Isabela Mestriner

Compartilhe conhecimento

A soprano Isabela Mestriner é formada em Música pela Universidade de São Paulo (USP). Atua corno solista em óperas, concertos e festivais em diversas cidades do Brasil.

Participou de produções das companhias Cia. Minaz de Ribeirão Preto e Ópera Estúdio da EMESP, destacando-se nos papéis de Donna Elvira e Donna Anna (Don Giovanni, W. A. Mozart), Dinah (Trouble in Tahiti, Leonard Bernstein), Félix (A Revolução das Crianças, Eduardo Seicman), Ciesca (Gianni Schicchi, G. Puccini), Segunda Dama (Die Zauberflöte, W. A. Mozart), Merenciana (O Diletante, João Guilherme Ripper), Gretel (Hänsel und Gretel, E. Humperdinck) e Musetta (La Bohème, G. Puccini).

Participou ainda das estreias mundiais das óperas Contos de Júlia (Marcus Siqueira), no papel de Umbelina, e O Afiador de Facas (Piero Schlochauer), interpretando a Filha.

Foi finalista do programa Prelúdio (TV Cultura, 2018) e premiada no XVII Concurso Estímulo para Cantores Líricos, na categoria Melhor Intérprete de Ópera de Carlos Gomes, além de conquistar o Terceiro Lugar na categoria 26 a 34 anos do 40 Concurso de Canto Natércia Lopes (2025).

Segue abaixo entrevista exclusiva com Isabela Mestriner para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 20/02/2026:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Isabela Mestriner:  Nasci no dia 10/07/1991 em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Registrada como Isabela Mestriner Abrahão Machado.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Isabela Mestriner:  Eu sou criada em uma família de músicos. Minha mãe, Bia Mestrinér (https://ritmomelodia.mus.br/bia-mestriner), é cantora e compositora, meu pai Filó Machado (https://ritmomelodia.mus.br/filo-machado) é multi-instrumentista e compositor. O contato, sempre aconteceu desde muito cedo, minha mãe sempre me colocava para cantar algo, me dava o microfone na mão para eu brincar, e sempre tive a imagem dos dois no palco, sempre estive presente nos shows, assistindo-os fazendo música, junto com meus tios, Carlinhos Machado, Gera Machado e outros amigos que permanecem até hoje.

Meu primeiro contato, na prática, com a música, aconteceu ainda na infância, principalmente por meio do canto coral. Aos 6 anos de idade, ingressei no coral infantil da Cia. Minaz de Ribeirão Preto – SP. A experiência de cantar em grupo foi fundamental para despertar não apenas o interesse musical, mas também a percepção da música como forma de expressão, comunicação e sensibilidade. Com o tempo, esse contato inicial foi se transformando em escolha profissional.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Isabela Mestriner: Em 2013, obtive diploma em Educação Artística com habilitação em Música pela Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), cursei o Opera Studio da EMESP em 2016 e atualmente, ingressei no Mestrado em Performance no Instituto de Artes da UNICAMP.

Ao longo da minha formação, participei de festivais, cursos de aperfeiçoamento e concursos nacionais e internacionais. Atualmente, desenvolvo também uma trajetória acadêmica voltada à pesquisa em performance vocal, repertório de música de câmara e ópera.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Isabela Mestriner:  No início, minhas influências vinham de experiências corais, musicais e de um contato mais amplo com diferentes gêneros. Com o amadurecimento artístico, meu foco passou a ser a ópera, a música de concerto e a canção de câmara. Não digo que o que eu escutava antes deixou de ter importância. O que mudou é a forma como eu escuto música.

Gosto de diversos gêneros e os escuto sem preconceitos, mas a música tem que ser bem elaborada em todos os seus parâmetros. Conforme fui entendendo mais sobre música teoricamente, abandonei o que eu considerava muito “repetitivo”.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Isabela Mestriner:  Minha carreira começou de forma gradual, a partir do canto coral, da formação acadêmica e da participação em óperas estúdio e produções profissionais. Atuo até os dias de hoje na Cia. Minaz, onde pude construir repertório no canto e experiência cênica de forma consistente. Também já cantei em diversos outros teatros do Brasil realizando festivais e concursos.

06) RM: Quantos álbum lançados?

Isabela Mestriner:  Ainda não lancei um álbum autoral. Tenho gravações em plataformas digitais, mas como convidada em EP’s do meu pai (Filó Machado) e de alguns colegas. Minha atuação tem sido voltada principalmente para produções operísticas, concertos, registros audiovisuais e performances ao vivo.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Isabela Mestriner:  Como solista, atuo como cantora lírica, com foco em ópera, música de concerto e canção de câmara, atualmente com especial interesse pela canção brasileira dos séculos 19 e 20, que são o foco da minha pesquisa. O canto coral, no entanto, me leva pra diversos estilos, já tive oportunidade de cantar repertórios diversos que vão de Bach ao Chico Buarque, e eu adoro!

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Isabela Mestriner:  Sim, com certeza! O estudo da técnica vocal faz parte da minha rotina desde o início da formação e segue sendo um processo contínuo.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Isabela Mestriner:  A técnica vocal é fundamental para a longevidade da carreira, para a saúde da voz e para a liberdade interpretativa. Ela permite que o cantor tenha consciência corporal, segurança técnica e maior profundidade artística.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Isabela Mestriner:  Admiro grandes intérpretes da tradição lírica, como as internacionais Maria Callas, Mirella Freni e Jessye Norman, Leontyne Price, Bidu Sayão, Joaquina Lapinha, Nadine Sierra. A lista vai longe!

Cantores e cantoras brasileiros foram meus professores da vida, pois os ouvi desde que nasci. Só para citar alguns: Elis Regina, Gal Costa, Leila Pinheiro, Fátima Guedes, Milton Nascimento e toda turma de Minas Gerais, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, e por aí vai!

Também reconheço a influência de professores, colegas e artistas com quem tive contato direto ao longo da minha trajetória, além disso, vem aí uma geração maravilhosa de cantores líricos. Fiquem atentos!

11) RM: Como é seu processo de compor?

Isabela Mestriner:  Ainda não me arrisquei em atuar como compositora. Meu processo criativo acontece principalmente no campo da interpretação, na leitura da partitura e na construção musical e dramática das obras que interpreto.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Isabela Mestriner:  Embora não componha, trabalho em constante diálogo artístico com pianistas, regentes, diretores cênicos e, em alguns casos, compositores contemporâneos. Sempre observando muito como é o processo criativo das pessoas, essa troca de figurinhas é muito importante.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Isabela Mestriner:  O principal benefício é a autonomia artística e a possibilidade de construir uma identidade própria. Por outro lado, a instabilidade financeira e a necessidade de acumular funções administrativas e de gestão são desafios constantes.

Obviamente, no meu caso, eu não estou sozinha nesse percurso, tenho meus aliados no processo de produção do meu trabalho. mas não deixa de ser uma luta árdua quando você está em um contexto de ser um artista freelancer.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Isabela Mestriner:  No palco, o planejamento envolve escolhas conscientes de repertório, estudo técnico contínuo para ter, como consequência, amadurecimento interpretativo. Fora dele, a estratégia passa por participação em festivais, concursos e audições, elaboração de projetos, busca por editais, parcerias artísticas.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Isabela Mestriner:  Basicamente compreendem em inscrição em concursos e festivais nacionais e internacionais, produção de material artístico, desenvolvimento de projetos próprios, presença digital profissional e constante investimento em formação técnica e acadêmica.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

Isabela Mestriner:  A internet é muito positiva no sentido de ampliar o alcance, democratizar o acesso ao nosso conteúdo artístico, facilitando assim, a divulgação do trabalho. Por outro lado, muitos fatores podem incentivar a superficialidade e a comparação excessiva, por isso a gente tem que ter bastante discernimento e atenção em como usar.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Isabela Mestriner:  A principal vantagem é a autonomia para registrar estudos e projetos. A desvantagem está nas limitações acústicas e técnicas, especialmente para a música lírica, que depende muito do espaço e da projeção natural da voz.

18) RM: O que você faz para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Isabela Mestriner:  Demorou um certo tempo até eu começar a me entender como cantora e compreender meu material vocal, enquanto estudante. Hoje em dia, vejo que muitos cantores estão buscando por escolhas conscientes, ao invés de convenientes. É o que eu faço hoje em dia.

Passei a respeitar meu material vocal, buscando diferenciação por meio de uma formação sólida, escolhas criteriosas de repertório, pesquisa interpretativa, priorizando consistência artística em vez de produção excessiva de conteúdo.

19) RM: Como você analisa o cenário da Música Instrumental e Erudita no Brasil?

Isabela Mestriner:  Apesar das dificuldades estruturais e da constante tentativa de desmantelo das políticas culturais no Brasil, há artistas e projetos de altíssimo nível no nosso país. Eu vejo, com meus próprios olhos, viajando por todo o território brasileiro, que há jovens que se interessam pela música clássica, pelo repertório de música brasileira.

Vejo muitos estudantes de música saindo de instituições como a Cia. Minaz, OSESP, Projeto Guri, de universidades de música públicas e particulares e, posteriormente, ganhando o mundo com seu fazer musical. Muitos mantêm obras consistentes graças à pesquisa, à formação sólida e ao compromisso artístico, mesmo diante de desafios.

20) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Isabela Mestriner:  Acho que o que tem de mais engraçado em ser cantor lírico é o mistério de descobrir onde e o que cantaremos. Quando tem algum concurso ou audição, estamos sempre “soprando” uns para os outros “vira mais para o lado direito, que o som volta melhor!”. A acústica é sempre um mistério. E tem sempre o desespero da vez: “tem solfejo? Como que está?”.

De resto, tem aquele apanhado de situações inusitadas em cima do palco: aquele sapato que quebrou no meio da récita, texto que foi esquecido, o objeto que tinha que ir de um lado para o outro e não foi. Fazer espetáculo é um barato! Já enfrentei muitos desafios como problemas técnicos, acústicas difíceis e imprevistos de produção, situações que exigem flexibilidade e profissionalismo.

21) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Isabela Mestriner:  O que mais me deixa feliz é o processo artístico como um todo, que envolve uma preparação muito organizada, focada, e depois disso o encontro com o público. O que mais entristece é a precarização do trabalho artístico vinda de diversos lados e a instabilidade enfrentada por muitos profissionais da música.

22) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Isabela Mestriner:  Dom musical, a meu ver envolve a facilidade que a pessoa tem de processar os parâmetros musicais e trazê-los para sua interpretação. Acredito que exista uma predisposição ou sensibilidade, mas sem estudo, disciplina e constância, nada disso não se sustenta. Qualquer desenvolvimento é fruto de trabalho contínuo. Na arte, isso não é diferente.

23) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Isabela Mestriner:  Vejo a improvisação como uma forma de interpretação livre construída sobre conhecimento técnico, estilístico da harmonia da música que foi escrita.

24) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Isabela Mestriner:  Na prática, a improvisação se constrói a partir de muito estudo e preparo prévio. Principalmente, o estudo de harmonia: acordes, suas progressões, suas cadências. A improvisação envolve um trabalho de percepção, onde você compreende as possibilidades de caminhos das frases musicais, e como você pode criar melodias novas em cima desses caminhos. Em resumo, quanto mais música o intérprete ouvir, melhor ele irá improvisar.

25) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Isabela Mestriner:  Os métodos ajudam a organizar o pensamento musical, mas podem se tornar limitadores se não forem usados com flexibilidade.

26) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Isabela Mestriner:  São essenciais para a compreensão musical, desde que sirvam à expressividade, mas não precisamos nos limitar a eles para o aprendizado prático.

27) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Isabela Mestriner:  O jabá ainda é uma realidade em muitos espaços, mas hoje em dia existem diversas rádios públicas, projetos culturais e plataformas alternativas que valorizam e divulgam o conteúdo artístico gratuitamente.

28) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Isabela Mestriner:  Eu digo: tenha muita paciência, disciplina, disposição para estudar continuamente e amor pelo processo, não apenas pelos resultados. As dificuldades são inevitáveis e praticamente constantes, mas pedem perseverança. Não tem como não cair nesse discurso que acaba sendo um pouco clichê, mas o jeito de lidar com a carreira é esse. Ah, e o principal: não conte tudo pra todo mundo, conte para as pessoas certas. O resultado deste processo todo é recompensador.

29) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Isabela Mestriner:  A grande mídia oferece pouco espaço para a música lírica, de concerto e instrumental (mpb, jazz, etc.), o que torna ainda mais importantes os veículos especializados e os projetos independentes.

30) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Isabela Mestriner:  São instituições fundamentais para a formação de público, difusão artística e manutenção da diversidade cultural no país.

31) RM: Quais os seus projetos futuros?

Isabela Mestriner:  Entre meus projetos estão o desenvolvimento da minha pesquisa acadêmica, novos papéis operísticos, o desenvolvimento de repertório de câmara e a ampliação da atuação em projetos internacionais.

32) RM: Quais os seus contatos?

Isabela Mestriner: [email protected] | https://www.instagram.com/stories/isabelamestriner.soprano

Canal: https://www.youtube.com/@isabelamestrinermachado

Saudade – Osvaldo Lacerda: https://www.youtube.com/watch?v=TIv7Sb-ZUR0


Compartilhe conhecimento

Leave a Comment

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Related Post

Revista Ritmo Melodia
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.