Adonias Calebe
O compositor, violeiro e professor de música mineiro Adonias Calebe é bacharel em Música (Composição) pela Universidade de São Paulo, Professor Licenciado pelo Centro Universitário Claretiano e possui curso Técnico em Flauta-doce pelo Conservatório Estadual de Música de Pouso Alegre – MG.
Realizou trabalhos na área da música antiga (medieval, renascentista e barroca) com o grupo Le Bizarre e com o Conjunto de Música Antiga da ECA – USP; na área da música instrumental brasileira, trabalhou com o quarteto TrEm 205. Em 2012 teve sua composição “Devir” estreada pelo coro “Voz Nua” em Aveiro, Portugal.
Nos últimos anos vem construindo um trabalho de divulgação da Música Amazônica e região Norte do Brasil, sintetizando esse repertório com a Viola Mineira. Atualmente compõe trilhas sonoras para filmes e espetáculos, desenvolve seu trabalho de música autoral e realiza parcerias.
Segue abaixo entrevista exclusiva com Adonias Calebe para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 10/06/2026:
01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?
Adonias Calebe: Nasci no dia 08/09/1988 em Santa Rita do Sapucaí, Sul de Minas Gerais. Registrado como Adonias Calebe Silva e Lopes.
02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.
Adonias Calebe: Meu primeiro contato com a música foram os discos e fitas k7 que minha mãe (Cláudia da Silva Lopes) ouvia em casa. No repertório estavam principalmente cantores consagrados da MPB, duplas sertanejas dos anos 80 e 90 e grupos de pagode. Já na adolescência, comecei a me interessar pela rebeldia do Rock e essa vertente abriu meus ouvidos para outros estilos e ritmos. Depois, nos primeiros anos de conservatório de música, comecei a estudar Música Popular Brasileira e não parei mais.
03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?
Adonias Calebe: Sou Bacharel em Música – Habilitação em Composição Musical pela Universidade de São Paulo (USP); Professor licenciado pelo Centro Universitário Claretiano; Técnico em flauta-doce pelo Conservatório Estadual de Música JKO de Pouso Alegre (CEMPA).
04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?
Adonias Calebe: Minhas influências são heterogêneas, busco me informar e consumir todo tipo de música. Do passado poderia citar o repertório da música européia antiga (medieval, renascentista, barroca) como Guillaume de Machaut, Palestrina, Telemann, J.S.Bach; bandas de Rock: Pink Floyd, Black Sabbath, Raul Seixas, Som Imaginário, Os Mutantes, Led Zeppelin.
Duplas caipiras/sertanejas: Tião Carreiro e Pardinho, João Paulo e Daniel, Leandro e Leonardo; MPB: Baden Powell, Vinicius de Moraes, João Gilberto; Rap: Racionais, Facção Central. No presente posso citar: Elomar, Clube da Esquina, Milton Nascimento, Lô Borges, Debussy, Buena Vista Social Club, Pixinguinha, Tom Jobim, Almir Sater, Gilberto Gil, Ivan Vilela, Xangai, Inti Illimani, Silvio Rodriguez, Noel Rosa, entre outros.
05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?
Adonias Calebe: Comecei os estudos musicais com seriedade em 2005, com um amigo trompetista (Mateus Cintra) na minha cidade natal (Santa Rita do Sapucaí – MG). Em 2006 ingressei no Conservatório de Pouso Alegre cursando durante 4 anos e em 2010 fui aprovado no curso de Composição na USP em São Paulo.
06) RM: Quantos álbuns lançados?
Adonias Calebe: Lancei dois EP’s e 4 singles lançados.
07) RM: Como você se define como Violeiro?
Adonias Calebe: Sou um violeiro que busca ampliar a linguagem da Viola para outros gêneros musicais além da música tradicional caipira e/ou sertaneja. Gosto de incrementar no meu som a música latinoamericana e a música amazônica (nortista). Procuro harmonias e ritmos que apontem a viola para novos caminhos.
08) RM: Quais afinações você usa na Viola?
Adonias Calebe: Uso basicamente as afinações Cebolão em Ré Maior e Boiadeira. Mas em algumas peças autorais utilizo scordatura (alterações na afinação padrão).
09) RM: Quais as principais técnicas o violeiro tem que conhecer?
Adonias Calebe: Acredito que o violeiro deve buscar as técnicas relacionadas a afinação e repertório do território ao qual esteja inserido e partir daí para criar novas possibilidades musicais. De qualquer forma, penso que o fato de não termos uma “escola oficial” de aprendizado da viola, contribui para a diversidade de invenções que aparecem neste instrumento maravilhoso.
10) RM: Quais os violeiros que você admira?
Adonias Calebe: Da geração mais antiga: Bambico, Tião Carreiro, Helena Meirelles, Heraldo do Monte; da geração mais nova: Almir Sater, Ivan Vilela, Ricardo Vignini, Mel Moraes.
11) RM: Como é seu processo de compor?
Adonias Calebe: Depende do tipo de trabalho de composição. Para música instrumental autoral, pego a viola e vou tocando, de maneira lúdica, acho um tema, um movimento e vou desenvolvendo. Quando a música é com letra, desenvolvo a partir do texto, tento trazer a “música do texto” para o instrumento. Também gosto de compor a partir de improvisações, deixo o gravador ligado e crio na hora.
12) RM: Quais as principais diferenças técnicas entre a Viola e o Violão?
Adonias Calebe: Acho que tocar violão ou viola, contribui um para o outro. Mas a maior diferença que eu vejo é com relação aos toques da mão direita, tanto rítmicos quanto dedilhados, que exigem atenção diferenciada na viola, por ter cordas duplas.
13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?
Adonias Calebe: Entre os prós estão poder tocar e praticar repertórios mais instigantes em matéria de musicalidade e idéias. A liberdade de poder ir e vir e t(r)ocar com diferentes nichos musicais. Entre os contras estão as instabilidades financeiras e às vezes ter que tocar músicas de mal gosto para poder conseguir dinheiro.
14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?
Adonias Calebe: Eu trabalho paralelamente como professor de música, ministrando aulas de viola, violão, ukulele, flauta-doce, bandolim, teoria e harmonia musical, contraponto, história da música, percepção, etc. Tenho prazer em ensinar e dar aulas. Creio que essa atividade contribui para formação de público, visto que eu não tenho produtor e não gosto de investir dinheiro em publicidade, sempre preferi engajamento orgânico. Minha estratégia é seguir tocando, criando, contribuindo e somando com violeiros, músicos e artistas brasileiros, além de continuar progredindo na vida acadêmica e lecionando.
15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?
Adonias Calebe: Atividades acadêmicas e realização de parcerias musicais.
16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?
Adonias Calebe: A internet é uma ferramenta importantíssima para podermos divulgar minimamente o trabalho que fazemos. Acredito que as formas de criação de conteúdo modernas, são prejudiciais à criação de novas estruturas e linguagens, pelo fato de proporem muitas repetições. Mas acho que isso é uma fase passageira da nossa história.
17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?
Adonias Calebe: Só vejo vantagens o uso de Home estúdio: poder realizar os sons que antes dependíamos de muitos recursos para conseguir.
18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar o CD não é mais o grande obstáculo. Mas concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?
Adonias Calebe: Sinceramente, eu não busco querer ser diferente visando ser notado pelo mercado musical. Como tenho um trabalho eclético, já seria difícil participar de um nicho específico no mercado. Eu apenas sou feliz fazendo música, ensinando e buscando novos caminhos para colocar a Viola e conectá-la com outros sons, lugares e culturas. Talvez esse seja meu diferencial: colocar na viola repertórios que não são dela.
19) RM: Como você analisa o cenário da Música Sertaneja pop? Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?
Adonias Calebe: Penso que o cenário do mercado musical brasileiro, infelizmente sofre com a pressão dos investidores para a música ser sempre a mais palatável e vendável possível. Isso coloca uma pá de cal na essência da arte musical. Não ouvimos músicas novas, ouvimos as mesmas músicas com uma roupagem ou letra diferente, a indústria adestrou os ouvidos às infinitas repetições de padrões.
Isso pra não falar na grande lavagem de dinheiro que é feita através dos gêneros mais ouvidos no país (notadamente sertanejo, funk, gospel). Ao meu ver, precisamos diferenciar o que é “música enlatada, ultraprocessada” de arte musical. Não acompanho com profundidade o cenário sertanejo pop para poder cravar quem conseguiu se estabelecer para além do frisson do lançamento mercadológico.
20) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?
Adonias Calebe: Mais feliz: as trocas com outros músicos e artistas! Mais triste: a obrigação de virar “criador de conteúdo” audiovisuais ou participar de “trends” para poder ter sua música vista.
21) RM: Quais os outros instrumentos musicais que você toca?
Adonias Calebe: Violão, Ukulele, Triângulo, Bandolim, Cavaquinho, Tin Whistle, Flauta-doce, Gaita, Flauta Transversa.
22) RM: Como você analisa o cenário da música Sertaneja Caipira? Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?
Adonias Calebe: Vejo que a Música Caipira respira ainda em alguns trabalhos dos artistas antigos como Chitãozinho e Xororó, e também ganha fôlego com novos artistas que rejeitam essa padronização do mercado em cima das duplas. Mas não conheço com profundidade as revelações da última década para poder relacioná-las.
23) RM: Quais os vícios técnicos o violeiro deve evitar?
Adonias Calebe: Apenas o conformismo. Achar que “já está bom” o que sabe.
24) RM: Quais os erros no ensino da Viola?
Adonias Calebe: Hoje em dia, com a popularização da Viola, é necessário perceber no aluno qual é o caminho que ele quer trilhar e, como professor, mostrar possibilidades e repertórios para que a visão dele se amplie. O maior erro é querer ensinar “na marra” um repertório que não dialoga com a realidade dos alunos.
25) RM: Tocar muitas notas por compasso ajuda ou prejudica a musicalidade?
Adonias Calebe: Depende do que a música pede. Bom gosto pode ser com muitas notas, com poucas, com uma ou com nenhuma!
26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?
Adonias Calebe: Seja vocẽ mesmo e busque seu som!
27) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?
Adonias Calebe: Ensinar repertórios que não dialoguem com o aluno e também o excesso ou ausência de teoria musical.
28) RM: Existe o Dom musical? Qual a sua definição de Dom musical?
Adonias Calebe: Não creio em dom musical. Há uma facilidade maior para quem teve contato desde pequeno ou até desde a barriga da mãe. Mas realizar a música é 99% transpiração e 1% inspiração. Entretanto, vira e mexe aparece uma criança prodígio!
29) RM: Qual a sua definição de Improvisação?
Adonias Calebe: Saber quais materiais podem ser utilizados em uma passagem musical e conseguir trabalhá-los em “tempo real”. Para isso faz-se necessário o estudo profundo de escalas, harmonia, percepção… Mas acima de tudo: saber ouvir!
30) RM: Existe improvisação de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?
Adonias Calebe: Existe improvisação de fato, mas não é mágica. Depende de um estudo prévio para aplicar depois.
31) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?
Adonias Calebe: Acho que a maioria dos materiais focam muito apenas na parte teórica, deixando a desejar na parte perceptiva, que é o cerne da questão para improvisar.
32) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?
Adonias Calebe: Depende do método. Existem muitos no mercado e cada um tem um ponto forte e fraco. O professor deve orientar o aluno nessa busca. Um aluno sem professor, pode acabar se perdendo um pouco nessa seara.
33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro?
Adonias Calebe: A cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro é horrível. A música brasileira é uma das mais ricas do planeta e deveria ser tratada como política de estado pelo Brasil, sendo amplificada pelos canais públicos e tendo uma cota para estar nas programações das redes privadas (que detém concessão pública!).
Infelizmente a nossa música é sabotada pela grande mídia, que é porta voz da cultura estrangeira (principalmente norte-americana) em nosso país. Não há espaço para novos artistas e os antigos só têm esse espaço porque foram proeminentes para as gravadoras nos anos 80, 90.
34) RM: Qual a importância de espaço como SESC, Itaú Cultural, Caixa Cultural, Banco do Brasil Cultural para a música brasileira?
Adonias Calebe: Vital. Sem esses aparelhos músicos e artistas independentes e/ou pequenos não conseguem apresentar sua arte de maneira digna, recebendo pelo trabalho e tendo uma estrutura para a realização.
35) RM: Quais os seus projetos futuros?
Adonias Calebe: Entre os projetos estão: A produção do disco “Imbiara na Amazônia” do compositor e cantador Zé Azevedo de Santarém – Pará. A gravação do disco “Elomar na Viola”, onde arranjo a obra de Elomar para a linguagem da Viola caipira. Projeto “Norte” com composições amazônicas autorais na Viola caipira e “Lendas Amazônicas” releituras da obra de Waldemar Henrique para Viola. Disco Iasapuka’i: a viola contemporânea em canções e instrumentais autorais.
36) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?
Adonias Calebe: Contato para show (11) 9 8481 6987 | https://www.instagram.com/calebemus | https://www.instagram.com/elomarnaviola | https://www.instagram.com/violamazonica
Canal do YouTube: https://youtube.com/@calebemus


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