Luiz Salgado

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O cantador, compositor e violeiro do cerrado mineiro Luiz Salgado desenvolve desde 1997 um trabalho arraigado na expressão musical do Brasil profundo, que emana do que há de mais autêntico e genuíno na tradição das festas populares, da folia de reis, do congado e da viola caipira.

No seu ofício de cantador, faz de sua viola não só um instrumento musical de trabalho, mas também uma ferramenta de reflexão.

Com seus acordes, ponteados e versos, Luiz Salgado canta o cerrado, o mato, a prosa, o causo, as realidades sociais, tornando sua música uma atitude diante da cultura e da vida, imprimindo uma maneira de ver o mundo e celebrar a beleza da tradição, da natureza, dos costumes e do folclore dessa região de Minas Gerais.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Luiz Salgado para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 09/02/2026:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Luiz Salgado: Nasci no dia 14/01/1976 em Patos de Minas – MG. Registrado como Luiz Carlos Salgado.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Luiz Salgado: Na infância eu cantava em casa para as visitas, e com sete anos de idade cantei em um programa de rádio chamado Só para Crianças e fiquei em primeiro lugar. O prêmio foi um par de tênis.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Luiz Salgado: Fiz aulas de violão no decorrer da juventude. Cheguei também a estudar na escola de música Bituca em Barbacena – MG, com o mestre Gilvan de Oliveira por seis meses. Não tenho formação acadêmica música. Conclui o Ensino Médio.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Luiz Salgado: Evaldo Silva (meu mestre de Viola), Pena Branca e Xavantinho, Dércio Marques, Pereira da Viola, Rolando Boldrin, Inezita Barroso.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Luiz Salgado: Na minha adolescência eu cantava em Patos de Minas – MG, mas não vivia da música. Em 1997, eu começo a contar como o início da minha carreira profissional, mas não deixo de lado meu começo no início dos anos 90, que foi muito importante. Tudo começou de forma muito espontânea, cantando em casa, na escola, programas de rádio, depois compondo, ainda jovem, talvez com 15 ou 16 anos de idade.

06) RM: Quantos álbuns lançados?

Luiz Salgado: Lancei doze álbuns e cinco deles para o público infantil.

07) RM: Como você se define como Violeiro?

Luiz Salgado: Sou um violeiro que enveredou pela cultura popular. Não sou solista, tenho poucas músicas instrumentais. Minha viola é uma extensão da minha voz, é a estrada por onde minha voz chega.

08) RM: Quais afinações você usa na Viola?

Luiz Salgado: Cebolão (E, B, G#, E, B) e Rio Abaixo (D, B, G, D, G).

09) RM: Quais as principais técnicas o violeiro tem que conhecer?

Luiz Salgado: Mão direita (pra não soar como um violão de 10 cordas), ritmos específicos, mão esquerda… parece óbvio, mas tem muita especificidade na viola caipira.

10) RM: Quais os violeiros que você admira?

Luiz Salgado: A lista é grande. Muitos deles, meus amigos… Evaldo Silva (meu mestre), Pena Branca, Pereira da Viola, Wilson Dias, Helena Meireles, Levi Ramiro, João Arruda, Rodrigo Zanc, Wilson Teixeira, Duo Aduar, Arnaldo, Arnaldo Freitas, Ricardo Vignini, Fernando Sodré, Inezita Barroso, Bolota, Cícero Gonçalves, Letícia Leal, Zé Padre, Josino Medina, Gustavo Guimarães, Joaci Ornelas, Paulo Freire, Roberto Corrêa, Galba, Pedro Antônio, Katya Teixeira, Chico Lobo, Ivan Vilela, João Paulo Amaral, Zé Mulato, Tavinho Moura, Ivan Lobo, Jackson Ricarte, Erick Castanho, Seu Passarim, Osni Ribeiro, Rubinho do Vale, Victor Batista, Bruno Sanches, Zeca Colares…

11) RM: Como é seu processo de compor?

Luiz Salgado: Tem várias formas… às vezes vem do nada, às vezes de algo que escuto ou leio, às vezes por encomenda, às vezes me obrigo, pra praticar.

12) RM: Quais as principais diferenças técnicas entre a Viola e o Violão?

Luiz Salgado: Acho que são instrumentos muito distintos. O ataque de mão direita é diferente; na viola se aproveita muito as cordas soltas; são técnicas muito específicas em cada instrumento, mas no fim das contas, um instrumento ajuda o músico a desenvolver no outro.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Luiz Salgado: Os prós é a gente ter o controle do que quer tocar, independendo do mercado; a música independente é mais sincera. O contra é a dificuldade de entrar em certos espaços, que só o fato de ter uma gravadora, já é um fator facilitador por si só.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Luiz Salgado: Fora d palco, seria um mapeamento de locais, estratégias de divulgação, editais. Dentro do palco é tá sempre procurando entregar algo além da música, uma experiência, uma emoção, algo que vá fazer aquele show ficar marcado na vida de quem foi assistir.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Luiz Salgado: Procuro diversificar meu micho… Faço shows, componho trilhas pra teatro e cinema, faço produção e participações em trabalhos de outros artistas.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Luiz Salgado: Ajuda pela facilidade que é interagir atualmente. Posso gravar uma viola aqui em Minas pra um trabalho que está sendo gravado do outro lado do mundo. Outro ponto positivo é a facilidade pro meu trabalho chegar a outros lugares. Prejudica no momento em que a arte muitas vezes fica em segundo plano, perdendo pra quem tem um maior engajamento nas redes sociais. Os likes tomaram um lugar que antes era tomado pela qualidade. Tá cheio de grandes artistas que não tem espaço por falta de um investimento nessas tecnologias da internet.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Luiz Salgado: O homem estúdio veio democratizar a possibilidade de artistas que não têm uma gravadora gravarem seus trabalhos. Não vejo ponto negativo Eli fato de serem estúdios caseiros. Os pontos negativos se dão tanto nesses quanto nos grandes estúdios… Uso demasiado de recursos de afinação de voz, por exemplo. E tem também as IAs, que acredito ser válido como ferramenta de auxílio, mas que não deve fazer o papel do compositor, do instrumentista. Acho que deve servir de apoio, experimentos, mas não de substituir o fator humano, a emoção.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar o CD não é mais o grande obstáculo. Mas concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Luiz Salgado: Tento entregar, sempre, algo muito pessoal, original, mesmo que com influências. Me preocupo em estar sempre inovando meu trabalho, usando a linguagem da cultura popular, mas inserida no momento e local que vivo.

19) RM: Como você analisa o cenário da música Sertaneja. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas e quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Luiz Salgado: Falar “sertanejo” é sempre confuso pra mim. Eu entendo sertanejo como um estilo que fala da terra. Acho que esse termo ficou muito abrangente de uns tempos pra cá. Acredito que o mundo se modernizou, o jeito de lidar com a terra mudou, mas dá pra conciliar essas mudanças culturais com o que veio antes. Não tem como não reverenciar o que veio abrindo as portas pra que a gente passasse.

20) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Luiz Salgado: Mais feliz, a música em si, e o que ela traz… conheço lugares, pessoas, riquezas imateriais que só a música poderia ter me dado a oportunidade de conhecer. Fiz amigos e irmãos por causa da música.

O triste é ver o quanto essa classe é desrespeitada, desvalorizada. Existe um abismo entre o artista independente e o artista de renome. O tratamento é diferente. Já passei por uma situação que eu e outros músicos tivemos que sair do camarim porque o artista famoso não queria mais ninguém ali.

21) RM: Quais os outros instrumentos musicais que você toca?

Luiz Salgado: Violão e um pouco de percussão.

22) RM: Quais as semelhanças e diferenças entre a música sertaneja atual e sertaneja caipira do passado?

Luiz Salgado: Depende da dupla / artista solo. Tem gente que traz muito da cultura caipira no seu trabalho, mesmo com arranjos modernos. Tem gente que não usa nenhum elemento que justifique o rótulo sertanejo. Mas é uma questão ainda mais profunda, creio eu.

23) RM: Quais os vícios técnicos o violeiro deve evitar?

Luiz Salgado: Querer tocar rápido demais alguns ritmos que perdem a característica quando isso acontece. O pagode, por exemplo.

24) RM: Quais os erros no ensino da Viola?

Luiz Salgado: Talvez, o repertório. Tem muita música de viola além do que se ensina. A viola da cultura popular, por exemplo, é muito pouco difundida e ensinada.

25) RM: Tocar muitas notas por compasso ajuda ou prejudica a musicalidade?

Luiz Salgado: Depende da música, do estilo, da proposta. A música “O vôo do besouro” só serve se tiver aquela infinidade de notas. Chico Mineiro tem aquela singeleza e emoção por causa daquelas poucas notas.

26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Luiz Salgado: Digo que estudei bastante, conheça seu público, se profissionalizar, e tenha paciência.

27) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Luiz Salgado: Não falar tanto sobre a parte do ouvido, da intuição do aluno.

28) RM: Existe o Dom musical? Qual a sua definição de Dom musical?

Luiz Salgado: Existe uma predisposição musical, como tudo no mundo. Quem tem essa predisposição, vai ter mais facilidade, mas não impede quem não tem, de aprender. Acho que isso é dom… essa facilidade pra determinada função… mas a falta, ou o menor grau, não define se a pessoa vai ou não vai ser o que ela quiser.

29) RM: Qual a sua definição de Improvisação?

Luiz Salgado: Improvisação é a capacidade de achar caminhos de forma imediata, com algum prévio conhecimento ou até mesmo a intuição.

30) RM: Existe improvisação de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Luiz Salgado: Acredito que exista os caminhos da técnica aplicada ou algo intuitivo, e até a mistura dessas duas coisas. Tirou como exemplo os repentistas. Eles conhecem a técnica da modalidade a ser cantada, e usam essas técnica pra cantar sobre centenas de assuntos / motes.

31) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Luiz Salgado: Não conheço muito sobre estudos de Improvisação. Improviso muita coisa nos shows, criando versos na hora, colocando algum elemento novo no meio da música, mas não tenho um método, e não saberia faltar sobre. Eu só vou.

32) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Luiz Salgado: Estudei pouco sobre o Estudo de Harmonia Musical. Tive a honra de ser aluno do Ian Guest e do Gilvan de Oliveira na escola de música Bituca, em Barbacena – MG, mas consegui ficar lá apenas por seis meses, dos dois anos que duraria o curso, por motivos de logística. Mas eu uso essa ferramenta de harmonia de forma muito intuitiva. Meu estudo foi pouco nesse sentido.

33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro?

Luiz Salgado: Acho que falta falar da música que acontece fora dos grandes centros. Tem muita coisa interessante acontecendo no interior do Brasil, só precisando dessa atenção. O Rolando Boldrin cumpria muito bem essa função de “tirar o Brasil da gaveta”.

34) RM: Qual a importância de espaço como SESC, Itaú Cultural, Caixa Cultural, Banco do Brasil Cultural para a música brasileira?

Luiz Salgado: São espaços muito importantes e vitais para a música brasileira. Eles têm que ser ocupados também por artistas independentes, e eventualmente são. Mas eu sinto uma dificuldade de estar ness a espaços, talvez justamente por esses espaços ser o que são, e serem por isso, desejo de todos os artistas estarem lá. Temos que fazer a nossa parte de entrar em contato, mandar um bom material, e torcer para sermos notados.

35) RM: Quais os seus projetos futuros?

Luiz Salgado: Vou lançar um DVD agora no começo do ano, com participações de Titane, André Abujamra e Zé Alexanddre. Espero fortalecer minha carreira internacional, gravar um novo álbum e circular bastante nesse ano.

36) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?

Luiz Salgado: (34) 99143 – 0764 | [email protected] | https://www.instagram.com/luizsalgadooficial | https://www.facebook.com/luizsalgadooficial

Canal: https://www.youtube.com/c/LuizSalgadoOficial


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