Nilze Benedicto

Compartilhe conhecimento

 

A cantora, compositora, trovadora (trovas destacadas no Japão e no Uruguai), poeta e professora Nilze Benedicto é formada em Ciências Biológicas e pós-graduada em gestão ambiental. Alguns de seus textos estão configurados em várias antologias.

Atualmente se dedica à celebração do construto social feminino, a dispersão de temas que envolvem questões ligadas aos grupos minoritários, tendo foco em temas: empoderamento feminino, ambiental, sobre negritude, ancestralidade e para o público LGBTQIAPi+ . Participa de eventos culturais na cidade e adjacências.

No Solar do Jambeiro (Niterói, RJ), estreou “Sarará Crioula”, seu primeiro show solo (2019); Seu primeiro EP, “Mulheres Potentes”, foi aplaudido por
renomados nomes do samba e pelo público de diversas cidades no Brasil.

É vocalista principal do show AYABÁS ATI EWE, apresentado em teatros do Rio de Janeiro. Seu show SAMBA DE MULHER foi apresentado no Teatro Municipal de Niterói e São Gonçalo. Seus shows FILHAS DE LUANDA e EM NOME DELAS foram apresentados na Sala Nelson Pereira dos Santos (Reserva Cultural – Niterói).

Seus trabalhos autorais: CASA DI VÓ, METAMORFOSE, AINDA DÁ TEMPO, FILHA DO VENTO e NOTAS DE SAUDADE , assim como seus álbuns: MULHERES POTENTES e BENÇA, podem ser acessados nas redes sociais e streamings.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Nilze Benedicto para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 09/01/2026:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Nilze Benedicto: Nasci no dia 05/06/1965 em São Gonçalo – RJ. Registrada como Nilze Lene dos Santos Benedicto.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Nilze Benedicto: Meu primeiro contato com a música foi escutando o cantarolar da minha mãe (Zilda Rosa dos Santos Benedicto) que eu nunca sabia o que ela assobiava. Só muitos anos depois vi que eram cânticos de resposta de negros que foram gravados por Clementina de Jesus e entre outros.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?

Nilze Benedicto: Formada em Ciências Físicas e Biológicas e sou professora de Biologia. Lecionei há quase 30 anos no ensino privado e público. Minha experiência musical foi por inspiração.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Nilze Benedicto: Minhas influências musicais foram as mulheres que cantavam e cantam Samba: Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Jovelina Pérola negra, Leci Brandão, Beth Carvalho, entre outras.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?

Nilze Benedicto: Em 2019, fiz meu primeiro show como profissional no Solar do Jambeiro em Niterói – RJ. Antes eu cantava nas rodas de sambas com um amigo.

06) RM: Quantos álbuns lançados?

Nilze Benedicto: Lancei dois CDs: Mulheres Potentes (2021) e Bença (2025).

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Nilze Benedicto: Samba.

08) RM: Você estudou técnica vocal?

Nilze Benedicto: Fiz algumas aulas de técnica vocal por pouco tempo.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Nilze Benedicto: Sei que é importante o estudo da técnica vocal, mas confesso que não sou uma exímia aluna que faz exercícios vocais todos os dias.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?

Nilze Benedicto: Clementina de Jesus, Clara Nunes, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Beth Carvalho, Leci Brandão, Fabiana Cozza , Alcione, Teresa Cristina, Marcele Motta, Nina Simone, Erykah Badu, Maria Bethânia, Mariene de Castro, Zezé Motta, Larissa Luz, entre outras.

11) RM: Como é seu processo de compor?

Nilze Benedicto: De forma espontânea. Aparece letra e a melodia.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?

Nilze Benedicto: Selma do Samba, Declar Sodré.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Nilze Benedicto: A carreira musical independente me garante liberdade artística. Eu decido o que cantar, como cantar e quando lançar, sem precisar moldar minha obra a padrões comerciais. Isso me permite aprofundar temas que são marcas do meu trabalho, como ancestralidade, negritude, mulheres, território e meio ambiente. Tenho controle total da minha carreira, construo minha identidade de forma verdadeira, lanço projetos no meu ritmo e mantenho uma relação direta com o público por meio da autogestão.

Por outro lado, a independência traz desafios. Acumulo muitas funções, o que exige organização para evitar o cansaço emocional. Há limitações financeiras, já que gravações, clipes, divulgação e shows demandam investimento e o retorno costuma ser mais lento. O alcance também é mais difícil, pois os algoritmos nem sempre favorecem artistas independentes, e a falta de uma estrutura profissional fixa gera dependência de parcerias pontuais.

Além disso, o reconhecimento institucional costuma ser tardio, acontecendo muitas vezes primeiro em circuitos culturais alternativos. O equilíbrio está em entender que ser independente não é caminhar sozinha, mas escolher parcerias conscientes, construir equipe aos poucos, utilizar editais e redes culturais como alavanca e manter a autoria e o protagonismo da própria trajetória.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Nilze Benedicto: No palco, canto a minha história e a história coletiva. Trago temas como ancestralidade, empoderamento feminino, território, espiritualidade e questões sociais, priorizando sempre o repertório autoral. Cada show tem um conceito, e uso a palavra e a presença cênica para criar conexão, escuta e afeto, não só entretenimento.

Fora do palco, organizo minha carreira por etapas, do processo criativo à circulação, me inscrevo em editais e estruturo projetos com impacto social e cultural. Não vendo só música, vendo identidade, pertencimento e penso minha trajetória como legado.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?’

Nilze Benedicto: Desenvolvo minha carreira musical de forma independente, atuando de maneira empreendedora na criação, gestão e difusão do meu trabalho artístico. Além de cantora e compositora, planejo lançamentos, organizo projetos autorais e defino conceitos estéticos e narrativos alinhados à ancestralidade, ao protagonismo feminino e às questões sociais e ambientais.

Estruturo e inscrevo projetos em editais e políticas públicas, produzo releases e materiais de divulgação e realizo ações estratégicas de comunicação para fortalecer minha identidade artística e a relação direta com o público. Também construo redes de colaboração com artistas e coletivos culturais, diversificando minhas formas de atuação por meio de shows, projetos culturais e ações educativas.

Minha atuação empreendedora busca sustentabilidade, autonomia artística e a construção de um legado cultural, utilizando a música como instrumento de expressão, memória e transformação social.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

Nilze Benedicto: A internet me ajuda ampliar o alcance da minha música e me aproxima do público. Consigo divulgar meu trabalho, lançar músicas e contar minha história diretamente. Mas também atrapalha, porque exige presença constante, acelera tudo e nem sempre respeita o tempo da criação. Por isso, uso como ferramenta, sem deixar que ela dite o ritmo da minha arte.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Nilze Benedicto: O home estúdio facilita muito, porque dá autonomia, reduz custos e permite experimentar e registrar ideias no meu tempo. Por outro lado, pode limitar a troca com outros músicos e a qualidade final, dependendo da estrutura. Por isso, vejo como uma ótima ferramenta de criação, mas não substitui totalmente o estúdio profissional e o trabalho coletivo.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Nilze Benedicto: Eu me diferencio pela identidade e pelo conteúdo do meu trabalho. Canto músicas autorais que falam de ancestralidade, mulheres, território e questões sociais, e organizo minha carreira em projetos com conceito. Não sigo tendência: sigo propósito. Aposto na presença ao vivo, na troca com o público e em parcerias que tenham sentido, construindo um caminho próprio dentro do meu nicho.

19) RM: Como você analisa o cenário do Samba. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas e quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?

Nilze Benedicto: Nas últimas décadas, o samba revelou mulheres fundamentais, que trouxeram novas vozes e narrativas sem perder a raiz. Destaco Teresa Cristina, Fabiana Cozza, Ana Costa, Mariene de Castro, Roberta Sá, Nilze Carvalho, Áurea Martins (que ganhou ainda mais reconhecimento nesse período), Thaís Vilela e Dorina, entre outras. São artistas que afirmam o samba a partir da vivência feminina, da ancestralidade e da palavra, ampliando o espaço das mulheres no gênero. Essas revelações ajudaram a renovar o samba com identidade, consciência e respeito à tradição.

20) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?

Nilze Benedicto: Já passei por algumas situações inusitadas citada na pergunta, como chegar para cantar e encontrar som precário, estrutura improvisada ou ambiente totalmente fora da proposta do show. Já vivi gafes de palco, mudanças de última hora, apresentações para públicos difíceis e até situações de cantar e ter problema para receber. Faz parte da caminhada de quem é independente e tudo isso acaba virando aprendizado e jogo de cintura.

21) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Nilze Benedicto: O que mais me deixa feliz é ver minha música tocando as pessoas, criar conexão no palco, contar histórias e manter minha identidade viva através do samba. O que mais me entristece é a falta de reconhecimento e valorização do trabalho autoral, especialmente para artistas independentes, e as dificuldades de sustentar a arte num mercado tão desigual.

Tem algumas como lugares que não oferecem apoio técnico satisfatório pra exercer a arte. Além disso público que acha que a que tem que ditar nosso repertório ou pedir pra dar uma canja e na verdade acha que estar num Videokê e outros que vão para o samba, mas não respeitam a filosofia do samba e acham que é lugar pra apenas entreter.

22) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?

Nilze Benedicto: Existe sensibilidade e predisposição, mas associado ao estudo, vivência e dedicação.

23) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?

Nilze Benedicto: Pra mim, improvisação musical é escuta e presença. É estar conectada com os músicos, com o público e com o momento, respeitando a essência da música, mas deixando espaço para o sentir, para a troca e para o inesperado acontecer. Não é bagunça, é liberdade com consciência. É deixar o coração conduzir.

24) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Nilze Benedicto: A improvisação existe de fato, mas ela não vem do nada. Quanto mais a gente estuda, escuta e vivencia a música, mais livre fica pra improvisar. No palco, o improviso acontece no momento, mas ele é sustentado por tudo que foi vivido e aprendido antes.

25) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?

Nilze Benedicto: Os métodos de improvisação ajudam a dar base, vocabulário e segurança, principalmente pra quem está começando. O lado negativo é quando a pessoa fica presa demais ao método e perde a escuta, a intuição e a emoção. Pra mim, o equilíbrio é estudar, mas deixar espaço pra vivência, pra troca e pra verdade do momento.

26) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?

Nilze Benedicto: O estudo de harmonia funcional amplia a liberdade musical e a criação, mas quando vira excesso de teoria pode afastar a escuta, o corpo e o sentimento.

27) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Nilze Benedicto: Acredito que é difícil, porque o jabá ainda é uma realidade no rádio, mas não impossível. Quando a música tem verdade, identidade e encontra pessoas comprometidas com a cultura, ela chega. Mesmo assim, o sistema ainda precisa ser mais justo e transparente para quem produz de forma independente.

28) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Nilze Benedicto: Eu diria pra estudar, ouvir muito, respeitar a própria história, a essência e ter paciência. Carreira musical muitas vezes é caminho longo, exige disciplina, verdade e resistência. Não é só talento, é constância, propósito e amor pela música. Apesar de que encontramos muita gente que estão se destacando, não é nem talento mas outros fatores que agregam nesse caminho que muitas artistas que agem independentemente não possuem.

29) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música? Festival ainda revela novos talentos?

Nilze Benedicto: Revela, sim, mas não sozinho. Festival de música dá visibilidade, troca e experiência de palco, mas o que sustenta o talento depois é o trabalho contínuo, a identidade artística e a capacidade de seguir criando e se organizando fora daquele momento.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?

Nilze Benedicto: Vejo a cobertura da grande mídia como limitada e concentrada em poucos nomes e tendências. Ela dá visibilidade, mas muitas vezes não reflete a diversidade real da cena musical brasileira, especialmente a produção independente, periférica e autoral. Ainda assim, quando há abertura, é importante ocupar esses espaços e ampliar as narrativas.

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?

Nilze Benedicto: Vejo o SESC, o SESI e o Itaú Cultural como espaços fundamentais para a cena musical, especialmente para artistas independentes. Eles ampliam o acesso, valorizam a diversidade e ajudam a manter projetos autorais vivos, oferecendo estrutura, visibilidade e formação de público.

32) RM: Quais seus projetos futuros?

Nilze Benedicto: Meus projetos futuros envolvem seguir lançando músicas autorais, circular com shows conceituais e aprofundar projetos que unem samba, ancestralidade, mulheres e impacto social. Desejos concretizar um projeto musical familiar. Quero fortalecer a presença da minha obra em palcos, editais e ações educativas, construindo uma trajetória consistente e com propósito.

33) RM: Quais seus contatos?

Nilze Benedicto: Shows e Produção: Vivi Santos pelo (21) 97488 – 2022 | produçã[email protected] | https://www.instagram.com/nilzebenedicto.oficial

Canal: https://www.youtube.com/@nilzebenedicto.oficial

Show: https://www.youtube.com/watch?v=rg1rUXa6ggM

Entrevista cedida para a E.Mz.José Leandro em Itaboraí-12/07/2024: https://www.youtube.com/watch?v=MEVZ4d8T5IY


Compartilhe conhecimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Revista Ritmo Melodia
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.