Helena Elis
Cantora, violonista, compositora, escritora e educadora paulistana, Helena Elis consolidou-se como um dos nomes mais autênticos e resilientes da Nova MPB.
Com uma trajetória marcada pela independência vigorosa, sua história de vida, confunde-se com a própria essência de sua obra: uma fusão de entrega cênica, acabamento literário e uma inabalável capacidade de superação.
A trajetória das Ruas ao Reconhecimento Nacional: a jornada de Helena Elis na música sempre foi acompanhada de muita garra. Nos bastidores de uma carreira multifacetada, a artista chegou a vender seus próprios discos de porta em porta e em bancas de rua em São Paulo, enquanto se apresentava na noite paulistana.
O divisor de águas e a projeção nacional, vieram a partir de sua marcante aparição no programa do Jô Soares (2003), abrindo portas em redes de rádio por todo o país, a começar pelas FMs das universitárias federais do Nordeste.
Em 2004, durante uma temporada na chamada “Alta Estação” em Fortaleza – CE, seu talento chamou a atenção de uma família portuguesa, resultando em um convite para uma turnê na Europa em 2005. As vivências e as “saias justas” do circuito musical internacional foram mais tarde ironizadas com graça e bom humor em sua célebre composição “Clube da Música Ao Vivo”.
O Fenômeno de “Lugares Proibidos” o maior marco de sua discografia autoral consolidou-se com o hit “Lugares Proibidos” (EMI, 2008), que dominou as programações de rádios adultas e contemporâneas brasileiras.
A força da canção extrapolou fronteiras estéticas e ganhou uma versão popular de imenso sucesso gravada pelo grupo de samba Doce Encontro (Som Livre), registrada ao vivo no Citibank Hall, alcançando a 3ª posição nos rankings nacionais de audiência da Crowley. O hit também marcou a crônica social da época ao ser tema do início do badalado romance entre o jogador Roger Flores e a atriz Deborah Secco.
Com sua formação no curso superior de Letras pela Universidade de Santo Amaro (SP), Helena Elis imprime em suas construções musicais, um refinamento poético singular. Sua produção literária expandiu-se para além das partituras: a artista é escritora com poemas selecionados em quatro antologias nacionais de prestígio (que reúnem anualmente as 250 melhores obras do país), com destaque para as poesias “A morte da amizade”, “Novalgina Pura” e Mar dos Poetas Covardes – O suicídio. A relevância de sua escrita também alcançou o ambiente educacional.
Sua música “Eles Amam/Elas Amam”, parte de seu terceiro álbum – Tudo Tem Dois Lados, tornou-se material oficial e contínuo de estudo e pesquisa para o 6º ano do Ensino Fundamental, a pedido das redes Salesianas do Brasil, alcançando uma tiragem nacional de mais de 35 mil cópias por ano, para redistribuição.
Com uma carreira discográfica que já soma oito álbuns autorais distribuídos nacionalmente pela Tratore/Fonomatic, Helena colaborou com grandes arranjadores e produtores como Humberto Camilo Queiroz, Xinho Rodrigues, Daniel Pereira, Ivan Teixeira.
No elogiado álbum Voz (2011), pontuou romantismo e sensualidade em parcerias de composição com o jornalista e apresentador Paulo Galvão (Rede TV / CBN). Em 2017, lançou o sétimo disco, Meus Delírios, no Teatro Clara Nunes, acompanhada pela Orquestra Big Band Paulistana e com participação de Chambinho do Acordeom.
Na sequência, o EP Helena Elis Concreta e Abstrata, produzido pelo estúdio L’em Casa, uniu recursos sonoros da música inglesa contemporânea à MPB, emplacando as músicas “Trailer” (Transamérica Light) e “Caverna” (Lab 344 / Onda FM) nas principais listas de execução do Rio de Janeiro e do Sul do país.
Após enfrentar o doloroso luto pela perda de seu esposo e produtor José Galvão no início de 2018, Helena Elis ressignificou sua dor inserindo-se ativamente no cenário da educação pública.
Atualmente, concilia os palcos com a missão de lecionar as disciplinas de Língua Portuguesa, Espanhola e Projeto de Vida para o Ensino Médio e Fundamental, integrando a arte como ferramenta pedagógica de conexão com os jovens na era digital.
Durante o isolamento social da pandemia, manteve viva a sua voz com o projeto de transmissões ao vivo “Meu Palco em Casa”, apresentando música inéditas editadas pela gravadora Lab 344, como “Primeiras Intenções”.
Consolidando sua maturidade e superação diária, Helena Elis circula no circuito de teatros e centros culturais com três propostas artísticas de formato acústico minimalista (voz e violão), altamente portáteis e de forte impacto dramático: “Lugares Proibidos” — O Monólogo Cênico-Musical (55 min |Classificação Livre): Espetáculo amparado no conceito de “Teatro de Malas”, onde a atriz encena e escreve a própria história (Helena/Troiana) em tempo real através de uma dramaturgia descronológica, quebrando antigos silenciamentos perante assédios morais vividos no trabalho e outros.
“Show para mim mesma!” – Manifesto Autoral: Performance intimista, que antecipa o lançamento de seu nono álbum de estúdio, trazendo canções densas como “Advérbios”, “Põe a Mesa, Tira a Mesa” e “Flerte” (parceria com Helô Paiva).
“Helena Elis Canta os Poetas Mortos” (Tributo | 90 min): Uma imersão profunda que resgata a crônica social e o romantismo visceral de ícones imortais da MPB, como Cazuza, Renato Russo, Cássia Eller, Raul Seixas, Rita Lee e Angela Ro Ro.
Segue abaixo uma entrevista exclusiva com Helena Elis para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 31/08/2026:
01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e cidade natal?
Helena Elis: Sou fruto da efervescência cultural da geração de 1980 e trago em meu DNA, a pulsação urbana e plural da minha cidade natal, São Paulo, embora ultimamente, ande desejando aspirar também, ares diferentes, como o interior e o litoral paulista.
Escolho resguardar minha data de nascimento como um direito à minha própria mística temporal, mas celebro a maturidade que essa década me legou. Fui registrada como Helena Elias da Silva.
02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.
Helena Elis: Meu despertar musical ocorreu no ambiente doméstico, de forma quase clandestina e profundamente intuitiva. Eu assistia, em silêncio, às aulas de harmonia musical que minhas irmãs frequentavam.
Quando a casa esvaziava, eu tomava o violão escondida; não tocava apenas notas, mas decifrava a arquitetura geométrica dos acordes que havia memorizado visualmente. A música me habitou primeiro pelo olhar e pela intuição, antes mesmo de se converter em som físico.
Foi aos seis anos de idade em uma igreja evangélica. Contra a vontade de meu pai que era ateu. Minha mãe e minhas irmãs me levaram a igreja onde havia coral e o grupo de mocidade. Eu ficava encantada apenas com a parte instrumental. Pensei, vou tocar Violão ou outro instrumento de corda.
Minhas irmãs resolveram fazer aula de Violão e o professor ia à minha casa. A aula não era para mim, mas eu prestava atenção em todos os acordes, todos os movimentos, aí um dia peguei o Violão e mostrei para elas como era que se fazia. Elas ficaram boquiabertas e deixaram de fazer as aulas. E a que regia o grupo de jovens na igreja me pediu para tocar para eles a partir de então.
Mas meu primeiro contato real com a música aconteceu desde criança, pois meu pai tocava no acordeon, músicas de Luiz Gonzaga, enquanto minha mãe fazia contraponto com a gaita, e eu escutava aquilo maravilhada!
03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?
Helena Elis: Minha base estrutural compreende três anos de dedicação à teoria musical voltada para instrumentos de sopro, tendo o clarinete como objeto de estudo. Minha voz encontrou morada inicialmente como contralto em canto coral e, posteriormente, expandi esse horizonte por meio de cursos de especialização em canto popular.
Minha trajetória se consolida na docência da disciplina de Língua Portuguesa, onde a precisão do ensino se funde à sensibilidade da escuta.
04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?
Helena Elis: Meu alicerce estético foi moldado por arquitetos da nossa canção. No espectro masculino, sou profundamente tocada pela sofisticação harmônica de Djavan, pela estrutura semanticamente profunda dos textos de suas obras, pelo lirismo pop de Guilherme Arantes, pela audácia cênica de Ney Matogrosso e a densidade nobre de Orlando Morais.
No universo feminino, sou influenciada pela crueza poética e garganta robusta de Angela Ro Ro, a elegância vocal de Verônica Sabino e a vanguarda minimalista de Adriana Calcanhotto. Nenhuma dessas referências perdeu importância e, sim, se transformaram em camadas geológicas da minha identidade musical.
Na infância foram as músicas de Luiz Gonzaga, músicas sertanejas tradicionais e Ronaldo Adriano, Jerry Adriani, Roberto Carlos, que os meus pais escutavam e tocavam sempre. Além de música Gospel, como Ozéias de Paula e Álvaro Tito.
05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?
Helena Elis: Penso que a carreira de um artista, não se inicia com um contrato assinado, mas sim no instante em que a arte passa a ser um pensamento obsessivo e estruturante.
Para mim, a jornada começou naquele primeiro acorde secreto descoberto na infância, enquanto observava de forma xereta, às aulas particulares de violão popular que minhas irmãs recebiam em casa. De lá para cá, esse fluxo avançou de forma orgânica e inevitável, transformando o ato de fazer música, em uma necessidade vital de subsistência e expressão do ser.
Eu tocava apenas músicas sacras na igreja, mas dava uma fugida experimentando músicas que me chamavam a atenção, que ouvia no rádio, no acordeon e gaita de meus pais e até as da vitrola do vizinho.
Mas sentia nas veias o sangue correr mais veloz pelo instrumento e pouco pelo canto. Precisava cantar apenas para a voz servir de guia para treinar durante as aulas. Nesse período já compunha músicas sacras e músicas para os candidatos da cidade, em 1985 jingle para Jânio Quadros, Antônio Ermírio, Paulo Maluf, Ulisses Guimarães, etc. Nesse período tocava nas igrejas, em casa e em formaturas.
Isso quando havia tempo entre uma profissão e outra que fui exercendo com o passar dos anos: vendedora de artigos de mesa e banho na feira junto a uma de minhas irmãs mais velhas.
Fui vendedora de amendoins junto ao pai na linha do trem de Vila São José e mais tarde de doces em geral; assistente de limpeza, professora de datilografia, professora de violão particular e numa entidade filantrópica em São Paulo, auxiliar odontológico e fabricante artesanal e vendedora da própria cocada.
Em 1998 me casei e continuei vendendo cocadas e dando aulas particulares. Porém, meu marido não queria que eu continuasse com as vendas e aulas, embora fosse dinheiro responsável por metade do pagamento das despesas mensais. Parei e fui fazer o que ele também não ia gostar nada.
Descobri que podia levar mais a fundo a música, não apenas tocando para as pessoas cantarem, mas também, cantando. E comecei cantar na famosa e já desgastada “Música ao vivo no Barzinho”.
Fiquei tanto tempo trancada espontaneamente dentro do mundo Gospel, que desconhecia uma serventia maior que a música poderia ter em minha vida. Eu não precisava ficar esperando apenas os finais de ano para ganhar um dinheiro extra nas formaturas das escolas e no Tom Brasil.
Coloquei o Violão nas costas e fui à caça do PRIMEIRO BARZINHO, sem experiência nenhuma sobre em quais locais cabia o meu trabalho, e qual proposta teria de apresentar aos donos de bares.
Eu entrava em qualquer local que tinha prateleiras lotadas de garrafas de uísques, vinhos e outras bebidas, e escrito: Restaurante, Pizzaria, Churrascaria, etc, e lá ia me metendo, desconhecendo as manhas do próprio meio.
Lembro-me do primeiro dia que comecei procurar, e dos primeiros não, embora no final do dia, um me deu mais atenção, perguntou qual era o meu repertório e disse: Tudo bem! Vitória! Fui contratada para fazer Happy Hour de MPB de segunda a sexta. O bar chamava-se Bardrugada.
Fiquei muito feliz, mas não iludida, pois meus professores haviam alertado sobre a “máfia da noite”. Eu tentei me preparar, me proteger para não me abater com futuros aborrecimento, mas, na pele, ardeu bem mais que o imaginado!
Eu sabia que eram apenas os aperitivos da refeição, apenas as primeiras pedrinhas do caminho de um sonho com uma longa ESTRADA pela frente! Apliquei a noção musical que adquiri na época de coral.
Lembrei de todas as músicas que tinha de cabeça e fui incluindo novas ao repertório. Enquanto cantava como sabia, comecei um curso de canto para aprender explorar melhor a voz e fiz várias sessões de fonoaudiologia para melhorar a dicção.
Os obstáculos do meio musical já não assombravam tanto, pois estava consciente de que já estavam inclusos no preço do sonho. O que me custaria mais caro chegaria em forma de uma decisão muito difícil.
O meu marido impôs algo impossível. Eu devia chegar em casa no máximo as 21:00 h, caso contrário, nem precisa voltar. A música ao vivo dava mais dinheiro após as 22:00 h. Resultado; Fim de casamento. Descobri que meu sonho. Com todas as dificuldades valia muito mais.
Começar de novo, como diz a canção. Eu com um violão nas costas, um caminhãozinho de mudança que eu mandei pelo menos duas vezes embora, por não querer sair de casa levando as poucas coisas que eu tinha. Disse em pensamento; Cocadas, conto com vocês outra vez, hein? Aí sim, naquele momento realmente senti que coloquei o pé na estrada.
06) RM: Quantos álbuns lançados?
Helena Elis: Embora a discografia física e palpável seja de oito álbuns autorais, minha produção fonográfica atual concentra-se no ambiente digital, que considero a praça pública contemporânea.
Meu foco recente e absoluto é estimular o público a adotar em sua playlist as canções inéditas lançadas nos anos recentes, como: Tratamento de Silêncio, Flerte (Versão Instrumental Épica), Que Nem Na Novela, Brincar de Desprezar, Dentro da Palavra, Gambiarra e outras já compostas, ainda por gravar.
Parte delas pavimenta o caminho para os meus novos projetos cênico-musicais autorais, incluindo a trilogia que organiza o monólogo Lugares Proibidos (2027).
Lancei em 2000, o CD – ETC… Brasil, com letras mais elaboradas do que as que eu faço hoje. E acho que dificilmente agradaria ao meu público atual. O álbum não se limita ao romantismo. E contém poesias em forma de canção, falando dos segredos e característica predominante sobre quem faz poema (o poeta). E até uma espécie de oração pedindo a paz no Brasil, faixa que tema do CD. O público gostou de “CORAÇÃO de POETA”, “ARTE de SONHAR” e “ETC…BRASIL”.
Em 2003, lancei o segundo CD – LUGARES PROIBIDOS, no formato Voz e Violão, mais acústico que o primeiro disco com uma ou outra faixa sequenciada. Deste, o público costuma me pedir aos gritos as músicas “FIEL”, “SE CUIDA”, “PRA TE DOMINAR” (A qual tirou primeiro lugar no festival Clube das mulheres e no Bar A Lanterna), e “FRANCISCO”.
E “LUGARES PROIBIDOS”, uma das músicas que considero mais popular neste CD, por ter um refrão fácil de se gravar. A mais solicitada e que mais chamava a atenção das pessoas. Vendi muitos CD por dois fortes motivos: A música tema e a capa, que a maioria das pessoas diziam que chamava atenção.
O trabalho de fotografia e arte final foram todos guiados rigorosamente por mim. Em 2004, após uma aparição no programa do Jô Soares, fui para Fortaleza – CE, em que passei uma temporada. E recebi o convite de uma família de portugueses, para passar dois meses me apresentando em Portugal.
Pediram-me para fazer um disco simples com músicas conhecidas de outros autores, incluindo a canção “Meu mel”, que eles gostavam demais. O CD seria vendido junto com o CD – Lugares Proibidos e o ETC… BRASIL. Eu era pouco conhecida no Brasil, menos ainda na Europa.
O CD deveria ter, inclusive, músicas das novelas brasileiras das quais os portugueses eram telespectadores assíduos. O CD – AS MAIS PEDIDAS DE MINHA NOITE foi o terceiro (não autoral).
Em abril de 2006, terminei o meu quarto CD – Alma Feminina (Sedução). Pela primeira vez, e não sei por que, incluir uma música repetida Lugares Proibidos num formato em piano e voz, pois achei que ela tinha tudo a ver com o novo CD. Pela cobrança de romantismo que se fazia ao parceiro amoroso, propondo o buquê de rosas.
Em junho de 2006 fiz o lançamento do CD no Bar Lua Nova (Recanto dos Cantadores), com a casa cheia. Confesso que foi a primeira noite mais emocionante de minha vida, ver e ouvir tanta gente cantando minha música, que eu sempre temi cantar durante as noites paulistanas, por não ser conhecida.
A imagem que me lembro durante a música “Sedução”, canção de abertura da Turnê, era de pessoas arregalando os olhos úmidos de emoção, como se estivessem encontrados a profundidade mais que esperada a cada final de frase, mas que nunca tivessem se dado conta em seu dia a dia.
Naquele instante percebi que o poeta nada mais é do que o tradutor dos sentimentos humanos. As músicas que mais têm agradado ao público são: “SEDUÇÃO”, “ME DÁ UM BEIJO E TCHAU”, “BYE BYE DO LENÇO”, “CLUBE DA MÚSICA AO VIVO” (que ironiza a história da música ao vivo no Brasil), “HUMANOS”, “CASAL” e lógico, “LUGARES PROIBIDOS”, que se tornou o chamariz desse trabalho com dezesseis músicas autorais.
07) RM: Como você define seu estilo musical?
Helena Elis: Eu me situo no território da Música Popular Brasileira, de traço confessional. É uma MPB que dialoga com o romantismo, com o drama lírico e com a expressividade emocional.
Minhas canções são crônicas cantadas; não busco o mero entretenimento e nem me restrinjo às amarras comerciais, mas anseio por cumplicidade e identificação profunda do público, através da palavra e da melodia.
08) RM: Você estudou técnica vocal?
Helena Elis: Sim. Embora a prática tenha chegado um pouco antes, compreendi cedo, que a intuição artística necessita do suporte da técnica para não se esgotar.
Busquei o estudo do canto popular em núcleos especializados, compreendendo o funcionamento fisiológico do meu aparelho fonador para que a minha voz pudesse servir fielmente à carga dramática das minhas interpretações.
Procuro aplicar isto a esta voz que chamo de “pequena”, por reconhecer que potência é resultado do que a natureza entrega a cada um. Cada um tem sua paleta vocal, seu organismo fonatório.
09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?
Helena Elis: A voz é a reverberação física da alma de quem canta, porém também um instrumento muscular perecível. O estudo técnico nos dá a longevidade e a segurança necessárias para transitar entre a suavidade de uma bossa e a explosão de um drama sem lesionar as cordas vocais.
Cuidar dela, recorrendo principalmente ao uso consciente da tessitura, ressonância e respiração, com o auxílio fonoaudiólogo e é, antes de tudo, um ato de respeito para com o próprio aparelho sonoro e para com o público, que espera do artista, ao vivo, a mesma qualidade vocal que gerou nele, em primeira instância nos streamings, o interesse por seu trabalho.
10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?
Helena Elis: Além das minhas influências diretas, nutro profunda admiração por intérpretes que colocam a verdade visceral acima da perfeição técnica estéril. Curto a entrega de Angela Ro Ro, a precisão cirúrgica grave de Simone e a longevidade do timbre de Maria Bethânia, que enganou o tempo direitinho (risos).
Sou fanática pelo jeito doce da vibração e dicção do canto de Adriana Calcanhotto e apreciadora da modernidade de nomes que conseguem sustentar a força da MPB em tempos de liquidez cultural.
11) RM: Como é seu processo de compor?
Helena Elis: Meu processo criativo é essencialmente catártico e decronológico. Ele nasce do acúmulo de recortes de interpretações do que vivo ou experimento em dado momento específico.
Em silêncios, por vezes, de dores profundas, porém, predominantemente na hora de amar. Escrever e musicar é o meu mecanismo de transmutação: capturo fragmentos de memórias e assédios cotidianos e os organizo em estruturas melódicas.
A música, em paralelo com a literatura, para mim, opera como uma lavra diária de salvação contra as angústias da vida, principalmente nos últimos três anos, em que foram detectados reveses imprevisíveis pelo meio do percurso. A arte é o lugar onde o trauma se converte em beleza sonora.
Me vem à ideia de um tema, com partes da letra. Aí começo a pesquisar sobre o tema, procurando sempre o sentido inverso das coisas, o jeito de ser, e as reações de pessoas e fatos.
Quando tenho material suficiente, em algum momento a letra toma forma. Com relação à melodia, na maior parte das vezes, a letra surge antes, e aí, o caminho da melodia é menos demorado.
As vezes consigo fazer letra e melodia simultaneamente e sem sentir que ficou algo para trás. Foi o caso de “Lugares Proibidos” em um domingo em 2004. A construção mais demorada no meu caso, é quando faço a melodia antes da letra, aí a preocupação é a combinação da esfera triste ou contente que a poesia oferece à música já pronta ou vice-versa.
12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?
Helena Elis: Minha criação tem sido, em sua maioria, solitária, um diálogo íntimo entre mim, a guitarra e o violão.
Sou a minha principal interlocutora, neste processo confessional. Contudo, considero como parceiros silenciosos, todos os poetas e as referências textuais que ecoam na minha mente quando a canção ganha forma.
Sob a ótica das parcerias concretas, intelectuais de vastíssima bagagem literária e musical, dividem a assinatura de algumas obras comigo. É o caso dos jornalistas e musicistas: Paulo Galvão, com quem compus: Deixe Estar, Dom Maior e Simples Assim. E criei melodias para as letras: Amor Fugaz, Fuga da Rotina, Quero Você Comigo, do jornalista e multi-instrumentista paraibano Antonio Carlos. Essas canções foram produzidas por Daniel Pereira e lançadas foram da minha discografia. Registro ainda a colaboração perene de Ton Teschima (in memoriam), nas composições: Você Dentro de Mim e Dom Quixote.
No âmbito das coautorias femininas, a criação se expande em obras de profunda sensibilidade e erudição. Destaco Flerte, cujo texto, nasce do repertório plural de Helô Paiva, advogada, psicanalista e artista plástica de notável saber humanístico. Da mesma forma, a simbiose artística com a escritora e artista plástica Victoria Zamora resultou em Rio Nunca Visto, uma ode à Cidade Maravilhosa (Rio de Janeiro) que reverencia os traços de Oscar Niemeyer, presente em meu álbum autoral: Voz.
13) RM: Como você se define como compositora.
Helena Elis: Na poesia. Um gênero predominantemente ROMÂNTICO, insistente na profundidade e bem elaborado no desenrolar geral. Na melodia, um grupo de notas que obedecem a uma ordem crescente, como se estivessem seguindo fielmente o aquecimento emotivo do produto melodia, porém, não tão exigente quanto a aos acordes, que geralmente tem poucos acordes dissonantes.
14) RM: Você em todas as composições transpira amor e romantismo. Você se baseia em fatos, seja da sua vida pessoal ou de amigos?
Helena Elis: Baseio-me em momentos que já vivi e vivo na pele, mas muitas vezes, consigo imaginar como seria se tivesse acontecido comigo o que ainda não aconteceu, e que está ocorrendo na vida de algum amigo.
15) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?
Helena Elis: Desenvolver uma trajetória autônoma na música é equilibrar-se entre a soberania estética e o fardo da autogestão. O grande benefício é a liberdade inegociável de criar sem amarras mercadológicas.
O revés é a necessidade de converter a artista em produtora executiva, gestora técnica e assessora de si mesma. Como não conto com os bastidores de uma grande gravadora, minhas ações empreendedoras baseiam-se no rigor burocrático e no planejamento logístico.
Fora dos palcos, atuo diretamente no mapeamento de editais, captação de pautas e na estruturação de dossiês de circulação nacional, como o que rege o monólogo Lugares Proibidos (2027), um teatro de malas.
No palco, a estratégia é a entrega de espetáculos autônomos de alta densidade artística, baixo custo operacional e logística otimizada, que torna possível uma itinerância artístico-musical.
16) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)? No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?
Helena Elis: A tecnologia e o ambiente digital democratizaram o acesso às ferramentas de registro, permitindo que a cozinha de uma casa, se transforme em um laboratório fonográfico.
No entanto, se o estúdio caseiro mitigou a antiga barreira técnica de se gravar um disco, a internet gerou uma saturação de mercado, onde a liquidez cultural impera.
Diante desse oceano de repetições, meu diferencial cênico-musical consiste na recusa ao descartável. Eu me distancio do algoritmo, entregando a crueza do drama autobiográfico, a organicidade do violão e o formato teatro de malas, onde a música não é um produto de fundo, mas literatura viva e pulsante.
17) RM: Como você analisa o cenário da Música Popular Brasileiro? Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?
Helena Elis: A Música Popular Brasileira contemporânea incide por meio de nichos de resistência cênica, enquanto a grande mídia muitas vezes negligencia obras de fôlego a favor do entretenimento imediato.
Na estrada independente, as situações inusitadas, desde a precariedade técnica de palcos improvisados até o silêncio burocrático das curadorias, são cicatrizes que alimentam a narrativa.
O que às vezes, me desestimula e causa profunda melancolia é ser testemunha da precarização do artista autônomo e o apagamento de trajetórias consistentes. Em contrapartida, a minha maior alegria reside na catarse coletiva: o instante em que uma canção autoral rompe o isolamento e se aninha na memória afetiva do público, fazendo valer a pena o conjunto de fricções artísticas da cena independente.
Nesse sentido, sou grata a Deus e à conspiração do universo por isso ter acontecido com “Lugares Proibidos”. Ela me deu a adrenalina indispensável do estado de graça e, embora mesmo no auge, trouxe também a insegurança do fantasma do fim, o medo de ser lembrada como a artista de uma música só (a música que fez sucesso).
Contudo, mais tarde, compreendi: quem esteve ou vai ao meu show, deseja conhecer meu repertório autoral, mas anseia, principalmente, por ouvir o hit. E talvez seja justamente o fato de o público ter essa obra como marca de referência prevalecente, que afirme sim, e não apague, a minha subjetividade.
18) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical? Qual é o seu conceito de Improvisação Musical? Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?
Helena Elis: Discuto veementemente o conceito romântico de dom como algo puramente divino ou estático. O talento é uma inclinação intuitiva que, sem parceria com a disciplina e um pouco de teoria, a exaustão do estudo e a sensibilidade analítica, torna-se estéril e vão.
A harmonia e a técnica vocal são as fundações que nos conferem liberdade. Quanto à improvisação, ela não reside no vazio do acaso. O verdadeiro improviso na música é a aplicação espontânea e mútua, em tempo real de uma bagagem estrutural previamente assimilada e digerida pelo corpo do músico.
Os métodos acadêmicos são fundamentais como mapas de navegação, no entanto, o artista precisa saber o momento exato de abandonar o mapa para vivenciar o território da criação livre. E, neste momento, a sensibilidade é o maior fator candidato a fazer a diferença.
19) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios? O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical? Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?
Helena Elis: O ecossistema radiofônico comercial ainda é amplamente regido pelo poder econômico do ‘jabá’, o que restringe a circulação de vozes periféricas ou independentes.
Para quem deseja trilhar este caminho hoje, minha singela sugestão é a blindagem psicológica e a clareza do propósito: a arte deve ser uma necessidade vital, não uma busca por validação efêmera. Mas, ainda bem que já há alguns anos, o altar-mor da música, não é só o rádio.
Com a existência e sete vidas dos aplicativos de música, com a chegada de tantos streamings, o artista se libertou, os meios se autonomizaram e o acesso do fã à obra autoral se tornou possível. Isso sem jamais desmerecer o veículo rádio em toda a sua beleza, que aliás prezo tanto. Foi no rádio que meu sonho ficou gigantesco, tão nobre e inesquecível!
Ah, e espaços e festivais promovidos por instituições como SESC, SESI, Itaú Cultural e Ibermúsica, por sua vez, configuram-se hoje como os verdadeiros pulmões da cultura nacional, sendo arenas indispensáveis para a oxigenação e o escoamento da música pensada fora do circuito puramente comercial.
20) RM: Quais os principais obstáculos que você enfrentou nos bares da vida?
Helena Elis: Todos que fazem parte do meio musical. Falta de um equipamento de qualidade, quando havia equipamento. Pois para muitos donos de Bar, que não pagavam um cachê decente, a obrigação do equipamento era do músico, inclusive o transporte.
Quando o cachê era por couvert, acontecia diversas vezes de me dizerem que nem todos os clientes concordaram em pagar, por isso, os acertos iam ser abaixo do esperado. Ficaria muito constrangedor se saísse de mesa em mesa perguntando quem havia ou não pago o couvert artístico.
O que me fazia sentisse usada, era quando a administração do shopping dava ordem à empresa contratante para que não deixasse o músico cantar músicas autorais. Não sei que lógica encontrava para tal absurdo, mas pela paz profissional, eu não cantava música própria.
Tudo isso pela tranquilidade e sinal de humildade, o que esperava do músico. O que me deixava indignada, era quando a acústica do bar era ruim e o som vazava para a casa dos vizinhos. Então os donos me pediam para tocar baixinho para não causar mais problemas. E na medida em que ia cantando baixinho, os clientes falavam mais alto.
Então os poucos que estavam ali mais pela música, diziam que não estavam me escutando e eu discretamente aumentava o volume, mas era arrumar briga. Muitas vezes acontecia de eu chegar, e o contratante dizer que não estavam me esperando.
Pois naquela noite, haveria uma festa fechada, a qual o aniversariante já havia contratado todos os serviços, inclusive o músico. O pessoal da casa dizia que não podia fazer nada e assim não ressarciam meu gasto com o transporte. E ficava a revolta por me sentir profissionalmente desrespeitada.
Algumas pessoas pensam que quem tem um sonho ligado à arte musical, estão brincando de cantar, de arranhar um instrumento ou fazer versinhos. A forma que tratam o músico no Brasil, deixa a nítida impressão de que a aspiração musical é coisa leviana ou um entusiasmo frágil.
Que não irá tão longe e não resistirá a um primeiro desafio. A poesia profunda de todas as letras não passa de Te amo. Na maioria das vezes sentia-me lesada quando não recebia o cachê depois do show e demorava meses para receber.
Havia bares e choperias, cujo dono reclamava para todo mundo ver e ouvir, que as músicas estavam muito para boi dormir, desanimadas, queria coisas com mais ritmo. Por outro lado, o sujeito não queria muito barulho.
Na MPB tem uma maior valorização do som ambiente, aquele som sentido, dedilhando corda a corda.
21) RM: Quais as saias justas que passou cantando a noite, desde abuso de poder, cantadas e ouvintes inconvenientes?
Helena Elis: Quando fiz o pré-lançamento do CD – Lugares Proibidos. Era meu segundo disco autoral e a música Lugares Proibidos já estava tocando em rádios no Nordeste. E a Jovem Pan – SP havia feito uns dois links comigo São Paulo-Fortaleza, Fortaleza – São Paulo, e o resultado foi ótimo.
Pedi que fizessem um outro link, mas dessa vez usando a divulgação do CD como pretexto. Isso ocorreu em setembro de 2005, era sábado, dia em que o programa Rádio Ao Vivo, da Pan, dirigido por Thiago Gardinalli, tem um alcance para todo o Brasil e alguns países vizinhos.
Como uma artista independente, tenho parcerias – Conto o que preciso e pergunto ao parceiro (Bar) se garante participação, então repito a operação com a outra parte (rádio), se ela também sustenta o sim, então só depende de mim. Conversei com o pessoal do Bar onde trabalhava, com a antecedência de um mês, deixei tudo acertado para a noite do Lançamento.
Convidei várias pessoas, e embora a casa estivesse lotada, o público maior não era exclusivo meu, pois esse Bar, na Vila Madalena, contrata 10 músicos por noite, sendo uma hora para cada um. Tentaria fazer o lançamento em uma hora, pois tinha mais tempo. Entre os tópicos do acordo, haviam prometido uma forte divulgação com cartazes e faixas por conta do Bar.
Porém, conforme se aproximava o lançamento, eu chegava para tocar, e nunca via nas paredes externas e internas divulgação, nem mesmo os cartazes que fiz do próprio bolso. Havia sido acertado com a Jovem Pan, que a partir das 23h, meu show entrava ao ar através de uma reportagem por telefone, em que fariam perguntas sobre o disco. Isso a cada dez minutos no período de uma hora.
O telefone sem fio necessário na transmissão quando falasse ou cantasse, eu tive que arrumar. O gerente disse que teria de ser um lance rápido para não atrapalhar o rendimento do couvert, isto é, se as pessoas presentes vissem que a música parava a toda hora, teriam isso como desculpa para não pagar.
Percebi que a parceria não foi levada a bom termo, desde o primeiro momento. E que o dono do Bar não estava entendendo a proposta daquela noite, que além de divulgar meu CD, divulgaria o Bar durante uma hora. Mas chegou o momento, e não havia mais como voltar atrás.
Minha esperança era de que quando a entrasse comigo no ar, os donos ficassem tão orgulhosos por estarmos falando deles, que deixariam a cobertura fluir até o final. Doce ilusão. Subi ao palco, expliquei ao público que estávamos fazendo um lançamento, e pedi para que quando me trouxessem o telefone, eles vibrassem, fazendo a ambientação necessária.
Todos concordaram e começaram a gritar antes mesmo de entrarmos no ar. Fui cantando e tocando, e quando estava na terceira música, só vi um dos músicos a minha esquerda falar ao telefone, me olhava e ao gerente. Então o fulano estava demorando demais.
Todos aqueles movimentos se encerraram em três minutos, com um simples sinal de positivo dele para mim. Parei a música e pedi discretamente que ele viesse até mim para me dar aquele telefone para que eu pudesse falar com a rádio.
Ele veio bem pertinho, sem o aparelho e murmurou: Se quiser parar, pode descer do palco, o gerente mandou te agradecer. Perguntei: Mas e a rádio? A resposta: Me pediram para fazer a propaganda da casa, pois o gerente não tem jeito com essas coisas de falar com rádio.
O tal gerente, lá do outro lado, com um olho no caixa e outro em mim, sustentou o que o músico me dizia, dando o sinal de que tudo havia terminado e que eu podia descer, se quisesse. Completamente anestesiada, por sentir que meu filme com aquela rádio ficou torrado.
Retirei-me com a sensação de frustração e pensei como me desculpar com aquele radialista tão respeitado. Após três dias, fui à rádio me desculpar pelo acontecido. Senti a indiferença já na portaria com o segurança, que sempre me deixava subir, mas dessa vez nem isso. Fiquei péssima, me sentindo silenciada por duas vezes seguida, e um sentimento de perda tomou conta de mim.
Afinal de contas, entre entrevistas e links, era já a sexta vez que eu tinha a força deles. Alguns conhecidos que ouviram a rádio naquela noite, disseram que o músico que colocaram para falar em meu lugar, não deu chance ao Thiago.
Disparou a falar sobre os pratos e promoções da casa e como funcionava a música ao vivo, sob ordens do dono e gerente. Não faz muito tempo fui vítima de abuso de poder. Gosto sempre que a minha banda faça um ensaio relâmpago no dia do show, sejam bares, restaurantes, teatros. Nunca pararam os nossos ensaios.
Avisando que seria cobrado, pois o técnico de som só estava lá para ajuste e não para ensaio. Os donos desse Bar, ainda demorou uma semana para pagar meu cachê, e ainda bem menos do que deveria. Meus fãs lotaram a casa, e fizeram o acerto de 30% somente, alegando que quem chegou depois do início do show, o couvert iria para a próxima banda.
CANTADAS nem um pouco musical: Uma das cantadas que mais me ofendeu, foi quando o proprietário de um desses Bares, afirmou que eu estava ganhando muito pouco por noite, por ser boba, pois poderia ganhar muito mais se saísse para tomar um chopp com ele, num lugar bem tranquilo, após cada apresentação. Para surpresa dele, aquela foi a última vez que cantei naquele bar. Recebo cantada de mulheres, porém são cantadas discretas e delicadas.
22) RM: Conte a sua experiência batendo nas portas das rádios.
Helena Elis: Desde a primeira música romântica que compus em 1998: “Império do Amor”, pois até essa época compunha apenas músicas sacras. A primeira coisa que imaginava, era me ouvir no rádio cantando a própria música e a segunda era me ouvir numa das trilhas de novelas. Chegava até imaginar que casal de artista determinada música cairia bem.
Mas ter minha música em novelas seria dá um SALTO muito alto. Costumo acreditar mais nas coisas no ritmo natural, sabia que aquelas músicas ainda não seriam ideais, pois era técnica demais e pouco sentida.
À medida que o tempo foi passando, fui descobrindo que podia ser mais simples para compor, deixando as coisas mais claras na mente das pessoas. E procurei ouvir mais e mais artistas da nossa música e mais opiniões de pessoas as quais eu mostrava as canções para saber com quais delas podia concorrer nos Festivais de Música: Tatuí, Rádio Eldorado, Festival da Música brasileira da rede globo em 2000, entre outros regionais.
Cheguei a ganhar alguns cantando com os de música sacra ou gospel. De todas as músicas que compus, não houve nenhuma que eu acreditasse tanto, feito “Lugares Proibidos” que fiz em 2002.
Antes dela nenhuma me deu tanto ânimo para ir mais além, tanto, que depois de pronta, já fui para o estúdio gravá-la e aproveitei para gravar o CD inteiro. E a próxima etapa do retrato desse ânimo, foi finalmente, começar a bater nas portas de rádio, com CD na mão e muita coragem.
Muitas rádios me recebem muito bem, pedem para que se deixe o CD. Mas aí, é preciso está ligando sempre, pois o interesse maior é do artista. Algumas já avisam que não é o estilo delas, e o assunto está encerrado. E algumas poucas ainda falam; – Isso é com o nosso departamento comercial. Leia-se pagar o Jabá.
23) RM: Conte como você foi convidada para o programa do Jô Soares em 2003.
Helena Elis: Deixei alguns CDs (Lugares Proibidos) numa clínica de uma amiga esteticista corporal, para que ela oferecesse aos clientes. Nesta época, estava com uma banca de CDs e cocadas no Bairro de Santo Amaro. Durante o dia vendia o CDs e cocadas e cantando a noite em São Paulo. Essa amiga colocava o CD para tocar enquanto atendia seus clientes.
Numa dessas tardes ensolaradas, um deles, perguntou quem era aquela cantora? Ela imediatamente respondeu que era alguma maluca “viradora” que dava aulas de violão para o filho dela, cantava na noite, compunha e vendia cocadas e seu próprio disco numa barraca e de porta em porta.
Ele levou um para ouvir com calma, gostou, mas pediu para ela não me contar o que tentaria fazer. Uma semana depois, me ligaram da produção do Jô Soares, fizeram uma espécie de entrevista por telefone e isso se repetiu por três vezes, até que agendaram uma ida minha ao programa.
24) RM: Depois de uma aparição em rede nacional no programa do Jô Soares, o que mudou na sua vida e carreira musical?
Helena Elis: Percebi que essa aparição facilitou minha ida aos programas das TVs de Fortaleza-CE, entrevistas em grandes rádios de lá e daqui de São Paulo (Jovem Pan). E pude ter minha música programada em rádios Universitárias do Nordeste, como em Fortaleza – CE, Maranhão e Pernambuco.
Também rendeu minha primeira grande matéria num grande jornal de Fortaleza (Diário do Nordeste), publicada em agosto de 2004. Facilitou também a venda dos CDs de porta em porta, e durante as apresentações musicais na noite na época.
25) RM: Conte as suas experiências de vida pessoal e profissional em Fortaleza – CE em 2004.
Helena Elis: Foi duro conquistar e segurar um espaço de trabalho, pois os músicos locais se sentiam injustamente ameaçados. Eu vi o medo estampado no rosto deles, principalmente dos homens. Isso significava um obstáculo a mais do que eu estava acostumada em São Paulo. Mas não tinha outra opção – teria de ser tudo na raça mesmo, caso contrário, nem mesmo a Helena poderia sobreviver.
Cantei muitas noites apenas para vender CD e me lembro que quando eu vendia somente três ou quatro, podia respirar aliviada por garantir o combustível de volta e dois dias de alimentação. Por outro lado, depois que conquistei meu espaço e fechei com muitos bares na época da Alta Estação de Verão, chegava a vender 20 a 30 CDs por noite.
O fato de eu ter sido vista nas TVs de lá, e de “Lugares Proibidos” tocar nas rádios, logo que subisse ao palco, vinham os bilhetinhos para cantar a música ou pediam gritando, e isso, embora não acontecesse em todos os bares, me trazia um crédito artístico e profissional muito grande.
Na Universidade Federal do Ceará, inclusive, eu me sentia muito respeitada pelos locutores(as), e pela diretora da Rádio, que fazia várias parcerias comigo, tocando a música, fazendo promoções e anunciando meus shows!
26) RM: Como foi ter a sua música tocada em um emissora como a Nova Brasil FM, que tem prestígio em São Paulo.
Helena Elis: Foi um presente mais inesperado e significativo para mim, não porque não merecia, mas por ter sido o resultado de uma luta muito difícil, cuja vitória já nem esperava. A Nova Brasil FM – SP foi uma catapulta para minha carreira.
Depois que “Lugares Proibidos” começou a tocar na rádio recebi mais convites para shows e vendi mais CDs. Quem vive de música se não tocar em rádio dificilmente faz sucesso. Sou muito grata aos que fazem a Nova Brasil.
27) RM: Quais as melhores alegrias na carreira musical até o momento?
Helena Elis: Receber as manifestações dos fãs e amigos, dizendo que minhas canções se encaixam perfeitamente na história de amor da vida deles. Olhar a plateia e vê rostos de pessoas para as quais jamais ensinei minhas músicas, cantá-las com alma durante os shows.
Experimentar o respeito, atenção e carinho com que pessoas da produção de rádios que me divulgam e me recebem. E sentir que posso perder o medo de rejeição, e que agora, desde que não abuse, posso me sentir em casa.
Saber que estas mesmas pessoas e fãs que vem vindo, contam comigo para interpretar seus desejos mais ardentes de amor e sua sede pela paz, através de novas canções que eu venha compor.
28) RM: Como você se define como intérprete.
Helena Elis: Em casa, no estúdio e principalmente no palco, se não me vestir de emoção e de sentimento, de nada me vale saber seguir ou obedecer rigorosamente às curvas de uma canção através da técnica vocal.
29) RM: Como você se define como compositora.
Helena Elis: Na poesia. Um gênero predominantemente ROMÂNTICO, insistente na profundidade e bem elaborado no desenrolar geral. Na melodia, um grupo de notas que obedecem a uma ordem crescente, como se estivessem seguindo fielmente o aquecimento emotivo do produto melodia, porém, não tão exigente quanto a aos acordes, que geralmente tem poucos acordes dissonantes.
30) RM: Você em todas as composições transpira amor e romantismo. Você se baseia em fatos, seja da sua vida pessoal ou de amigos?
Helena Elis: Baseio-me em momentos que já vivi e vivo na pele, mas muitas vezes, consigo imaginar como seria se tivesse acontecido comigo o que ainda não aconteceu, e que está ocorrendo na vida de algum amigo.
31) RM: “Lugares Proibidos” tocou na rádio e lhe proporcionou uma evidência maior na carreira. Você tem receio de ficar conhecida por único sucesso?
Helena Elis: Não, pois confio nas outras canções que compus, em que tomei o mesmo cuidado de ser profunda e clara. Tanto, que o povo, que é a voz que mais pesa, tem se manifestado positivamente, dizendo que digo coisas que realmente acontecem e eles não tinham pensado nisso.
32)RM: Helena Elis, você já pensou em parar com a carreira pelas dificuldades e preconceitos enfrentados?
Helena Elis: Já pensei milhões de vezes. Cheguei até duvidar se era isso mesmo que queria e se não havia me enganado de sonho. Às vezes me sentia uma louca, a quem ninguém dava uma chance de ser ouvida. Mas a paixão sempre fala mais alto. Nada como uma única noite musical em que tudo dê certo, e tudo fica esquecido.
33) RM: Como foi assumir a profissão de professora? Quais os desafios enfrentados ao assumir sua bissexualidade? Qual a importância do José Galvão na sua vida pessoal, amorosa e profissional? Quais os seus projetos futuros?
Helena Elis: Minha atuação na docência em São Paulo, retroalimenta esta existência artístico-musical, correlacionando causa e efeito de ambas as disciplinas. Ensinar é um exercício contínuo de alteridade e refinamento da linguagem, no objetivo de autonomizar no aluno, a construção de um repertório em constante fundição.
No que se refere as minhas vivências afetivas, compreendo o amor e as relações humanas em sua pluralidade. A bissexualidade faz parte da construção da minha identidade com naturalidade.
O que valido é o amor, pautando minha caminhada sempre pelo respeito à dignidade individual, pela liberdade afetivo-sexual de cada ser, pela retidão e valor do caráter, seu bom exercício de cidadania e honradez no trabalho.
Nessa jornada, a presença de José Galvão, que infelizmente nos deixou há oito anos e meio (2018), permanece como uma constante de incomensurável valor. Ele foi marido, amado companheiro, amigo, conselheiro e o agente artístico que viabilizou e compreendeu a complexidade do meu fazer artístico.
Nossa união, marcada por uma diferença de idade de 27 anos, foi um porto seguro intelectual e afetivo, construída com uma dose a mais de empatia e com o envolvimento emocional profundo, que o amor e o compromisso preservam. Foi para ele, inclusive, que compus o maior hino de amor da minha carreira, a canção Lugares Proibidos.
Meus passos futuros convergem para a estreia nacional do monólogo Lugares Proibidos (uma trilogia em teatro de malas), com exibições planejadas para 2027 no Brasil. Em paralelo, o show Helena Elis Canta Os Poetas Mortos, teve início em 30 de maio no Resumo Deck Bar em São Paulo, já passou pelo anfiteatro Varal Cultural, localizado no G Mais Shopping em Santo Amaro, e segue com apresentações pré-agendadas em outros espaços culturais.
No tempo simultâneo a estes acontecimentos, dedicar-me-ei também à parte musical exclusivamente autoral do décimo primeiro álbum digital chamado Estacione Dia e Noite / Sons para eu mesma ouvir.
Os lançamentos das trilhas dos trabalhos digitais mais recentes, como o nono, Helena Elis, Concreta e Abstrata, e o décimo, Planeta Amor, estão em todos os apps de música e têm acontecido com uma fluidez tranquila desde 2022, sendo em média, um a cada dois meses.
Para além disto, estou tornando disponível o acervo digital dos streamings que antes se restringia apenas aos álbuns físicos, um movimento necessário de salvaguarda de minha própria memória fonográfica, garantindo ao público o acesso total e livre.
34) RM: Quais seus contatos?
Helena Elis: (11) 97016-5491 / [email protected] / https://www.instagram.com/helena.elis
Ouça no Spotify: https://open.spotify.com/artist/3y7NTFmQJAIppuorbtiOLD
Canal: https://www.youtube.com/channel/UCUTdmRVcXFP_IGFJFOgpGmg
Lugares Proibidos – Helena Elis (clipe de 2016): https://www.youtube.com/watch?v=0pP-POQ78ps
Lugares proibidos – Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=-cpZ1qwBylU
Primeiras Intenções (Lyric Oficial) – Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=0rZ8gzmnlZQ
Que Nem Na Novela! – Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=7VkZIUuef7s
Oito Bilhões (Official) – Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=EGx4WIJKOqE
Pronome (Todo eu Precisa de Um: Você): https://www.youtube.com/watch?v=2jyrDhtlDfY
Amor Fugaz – Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=DB1LoETq8Uk
Fuga da Rotina – Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=IOg3fqt1mdk
Quero você comigo – Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=zLmy-daNGfU
Põe a Mesa, Tira a Mesa! Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=CIu6htDs82o
Advérbios (Peter Pan) – Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=dEPmvfHTVu4
Meus Delírios – Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=Vwd13fQYH4g
Trailer – Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=IhuZ-nhwqvc
Caverna – Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=YQd8cvj6otk
Flerte (É Permitido Flertar!) – Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=wlqBuRJrZjw
Helena Elis – Show Duplicado: https://www.youtube.com/watch?v=sHbffzO3GK4
Vozes no Palco – Entrevista a cantora Helena Elis: https://www.youtube.com/watch?v=4T-vAGzPvZw
Entrevista de Helena Elis no Programa do Jô: https://www.youtube.com/watch?v=jYi4GMZJHuI
Helena Elis no Programa Sergio Santoro – 2012 – https://www.youtube.com/watch?v=NoAPatO9ktE
Helena Elis – Programa Todo Seu – 08/04/2013: https://www.youtube.com/watch?v=4nZ-8dEwfe8
Helena Elis – Programa Todo Seu: https://www.youtube.com/watch?v=Tmrtfj4GuYo


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