More Zé Marcos »"/>More Zé Marcos »" /> Zé Marcos - Revista Ritmo Melodia
Uma Revista criada em 2001 pelo jornalista, músico e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Zé Marcos

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Com uma bagagem 30 anos de estrada como músico e educador com sólida formação no violão erudito e extensa vivência na música popular, Zé Marcos chega ao público como revelação da crítica especializada no lançamento de seu primeiro álbum autoral o álbum “Linha de Chegada”, que apresenta um repertório inédito de samba em suas mais diversas vertentes como o Choro e a Bossa Nova.

“O CD me emocionou. Por tudo. E mais ainda pelo verso “Apesar de tudo insisto e não perco a esperança”, da letra de “Linha de Chegada”, que me fez lembrar o já saudoso poeta amazonense Thiago de Mello: “Faz escuro, mas eu canto”. Estas cinco palavras revelam o sentimento dos principiantes que sentem as trevas que os cobrem, mas cantam enquanto tiverem força para tal. Daí seu canto soar como um grito que lhes vem do fundo d’alma.”

Por Aquilles Rique (vocalista MPB4) para o Jornal do Brasil e mais 20 veículos de imprensa do país onde atua como crítico musical: https://www.jb.com.br/colunistas/dicas-do-aquiles/2022/01/1035391-apesar-de-tudo-insisto-e-nao-perco-a-esperanca.html

“Aqui estão meus cinco melhores e mais notáveis álbuns lançados em 2021… Agora tenho o prazer de apresentar Zé Marcos nas páginas da Música Brasileira. Seu álbum Linha de Chegada é seu primeiro trabalho solo.

Zé Marcos escreveu todas as 14 músicas (quatro foram co-escritas com outros músicos) e também fez os arranjos de percussão em metade delas. Ele faz todos os vocais e toca violão e cavaquinho. Ele não escondeu nada neste soberbo Samba e Choro. Fiquei me perguntando por que gostei tanto desse álbum para incluí-lo nesta retrospectiva. Então, enquanto ouvia repetidamente durante a semana passada, algumas letras realmente ressoaram em mim.

Na música “Rainha da Festa”, uma homenagem a todos os cozinheiros, ele canta sobre a “rica memória e histórias de uma cultura regada a temperos especiais e sabores tradicionais”. Ele até menciona um fogão a lenha. Essa tradição e história cultural é a música que se ouve na Linha de Chegada.

O álbum é pura alegria e bela simplicidade no seu melhor. É o autêntico Samba brasileiro. Zé Marcos contou com a ajuda de vários excelentes músicos neste excelente disco. Em especial, foram apresentados quatro convidados especiais: Fábio Gouvea (violão de 7 cordas), Conrado Paulino (guitarra), Jotagê Alves (clarinetes) e Luiz Anthony (bandolim e todos os arranjos).” Por Egídio Leitão para o site Revista Brasileira: https://musicabrasileira.org/2021-in-review/

 

Zé Marcos é bacharel pela Faculdade Mozarteum, foi vencedor do concurso Jovens Instrumentistas do Conservatório Villa Lobos em São Paulo e nunca mais parou de estudar e se aperfeiçoar frequentando por exemplo a prestigiada escola CLAM do Zimbo Trio, cursos de especializações em Educação Popular em Havana Cuba, curso de Regência com o maestro Dario Sotero, Harmonia com Conrado Paulino. 

Idealizador de projetos como “Caminhos do Violão” e ciclo “Música e Anos 80” pela SEC SP atuando ao lado de nomes como Tom Zé e Arrigo Barnabé, como músico acompanhante tem percorrido todo o país com o artista mineiro Zeca Colares e em turnê por Portugal com a cantora Marcia Mah.

Tendo seu nome no livro “Violões do Brasil” antologia organizado por Miriam Taubkin sobre os principais violonistas em atividade no país.

Toda essa versatilidade o destaca não somente como um grande instrumentista, mas também como educador cuja dedicação levou a desenvolver um método próprio de ensino que tem resultado cada vez mais no surgimento de alunos expoentes no meio artístico, tais como: Fábio Gouvea, integrante da Orquestra Focus Year na Suíça; José Henrique Rosa de Campos, formado em Violão pela USP, com especialização na França, integrante do Quarteto TAO e Coordenador de Cordas do Projeto Guri SP, Adriano Felício Coordenador do Curso de Música da UNISO, entre outros.

O MÉTODO “VIOLÃO – GUIA DE ENSINO E APRENDIZAGEM” Oferece um ambiente musical diferenciado tendo como base a interação, pois propõe o diálogo entre dois violões de modo que os exercícios resultam numa sonoridade mais rica, auxiliando a percepção auditiva do aluno na compreensão da linguagem musical (ritmo, melodia, harmonia, execução e dinâmica) conduzidas pelo acompanhamento do professor. Além do trabalho como educador é curador por várias edições da Mostra Violão em Foco na cidade de Alumínio.

O álbum “Linha de Chegada”, é uma obra inédita inspirada no cancioneiro e seu violão e traz no repertório o Choro, o Samba e a Bossa Nova, gêneros musicais que dialogam e se influenciam mutuamente, além de outros estilos, que dão colorido sonoro ao álbum, cuja gravação conta com um elenco de instrumentistas de reconhecida excelência no cenário instrumental paulista.

A estética do violão brasileiro vem sendo delineada ao longo de mais de um século. Digo “vem sendo”, porque a composição para o violão continua viva, ou seja, segue ampliando os seus limites, por meio da obra de violonistas contemporâneos.

A partir da segunda década do século passado o violão, que já era atuante em variadas manifestações populares, inclusive no choro, é alçado ao patamar de solista e sua trajetória se desenvolve por meio da obra de compositores que ainda hoje reverberam na criação para este instrumento.

Heitor Villa Lobos, Américo Jacomino, João Pernambuco, Garoto, Dilermando Reis, Baden Powel e, mais recentemente, Guinga, são nomes de destaque no universo criativo do violão brasileiro.

A proposta do workshop é apresentar uma reflexão histórica analítica dos contornos estéticos do violão brasileiro e sua influência, seja por uma utilização consciente ou inconsciente, no processo de composição.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Zé Marcos para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 30.01.2024:

01) RM: Qual sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Zé Marcos: Nasci no dia 30/01/1964 na Quadra – SP, mas meus pais e eu nos mudamos para Sorocaba – SP meses depois que nasci, então me considero mais sorocabano. Filho de Francisco Rodrigues e Terezinha de Jesus Alves Rodrigues e registrado como José Marcos Rodrigues.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Zé Marcos: Meu primeiro contato com a música foi em casa, meu pai (Francisco Rodrigues) é sanfoneiro, não chegou a ser profissional, mas animou muito baile. Foi ele que me apresentou a música de Luiz Gonzaga, por exemplo! Minha mãe (Terezinha de Jesus Alves Rodrigues) cantava, participava de corais e foi uma forte influência.

Outra influência determinante foi o rádio. Eu fui criança no final da década de 60 e começo dos anos 70 e nesse tempo televisão ainda não era comum em todas as casas, então ouvíamos muito rádio. Ouvíamos de tudo porque as programações eram muito variadas. Então eu ouvia e saia cantando, simulando um violão com a vassoura (risos)!

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical? 

Zé Marcos: Curso Técnico em instrumento (Violão) no Conservatório João Baptista Julião, em Sorocaba – SP.

Curso de Bacharelado em Instrumento (Violão) na Faculdade Mozarteum, em São Paulo – SP. Pós Graduação Lato Senso no curso História e Cultura na UNIMEP de Piracicaba – SP.

Curso de Regência Instrumental no Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, em Tatuí – SP.

Curso de Música Instrumental no CLAM, escola ligada ao Zimbo Trio, em São Paulo – SP. Cursos de extensão e seminários em diversas instituições de ensino de música.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Zé Marcos: Quando criança, ouvi muitos e diferentes gêneros e estilos, depois que comecei estudar conheci o universo da música erudita, tantos violonistas importantes, estudando no CLAM – CENTRO LIVRE DE APRENDIZAGEM MUSICAL o mundo do Jazz, então, penso que tudo isso me influenciou. O universo do samba tem com certeza uma força marcante no meu fazer musical e Paulinho da Viola, claro, é uma referência.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Zé Marcos: Comecei, como muitos músicos, cantando na escola e em reuniões de família. Já mais crescido participei de grupos tocando em bares e casas noturnas. Mais tarde surgiram convites para acompanhar outros artistas. Curiosamente fui deixando de cantar e passei a buscar um aprimoramento como instrumentista e este vem sendo o meu trabalho mais frequente.

Ao mesmo tempo desenvolvi uma intensa carreira como professor de violão, trabalhando em muitas escolas de música na minha cidade em diversas cidades vizinhas. Lancei em 2019 o livro “Violão, Guia de Ensino e Aprendizagem”, dirigido à iniciação ao violão. Em paralelo a tudo isso me dedico a compor.

Em 2020 surgiu a oportunidade de gravar o meu primeiro álbum e resolvi fazer dele minha viagem pelo Samba, pelo Choro e pela Bossa Nova. Dessa forma retomei o canto, com a ressalva que me permiti cantar minhas próprias composições (risos).

O disco saiu em meio a tragédia da pandemia do covid-19, o que dificultou todo o trabalho de divulgação. Agora, respirando novos ares estou me dedicando a torná-lo conhecido.

06) RM: Quantos CDs lançados?

Zé Marcos: Apenas um álbum: “Linha de Chegada”.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Zé Marcos: Acredito que minhas composições transitam bem pelo Samba Raiz, pela Bossa Nova e pelo choro mais tradicional. Tenho um fascínio por melodias e letras muito poéticas, isso leva a forma canção, que está presente em todos esses gêneros.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Zé Marcos: Cheguei fazer algumas aulas, mas não chegou a se configurar um trabalho vocal. Aliás isso é algo que lamento! Espero no futuro poder fazer esse trabalho.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Zé Marcos: Muito importante, primeiro para preservação da voz e de todo aparelho fonador, encontrando a região correta para voz, não se agride o aparelho e possibilita extrair o melhor da voz seja em termos de harmônicos, timbres e dinâmica.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Zé Marcos: Ah, são tantos! Mas eu destacaria Elza Soares (pelo suingue), Gal Costa (pelo timbre), João Gilberto (pela divisão rítmica e pela delicadeza), Paulinho da Viola (pela classe), o sanfoneiro Dominguinhos e Monarco da Portela (por trazerem na voz o canto do povo).

11) RM: Como é seu processo de compor?

Zé Marcos: Varia muito! As vezes começo pela melodia, depois vem a letra, as vezes elas nascem juntas, outras começam por uma Sequência harmônica, outras nascem pra ser instrumental e aí o violão é a referência. Uma particularidade é que quando começo trabalhar numa música, sinto que preciso concluí-la, senão ela se perde, já aconteceu!

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Zé Marcos: Tenho poucas parcerias, no meu álbum – “Linha de Chegada” são quatro parcerias; Luiza com Paulo Henrique Veiga; Desfiz Minha Fantasia e Que Eu Nem Sei Querer com José Machuco e Pra Não Ver Você voltar com Roberto Elias.

Participei como parceiro em duas músicas no DVD – “Lá Laiá”, da cantora e querida amiga, Márcia Mah. Mas a maior parte do meu trabalho de composição é solo.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Zé Marcos: A carreira independente permite que eu tenha total autonomia para direcionar meu trabalho! Posso direcionar tudo da maneira mais consonante com o que acredito, isso é bom!

As dificuldades são estruturais, o orçamento é sempre pequeno, então o artista independente tem que se desdobrar para conseguir realizar seu trabalho e conseguir espaços para mostra-lo. Temos os editais, mas a tarefa de montar um projeto é um aprendizado a parte.

Faço um parêntese para falar da importância do trabalho do Carlos Di Jaguarão e todo o pessoal do coletivo Uma Terra Só, que abriram, e abrem, infinitas possibilidades de contato para que artistas do Brasil todo encontrem caminhos na busca por espaço.

14) RM: Quais as suas estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Zé Marcos: Pra ser sincero não houve um planejamento! No começo foi tudo tão difícil que meu foco foi conseguir sobreviver trabalhando com música. Então dar aulas acabou sendo a opção mais viável, também tomei gosto por esse trabalho, claro.

O Trabalho como instrumentista foi se organizando a partir de convites para tocar com outros artistas, outros grupos, as experiências foram se somando e cheguei aqui com um primeiro álbum, autoral, gravado. Mas não foi nada estratégico!

Hoje venho buscando espaço para minha música, mas com cuidado, procurando tocar em espaços onde ela encontre um público que possa dialogar com ela. Dentro do palco está sendo um grande aprendizado. Mas, tenho focado mais na questão musical.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?

Zé Marcos: Como disse meu foco é mais na elaboração do trabalho musical, composição, arranjos e mesmo na manutenção e aprimoramento da técnica enquanto instrumentista. Agora com o trabalho autoral registrado venho me organizando com perfiz nas redes sociais e entrando em contato com meios de comunicação, aqueles que estão abertos à artistas independentes, para divulgação do trabalho.

Venho buscando aprender sobre produção, aliás tenho aprendido muito observando o trabalho dos colegas do coletivo “Uma Terra Só” e ressalto também a importância, nesse processo da revista Ritmo e Melodia. Ressalvo por fim que meu objetivo, mais do que construir uma carreira como intérprete, é que minha música chegue ao maior número de ouvintes possível, isso é o mais importante.

16) RM: O que a internet ajuda e/ou prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

Zé Marcos: A internet verdadeiramente democratizou o meio profissional musical. Antes dela o artista precisava vencer todo um sistema da grande mídia do entretenimento, ou da cultura, como queira, para com sorte fazer sua música chegar ao público. Dependia de a sorte de um produtor ouvi-lo e se interessar em grava-lo e divulga-lo.

A internet permite que a música de autores desconhecidos chegue a lugares impensados antes dela. Hoje a minha música pode ser ouvida em toda a América, na Europa, na Ásia, no mundo todo, praticamente em tempo real e será o ouvinte que irá julgá-la, gostar dela, cultivá-la ou não. Falei sobre o coletivo Uma Terra Só, sobre esta revista, tudo isso graças ao poder da internet.

Por outro lado, a possibilidade de ouvir e estudar compositores e instrumentistas que viveram a séculos atrás, músicos e compositores que estão compondo e criando neste exato momento, tudo isso é mágico. A internet trouxe muitos benefícios para a humanidade, trouxe também muitos problemas, mas no caso da música não vejo prejuízo.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (Home Estúdio).

Zé Marcos: Gravar em casa, produzir um trabalho Demo, um arranjo, dialogar musicalmente com parceiros, gravar efetivamente um trabalho, tudo isso é fantástico. Claro que não se tem todos os recursos que um estúdio oferece, mas talvez o maior problema é que num trabalho feito assim falta aquele contato que os músicos tem no estúdio, aquele calor, energia, tocar efetivamente juntos. Isso pode tornar o trabalho meio pasteurizado.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar uma disco não é mais o grande obstáculo, mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical? 

Zé Marcos: Tenho buscado, como disse, aprender sobre e como utilizar as ferramentas que temos, toda tecnologia, redes sociais etc. Mas isso não dribla a concorrência pois essas ferramentas estão disponíveis, e ainda bem que é assim, para todos.

Pra ser sincero, não acredito que seja possível empreender uma ação direta para se diferenciar, penso que tenho que fazer minha música com fidelidade aos cânones estéticos que me guiam, bem como à minha visão de mundo, a busca por espaço junto ao público é igualmente difícil pra todos.

19) RM: Como você analisa o cenário da música popular brasileiro. Em sua opinião, quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Zé Marcos: Nas últimas décadas a música popular entrou, efetivamente, na escola, surgiram muitos cursos voltados para a MPB, o Choro, o Jazz e os muitos gêneros brasileiros. Esse movimento começou lá nos idos dos anos 70, com o CLAM, escola criada pelo Zimbo Trio, em São Paulo, na década de 90 foi a vez do Conservatório de Tatuí – SP iniciar o curso de MPB/JAZZ. A escola tem o curso de viola caipira, assim como a USP e outras universidades.

A EMESP em São Paulo, a Escola Portátil de Choro no Rio De Janeiro, o Projeto de Choro em Brasília, os inúmeros projetos na Bahia e tantos outros espalhados pelo Brasil.

Todo esse movimento em torno do estudo das manifestações musicais populares dialoga, interage, com essa música lá na sua origem com os compositores, que em grande parte não estudaram música na escola, mas que a trazem integralmente e naturalmente na sua criação, nas suas melodias e nos seus ritmos.

Vejo aqui uma curiosidade que com esse diálogo e interação a música regional se desregionalizou, tem músico compondo forró em São Paulo, Choro na capital federal e por aí vai. Então, desse caldo surgiram e surgem muitos compositores, intérpretes, instrumentistas de altíssimo nível, com novas propostas estéticas. Nesse sentido acho até injusto apontar revelações, melhor nos atermos ao todo.

Por outro lado, não acredito que um artista regride, pode ter momentos menos brilhantes, mas seu poder de criação está lá. Penso que o que muda é o ponto de fuga da perspectiva da cena musical, dos observadores, do público, da crítica. Mas isso acontece em todas as áreas, acontece com a humanidade, passo o tempo e o olhar busca por novas paisagens.

20) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente público tosco, cantar e não receber, ser cantado, etc.)?

Zé Marcos: Ah! Aconteceu tudo citado na pergunta e um pouco mais (risos)! Mas, falando sério, lá no final da década de 90, fui convidado pela Oficina Cultural Grande Otelo, em Sorocaba – SP, para coordenar uma oficina com estudantes de música de diversas áreas.

Nessa oficina trabalharíamos o repertório de um movimento ocorrido em São Paulo na década de 80, a vanguarda paulistana. No final faríamos um show com Arrigo Barnabé e, de quebra, um show com Tom Zé.

Aconteceram tanto as oficinas quanto os dois shows e posso dizer que tudo que aconteceu ali foi inusitado. Só pra lembrar de uma passagem específica, lá pelas tantas no ensaio com o Arrigo, ninguém, exceto ele e o pianista Paulo Braga, acertava nada.

Aí o Arrigo vira pra mim e diz que eu tinha que reger. Então eu me vi do lado do Arrigo tremendo como uma vara verde tentando reger um 7/8 e assim ajudar a moçada que estavam igualmente tremendo (risos). Mas o show saiu, foi muito legal e, o mais importante, eu sobrevivi.

21) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Zé Marcos: A despeito de todas as dificuldades que a carreira musical nos impõe, tudo o que fiz de bom, todas as conquistas, os lugares que conheci, todos os amigos que fiz, tudo foi por conta da carreira musical. Então é muita felicidade! Quanto a tristeza, existem sim momentos doloridos, decepções, angústias pessoais, mas isso é da vida. Tristeza seria não fazer música!

22) RM: Existe o Dom musical? Como você define o dom musical?

Zé Marcos: Existe o dom, assim como existe dom em outras áreas também! Mas ele surge em diferentes níveis em pessoas distintas, por isso em meio a tantos compositores, instrumentistas e cantores surgem de tempos em tempos aqueles que são diferenciados, que tem um brilho especial, geniais, mas todos tem dom, em algum nível! Penso então que essa questão do dom não está no nosso domínio, portanto não deve nortear nosso fazer e sim o trabalho, a dedicação, a entrega, estes sim dependem de nós.

23) RM: Qual seu conceito de improvisação musical?

Zé Marcos: Acho a improvisação uma das coisas mais difíceis na música pois demanda muito conhecimento da linguagem ou muita musicalidade (dom), ou tudo isso junto.

24) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Zé Marcos: Como disse, tem músico que estuda a improvisação, que tem domínio teórico sobre tudo que está fazendo, mas ainda assim precisa ter musicalidade criatividade para juntar tudo e criar um discurso musical coerente e ao mesmo tempo interessante que diga algo ao seu ouvinte, que mexa com suas emoções.

Por outro lado, tem aquele instrumentista que não tem domínio teórico, mas sua musicalidade é tanta, é tão genial, que ele não precisa teorizar nada, ela flui naturalmente. Vejamos o caso do Dominguinhos, era um instrumentista exuberante em todos os gêneros em que transitou durante toda carreira, improvisava melodias que pareciam ter sido compostas antes, mas era improviso!

25) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre improvisação musical?

Zé Marcos: Os métodos reúnem o vocabulário necessário para se aprender a improvisar, escalas, acordes, arpejos de acordes, etc. Isso é bacana, ter essas ferramentas ali, organizadas. Mas, como disse elas são ferramentas, seria necessário um passo a passo sobre criação de pequenos motivos melódicos para o estudante pôr em pratica essas ferramentas e começar criar o conceito de improvisação musical.

A maioria dos métodos que conheço oferecem um cardápio de ferramentas, mas não propõe um trabalho criativo progressivo. Por vezes até dão dicas de fraseado, mas já num nível médio, o que não auxilia aquele estudante que está se iniciando na improvisação. Mas ainda assim os métodos são importantes, claro!

26) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o estudo de harmonia musical?

Zé Marcos: Também reúnem todas as informações conceituais para se compreender a harmonia musical. Mas, novamente aqui, é necessário um trabalho progressivo. Como as informações estão reunidas o estudante vai lendo, avançando para o capítulo seguinte sem trabalhar devidamente as informações no instrumento, para efetivamente se apropriar das ferramentas. Então, acho que os métodos, seja de teoria, harmonia, improvisação, são todos importantes, mas é preciso saber utiliza-los. 

27) RM: Você acredita que sem pagamento de jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Zé Marcos: Entendo que você se refere as rádios comerciais! Não posso afirmar nada nesse sentido, tenho um primeiro trabalho (CD) gravado, e não procurei, ainda, nenhuma dessas rádios para mostrar e tentar divulgar o trabalho.

Tenho feito isso mais por meio das rádios alternativas, independentes, aquelas que tem como princípio abrir espaço aos artistas independentes, como nossas parceiras do coletivo Uma Terra Só.

Então não posso ser leviano quanto a essa questão do jabá, é uma coisa que ouço falar, mas não vivi. Agora acho que minha música não se encaixa em 90% da programação dessas rádios que tem, claro interesses comerciais e por isso devem estar atentas aos modismos que interessam ao mercado.

28) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar a carreira musical?

Zé Marcos: Primeiramente estude! Hoje em dia existem inúmeras oportunidades para se estudar música sem sair de casa. Busque por bons professores, que nem sempre são instrumentistas virtuoses, mas os que tem uma visão pedagógica do ensino de música.

O estudo da música não é definitivo no desenvolvimento musical de alguém, existem outros fatores, que não estão no nosso domínio como disse lá atrás, mas o estudo nos dá ferramentas muito eficientes para o desenvolvimento de um trabalho consistente.

Além do estudo aquelas dicas de sempre; dedicação, entrega e humildade para assimilar uma crítica, por mais dura que possa ser. Por fim respeito à música, aos colegas músicos e ao público, ao ouvinte, aquele que verdadeiramente pode fazer nossa música reverberar.

29) RM: Festival de música revela novos talentos?

Zé Marcos: Sim, revela! Acredito que é uma oportunidade incrível para muitos artistas mostrarem sua música, seu potencial como intérprete ou como instrumentista.

Acho apenas que o artista tem que ter o cuidado de não se preocupar em “manipular”, sua música com o intuito de ganhar o festival, pode soar meio falso. Tem que se manter fiel à sua estética, ganhar ou perder depende do julgamento do júri e do público, não está na alçada do artista.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Zé Marcos: Acho lamentável, muito aquém do que seria o mínimo. Não abre espaço para o músico independente e mesmo os grandes nomes vem sendo lembrados só quando morrem. Não abre espaço para a grande diversidade musical existente no Brasil, ao contrário tenta ditar qual será o gênero ou hit que deverá ser cantado em todos os cantos do país.

Tudo bem, tem a questão comercial, respeito isso. Também acho que toda manifestação é legítima, não vou entrar no mérito da qualidade do que a grande mídia propaga, mas acho uma pena que isso ocorra no Brasil, um país tão rico culturalmente, com uma imensidão de gêneros musicais e de compositores, intérpretes e instrumentistas incríveis.

31) RM: qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e ITAÚ Cultural para a cena musical.

Zé Marcos: Na contramão da grande mídia, essas instituições fazem, verdadeiramente um trabalho em prol da música brasileira. Seja na manutenção do rico repertório que temos, trazendo os grandes nomes para interagir com músicos em início de carreira.

Abrem espaço, por meio de editais, a artistas independentes, desconhecidos, e oferecem uma estrutura profissional tanto para o artista quanto para o público. Mantêm cursos e oficinas que possibilitam a interação e a vivência entre músicos e público.

O senão é que essas instituições estão localizadas em algumas cidades e, claro, não dão conta de atender tanta demanda, seja por parte dos artistas, os editais são muito concorridos, ou seja por parte do público. Mas é um trabalho louvável!

32) RM: Quais seus projetos futuros?

Zé Marcos: Continuar dando aula e divulgando a minha maneira de pensar o ensino de música e do violão por meio do meu livro “Violão Guia De Ensino e Aprendizagem”.

Continuar compondo e trabalhando na divulgação da minha música, pretendo iniciar a produção de clips das minhas músicas para meu canal no YouTube. Enfim, seguir em frente, como diz a letra da música que dá título ao meu álbum “Linha De Chegada”, “apesar de tudo insisto e não perco a esperança”.

33) RM: Quais os seus contatos para shows e para os fãs?

Zé Marcos: (15) 99105 – 2985 | https://www.instagram.com/zemarcosviolao

Canal: https://www.youtube.com/@zemarcos2533 

Clipe LINHA DE CHEGADA – Zé Marcos: https://www.youtube.com/watch?v=LAumvc6UxKI 

Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=uQEAV9N6Z4k&list=PL3JyHSwNlsNGBUi9jiES4v1bUfDr7V5wj 

Trechos do show de lançamento podem ser vistos no link: https://www.youtube.com/watch?v=uQEAV9N6Z4k 

O clipe com a música tema dirigido por Juca Mencacci e roteiro de Márcia Mah: https://www.youtube.com/watch?v=LAumvc6UxKI


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Comments · 3

  1. Muito boa a entrevista com o Zé Marcos, com ótimas perguntas e respostas aprofundadas.
    O Zé Marcos é um grande músico e compositor. E seu CD “Linha de chegada” é ótimo!
    Ele também é um professor –daqueles difíceis de encontrar–, por aliar uma ótima didática com a competência para tirar o melhor do aluno, por meio de um método progressivo e uma organização para o ensino e aprendizagem. Por muito tempo fui de São Paulo para Sorocaba só para fazer aula com ele e, atualmente, contínuo os estudos na modalidade on-line.

  2. O Zé Marcos é um profissional, compositor, didata e intérprete muito importante e dar espaço a esta entrevista, foi uma excelente ideia! Perguntas inteligentes, respostas interessantes da maravilhosa trajetória do entrevistado. Parabéns ao Editor e ao Zé Marcos pela entrevista e quem agradece é o público simpatizante que muito aprendeu sobre o tema com a leitura do diálogo!

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Uma Revista criada em 2001 pelo jornalista, músico e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.