Marcus Ferrer
O compositor, violeiro, violonista e artista sonoro carioca Marcus Ferrer é professor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Bacharelado e Mestrado em Composição (UFRJ/Brasil); Doutorado em Teoria e Prática da Interpretação Musical (UNIRIO/Brasil); Pos-doutorado em Viola de 10 cordas (Lund University/Suécia).
Segue abaixo entrevista com Marcus Ferrer para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 03/04/2026:
01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?
Marcus Ferrer: Nasci no dia 15 de outubro de 1963 no Rio de Janeiro – RJ. Registrado como Marcus de Araújo Ferrer.
02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.
Marcus Ferrer: Minha avó, Lidia, por parte de pai, era pianista e também tocava violão. Sustentou a família tocando em cassinos em São Lourenço, Sul de Minas. É a única pessoa da família que era músico. Minha relação com a música vem dessa avó. Tenho fotos, eu lá na casa dos avós, com cerca dois anos com um violão ao lado.
03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?
Marcus Ferrer: Comecei a ter aulas de violão com 9 anos de idade com uma professora arranjada pela minha avó, Lidia. Isso durante as férias em São Lourenço – MG. Era aula de Violão Clássico. Anos mais tarde, em casa, no Rio de Janeiro, passei a ter aulas de violão popular aprendendo a ler cifra e tocar MPB.
Quando estava na adolescência, queria aprender a tocar violão de 7 cordas que é um instrumento tradicional do Choro e do Samba, gêneros característicos do Rio. Fui ter aluas com Luiz Otávio Braga que me proporcionou uma formação mais completa com uma base teórica com solfejo, harmonia funcional e análise funcional, além do 7 cordas é claro.
Naquela época, não havia métodos e o aprendizado era passado com material do próprio professor e por meio de gravações, tirando tudo de ouvido e escrevendo. Lembrando aqui para as novas gerações que a tecnologia de então era a fita K7, muito utilizada para isso.
Meu pai é arquiteto e desde criança convivi com esse meio.
Na adolescência, ao mesmo tempo em que tinha aulas de 7 cordas, cheguei a trabalhar como desenhista (papel vegetal, planta baixa, nanquim, esquadros, normógrafo, régua T etc), uma atividade extinta hoje. Como meu pai tinha escritório, o caminho natural foi fazer faculdade de arquitetura. Não concluí o curso, embora seja uma atividade que tenho interesse até hoje.
Tranquei a matrícula e fui prestar vestibular para o bacharelado em Composição Musical na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nesta época, já tinha diversas composições para formações instrumentais variadas.
A música realmente falou mais forte. Após o Bacharelado, fiz o Mestrado também em Composição (EM/UFRJ), o Doutorado em Teoria e Prática da Interpretação Musical (Tese “A viola e o Choro”, na UNIRIO) e o Pós-Doutorado na Academia de Música de Malmö, Universidade de Lund/Suécia (Lecture-recital sobre minhas composições para a Viola, em 2024). Não posso afirmar com certeza, mas acho que sou o primeiro violeiro do Brasil com Pós-Doutorado.
04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?
Marcus Ferrer: Sou muito ligado em Música Instrumental. Assisti a dezenas de shows do Hermeto Pascoal, do Egberto Gismonti, do Hélio Delmiro, do Baden Powell. Esses músicos eram uma inspiração para mim. Na parte da música de concerto, embora tenha ouvido e analisado uma enorme quantidade de músicas de compositores estrangeiros diversos (Strawinsky, Schoenberg, Webern, Lutoslavski etc) até hoje continuo ouvindo Bach. E para mim um dos maiores compositores brasileiros e que me emociono ao ouvir suas músicas: Heitor Villa-Lobos.
05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?
Marcus Ferrer: Na década de 80 comecei tocando violão de 7 cordas num grupo de Choro e Samba em um bar durante os finais de semana. Trabalhei como músico da noite e também acompanhando cantores durante dez anos mais ou menos. Participei de diversos grupos com formações instrumentais variadas.
Um dos mais importantes foi a Orquestra de Cordas Brasileiras (4 bandolins, 2 cavaquinhos, 2 violas, 2 violões, 1 violão de 7 cordas, 1 contrabaixo e 2 percussionistas) onde tocava viola com afinação Cebolão em Mi maior. Tocava com palheta porque precisa equilibrar o som da Viola com os outros instrumentos. Este grupo permaneceu ativo por cerca de nove, dez anos.
O fim das atividades da OCB – Orquestra de Cordas Brasileiras coincidiu com a finalização do curso de Mestrado em Composição na UFRJ, em 1996. Eu estava meio cansado de muita teoria e análise (base para curso de composição) e resolvi me dedicar integralmente à performance.
Com a parada das atividades da Orquestra de Cordas, decidi montar repertório solo, com minhas próprias músicas, alternando entre o violão e mais duas violas, uma com afinação cebolão em Mi e outra em Rio abaixo. Ali, penso que comecei de fato uma carreira solo. Venho exercendo esta atividade solista desde então.
06) RM: Quantos álbuns lançados?
Marcus Ferrer: Tenho dois álbuns solo. Um autoral com composições minhas para Violão e Viola solo. E um outro álbum solo interpretando composições de grandes compositores brasileiros da música de concerto, feitas especialmente para Viola. Projeto patrocinado pela Petrobrás.
É curioso porque gravei um segundo álbum autoral e acabei não lançando, nem nas plataformas. Me desinteressei um pouco pela forma como essas ferramentas de divulgação estão estruturadas.
Os álbuns com os grupos: A Orquestra de Cordas Brasileiras tem álbuns premiados além de álbuns com convidados ilustres como Wagner Tiso, Paulo Moura, Raphael Rabello, entre outros.
Em 2004, fui convidado pelo grupo de Música Antiga da Universidade Federal Fluminense para um projeto de gravação de um álbum e shows denominado Medievo-Nordeste, unindo a Viola de 10 cordas e os instrumentos antigos.
Em 2008, lançamos o álbum Modinhas Cariocas com um grupo de músicos professores que se uniram especialmente para essa gravação: Luciana Costa e Silva, meio-soprano, Marcelo Coutinho, barítono; Paulo da Matta, flauta barroca; Marcus Ferrer, viola de 10 cordas (Cebolão em Mi maior); e Marcelo Fagerlande, cravo. Além de participações como músico violeiro, as vezes mais extensas, ás vezes menos, em cerca de cinquenta álbuns.
07) RM: Como você se define como Violeiro?
Marcus Ferrer: Meu repertório é baseado em composições próprias e de outros autores contemporâneos, adaptações de obras originais do violão clássico para a Viola e, em menor quantidade, também arranjos de música popular e de Choros. Não sei se há o termo Violeiro de Concerto, mas seria mais ou menos a minha área.
Não sou ligado na tradição musical da Viola. Quando comecei a tocar Viola, no início da década de 80, tinha no repertório músicas tradicionais, mas não sentia “clima” para tocar essas músicas no Rio de Janeiro. Como já falei, ouvia muito Egberto Gismonti e Hermeto Pachoal e acabei enveredando por esse caminho de uma música instrumental para a viola.
08) RM: Quais afinações você usa na Viola?
Marcus Ferrer: Utilizo uma Viola em Rio abaixo e outra em Cebolão em Mi maior.
09) RM: Quais as principais técnicas o violeiro tem que conhecer?
Marcus Ferrer: Acho que isso é meio pessoal e depende de muitas coisas: do gosto, do meio, do ambiente e da proposta do trabalho etc. As técnicas vão mudar em função dessas escolhas.
10) RM: Quais os violeiros que você admira?
Marcus Ferrer: Não tenho contato com as gerações mais novas. Então, vou citar alguns que admiro: Fernando Deghi, Ivan Vilela, Levi Ramiro, Paulo Freire, Heraldo do Monte, Renato Andrade.
11) RM: Como é seu processo de compor?
Marcus Ferrer: É empírico. O processo é o próprio fazer. Não defino antecipadamente tempo de duração, tonalidade, seções, estilo, …nada. Às vezes componho no violão, às vezes numa viola, às vezes noutra, às vezes no computador. É um processo realmente livre e que me dá muito prazer.
Há um pintor russo chamado Vassily Kandinsky que dizia o seguinte: “A forma é a expressão exterior do conteúdo interior”. O que ele queria dizer era que o conteúdo é que vai definir a forma, e não o contrário. A composição surge ao se trabalhar a partir do conteúdo. Não é um processo simples nem fácil para quem não está preparado pois depende de uma bagagem de conhecimento e prática consideráveis para poder criar a partir deste parâmetro de liberdade.
12) RM: Quais as principais diferenças técnicas entre a Viola e o Violão?
Marcus Ferrer: Novamente acho que depende do contexto em que esses instrumentos estão atuando. Mas de uma maneira superficial poderia apontar algumas diferenças como por exemplo no uso do dedo indicador e do polegar da mão direita na viola com movimento ascendente e descendente.
No violão, o movimento mais comum do polegar é apenas descente. Essas diferenças são fáceis de apontar quando focados em algum estilo ou escola, ou em alguma região. Mas quando se aprofunda e amplia o campo de visão percebe-se que há músicos utilizando várias técnicas em ambos instrumentos. O fato de eu tocar os dois instrumentos me permite cruzar essas técnicas de maneira bastante natural essa questão acaba se diluindo.
13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?
Marcus Ferrer: Não penso dessa forma comparativa. Acho que são caminhos diferentes com necessidades diferentes, demandas diferentes. Mas uma coisa é certa, essa autonomia requer responsabilidade e trabalho em áreas que muitas vezes são distantes da música ou mesmo da arte. É tipo um três-em-um (ou quatro, cinco, seis-em-um). Não basta só tocar bem, tem que fazer trabalho de comunicação, divulgação, montagem de portfólio, projetos, produção, empresariar etc.
14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?
Marcus Ferrer: Sou uma pessoa muito pouco pragmática e sem muito planejamento. O caminho vai sendo percorrido e as coisas vão acontecendo no seu tempo. Vou dar dois exemplos. Depois de tocar com a Orquestra de Cordas Brasileiras e de gravar, fazer shows, etc, sempre com a viola afinada em Cebolão em Mi maior, desenvolvi uma certa destreza e experiência nessa afinação.
Isso estava me incomodando na hora de compor na Viola porque tudo que fazia já vinha analisado. Aquela coisa de tocar buscando o som, testando, “catando nota” como a gente fala, não estava acontecendo. Foi quando resolvi arrumar uma outra viola com outra afinação que não conhecesse para poder voltar a compor de ouvido. E fiz isso por um bom tempo com uma viola afinada em Rio abaixo. Então, o fato de eu me apresentar com duas Violas é uma consequência dessa experiência.
Outro exemplo, depois dessa época de bastante trabalho com a OCB, também senti falta de tocar uma música menos “comercial” e popular. Os estilos e linguagens são repetitivos, por mais que você possa variar, a estrutura se mantém e se repete, harmonias, seções, levadas, etc. Passei, então, a estudar transcrições para a viola de músicas contemporâneas de concerto.
Nesse período em que toquei esse repertório, fui convidado a realizar um concerto de viola solo na I Bienal de Música Contemporânea do Mato Grosso, no SESC Arsenal, em Cuiabá, em 2004. Fiz o concerto e entrei para a história pois foi a primeira vez que um violeiro realizou um concerto solo, com música contemporânea num evento deste tipo. Veja, não planejei isso.
Mais um exemplo. Na plateia deste concerto na Bienal, estavam dezenas de compositores de todo o Brasil. Muitos deles vieram falar comigo após o concerto, bastante animados com o que tinham acabado de ouvir e indagando sobre a possibilidade de escrever para viola. Desta conversa, idealizei um projeto de encomenda e gravação de obras a compositores de música contemporânea, que foi selecionado em edital e realizado com patrocínio da Petrobras. Esse trabalho, de certa forma me colocou num lugar diferente quando se fala em Viola.
Novamente, não é uma música convencional, muito menos comercial. Exige do violeiro um nível técnico bastante alto para ser tocada e não tem um retorno proporcional a todo o trabalho que precisa ser desenvolvido para a sua realização. Mas era o que me sensibilizava e alimentava musicalmente na época.
15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?
Marcus Ferrer: Curioso porque vou lendo as perguntas (que estou achando ótimas), mas fico com aquela impressão de estar na contramão. Vou dar mais um exemplo. Como já falei, sou compositor e tenho formação acadêmica neste campo. Fui convidado a participar como compositor de um projeto do SESC sobre música contemporânea de concerto realizando oficinas onde eram expostos, discutidos e praticados conceitos desse tipo de música.
Realizei essas oficinas em diversas unidades do SESC, em estados diferentes pelo Brasil. Esse trabalho foi um dos motivos de eu ter sido convidado, anos depois, a participar do projeto SONORA BRASIL SESC/VIOLAS, junto com Fernando Deghi, na linha Viola de Concerto. Mais uma vez, os cursos ministrados não foram uma ação realizada visando um objetivo futuro.
16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?
Marcus Ferrer: Entendo a internet como mais um meio pelo qual as ferramentas de comunicação funcionam e, infelizmente, onde praticamente tudo é divulgado e promovido. Não acho que prejudique, a única observação é que hoje todos nós somos dependentes, de alguma forma, deste meio.
17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?
Marcus Ferrer: Não vejo desvantagem do uso do home estúdio. Acho que ampliou a possibilidade de trabalho para o músico. O acesso a essa tecnologia é muito bom. No entanto, eu prefiro ainda gravar num estúdio, com um técnico que já conheço e tenho afinidade. Vou para lá trocamos ideias, concentro-me em tocar música apenas.
Observo que, hoje, estamos num ponto de virada que ainda não dá para saber o que vai acontecer por causa do acesso aos aplicativos e Ias que estão fazendo/gerando músicas e arranjos inteiros. Isso vai impactar no trabalho do músico profissional.
18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar o CD não é mais o grande obstáculo. Mas concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?
Marcus Ferrer: Meu nicho musical é bem reduzido. Viola, instrumental, autoral ou de concerto, acústico. Talvez isso seja o diferencial.
19) RM: Como você analisa o cenário da música Sertaneja pop. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?
Marcus Ferrer: Meu tempo dedicado à escuta musical está direcionado para outro lado: música de concerto, música instrumental e música étnica.
20) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?
Marcus Ferrer: Sendo músico, artista, eu trabalho no campo da Arte que é o que me alimenta em todos os sentidos. Alegria e tristeza andam juntas e se complementam. Se não, não seria artista. No entanto, penso que todo artista (não apenas os famosos) deveria ser mais valorizado e respeitado em nossa sociedade. Um desejo que está longe de se realizar..
21) RM: Quais os outros instrumentos musicais que você toca?
Marcus Ferrer: Já toquei Violão de 7 cordas, Cavaquinho, Bandolim, Flauta Transversa e Violoncelo. Hoje, já não tenho mais nenhum destes instrumentos. Atualmente, toco em duas Violas de 10 cordas e um Violão de 6 cordas de nylon.
22) RM: Como você analisa o cenário da música Sertaneja Caipira/Raiz. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?
Marcus Ferrer: Desde a época da pandemia, tenho ouvido muito pouca música. Não tenho como responder a essa pergunta.
23) RM: Quais os vícios técnicos o violeiro deve evitar?
Marcus Ferrer: Sempre dei aulas, principalmente de violão. Toda vez que aparecia alguém interessado em ter aulas e que nunca tinha pego no instrumento, eu sugeria que primeiro ele arrumasse o instrumento e fosse começar a estudar por conta própria, com a ajuda de amigos ou publicações, vídeos etc. Depois, quando sentisse que não estava mais conseguindo evoluir, aí sim era o momento de procurar um professor. Sei que é uma posição controversa, mas é como penso.
Atualmente, sou professor de violão na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Duas coisas que aprendi na época em que estudei violoncelo, com meu professor, e que me ajudaram em tudo que se refere à prática instrumental tanto no violão quanto na viola: relaxamento e concentração. Tocar relaxado é fundamental e a concentração é o que permite a você perceber se está tocando/estudando relaxado ou não.
Portanto, estudar concentrado é essencial. Claro que se você é um músico amador que pega no instrumento de vez em quando ou apenas um pouco todo dia, não precisa se preocupar com isso. Mas para um músico profissional que dedica horas por dia, todo os dias, ao estudo no instrumento, relaxamento e concentração são fundamentais.
24) RM: Quais os erros no ensino da Viola?
Marcus Ferrer: Não saberia dizer. O ensinar um instrumento como a Viola, instrumento com algumas centenas de anos, de tradição oral, que tem um enorme repertório, desde composições, arranjos e transcrições, com técnicas também diversas, fornece ao estudante e ao professor uma imensa gama de possibilidades. Ou seja, qual a posição correta para se tocar viola? Qual técnica certa? Qual afinação? Que posição das mãos direita e esquerda? Que repertório? Tudo depende do contexto, da intensão, do objetivo, do programa de um curso etc.
Ás vezes, por motivos variados, as pessoas se vêem impossibilitadas de poder ter acesso a algum tipo de formação ou informação, e mesmo assim, isso não impede que elas toquem. Uma coisa interessante que vi acontecer algumas vezes é que na falta de informação, as soluções encontradas pelos estudantes muitas vezes são surpreendentes.
25) RM: Tocar muitas notas por compasso ajuda ou prejudica a musicalidade?
Marcus Ferrer: Desde a pandemia, decidi tocar apenas com o dedo, sem unha. Foi um período de adaptações e uma das questões que tive que lidar foi exatamente a velocidade. Quando tocava com unha tinha uma velocidade razoável que não foi possível manter com o toque com os dedos.
Se você me perguntar: você perdeu musicalidade por causa disso? A resposta é: De maneira alguma. Vejo a musicalidade como um aspecto qualitativo. Essa questão de quantidade de notas é como um aspecto quantitativo. São coisas separadas, não ajuda nem prejudica.
26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?
Marcus Ferrer: Bem vindo à tribo, ao mundo da música, da Arte enfim. Se precisar de alguma coisa e eu puder ajudar…
27) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?
Marcus Ferrer: Não há uma só metodologia. Talvez a questão mais importante seja achar qual a(s) metodologia(s) que melhor se encaixe(m) com o estudante ajudando-o a se desenvolver.
28) RM: Existe o Dom musical? Qual a sua definição de Dom musical?
Marcus Ferrer: Essa é uma questão controversa. É como aquele ditado popular: Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem! O nome que se vai dar, se é habilidade, facilidade etc, não importa. Mas alguma coisa existe.
29) RM: Qual a sua definição de Improvisação?
Marcus Ferrer: Não tenho uma definição e embora alguns estilos ou gêneros musicais estejam fortemente associados a este termo, como o jazz ou o choro, certamente é um tema muito maior e mais amplo. Uma definição poderia acabar sendo restritiva e segmentada. Por outro lado, tentar dar uma definição que fosse geral seria contraditória em si também.
30) RM: Existe improvisação de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?
Marcus Ferrer: Vou falar apenas sob um aspecto da improvisação porque trabalhei alguns anos neste campo. Durante as décadas de 80, 90 e 2000, toquei e trabalhei como violonista de 7 cordas. Um violão tradicional do Choro e do Samba responsável, não somente mas principalmente, pela condução dos baixos e que tem como característica a liberdade de criação melódica junto com a harmonia, ou seja a improvisação. Neste caso, chamada popularmente de “baixaria”.
Na época, na década de 80, não existiam métodos e a forma de aprender era ouvindo as gravações e ir tirando de ouvido, copiando mesmo as baixarias. Na hora de tocar nas rodas de Samba e Choro, eu tocava tudo igualzinho ao que havia tirado.
O que acontece nessa forma de aprender é que depois de certo tempo você adquire familiaridade com tudo aquilo e percebe que tem lastro para variar aqui e ali, e mais tarde tem segurança para fazer seus próprios acompanhamentos e baixarias, e liberdade para improvisar. Essa foi minha experiência de aprendizado neste ambiente musical de improvisação.
31) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?
Marcus Ferrer: Acho que é sempre bom estudar porque você não sabe qual o seu limite. O estudo com o instrumento não é uma linha reta tipo: se eu estudar tantas horas por dia durante tanto tempo, daqui a tantos anos serei um improvisador excepcional. Isso não existe. São muitos fatores e variantes que entram nessa equação. De qualquer forma, quanto mais e mais variados métodos puder estudar, melhor.
32) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?
Marcus Ferrer: Com a Harmonia é a mesma coisa. É um mundo de coisas interessantes para aprender sobre harmonia. Antigamente, havia uma ideia generalizada de que o músico que tocava de ouvido era mais “musical” do que o que tocava por partitura. Isso é uma enorme besteira, uma coisa não tem relação a outra.
Hoje, essa ideia perdeu força porque o estudo teórico, seja de harmonia, de improvisação, de composição já fazem parte da vida do músico profissional. A música é um mundo de coisas e tudo que você puder estudar não atrapalha, mas sim soma.
33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro?
Marcus Ferrer: De maneia geral, a grande mídia anda junto com o entretenimento, e essa não é minha área de atuação. Lembro de um músico amigo meu comentando de forma crítica, há muitos anos atrás, uma notícia de que determinada cantora tinha vendido mais de um milhão de Cds. Eu respondi a ele que para mim não fazia diferença se ela vendia ou não, porque nossos públicos eram totalmente diferentes.
34) RM: Qual a importância de espaço como SESC, Itaú Cultural, Caixa Cultural, Banco do Brasil Cultural para a música brasileira?
Marcus Ferrer: São extremamente importantes, tanto pelo fomento quanto pelo cuidado com a programação e ser definida.
35) RM: Quais os seus projetos futuros?
Marcus Ferrer: Continuar compondo e tocando. Atualmente, além do repertório solo, formei um trio (viola, violão e violão de 7 cordas) com dois excepcionais e talentosos alunos do Bacharelado em violão da UFRJ: Gabriel Tasso (violão) e Artur Vidal (violão 7 cordas).
36) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?
Marcus Ferrer: (21)976810126 | https://www.instagram.com/soundferrer | https://www.instagram.com/riodeviolas | https://www.instagram.com/gabrieltasso_ | https://www.instagram.com/arturvidal_
Playlist: https://www.youtube.com/watch?v=3sGEdMM2ppM&list=PLnl_6jG41EgX8v_P-XcCEzEpL10G2Bnng


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