Lucas Gonçalves
O músico, compositor e produtor musical paulista Lucas Gonçalves a música é central na sua vida de desde os primeiros anos, em Passa Quatro, no sul de Minas Gerais, onde cresceu e viveu com a família.
Em Passa Quatro formou bandas, experimentou diferentes instrumentos, se apresentou em público pela primeira vez e começou a compor aos 15 anos de idade.
Desde 2012, vive em São Paulo, é baixista da Maglore, banda de rock baiana em destaque na nova música popular brasileira, produtor musical e, nos últimos cinco anos, lançou três álbuns de seu projeto solo.
No álbum de estreia, Se Chover [2020], Lucas fez uma seleção de canções que vinha compondo desde 2007. A sonoridade suave e analógica é costurada fio a fio para tecer uma coleção delicada e intimista.
No álbum Verona [2021] recupera a paisagem da Serra da Mantiqueira. É como uma viagem de carro em direção a esse imaginário da cidadezinha do interior, suas ruelas, bares, amigos e personagens. Um álbum nostálgico de folk rock mineiro.
O terceiro álbum, Câmara Escura [2023], é resultado de uma imersão em seu estúdio, na casa onde mora em São Paulo há uma década. Neste espaço em contínua transformação, cria, grava, compõe e testa novas sonoridades, como um laboratório onde os sons vão sendo revelados aos poucos. É também uma homenagem à fotografia, arte que Lucas se aproximou nos últimos anos e pratica em suas viagens em turnê pelo Brasil.
Um ano depois de Lucas Gonçalves chegar a São Paulo, em 2013, ele passa a ser o técnico de som da Casa do Mancha, icônica casa de música independente onde artistas de todo o país se apresentaram.
Nas trocas durante as noites de show, conheceu os músicos de sua primeira banda formada na capital paulista, a Vitreaux. Juntos, lançaram o EP 2×2 [2014] pelo selo Mono Tune Records, o álbum Pra Gente Poder Passear [2016], pela DeckDisc e o terceiro álbum, Na Espera da Fila [2020], elogiado pela revista BRAVO! e destaque na HotList da Rolling Stone Brasil.
A banda Vitreaux tocou em festivais consolidados, como o “Bananada”, em Goiânia, o “Dia da Música”, no Rio de Janeiro e o “Fora da Casinha”, em São Paulo.
Na banda Maglore desde 2017, Lucas Gonçalves participou da criação e gravação do álbum Todas as Bandeiras [2017], que saiu pela DeckDisc, onde lançou sua canção “Calma”, e do álbum V [2022], álbum com mais composições de sua autoria, como “Vira Lata”, “Amor de Verão”, “Maio, 1968” e “Medianias”.
Segue abaixo entrevista exclusiva com Lucas Gonçalves para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 13/02/2026:
01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?
Lucas Gonçalves: Nasci no dia 23/03/1992 em Taubaté – SP e cresci em Passa Quatro, sul de Minas. Registrado como Lucas Oliveira Gonçalves.
02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.
Lucas Gonçalves: Meu primeiro contato com a música gravada foi através da coleção dos meus pais (Ronaldo Cesar Gonçalves e Silvia Helena de Oliveira Gonçalves), meu pai principalmente, e a experiência de música ao vivo com a Folia de Reis na qual o meu avô materno (José Paulino) participou tocando Viola.
03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?
Lucas Gonçalves: Sou músico autodidata e não tenho curso superior em outra área.
04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?
Lucas Gonçalves: Já fui ouvinte de metal na adolescência. Toquei em bandas do gênero também, mas não considero que deixou de ter importância, até porque me fez experienciar os primeiros shows ao vivo, inclusive em São Paulo, onde moro atualmente. Vez ou outra ouço Slayer (risos) fez parte da minha adolescência. Hoje eu escuto música brasileira, discos dos anos 60 e 70. Recentemente conheci Helio Matheus, estou adorando ouvir o seu disco de 1975.
05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?
Lucas Gonçalves: Meu primeiro contato com um instrumento foi dedilhando a Viola do meu avô materno (José Paulino), e mais tarde, batucando na bateria da igreja antes das aulas de catequese, com lápis de escrever.
Na mesma época, o meu irmão mais velho (Régis Oliveira) ganhou um violão, fez poucas aulas e abandonou, então eu comecei a brincar com o 6 cordas. Ganhei do meu tio (Renê Gonçalves) algumas revistinhas com cifras de músicas do Raul Seixas, dos Beatles, do Zé Ramalho, e com elas fui aprendendo a fazer os primeiros acordes. Com esses acordes, fiz as minhas canções primogênitas.
Com 15 anos de idade ganhei o festival do colégio com uma música chamada “Um Mundo Melhor” (se bobear, ainda lembro) e daí não parei mais. Montei as primeiras bandas, fui aprendendo a gravar e a testar arranjos… Peguei gosto.
Mudei-me para São Paulo em 2012 e comecei a trabalhar na Casa do Mancha, onde formei a banda Vitreaux e onde conheci também a Maglore, banda em que hoje faço parte como baixista.
06) RM: Quantos álbuns lançados?
Lucas Gonçalves: Com a Vitreaux lancei o EP – “2×2” [MonoTune Records] em 2014, o álbum “Pra Gente Poder Passear” [Deck Disc] em 2016 e o álbum “Na Espera da Fila” [Baticum] em 2020.
Com a Maglore lancei o “Todas as Bandeiras” [Deck Disc] em 2017, o “Ao Vivo” [Deck Disc] em 2019, o “V” [Difusa Fronteira] em 2022 e o “Maglore Acústico” [Difusa Fronteira] em 2024.
Como Lucas Gonçalves, lancei o “Se Chover” [Pequeno Imprevisto] em 2020, o “Verona” [Pequeno Imprevisto] em 2021 e o “Câmara Escura” [independente] em 2023.
07) RM: Como você define seu estilo musical?
Lucas Gonçalves: Transitando entre o folk, o rock e a música brasileira, com um pé na música de Minas Gerais e outro solto, procurando chão.
08) RM: Você estudou técnica vocal?
Lucas Gonçalves: Não. Se sei alguma técnica é “falsete”. É que melhor aprendi me gravando.
09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?
Lucas Gonçalves: Acho muito importante, adoraria ter disciplina para estudar porque acabo descobrindo algumas coisas novas ao experimentar mesmo, e muitas vezes desgastando as cordas vocais.
10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?
Lucas Gonçalves: Vários, infinitos, mas pra falar uma, eu amo a voz e o jeito como canta a Luísa Maita.
11) RM: Como é seu processo de compor?
Lucas Gonçalves: Muitas vezes é com o violão. Aí vou costurando letra e melodia ao mesmo tempo. As músicas demoram mais a sair. Exige paciência. É sofrido, mas depois de feita, dá uma sensação tão surreal. É muito bom mesmo.
12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?
Lucas Gonçalves: Fiz muitas músicas com Gabriel Guedez (Duo Aduar). Começamos juntos. Tivemos uma banda em Passa Quatro e fizemos algumas músicas, mas que nunca foram lançadas. Tenho parcerias mais recentes com Carime Elmor, que é minha parceira na vida também.
13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?
Lucas Gonçalves: A liberdade é um ponto! A falta de capital financeiro para difundir os lançamentos é um baita contra.
14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?
Lucas Gonçalves: A Maglore tem uma estrutura mais desenhada, a banda tem 16 anos já. As coisas funcionam. Agora estou falando do trabalho solo. Eu gosto muito de produzir e de lançar discos.
Lancei os meus primeiros álbuns no auge da pandemia e não pude fazer shows. Logo esses discos nunca ganharam um show de lançamento. Me apresento pouco, aliás. Gostaria de mudar isso um dia.
15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?
Lucas Gonçalves: Acho que fazer uma música com verdade é uma grande ação empreendedora porque traz o ouvinte para perto, pra intimidade. Mas comercialmente falando, nos shows tem sempre um merch para vender, tem sempre um ingresso pra dividir com a casa e isso é reinvestido para se fazer mais merch, mais shows e mais músicas. Uma coisa vai alimentando a outra, né.
16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?
Lucas Gonçalves: Hoje, as redes sociais apreenderam o espaço para se divulgar os lançamentos e os shows. É o lugar onde você se conecta com o seu público e pode alcançar mais pessoas.
A parte ruim é que distrai também, com tanto conteúdo, vindo de infindos lugares, você acaba perdendo o foco nas coisas que realmente importam, que estão na sua frente e, principalmente, fora da telinha de rolar para baixo.
17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?
Lucas Gonçalves: A vantagem do home estúdio é que se pode gravar e editar com mais facilidade. A tecnologia de emulação avança muito rápido. E, com pouco recurso, você consegue fazer o som soar melhor.
A desvantagem é que muitas vezes prefiro consertar as coisas virtualmente ao invés de buscar uma boa performance na hora da interpretação. A gente vai se adaptando à velocidade das coisas.
18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?
Lucas Gonçalves: Sim. Concordo. Eu faço o meu conteúdo com leveza e humor, meio que despretensiosamente. Acho que o mundo anda sério e pretensiosamente perigoso demais.
Tenho um projeto no Instagram, que é a “Rádio Monovapor”, em que gravo uma música em um dia, às vezes em poucas horas mesmo, e vou postando nos stories todo o processo. No fim, a música fica disponível por 24h.
A “Rádio Monovapor” não tem constância, às vezes faço mais, às vezes menos, depende da disponibilidade e da vontade. Em 2025 acho que lancei umas 3 ou 4 nesse formato.
19) RM: Como você analisa o cenário do Rock no Brasil? Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas e quais permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?
Lucas Gonçalves: Do cenário independente, conheci algumas bandas legais que ainda estão por aí, Pata de Elefante, Boogarins, Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Hurtmold, Metá Metá. Uma banda que eu adorava é a Rinoceronte, de Santa Maria. Não sei se eles seguem em atividade.
20) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?
Lucas Gonçalves: Tocar e não receber é um clássico, né? Já aconteceu mais de uma vez. Falta de condição técnica já também. Uma vez tocando em uma casa de shows em Itamonte – MG, em 2010, eu acho, um cara subiu no palco e pisou nos pedais da guitarra. O guitarrista simplesmente chutou o cara do palco. Isso foi meio assustador. Nunca saiu da minha cabeça.
21) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?
Lucas Gonçalves: O que me deixa mais feliz é poder fazer o que amo e persigo a vida toda, apesar de toda insegurança financeira e artística que invade o meio de campo às vezes. Sendo esta última a que faz o feito às vezes “arTRÌSTico”.
22) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?
Lucas Gonçalves: Não acredito em Dom. Ninguém nasce sabendo fazer as coisas. Acho que é amor mesmo, vício e prazer, algo que pode desenvolver na primeira infância ou mais tarde também. O pulo é ter paixão e disposição. Tudo é trabalhado.
23) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?
Lucas Gonçalves: É fluir, experimentar, sem medo de errar, saindo dos vícios mecânicos, dos caminhos já percorridos…
24) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?
Lucas Gonçalves: Existe improvisação sim. Acho que é uma mistura de coisas que você ouviu ou viu. Coisa que se aprende por osmose também. Você viu alguém fazendo, e apesar de nunca ter estudado aquilo, no momento do improviso a coisa acontece, entende?! Improvisar na música, como é na vida, é enjoar do conforto. Buscar outras experiências.
25) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?
Lucas Gonçalves: Eu não sei por que eu não tive esse conhecimento, mas vou dizer, saber de harmonia ajuda na velocidade de criação de música, de arranjos… Eu apoio quem estuda.
26) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?
Lucas Gonçalves: Acredito sim, porque já me aconteceu comigo. Sei que muitas vezes o programador da rádio não tem o poder de tocar o que ele gostaria. A ordem pode vir lá de cima, dos patrocinadores, das grandes gravadoras, etc… Aí a rádio fica naquele eterno “repeat”. Mas tem rádios por aí que apoiam a música que é feita fora das grandes gravadoras, fora dos acordos comerciais com alto investimento.
27) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?
Lucas Gonçalves: O principal é cuidar da saúde mental, viu.
28) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?
Lucas Gonçalves: Em um cenário tão conturbado, “geo-politicamente” falando, a cultura muitas vezes fica em segundo plano. Os programas de auditório, excluindo os fenômenos das grandes gravadoras, vez ou outra pinta alguém interessante. A TV Cultura ainda apresenta muitos artistas interessantes. É admirável o que a Roberta Martinelli faz, por exemplo.
29) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?
Lucas Gonçalves: SESC e SESI: Mãe, pai e espírito santo. Salvam vidas mesmo. Botam arte para rodar legal. Itaú Cultural também me modificou bastante. Vi muita coisa lá, mas confesso que não ando sabendo muito do que se passa, pelo menos em relação às apresentações ao vivo.
30) RM: Quais seus projetos futuros?
Lucas Gonçalves: Viver o ofício da música, produzir e lançar discos, e depois produzir e lançar outros discos e, cavar apresentações em bons palcos. No fim é sempre buscar estar com gente interessada em música, longe de toda a pretensão comercial que enfraquece a fonte.
31) RM: Quais seus contatos?
Lucas Gonçalves: [email protected]
Ouça o álbum Se Chover (2020) – https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_nsXxXYbFh7cQhTmGHyoEHuirvzgyC_AuA
Ouça o álbum Verona (2021) – https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_leh5fbLFFxb_clGc2nC2TrTCCYHeQ1me0
Ouça o álbum Câmara Escura (2023) – https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_ld0Vq46apX7Wr-8mkTFutiEsVqRpxL_50
Canções-Relâmpago no Bandcamp (2012-2025) – https://lucasgoncalves.bandcamp.com/


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