Rodrigo Zanc é cantador, violeiro e compositor, com trajetória marcada pela valorização da canção brasileira e da linguagem da viola.
Autodidata na música e Bacharel em Linguística, construiu carreira independente, unindo tradição e autoria. Em sua discografia, destacam-se Pendenga (2006), Fruto da Lida (2013), Alento (2021) e o LP Entre o Piche e a Piçarra (2025), com o LP Sorte e Fé (2026) em produção.
Dedicado à preservação da cultura brasileira como valor maior. Através de sua obra, revela que no país há muitos outros ritmos e sonoridades nos quais a viola brasileira
pode pontear para além dos gêneros caipira e regional.
Em 2025 está produzindo dois álbuns simultaneamente: “Sorte e Fé” e “Entre o Piche e
a Piçarra – Rodrigo Zanc e Quinteto Tertú. Esse último com patrocínio do Governo do
Estado de São Paulo.
Segue abaixo entrevista exclusive com Rodrigo Zanc para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 23/01/2026:
01) RM: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?
Rodrigo Zanc: Nasci no dia 25 de março de 1973, em Araraquara (SP). Registrado como Rodrigo Zanin.
Eu me reconheço muito nesse lugar de origem: não só como ponto no mapa, mas como uma forma de perceber o mundo. Crescer no interior marca a gente no ouvido, na conversa, no tempo das coisas. E, de algum jeito, isso aparece na minha relação com a palavra, com a música e com a viola.
02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.
Rodrigo Zanc: Meu primeiro contato com a música foi muito natural, porque eu cresci rodeado de som. Minha lembrança mais forte remete a encontros e festas em que a música era a “cola”, o amálgama que unia todo mundo — e isso é bonito demais de lembrar.
Os gêneros que predominavam eram a música caipira (raiz/sertaneja) e o samba. E eu entendi cedo que música não é só entretenimento: é pertencimento, é afeto, é memória.
03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?
Rodrigo Zanc: Na música eu sou meio autodidata. Sempre estudei sob demanda: na medida em que eu precisava avançar, eu ia buscando conhecimento em conversas com músicos mais experientes e em materiais didáticos que estivessem ao meu alcance.
Esse aprendizado foi se acumulando, me trouxe até aqui e segue me empurrando pra frente. Eu acho muito importante estar sempre aberto e com sede de aprender — eu sigo aprendendo.
Fora da música, minha formação acadêmica é em Linguística (Bacharelado). E, de certa forma, essa formação conversa com a canção, porque a palavra tem música dentro dela: ritmo, sentido, intenção, pausa.
04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?
Rodrigo Zanc: A canção caipira e o samba na infância, o rock na adolescência, a MPB numa fase mais madura… Todos esses sons foram fundamentais e continuam presentes na minha produção autoral.
Eu não diria que alguma influência deixou de ter importância. O que acontece é que, em fases distintas — e em álbuns distintos — umas influências sobressaem mais que outras. Mas todas estão ali, convivendo.
Eu gosto dessa ideia de que a gente não abandona as camadas que formaram a gente. A gente vai somando. E a canção vai mostrando qual camada precisa falar mais em cada momento.
05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?
Rodrigo Zanc: Eu gosto de pensar em dois momentos que representam esse começo.
O primeiro é quando, pelas mãos do meu saudoso avô materno (José Teixeira, carinhosamente chamado por vô Juca), eu tive a oportunidade de segurar, euforicamente, um violão pela primeira vez, aos 8 anos de idade. Eu acredito que muita coisa começa nesse deslumbramento: o instante em que você percebe que existe um mundo ali.
A partir daí, comecei a prestar atenção em programas musicais de rádio e, principalmente, de televisão. Sonhava em estar “dentro da TV”, cantando pra todo mundo ouvir. Tocava em rodas de amigos e me apresentava em encontros de violeiros.
Já a carreira artística começa em 1997, com o convite de um artista de Araraquara – SP (Leonardo Maurício) para compor uma dupla sertaneja. Estar no palco nessa nova circunstância turbinou aquele sentimento de que o caminho para realizar o sonho de viver da cantoria estava sendo pavimentado.
Em 2000, começo a carreira como Rodrigo Zanc e o sonho de compor e lançar minhas canções se torna tangível. Desde então foram festivais, rádio, TV regional, estrada… até que, em 2007, eu consigo viver da música e cuidar da minha família com a minha arte.
06) RM: Quantos álbuns lançados?
Rodrigo Zanc: Eu tenho uma discografia que reflete etapas diferentes da caminhada:
CD – Pendenga (2006); CD – Fruto da Lida (2013); EP – Alento (2021); LP – Entre o Piche e a Piçarra (2025); LP – Sorte e Fé (2026 — em produção).
E tenho trabalhos com outros artistas, que também dizem muito sobre troca e parceria:
EP – Projeto 4 Cantos (2021) — com Cláudio Lacerda, Luiz Salgado e Wilson Teixeira. EP – Tributo à Pena Branca e Xavantinho (2025) — com Cláudio Lacerda.
07) RM: Como você se define como violeiro?
Rodrigo Zanc: Tenho uma relação muito íntima com a viola brasileira. Foi o instrumento que eu escolhi pra expressar meus sentimentos e anseios — e não só pra tocar: pra dizer o que eu preciso dizer.
Ao mesmo tempo, eu não me considero exatamente um “instrumentista”, daquele lugar de virtuosismo ou de foco na técnica pela técnica. Eu gosto de pensar que sou um cantador que usa a viola para se acompanhar. E, nesse sentido, a viola vira extensão do corpo: ela respira junto com a canção.
08) RM: Quais afinações você usa na viola?
Rodrigo Zanc: No meu primeiro álbum (Pendenga, 2006), gravei com três afinações: Cebolão (Ré e Mi), Rio Abaixo (Sol) e Rio Acima (Dó). Eu gosto demais dessa diferença de sonoridade, porque cada afinação muda o mundo da canção: muda o timbre, muda o jeito de frasear, muda o caminho do arranjo.
Mas quando chegou o momento de botar o show na estrada, eu percebi o quanto era trabalhoso carregar quatro instrumentos para o palco. Isso me fez repensar o que viria depois, e eu optei por usar apenas o Cebolão (Ré e Mi), levando duas violas nos shows.
Recentemente, com o lançamento do LP – Entre o Piche e a Piçarra — releitura de canções do primeiro e do segundo álbuns, com arranjos escritos para quinteto de cordas pelo gigante Neymar Dias — eu botei as quatro violas na estrada novamente. Em certos projetos, a estética pede esse retorno.
09) RM: Quais as principais técnicas o violeiro tem que conhecer?
Rodrigo Zanc: Sendo econômico (porque isso rende muita conversa boa), eu penso que a viola caipira, por ser instrumento ancestral e popular — com conhecimento passado por imitação — não tinha técnicas bem “formalizadas” até a década de 1950. Cada lugar tinha um jeito de tocar, e cada qual com sua beleza.
Com a criação e popularização do Pagode de Viola, creditada ao grande Tião Carreiro, dominar ponteio e ritmo do pagode virou quase uma obsessão e essa forma de tocar se tornou uma referência do instrumento.
De uns tempos pra cá, a viola vem permeando e até protagonizando outros gêneros. Isso é incrível e amplia o horizonte. Nesse cenário, a técnica passa a ser relativa ao caminho que o violeiro escolhe seguir.
Dito isso, eu considero fundamental conhecer a linguagem inerente ao instrumento (ponteios e ritmos), que nos faz mergulhar na ancestralidade. E acredito também que o conhecimento teórico é desejável e imprescindível pra que o instrumentista execute cada vez melhor. Eu costumo dizer que prática aliada à teoria bota asas nas costas do violeiro.
10) RM: Quais os violeiros que você admira?
Rodrigo Zanc: Difícil elencar todos. São muitos e por razões diferentes. Alguns:
Música caipira: Tião Carreiro, Bambico, Goiano. Música regional: Adauto Santos, Almir Sater, Luiz Salgado, Jackson Ricarte, Levi Ramiro. Instrumentistas: Neymar Dias, Ivan Vilela, Valdir Verona.
Eu admiro não só a técnica, mas a assinatura de cada um: a maneira como cada violeiro carrega o instrumento com identidade, com verdade.
11) RM: Como é seu processo de compor?
Rodrigo Zanc: Eu considero meu processo bem aleatório. Já escrevi em momentos inusitados — como, por exemplo, a partir da escuta de uma notícia no rádio: parei o carro, escrevi a poesia inteira e depois fiz a música. Em outros momentos, é madrugada, reflexão, música e letra juntas, nascendo no mesmo sopro.
A partir de 2004, eu conheci o poeta genial Isaias Andrade, e desenvolvemos uma parceria produtiva. Moramos em cidades distantes, mas nos encontramos pra atualizar o papo e falar da vida sob pontos de vista prático e filosófico. Desses encontros brotam textos riquíssimos do Isaias, e muitas vezes esse é meu ponto de partida.
A música, pra mim, precisa contar a história como se a poesia não estivesse lá. Ou seja: ela precisa sustentar a narrativa por si. Isso faz muito sentido pra mim. Em outros momentos, eu cantarolo e gravo melodias, envio pro Isaias com sugestão de tema, e ela volta lindamente vestida de poesia.
12) RM: Quais as principais diferenças técnicas entre a viola e o violão?
Rodrigo Zanc: Além das diferenças de construção (quantidade de cordas, ordenamento, tamanho), eu diria que o que mais difere um instrumento do outro é a linguagem.
A forma de executar ritmos, dedilhados e ponteios tem origens e formações culturais distintas.
A viola, no universo em que foi consolidada no Brasil, tem demandas diferentes do violão e exige estudo dedicado. E isso não é só “dificuldade”: é identidade. A linguagem carrega história.
13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical independente?
Rodrigo Zanc: Essa resposta é relativa e não é simples. Mas, no meu modo de pensar e viver a música, os prós pesam mais. Ter uma carreira independente significa ter liberdade pra escolher o que vai produzir, cantar e tocar. Isso é muito valioso pro artista e se desdobra em coisas imateriais importantes: satisfação, leveza, reconhecimento genuíno.
É claro que só isso não enche a barriga. Mas eu acredito que quando se exerce uma vocação de forma transparente, o universo provê o necessário pra viver com dignidade. E, claro: existem variáveis como esforço, dedicação, estudo e capacidade de interagir com oportunidades.
Os “contras” sempre estiveram ligados à autogestão: reunir recursos pra produzir, divulgar, organizar carreira. Antes das redes sociais isso era ainda mais cruel. Hoje, o artista independente consegue, com investimento relativamente baixo, impulsionar a carreira e ir formando um nicho fiel.
14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?
Rodrigo Zanc: Antes de viver exclusivamente da música, trabalhei por anos como representante comercial. Isso me deu consciência de que, se eu quisesse fazer da arte minha principal fonte de renda, eu teria que encarar minha vocação artística também como um produto a ser apresentado ao mercado. Eu sei que pra muita gente isso é duro de pensar, mas a não ser que alguém faça isso por você, é preciso encarar o desafio e cair no mundo.
Fora do palco, eu sou esse artista/vendedor que entendeu que precisava ser produtor de si mesmo. No palco, eu tiro esse uniforme: fecho os olhos e deixo a sensibilidade — o ser humano que se emociona, chora, erra e acerta — aflorar.
15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?
Rodrigo Zanc: Por ter escolhido ser produtor de mim mesmo, eu passo a maior parte do tempo nessa função. Organizar agenda, alinhar show, divulgar, cuidar de material, fazer contato: isso tudo também faz parte da vida do artista independente.
Sou da geração X e confesso que não me acostumei com a interação totalmente à distância. Eu me criei em reuniões presenciais, lendo olhares, posturas, detalhes. Tentei me acostumar com negociações por e-mail, mas, felizmente, não consegui. Então eu tento juntar as duas coisas: marcar por e-mail e, quando dá, levar pra um café presencial.
Eu gosto de vender. Mas eu sempre digo: pra vender, é fundamental ter um produto apresentável. Ter objetivo definido, material organizado e bonito é imprescindível hoje. Com as ferramentas disponíveis, dá pra fazer bem feito sem precisar de estruturas gigantes — mas precisa de cuidado.
16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?
Rodrigo Zanc: Eu penso que a internet ajuda muito, principalmente em divulgação e em autonomia. Ela permite manter vínculo direto com o público, anunciar agenda, lançar música, mostrar processo, fortalecer identidade — sem depender necessariamente de grandes estruturas.
E ela permite algo essencial para o independente: investir em escala controlada. Dá pra começar orgânico, testar, ajustar, encontrar nichos afins e ir aumentando investimento com cuidado. Em vez de apostar tudo de uma vez, você vai construindo degrau por degrau.
Por outro lado, a internet pode prejudicar quando empurra o artista para a lógica da urgência e da quantidade. Parece que, se você não posta o tempo todo, você some. E isso é complicado pra quem precisa de silêncio, estrada e maturação pra criar.
Também tem a armadilha das métricas: curtida, alcance, número. Isso mede atenção, não mede arte. Se o artista não toma cuidado, começa a trabalhar pro algoritmo e não pra canção. Então eu vejo como ferramenta poderosa — mas que exige disciplina, estratégia e limite, pra não engolir a essência.
17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?
Rodrigo Zanc: No meu entendimento, o acesso a softwares e equipamentos de gravação mudou o mercado e ajudou muitos artistas criativos que tinham dificuldade em produzir seus trabalhos.
Muita gente começou com estúdio caseiro só pra dar vazão à produção e, com o tempo, descobriu uma forma nova de viver da arte. Evoluiu e hoje existem empresas e estúdios pequenos e médios atendendo o mercado de diversas formas. Isso é um movimento bonito.
A oportunidade está à disposição. O que vai fazer diferença é quanto cada um investe de dinheiro e tempo e o compromisso real com o aperfeiçoamento. Ferramenta, por si só, não resolve: ela abre porta, mas quem atravessa é o artista.
18) RM: O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?
Rodrigo Zanc: Nessa caminhada de viver da arte, a gente se depara com encruzilhadas. Uma delas é escolher entre o caminho do mainstream (com vislumbre de sucesso financeiro e celebridade) e o que eu chamo de caminho do coração.
Esse último foi o que eu escolhi: ser fiel aos meus sentimentos e ser plenamente feliz com o resultado da minha arte, porque ela é genuína, sem filtro. Isso faz muito bem pro artista, inclusive como ser humano.
Eu penso que a pessoa que encontra sua forma de fazer arte e acredita nela precisa sair “gritando” pra encontrar eco. Existe público pra essa arte. O que muda é o tamanho e a velocidade.
É raro (não impossível) que um artista que escolhe autenticidade, sem se vender pro centro do mercado, tenha abrangência nacional. Muitas vezes, escolher o caminho do coração é ser feliz com um público menor, porém fiel.
19) RM: Como você analisa o cenário da música sertaneja?
Rodrigo Zanc: O cenário das últimas décadas é marcado por mudança contínua e grande popularização, muito em função de investimentos volumosos, resultando no subgênero “sertanejo universitário”, que incorporou elementos do pop e da música eletrônica e se tornou um eco distante do que foi a música sertaneja de raiz.
Eu confesso que não acompanho de perto o que acontece no grande mercado. Vendo de longe, tenho a impressão de que surgem e desaparecem nomes todos os dias. É um cenário muito dinâmico e rápido.
20) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?
Rodrigo Zanc: O que me deixa mais feliz é cantar para as pessoas e ouvir relatos de como a canção tocou seus corações. Isso dá sensação de dever cumprido e de sentido. Estar no palco é muito prazeroso pra mim.
O que me entristece é ver tantos artistas incríveis produzindo obras-primas e tendo muita dificuldade pra mostrar seus feitos, enquanto outros — produzindo praticamente nada — alcançam posições que lhes permitem atingir e influenciar milhões de pessoas.
É um contraste que dói, porque nem sempre visibilidade conversa com profundidade. Mas eu sigo acreditando no valor da canção bem feita e no público que se constrói com verdade.
21) RM: Quais os outros instrumentos musicais que você toca?
Rodrigo Zanc: Eu toco viola e “arranho” no violão. Sempre com respeito: cada instrumento tem seu mundo, e eu não forço um lugar que não é o meu.
22) RM: Quais as semelhanças e diferenças entre a música sertaneja atual e a sertaneja caipira do passado?
Rodrigo Zanc: Como eu já disse, é um mercado dinâmico e vem sofrendo muitas mudanças. A semelhança mais visível, na minha opinião, é o formato de dupla, embora hoje haja muitos artistas solo.
Já as diferenças são mais numerosas. Mudaram os temas das letras, a instrumentação, o figurino/estilo, o público e até o jeito de produzir e consumir.
A música sertaneja de raiz fazia registro autêntico do cotidiano e dos valores do homem do campo, com tradição caipira e religiosa, e letras ricas em conteúdo artístico. Já o sertanejo moderno tende a tratar de outros temas — relacionamentos, vida noturna, superação de desamores — com foco maior no público jovem.
23) RM: Quais os vícios técnicos o violeiro deve evitar?
Rodrigo Zanc: Eu penso que o maior vício é tocar “no automático”, repetindo fórmula sem escutar o que está acontecendo. A viola perde poesia quando vira repetição sem intenção.
Outro vício é confundir força com presença: tocar pesado demais, endurecer a mão, e isso compromete timbre, dinâmica e até afinação. E tem o básico que nunca pode ser desprezado: afinação bem feita, tempo firme e limpeza de execução. A técnica, pra mim, precisa servir à música. Quando ela vira vitrine, ela se distancia da canção.
24) RM: Quais os erros no ensino da viola?
Rodrigo Zanc: Um erro comum é ensinar viola como coleção de “pegadas” e licks, sem organizar o aprendizado em torno da linguagem do instrumento: ritmo, ponteio, variação, dinâmica, intenção.
Outro erro é separar prática e teoria como se fossem inimigas. Eu penso o contrário: teoria bem aplicada não tira alma; ela dá ferramenta pra alma se expressar melhor.
E há também o erro de ignorar o contexto cultural. A viola é ancestral. Entender de onde vem aquela forma de tocar dá identidade e dá chão pro estudante.
25) RM: Tocar muitas notas por compasso ajuda ou prejudica a musicalidade?
Rodrigo Zanc: Depende do propósito. Tem situações em que densidade faz sentido e “muitas notas” constroem textura e energia.
Mas, na maioria das vezes, excesso de nota encobre a canção. A música precisa de espaço, de respiro, e silêncio também é fraseado. Eu vejo musicalidade muito mais como intenção, narrativa e dinâmica do que como quantidade de nota.
26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?
Rodrigo Zanc: Eu diria: escolha um caminho que faça sentido no coração, porque é isso que sustenta quando a estrada aperta. E entenda que existem duas figuras: o artista e o produtor de si mesmo.
Se você não tiver alguém pra pensar a parte de fora do palco, você vai precisar aprender. E não é desmerecer a arte: é cuidar dela. Constância, estudo e paciência constroem público de verdade. E público fiel vale muito.
27) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?
Rodrigo Zanc: A meu ver, um erro grande é ensinar conteúdo e esquecer de ensinar escuta. O ouvido é centro de tudo: tempo, afinação, timbre, interpretação.
Outro erro é pular etapas: aprender coisa avançada sem consolidar pulsação, coordenação e base rítmica. E tem o erro de querer um método único pra todo mundo.
Método bom organiza, mas também adapta. Cada aluno tem um tempo e uma mão.
28) RM: Existe o dom musical? Qual a sua definição?
Rodrigo Zanc: Eu acredito que existe uma predisposição, um jeito natural de algumas pessoas se conectarem com som e ritmo. Isso pode ser chamado de dom. Mas, pra mim, dom é semente. O que vira árvore é trabalho: escuta, disciplina, repetição, repertório, convivência. Então dom existe, mas não substitui estudo. E disciplina, muitas vezes, supera dom.
29) RM: Qual a sua definição de improvisação?
Rodrigo Zanc: Improvisação é compor em tempo real com os recursos que você tem no corpo e no ouvido. Não é “tocar qualquer coisa”. É conversa musical: você diz algo, responde, varia, respeita o espaço da música e do outro. Improviso bom tem intenção e narrativa.
30) RM: Existe improvisação de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?
Rodrigo Zanc: Existe improvisação de fato, porque decisões acontecem na hora e isso é vivo. Mas ela quase sempre nasce de um estoque anterior: vocabulário, harmonia, ritmo, repertório, vivência. O que você estudou e viveu reorganiza tudo no momento.
Improvisar é espontâneo, mas não é do nada.
31) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre improvisação musical?
Rodrigo Zanc: Prós: método organiza pensamento, dá caminho, economiza tempo e mostra conceitos que sozinho a pessoa levaria anos pra descobrir.
Contras: quando o método vira prisão e a pessoa só improvisa dentro do exercício. Aí fica correta, mas não fica livre. Eu gosto de método como mapa. Só que mapa não é caminhada. Caminhada é tocar com gente, errar, ouvir, ajustar.
32) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o estudo de harmonia musical?
Rodrigo Zanc: O pró principal é dar compreensão do terreno: função, cadência, tensão e repouso. Isso abre escolhas e melhora arranjo, interpretação e composição.
O contra é quando vira vaidade intelectual, como se harmonia fosse fim em si. Harmonia é ferramenta. Quando ela afasta o humano, ela atrapalha. Harmonia boa é a que serve a canção.
33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro?
Rodrigo Zanc: Eu vejo a grande mídia como um espaço que, na maior parte do tempo, funciona dentro de uma lógica de escala, investimento e retorno. Ela tende a dar visibilidade ao que já vem com motor forte por trás — equipe, verba, estratégia, distribuição — e isso faz com que muita coisa chegue ao público como se fosse “o melhor” ou “o que está acontecendo”, quando na verdade, muitas vezes, é o que está sendo empurrado com mais força.
O ponto é que a música brasileira é grande demais e diversa demais pra caber nesse recorte. Existe uma produção autoral, regional e independente riquíssima, acontecendo fora do centro, com pesquisa, identidade e profundidade, que raramente entra na pauta porque não entrega a mesma velocidade de resultado que o mercado costuma pedir. E aí se cria uma sensação de que a música brasileira se resume ao que está no topo — e não se resume.
Também me chama atenção como, em alguns momentos, a cobertura confunde número com relevância. Métrica de audiência, de clique, de tendência, pode ser útil como termômetro, mas não é régua de qualidade artística. Arte tem tempo de maturação, tem contexto, tem história, e isso nem sempre cabe no formato rápido de notícia e entretenimento.
Por isso eu acredito que, hoje, o caminho pra quem busca música com mais verdade passa por circuitos culturais, curadorias sérias, programas e rádios que ainda têm ouvido, e também pela internet bem usada — não só como vitrine, mas como ponte. No fim, o papel da grande mídia é importante, mas ela não dá conta do todo. E o “todo” da música brasileira é justamente onde mora grande parte da beleza.
34) RM: Qual a importância de espaços como SESC, Itaú Cultural, Caixa Cultural, Banco do Brasil Cultural para a música brasileira?
Rodrigo Zanc: Eu considero esses espaços fundamentais porque eles funcionam como uma espécie de infraestrutura cultural do país. Não é só um palco: é um ambiente que cria condições para a música existir com dignidade — com som bom, curadoria, comunicação, formação de público e, muitas vezes, com acesso mais democrático.
Eles também cumprem um papel que o mercado, sozinho, raramente sustenta: dar espaço para a música que não está no centro do mainstream. É ali que muita produção autoral, regional e de pesquisa encontra terreno para circular, amadurecer e ser ouvida. E isso preserva algo precioso: a diversidade. A música brasileira não é uma linha reta; ela é um mapa inteiro.
Outro ponto importante é a formação. Esses lugares não são só “show”: eles geram encontro, conversa, oficina, projeto educativo, circulação. Isso amplia a escuta do público e fortalece o ecossistema — artista, técnico, produtor, pesquisador, plateia. Sem essa base, a cultura vira só produto rápido; com essa base, ela vira patrimônio vivo.
Então eu diria que a importância desses espaços é dupla: eles ajudam a manter a música brasileira circulando no presentee, ao mesmo tempo, ajudam a garantir que ela continue tendo futuro, sem perder identidade e profundidade.
35) RM: Quais os seus projetos futuros?
Rodrigo Zanc: No curto prazo, seguir com a estrada e fortalecer o trabalho autoral, com cuidado no repertório e no jeito de apresentar as canções.
Tenho um olhar carinhoso pro que está por vir, como o LP Sorte e Fé (2026 — em produção), e vontade de seguir aprofundando parcerias, arranjos e formatos de show que respeitem a canção e a viola. E eu também gosto da ideia de troca: oficina, conversa, encontro, roda. A cultura se mantém de pé assim.
36) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?
Rodrigo Zanc: www.rodrigozanc.com.br | (16) 99126 – 8283 |
[email protected] | https://www.instagram.com/rodrigozanc
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Canal: https://www.youtube.com/channel/UCpqlbu3u-BaTk3NKUTf0r-Q
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