Artênio Fonseca

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O compositor, dramaturgo e produtor musical mineiro Artênio Fonseca, um artista de múltiplas linguagens cuja trajetória nasceu no teatro e se expandiu pela música, literatura, arte-educação e ativismo ambiental. 

Desde o final dos anos 1970, constrói uma obra pautada pela experimentação e pela valorização da cultura brasileira. Em sua produção atual, une sua experiência artística às novas tecnologias, explorando a inteligência artificial como ferramenta de produção musical.  Um contador de histórias que privilegia a crônica social, com conteúdo estético e universal, sempre com muito lirismo nas letras e melodias.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Artênio Fonseca para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 23/09/2026: 

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal? 

Artênio Fonseca: Nasci no dia 06/04/1961, em Poaia, pequeno povoado do município de Santa Maria do Suaçuí, em Minas Gerais. Sou o mais velho de onze irmãos. Mais tarde, aos 12 anos de idade, vim para São Paulo, levado pelas circunstâncias provocadas por dificuldades financeiras da minha família. Registrado como Artênio Luiz Máximo da Fonseca

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música. 

Artênio Fonseca: Meu primeiro contato com a música foi ouvindo minha avó materna, dona Maria, pessoa fundamental na minha formação geral e filosófica, observando seu exemplo na generosidade e na maneira de lidar com o simples, a natureza e o afeto. Era uma pessoa analfabeta, mas, como tantos analfabetos sábios que temos na história, vó Maria fazia parte deste time.

Por ela ouvi as primeiras ladainhas e, posteriormente, tive contato com grupos de congadas, caboclinhos e reisado, lá do vilarejo. Eu era louco para participar deles, mas meu pai proibia tudo que fosse voltado às artes.

Embora fôssemos uma família rica para os padrões da cidade, só fomos ter rádio em casa quando eu tinha uns sete ou oito anos. Não havia luz elétrica, TV, vitrola. Mais tarde, com o rádio, pude ouvir Roberto Carlos, o pessoal todo da música caipira, o samba e Os Beatles — fundamentais para a educação do meu ouvido musical.

Aos nove, fui tratar uma doença em BH e pela primeira vez saí da roça. 

Ali pude tomar contato com grupos de carnaval de rua e todo o som de uma metrópole. Há uma curiosidade: eu morava a 2.000 metros do Clube da Esquina e nunca ouvimos falar deles; vim saber disto quando estava em São Paulo, militando no movimento cultural. Foram uns 9 meses, mais ou menos, que fizeram toda a diferença na minha vida.

É incrível que, quando se é criança, “papel em branco”, tudo impacta poderosamente e o tempo de contato com a informação linka os vários pontos do imaginário, e aí a identidade encontra a fertilidade. Então ninguém segura mais.

Comecei a escrever aos 14 anos de idade, quando encontrei no lixo um livrinho de bolso chamado Memórias de um Cabo de Vassoura, de Orígenes Lessa, pai do jornalista Ivan Lessa. Foi o primeiro que li e, a partir daí, me vi, do nada, escrevendo. A primeira escrita foi o roteiro de um bang-bang.

03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical? 

Artênio Fonseca: Totalmente autodidata, como na maior parte das coisas que aprendi. Fiz o curso de Artes Gráficas no SENAI, minha primeira profissão, mas só conclui o ensino médio aos 50 anos de idade.

Aos 16 anos, comecei a fazer arte na escola, iniciando pelo teatro; depois formei grupo de teatro na igreja; logo mais ingressei no curso de teatro Núcleo, discípulos de Augusto Boal, e aí o universo se escancarou à minha frente e não foi possível parar mais. 

Em seguida conheci o MPA (Movimento Popular de Arte de São Miguel Paulista) e militei nele por mais de uma década, ampliando, então, minha inserção nas demais linguagens artísticas. Por lá, iniciei meu trabalho como compositor e tive parceria com Edvaldo Santana e Mauro Paes, dois músicos experientes, à época também membros do movimento.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância? 

Artênio Fonseca: Minhas influências nunca foram muito lineares. Sou hiperativo, então tudo acontece muito rápido e de forma caótica. Com o tempo, fui selecionando, mas desde sempre fui uma esponja poderosa, sem muito filtro. Até hoje sou assim: escuto, leio e vejo de tudo ao mesmo tempo. Não gosto muito de pôr a arte em gavetas ou prateleiras; creio que a experiência artística deva ser totalmente livre e inventiva. 

O sistema e o mercado é que fazem as distinções, a cada tempo e segundo a conjuntura e interesses do momento. Eu, do lado de cá, sou um criador; se bater a vontade de fazer uma música brega, estou dentro; se for um jazz, corro pra cima. Não me preocupo com os rótulos.

Até porque a maior parte das músicas está no compasso 4×4 e as notas são apenas 7 notas + bemóis, sustenidos e diminutas. O campo harmônico também não é muito vasto. O resto é invenção, meu camarada. E é para isso que existimos, rsss… Esta é a magia da coisa.

05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical? 

Artênio Fonseca: Em 1981 em São Paulo, aos 20 anos de idade, quando compus Canto dos Pássaros. Profissionalmente, ela se deu quando Edvaldo Santana (https://ritmomelodia.mus.br/edvaldo-santana) gravou o nosso Samba de Trem, quando recebi meu primeiro direito autoral. Tomo como um marco simbólico e temporal, mas isso não faz muita diferença: meu apogeu criativo na música ocorre agora, aos 65, quando contabilizo 1.500 músicas compostas.

06) RM: Quantos álbuns lançados? 

Artênio Fonseca: Atualmente, tenho cerca de 30 músicas nas plataformas de streaming. Recorri à IA para fazer os arranjos e voz. Através da tecnologia, está sendo possível tirar da gaveta canções que foram rejeitadas por artistas/cantores e que estão sendo levadas para o mundo. Hoje minha música está em 16 países e em

todos os continentes. E, o melhor, recebendo direitos autorais por minhas criações.

Ela é polêmica e monstruosa, porém, como não tenho medo de polêmica e nem de monstros, decidi aprender a domá-la e a colocar a serviço da arte de conteúdo, experimentando e criando uma estética adequada ao novo tempo. No mais, tô no debate, quando este for civilizado.

A questão principal é descobrir como utilizar a tecnologia para preservar a essência da composição e, ao mesmo tempo, alcançar uma qualidade de produção e veiculação capaz de dialogar com o público contemporâneo.

07) RM: Como você define seu estilo musical? 

Artênio Fonseca: Junto e misturado. Eu não gosto de me colocar dentro de uma única gaveta. Minha música nasce principalmente do fato de eu ser um contador de histórias com origem na dramaturgia; então, a maior parte do meu trabalho conta uma história de gente, de coisa, do universo.

Sigo uma hierarquiazinha: primeiro conto uma história com elementos líricos por onde capturo a atenção/audiência e, posteriormente, mando a mensagem, o conteúdo estético e dramático.

No teatro me inclinei pelo perfil dramático, e creio que através da emoção acessamos a consciência por canais simbólicos e cognitivos que levam o ouvinte a grandes transformações. Minha formação de dramaturgo influencia diretamente minha composição.

Procuro fazer com que a música tenha uma narrativa e que a interpretação esteja a serviço dessa narrativa. Talvez esse seja meu estilo, embora não me preocupe muito com isso.

Atualmente, por exemplo, uso meu conhecimento da dramaturgia para criar artistas virtuais e componho para eles como se fosse por encomenda. São cerca de 20 personagens virtuais, cada um com seu estilo, história e timbre vocal próprio. Estou feliz e satisfeito com os resultados.

08) RM: Você estudou técnica vocal? 

Artênio Fonseca: Estudei técnica vocal no teatro. Inclusive é um dos meus projetos de arte-educação que levo por aí para professores. Não me considero um cantor nem um instrumentista, mas isso não me dá o direito de cantar de qualquer jeito.

Trato isso com muito rigor, principalmente porque minha dificuldade com os ritmos, tempos e modelos na música é grande, devido à dislexia. Mas nem por isso vou deixar de criar e fazer arte. 

Também experimento a dramaticidade e a pesquisa de timbres na voz dentro da produção musical híbrida na inteligência artificial. Por outro lado, para mim, voz não é apenas afinação.  

É intenção, respiração, personalidade, emoção e capacidade de transmitir aquilo que a letra está dizendo — embora, para quem quer cantar profissionalmente, ser afinado seja uma obrigação.

09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz? 

Artênio Fonseca: É fundamental o estudo de técnica vocal. A voz é um instrumento extremamente delicado e, ao mesmo tempo, extremamente expressivo. Eu vejo a técnica como uma ferramenta: quanto mais o artista domina seu instrumento, mais liberdade ele tem para se expressar.

10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira? 

Artênio Fonseca: São muitas. Só para citar: Ângela Maria, Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves, Milton Nascimento, Nana Caymmi, Elis Regina, Elton John, Al Jarreau, Frank Sinatra, Maria Bethânia, Gal Costa, Eliete Cardoso, Elizeth Cardoso, Clementina de Jesus, Tina Turner, Ella Fitzgerald e por aí vai. Gosto na maioria das vozes femininas.

Admiro principalmente artistas que conseguem transformar a voz em veículo para transmitir ou proporcionar ao interlocutor o acesso às suas emoções. Tenho admiração por intérpretes brasileiros de diferentes gerações e estilos, e por estrangeiros, especialmente aqueles que conseguem unir técnica, personalidade e verdade na interpretação. Tendo a prestar mais atenção em intérpretes, talvez por causa da minha ligação com as artes dramáticas.

11) RM: Como é seu processo de compor? 

Artênio Fonseca: Caótico! Quanto mais caótico for o ambiente e complexos forem os personagens dos quais eu conto a história, melhor. É meu foco de interesse; minha sensibilidade se agrada em dar ordem ao caos. Isso artisticamente falando; na vida, nem tanto.

Não acredito muito em uma fórmula única, embora tenhamos a mania de querer colocar tudo numa caixinha — é do ser humano. No mais, cada composição pede uma solução diferente.

12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição? 

Artênio Fonseca: Sou um compositor solitário. Com um processo individualizado, crio a todo momento, em qualquer lugar, em qualquer circunstância; escrevo diariamente e talvez isso absorva meu tempo na integralidade.

Mas tenho parceria com Edvaldo Santana, Akira Iamazaky, Lena Santos Máximo e uma experiência com poetas anônimos que vejo na internet, além de algumas com poetas mulheres. Gosto do olhar feminino nas coisas.

Hoje, inclusive, a própria tecnologia passou a funcionar como uma espécie de novo ambiente de experimentação. Isso não significa substituir o compositor; pelo contrário, significa ampliar as possibilidades de experimentar aquilo que foi criado. Para mim, o parceiro fundamental continua sendo a sonoridade conectada a algo que tenho a dizer.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente? 

Artênio Fonseca: É uma condição imposta pelo sistema e que alguns artistas tomam como bandeira. Da minha parte, toco a vida; se tiver oportunidade de ir além dos circuitos restritos, tô dentro. O desejo de levar a arte para quem queira é maior.

De verdade, creio que são poucos os artistas que voluntariamente sejam independentes. Quando um Chitãozinho & Xororó decide gravar uma música de algum compositor e levar essa canção a grandes multidões, se o artista não se rende por ver sua arte nos ouvidos de tanta gente, se rende pelos royalties dos direitos autorais. Não vejo problema algum.

Não estou nessa de achar que ser popular é ser vendido. A arte é dinâmica e o mercado a absorve em diferentes formatos; o que fora marginal ou experimental pode estar entre os top 10, e vice-versa. Não são poucos os artistas progressistas que recriam arte popular em peças experimentais. Arte não tem que ter amarras, na minha modesta opinião.

14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco? 

Artênio Fonseca:  Meus palcos são espaços pequenos, mais intimistas, com contato olho no olho do público. Fora dele, são as plataformas e os canais que a tecnologia nos oferece.

Normalmente mantenho uma disciplina diária de composição e crio um show/espetáculo por ano envolvendo as linguagens artísticas que domino. Agora, por exemplo, tenho no meu repertório Damásio, pequenos monólogos baseados na obra de Guimarães Rosa, e Minas Nordeste. Ambos contam histórias e são multi-linguagens.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver sua carreira musical? 

Artênio Fonseca: Criei projetos próprios para ampliar as possibilidades de produção e circulação do meu trabalho. Um deles é o EcoArtes Digital Music, voltado à produção musical e à utilização de artistas e personagens virtuais para dar voz a compositores e poetas. Também desenvolvo trabalhos ligados ao Coletivo EcoArtes, aproximando arte, educação ambiental, cultura e território. 

Temos uma pequena reserva florestal na divisa de Arujá com Santa Isabel (SP), onde experimentamos muito. Tenho procurado transformar minha experiência artística em projetos sustentáveis, porque acredito que o artista contemporâneo precisa compreender também a dimensão empreendedora de sua atividade.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical? 

Artênio Fonseca:  Só ajuda. A internet democratizou uma parte do acesso à produção e à divulgação. Hoje um compositor pode produzir uma música e colocá-la à disposição de pessoas em diferentes países sem necessariamente depender de uma grande gravadora. Isso é extraordinário. Talvez o problema seja a quantidade gigantesca de conteúdo. 

Mas eu sou Paulo Freirista, e o meio pode ser o instrumento transformador. A internet abriu a porta, mas não garante que alguém entre; o artista continua precisando chutar a porta. E tem que fazer isto estudando, se atualizando, construindo pontes e ampliando seu público, pois sem ele, nada feito.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home studio)? 

Artênio Fonseca:  Uso diariamente. Creio que cada quarto hoje é um estúdio de áudio e vídeo. Hoje um artista pode experimentar e veicular a partir de casa aquilo que, no passado, exigiria um estúdio caro e uma equipe inteira.

A desvantagem é justamente o excesso de facilidade. Ter acesso à tecnologia não significa automaticamente saber produzir. Uma ferramenta sofisticada nas mãos de alguém sem conhecimento pode produzir apenas uma versão sofisticada de um erro. Por isso considero fundamental estudar, ouvir, comparar e ser ético. Pois junto com as facilidades, vem as tentações.

E há a questão dos postos de trabalho: algumas profissões realmente vão desaparecer, e os profissionais que a elas se dedicaram sem um plano B podem passar por dificuldades. No caso do criador, tem também que ser criativo na hora em que se deparar com as novas demandas, porque elas virão; não temos controle sobre isto, e o sistema é cruel com quem não aprende a lidar com ele.

18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco. Hoje gravar não é mais o grande obstáculo. A concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz para se diferenciar? 

Artênio Fonseca: Trabalho, trabalho e trabalho. Tenho muita quantidade e primo pela qualidade, então não tem jeito: não conheço a palavra preguiça.

Artistas não competem, somam-se. Há anos, Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Elis Regina, Roberto Carlos etc. ocupam o mesmo mercado, e agora, com as novas formas de ouvir música, cada um tem seu pedaço. É claro que nas grandes produções, que exigem fortunas em investimentos, a coisa é diferente, mas mesmo aí nessas regiões a coisa cresce.

Eu sou de um tempo em que o domínio era da música estrangeira; depois ficou dividido entre a MPB dos festivais, a Jovem Guarda e a música caipira de Tonico & Tinoco e Tião Carreiro e Pardinho, por exemplo.

Hoje há predominância é da música nacional como um todo, do funk ao sertanejo. E ainda há muito espaço; é trabalhar para ocupá-los. Não estamos mais num movimento de resistência, e sim de resiliência.

Quanto à estética, são revoluções por minuto. O mundo atual é o mundo da velocidade, então a renovação se obriga a todo momento; cada vez mais temos menos nostalgia, é um traço do nosso tempo. Mas creio que todas as artes serão sobreviventes, como sempre fomos.

Minha diferenciação está na história que existe por trás da música. No meu caso, procuro me diferenciar no conteúdo, na forma de contar e veicular uma história. Mas isso também não é novo; é ir em frente, obstinadamente, porém com os pés na realidade.

19) RM: Como você analisa o cenário da Música Popular Brasileira? Quais foram as revelações das últimas décadas? Quais artistas permaneceram consistentes e quais regrediram? 

Artênio Fonseca: De trás para frente: não creio em regressão. A música brasileira continua extraordinariamente rica.

O problema é que existe uma diferença enorme entre a música que o Brasil produz e a música que os grandes meios de comunicação mostram, por conta da sua visão comercial relativa aos anunciantes. Temos compositores, músicos e intérpretes trabalhando em todos os cantos do país, muitas vezes sem espaço na grande mídia.

Também não gosto muito de fazer julgamentos dizendo simplesmente que determinado artista “regrediu”. O artista muda, o mercado muda e o público muda. O que considero mais importante é a consistência da obra. Alguns artistas conseguem atravessar décadas porque construíram uma identidade que não depende exclusivamente da moda.

Eu me dedico a um tipo de arte de longo prazo, então não gasto energia em criar hits destinados a durar 6 meses — mas conheço gente que faz isso bem.

Particularmente, prefiro uma obra que fale de questões universais, e estas questões são atemporais. O que me obriga a estudar mais assuntos ligados à filosofia, espiritualidade, tempo e existencialismo. É um jeito de fazer.

20) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical? 

Artênio Fonseca: A própria vida artística já é cheia de situações inusitadas. Mas posso citar uma em especial: por causa de um problema neurológico, eu não decoro absolutamente nada, então carrego comigo uma enorme cola. No dia do bendito show, esqueci minha pasta com as músicas e textos. Fiz o show inteiro de improviso e poucas pessoas perceberam.

21) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical? 

Artênio Fonseca: Feliz é o estado de plena disponibilidade para a criação; e triste com a decadência de alguns artistas que, por alguma razão, não se firmaram e se veem em dificuldades.

22) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical? 

Artênio Fonseca: Existe. É coisa divina, simplesmente isso. É como amor à primeira vista: do nada aparece alguém capaz de tornar-se parceiro para uma vida inteira. Vem de outras dimensões e de graça.

Por isso, na medida do possível, de graça também tem que ser destinada: não temos o direito de reter para nós o que nos foi concedido e não nos foi vendido. Isso não significa que temos que trabalhar de graça para que outros sejam financeiramente contemplados. Não gosto da exploração que muitas vezes se vê na cena artística.

23) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical? 

Artênio Fonseca: Técnica aliada à liberdade, à disposição da criatividade.

24) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois? 

Artênio Fonseca: Existe improvisação de fato. Tudo é compilação, intencional ou não. Na improvisação, existe uma parcela que não foi planejada.

É semelhante à fala: uma pessoa que domina uma língua conhece as palavras e as regras, mas não escreve previamente cada frase antes de conversar.

A qualidade ou capacidade de impactar e emocionar o ouvinte depende da sintonia entre ele, o artista, o instrumento, o ambiente e o veículo transmissor.

25) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação Musical? 

Artênio Fonseca: Não conheço. Meus recursos instrumentais são poucos; uso apenas vocalises para compor quando não consigo tocar o que pretendo criar. Uso também percussão corporal para tal.

Neste sentido, a tecnologia também ajuda demais: ao emitir o rascunho de uma melodia, ela nos possibilita uma finalização com muita qualidade e precisão em tempo real. Isso poupa energia, tempo e dinheiro. Assim, podemos ampliar nosso repertório e agilizar a produção e veiculação em patamares jamais vistos.

26) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia Musical? 

Artênio Fonseca: O conhecimento de harmonia amplia o vocabulário do compositor. Ele permite compreender por que determinados acordes produzem tensão, repouso, surpresa ou determinada atmosfera. Mas existe o mesmo perigo da improvisação: transformar conhecimento em receita. A música não precisa pedir licença à teoria para existir. A teoria deve ajudar o compositor a compreender aquilo que está fazendo, mas não deve impedir que ele faça algo novo.

27) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios? 

Artênio Fonseca:  Acredito que uma música pode chegar ao público sem jabá, mas não podemos fingir que o sistema de divulgação sempre é ingênuo. Não podemos esquecer que o nosso regime/sistema é capitalista, e ele não existe sem investimento versus lucro.

Hoje o jabá é institucionalizado como a propaganda sempre foi: alguém paga e uma instituição veicula. A diferença está na vantagem. Antes, para ser tocado, o artista dependia das rádios com suas curadorias, seus interesses (fossem elas privadas e/ou públicas), a chamada programação e perfil da emissora, e, do outro lado, grana.

Hoje as plataformas de streaming ou redes sociais, no feijão com arroz, veiculam tudo que a pessoa quer veicular; porém, para um plus, tem que pagar, e isto está oficializado. Saíram perdendo aqueles programadores ou disc-jóqueis que no passado levavam uma grana por fora. Não sou contra nem a favor, é a lei do capital; e para quem deseja estourar, ou entra no jogo ou conta com a sorte. De resto, na maior parte do que circula na música, é o trabalho contínuo de construção. 

O que percebo é que alguns artistas querem resultados capitalistas sem se inserirem no sistema — isso é pouco provável. Mesmo artistas de ponta que conhecemos e adoramos hoje possivelmente não faziam jabá, mas seus produtores, empresários e gravadoras sim, sem o qual, pelas regras do sistema, talvez nem conhecêssemos.

28) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical? 

Artênio Fonseca: Estude, trabalhe, confie no seu talento e não seja ingênuo.

29) RM: Festival de Música revela novos talentos? 

Artênio Fonseca: Pode revelar, e historicamente muitos festivais tiveram essa importância. Mas um festival só cumpre plenamente essa função quando tem coragem de apresentar aquilo que ainda não foi consagrado. Se o festival simplesmente reproduz aquilo que o mercado já conhece, ele deixa de ser uma descoberta e passa a ser apenas mais uma vitrine.

30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira? 

Artênio Fonseca: A cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira são cartas marcadas. Paulo Autran dizia que o teatro é a arte do ator, o cinema a arte do diretor e a TV a arte do patrocinador. É uma verdade também na música. Se sua música está ligada (intencionalmente ou não) ao consumo do momento, há patrocínio; logo, os modelos são repetidos para atender às exigências de retorno. Se não, o caminho é o alternativo e até underground. Isso infelizmente é uma perda não apenas para o artista, mas para o próprio público.

31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural, casas de cultura etc, contribuem para a cena musical? 

Artênio Fonseca: Considero esse espaço extremamente importante. Instituições como SESC, SESI e Itaú Cultural ajudam a criar alternativas ao circuito puramente comercial. Elas podem oferecer espaço para pesquisa, diversidade, música instrumental, música popular, novos artistas e projetos que dificilmente encontrariam o mesmo espaço no mercado convencional. São também uma maneira de haver retorno do dinheiro público para o povo.

Lamentavelmente, tenho visto muitos espaços, como os CEUs, por exemplo, na periferia, sem público. Creio que algo tenha que ser feito na formação de público a partir destes espaços. Temo que a ausência de público seja usada como justificativa para os inimigos da cultura tentarem fechá-los.

32) RM: Quais os seus projetos futuros? 

Artênio Fonseca: Tenho vários caminhos em desenvolvimento. Na música, continuo compondo e produzindo novas canções e aprofundando minhas experiências com inteligência artificial aplicada à produção musical. Estou também desenvolvendo o projeto EcoArtes Digital Music, projeto que pretende utilizar artistas e personagens virtuais para dar voz a compositores e poetas, criando novas possibilidades de produção e circulação.

Paralelamente, sigo com o Coletivo EcoArtes, aproximando arte, cultura, educação ambiental, natureza e comunidade. E continuo trabalhando com dramaturgia e com a ideia da Cia. Dramática Virtual, explorando a relação entre música, teatro, narrativa e tecnologia. No fundo, todos esses projetos fazem parte de uma mesma busca: descobrir novas maneiras de contar histórias.

33) RM: Quais seus contatos? 

Artênio Fonseca(11) 92014 – 8252 | https://www.instagram.com/arteniofonsecaoficial  | https://www.instagram.com/coletivoecoartes  

Canal: https://www.youtube.com/@arteniofonseca736

Canal: https://www.youtube.com/channel/UC7-kYc_AJFrY8MDgnlWV3uw

Samba de Trem – Artênio Fonseca e Edvaldo Santana: https://www.youtube.com/watch?v=QTssW1hv8qc

CANTO DOS PÁSSAROS – Artênio Fonseca: https://www.youtube.com/watch?v=JFBFlFLFxT4


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