mais antigas às mais jovens, e com uma crescente participação das mulheres, inclusive que se dedicam a ser violeiras com carreira instrumental.
Desde duplas, artistas, grupos, violeiros e violeiras mais ligados às tradições, da música caipira ou de outras “regionalidades” que buscam focar em manter as matrizes, linguagens e repertórios mais tradicionais, até aqueles que procuram mesclar essas matrizes com outras linguagens e universos musicais.
Em relação ao segmento da viola instrumental, vejo um momento de crescimento onde há muitos trabalhos interessantes em atividade. Boa parte deles tivemos a oportunidade de contemplar nas três edições do Festival Viola da Terra que realizamos nos anos de 2021, 2022 e 2024.
20) RM: Como você analisa o cenário da música Sertaneja pop?
João Paulo Amaral: É uma indústria de entretenimento muito forte, que movimenta e concentra financeiramente uma fatia muito grande do mercado da música, mas que, infelizmente, na maior parte das vezes, não tem conexão com a grande diversidade e riqueza das matrizes originárias do gênero sertanejo, que é a música caipira.
Algumas vezes, duplas desse gênero oportunamente interpretam canções mais caipiras como forma de se legitimar perante o público que se identifica com a música caipira, mas não é o foco de seus trabalhos que, ao contrário, normalmente tendem a oferecer conteúdo musicais vazios, estilizados e homogeneizados conforme as tendências comerciais do momento em que estão inseridos.
21) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?
João Paulo Amaral: Feliz: as vivências, conexões e trocas que a música proporciona, a possibilidade de tocar, compor, arranjar, gravar, pesquisar, aprender e lecionar.
Triste: Saber que o Brasil tem a música das mais geniais que a Humanidade já produziu, mas que essa potência não se desdobrou da forma como merecia. Perceber que no mundo em que vivemos muitas vezes não é possível que a sensibilidade e muita música incrível possa fazer parte da vida de muitas pessoas.
22) RM: Quais os outros instrumentos musicais que você toca?
João Paulo Amaral: Violão e Guitarra.
23) RM: Quais os vícios técnicos o violeiro deve evitar?
João Paulo Amaral: Achar que tocar Viola é só tocar pagode de Viola (risos). Um outro ponto, não é bem um vício técnico, mas acho que vale apontar é o descuido com o som da viola em apresentações ao vivo, especialmente na qualidade da captação elétrica, sem uso de microfone, que muitas vezes estraga o timbre real da viola.
24) RM: Quais os erros no ensino da Viola?
João Paulo Amaral: Uma coisa que vale observar é não só focar apenas no resultado prático de conseguir tocar algo, mas também de entender a lógica que pode ajudar o aluno a ter maior autonomia.
Também é importante buscar ampliar o repertório de escuta e do que vai aprender a tocar, para além do segmento da música de viola. E nunca esquecer de trazer a história e o contexto cultural daquilo que está se ensinando, valorizando a pesquisa, a experiência e o contato direto com violeiros e violeiras e outros músicos, a audição e a transmissão oral que sempre fez parte da tradição do instrumento.
25) RM: Tocar muitas notas por compasso ajuda ou prejudica a musicalidade?
João Paulo Amaral: Aí depende, né?! Às vezes a música, o contexto, o estilo, o arranjo não pedem, então se derramar uma rajada de nota prejudica. Mas às vezes é o que a música, o trecho do improviso, a melodia, a intenção do compositor está pedindo, então vai bem e fica musical.
26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?
João Paulo Amaral: Pois é, às vezes a gente no início da jornada tem receio e não tem muita certeza se quer encarar o desafio, por que é realmente incerto, desafiador, etc. Acho que realmente tem que gostar mesmo.
Envolve talento, mas muito suor, pesquisa e algum estudo para vida toda, e tem que ter paciência e resiliência. Mas é muitas vezes muito gratificante. Vejo que é uma carreira digna para quem a encara, em primeiro lugar, pelo amor à música e tendo o compromisso com a verdade.
27) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?
João Paulo Amaral: Esse assunto é bem amplo. No caso da música popular, eu acho que daria para citar a reprodução de metodologias mais tradicionais que focam ou partem de fundamentos teóricos como por exemplo a ferramenta da leitura musical em detrimento de desenvolver outras ferramentas/processos que têm mais relação com a origem da música popular e o desenvolvimento da musicalidade, tal como a escuta, imitação, improvisação, composição, criatividade etc.
28) RM: Existe o Dom musical? Qual a sua definição?
João Paulo Amaral: Quando se fala em dom musical, normalmente se associa a uma capacidade inata em relação à música, muitas vezes em relação a facilidades técnicas. Acredito que todos nós temos diferentes graus de facilidades/dificuldades dentro de cada uma das competências musicais, as quais podem ser desenvolvidas/melhoradas. Quando se tem muitas facilidades e poucas dificuldades, há um grande potencial para o fazer musical, o que realmente facilita no aprendizado e desenvolvimento.
Mas esse potencial musical, que muitas vezes se nota em relação a determinadas habilidades técnicas como um bom ouvido, uma facilidade motora para tocar etc, precisa ser desenvolvido e ampliado, e não necessariamente é a garantia de desenvolver o potencial artístico, criativo, que traga algo de novo, etc. Como a música é um tipo de arte e não um esporte, historicamente, me parece que o reconhecimento musical, especialmente o que perdura no tempo, não se aplica aos que são exclusivamente virtuoses técnicos, mas sim, aos que principalmente constroem um legado artístico.
29) RM: Qual a sua definição de Improvisação?
João Paulo Amaral: Em música acho que improvisação é a capacidade/habilidade que se desenvolve de criar ideias musicais (solos, melodias secundárias, variações melódicas, rítmicas, acompanhamentos harmônico/rítmicos etc) no momento em que se toca, ou seja, compor e executar em tempo real.
É talvez uma das qualidades incríveis que fazem parte da música popular, notadamente desenvolvida pelo jazz, mas também presente em diversas modalidades, dimensões e contextos da música popular de diferentes culturas pelo mundo.
30) RM: Existe improvisação de fato, ou é algo estudado antes?
João Paulo Amaral: Existe improvisação de fato, ou é algo estudado antes. Falando por exemplo da improvisação num contexto da música instrumental/jazz, para saber improvisar uma melodia, é preciso desenvolver várias habilidades.
É preciso conhecer a linguagem e o vocabulário musical que vai te servir de base para você criar o seu solo. Então, por exemplo, é preciso estudar no seu instrumento as escalas (sequência de notas) e entender como aplicá-las na sequência de acordes da música sobre a qual se pretende improvisar.
Mas saber quais escalas podem ser utilizadas sobre os acordes daquela música não é o suficiente para que você possa criar um bom solo de improviso. É como se você fosse criar um poema apenas juntando palavras que até rimam no final de cada verso, mas isso não necessariamente dá sentido às orações, e muito menos traz as melhores palavras/ideias que podem fazer do conjunto uma composição interessante.
Por isso é preciso praticar e desenvolver a sensibilidade, o ouvido interno, o fraseado melódico, rítmico, o fluxo e conexão entre as ideias, a capacidade de passar imediatamente para o instrumento o que imagina, sente e cria na cabeça etc.
Além disso, para saber escolher melhor as “palavras” e “frases” do seu improviso, é preciso também dominar a linguagem e estilo do repertório que pretende tocar. Enfim, a partir dessas e outras habilidades, você consegue ter liberdade para criar seu solo na hora, de forma improvisada de fato, e “falar” musicalmente com fluência e musicalidade por meio do seu instrumento.
31) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação?
João Paulo Amaral: Prós: trazem ferramentas racionais para ajudar no desenvolvimento e ampliação da capacidade de improvisar. Contras: talvez engessem um pouco a forma de se aprender, diminuindo a importância de outras formas de prática criativa, o aprendizado como por meio da transmissão oral, da escuta, da imitação, da experimentação etc., que são essenciais para dar personalidade e evitar que os músicos soem iguais.
32) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia?
João Paulo Amaral: Prós: Ajudam no entendimento da lógica por traz da arquitetura da música, e trazem ferramentas para expandir as habilidades de composição, arranjo, etc. Contras: quando a partir só de um referencial etnocêntrico, padronizam conceitos rígidos e definitivos ignorando referências e contextos musicais de outras matrizes e culturas.
33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia?
João Paulo Amaral: Em relação ao segmento da música acho que, no balanço, é pobre e limitada, pois além de normalmente não trazer aprofundamento, foca sobretudo em cobrir os eventos e segmentos mais comerciais, os quais têm poder econômico de pautar seus artistas. Assim, perde muitas vezes a oportunidade de divulgar uma maior diversidade e conteúdo artístico, além de não dar oportunidade ao grande público de aprofundar a fruição e reflexão.
34) RM: Qual a importância de espaços como SESC, Itaú Cultural, Caixa Cultural, Banco do Brasil Cultural para a música brasileira?
João Paulo Amaral: São muito importantes. Mesmo que haja questões a serem melhoradas, são espaços/instituições que promovem programações de real interesse cultural, de educação e formação de público. Contribuem na cadeia produtiva da cultura, na promoção e sobrevivência da diversidade cultural e no acesso democrático ao público.
35) RM: Quais os seus projetos futuros?
João Paulo Amaral: Tenho planos de gravar um álbum novo. Lançar um livro de partituras/tablaturas das minhas composições, além de novos materiais de ensino da viola.
36) RM: Quais seus contatos?
João Paulo Amaral: www.joaopauloamaral.com.br | [email protected] | www.instagram.com/joaopauloamaral.official
Minha Tese – A viola caipira de Tião Carreiro: https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/470547
Canal:www.youtube.com/joaopauloamaral


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