Fernando Deghi

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O Músico, compositor, violeiro, maestro, luthier e pedagogo brasileiro Fernando Deghi, radicado em Portugal, com atuação integrada entre criação musical, construção de instrumentos, ensino e investigação sonora.

Desenvolve trabalho artístico, pedagógico e técnico entre o Brasil e a Europa, com especial interesse pelas afinações tradicionais da viola, pela música de raiz luso-brasileira, pelo repertório histórico e pela criação contemporânea. A sua prática articula música, pedagogia, construção instrumental e reflexão crítica sobre tradição, escuta e transmissão do conhecimento.

Atuação como solista em concertos de música instrumental no Brasil e em Portugal, com repertório autoral e tradicional para viola brasileira e guitarra clássica, apresentados em teatros, auditórios, centros culturais e instituições educativas.

No universo da viola caipira, um marco importante da sua trajetória foi a participação na Missa Caiçara, obra da compositora Kilza Setti, aluna do maestro Camargo Guarnieri, que integrou a viola caipira ao contexto litúrgico e coral.

A obra foi ensaiada no Teatro Municipal de São Paulo, em colaboração com o Coral Paulistano, com participação da organista Dorotéia Kerr e sob a direção do maestro Samuel Kerr. As apresentações realizaram-se em diversas catedrais e igrejas da cidade de São Paulo, levando a viola caipira a espaços historicamente associados à música coral e sacra.

Selecionado entre inúmeros violeiros de todo o Brasil para integrar o Projeto Sonora Brasil (SESC), na edição temática dedicada às violas brasileiras. No âmbito deste projeto, realizou aproximadamente 130 concertos em diversas regiões do país, percorrendo um amplo circuito nacional de unidades do SESC, consolidando uma experiência artística de grande escala, circulação contínua e contacto direto com públicos diversos.

Em 2005, no âmbito do Ano do Brasil na França, foi selecionado como único violeiro a integrar o projeto “Outro Brasil”, por curadoria da produção francesa. A escolha deu-se a partir do seu trabalho artístico, num contexto de forte concorrência, representando a viola brasileira em apresentações e ações culturais realizadas em território francês.

Fundador, juntamente com o músico e artista José Barros, no Trio Violas Encantadas, projeto dedicado à criação e interpretação de música instrumental para violas, contando também com a participação de Ricardo Fonseca, especialista em violas tradicionais portuguesas.

Fundador, maestro e diretor artístico da Camerata Sénior de Guitarra Clássica, projeto desenvolvido no âmbito da USALBI – Universidade Sénior Albicastrense (Castelo Branco, Portugal). A Camerata constitui um marco institucional, ao estruturar um ensemble estável com repertório próprio, concertos públicos regulares, produção discográfica e publicações editoriais, afirmando a prática da música instrumental como eixo artístico no contexto sénior. Participação em projetos camerísticos, ensembles e colaborações artísticas ligados à música de cordas, tanto no Brasil quanto na Europa.

Atuação no ensino musical desde 1979, em contextos formais e informais. Idealizador e coordenador do projeto Instrumenta Viola, desenvolvido em Curitiba (Paraná, Brasil), em parceria com Adriana Melges, responsável pela filmagem e produção logística. O projeto teve caráter inovador ao propor uma formação ampliada do músico violeiro, integrando, além do ensino musical da viola, conteúdos ligados à produção de CD, criação de site, filmagem, valorização da imagem artística e estratégias de atuação no cenário musical independente.

Realizado em duas edições, o Instrumenta Viola reuniu inúmeros violeiros como alunos e contou com a participação de diversos violeiros consagrados, que partilharam suas experiências artísticas e profissionais. A abordagem proposta pelo projeto contribuiu para o surgimento, nos anos seguintes, de outras iniciativas formativas com estrutura semelhante, voltadas à autonomia e profissionalização do músico violeiro.

No âmbito da USALBI, desenvolve metodologia específica para o ensino coletivo de guitarra clássica na terceira idade, aplicada na Camerata Sénior, articulando prática musical, escuta, memória, coordenação motora e envelhecimento ativo. O projeto tornou-se referência institucional, integrando formação, produção artística e difusão cultural. Atuação em projetos educativos, workshops, cursos e formações no Brasil e em Portugal.

Luthier independente, com atuação na construção, manutenção e investigação de instrumentos de cordas. Construtor de viola beiroa, com pesquisa aplicada às afinações, materiais e características acústicas do instrumento.

Atuou durante 5 anos na Associação da Viola Beiroa como músico e construtor, contribuindo para a valorização, preservação e difusão do instrumento. Participação em feiras e encontros internacionais de lutheria na Europa, com apresentação de instrumentos e intercâmbio técnico com outros construtores.

No Brasil, foi responsável pela criação e desenvolvimento das Cordas Cobra para viola, atuando como idealizador e artista endorser do projeto. O trabalho surgiu da necessidade de responder a questões específicas de sonoridade e de tensão, especialmente em função da diversidade de afinações utilizadas na viola, contribuindo para um melhor equilíbrio acústico, resposta dinâmica e estabilidade do instrumento.

A proposta ampliou as possibilidades expressivas da viola e dialogou com um movimento mais amplo de investigação sobre encordoamentos para instrumentos de cordas dedilhadas, antecipando e influenciando discussões técnicas que posteriormente passaram a integrar o desenvolvimento de produtos de outras marcas do setor, como Fenisson, D’Addario, Pyramid e outras.

Técnico e afinador de pianos, com atuação em manutenção, regulação e afinação de pianos acústicos. Realização de trabalhos técnicos para conservatórios, escolas de música e instituições culturais em Portugal, incluindo a região de Castelo Branco e Covilhã.

Formação musical construída entre estudo formal, prática artística contínua e investigação independente. Formação em cinema, com foco em documentário, área que influencia diretamente sua abordagem musical, narrativa e pedagógica, especialmente na relação entre som, tempo e escuta.

Circulação artística, pedagógica e técnica no Brasil e em diversos países da Europa. Participação em concertos, projetos culturais, encontros internacionais, feiras de lutheria e ações educativas ligadas à música, à construção de instrumentos e à pedagogia musical.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Fernando Deghi para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 19/01/2026:

01) RM: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Fernando Deghi: Nasci nasci no dia 15/05/1962, na cidade de Santo André, São Paulo, Brasil. Registrado como Benedito Fernando Deghi.

02) RM: Fale do seu primeiro contacto com a música.

Fernando Deghi: O meu primeiro contacto com a música não foi uma decisão consciente, nem um projeto. Foi uma experiência de convivência. A música surgiu antes como escuta, como presença no quotidiano, como gesto e como memória corporal. Antes de qualquer estudo formal, ela já existia como ambiente e como afeto.

Só mais tarde a música se transformou em linguagem organizada, em prática deliberada e em ofício. Esse início não estruturado marcou profundamente a forma como penso a música até hoje: não como algo separado da vida, mas como uma extensão natural da experiência humana, do tempo e da escuta. Talvez por isso nunca tenha conseguido pensar a música como algo dissociado do corpo, da memória e da relação com o outro.

03) RM: Qual a sua formação musical e/ou académica fora da área musical?

Fernando Deghi: A minha formação não cabe em um único diploma. Ela é construída entre estudo formal, prática artística intensa, investigação independente e experiência pedagógica. Ao longo do tempo, ampliei esse percurso para a pesquisa em educação musical, envelhecimento ativo e construção de metodologias adaptadas — hoje desenvolvidas sobretudo em Portugal.

Paralelamente, tenho formação em cinema, motivada por uma paixão particular pelo documentário. O cinema ensinou-me a observar com mais paciência, a compreender o tempo como matéria expressiva e a escuta como um gesto ético. Essa forma de olhar atravessa diretamente o meu trabalho musical e pedagógico, influenciando tanto a criação quanto a maneira como penso a transmissão do conhecimento.

Esse percurso levou-me a compreender que formação não se mede pela acumulação de títulos, mas pela capacidade de escuta, de síntese e de responsabilidade artística. Quando a formação se reduz ao diploma, corre-se o risco de produzir apenas aparência de saber, e não pensamento vivo.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente?

Fernando Deghi: As minhas primeiras influências vieram sobretudo da música de tradição oral brasileira, em especial do universo da viola, onde o som, o gesto e a memória caminham juntos. Esse contacto inicial ensinou-me que a música não nasce apenas da partitura, mas da escuta atenta, da repetição, da convivência e do tempo partilhado.

Paralelamente, o estudo do violão clássico teve um papel estruturante na minha formação, sobretudo através do repertório do Renascimento, do Barroco e do Classicismo. Esse contacto trouxe-me consciência de forma, contraponto, articulação e pensamento polifónico, elementos que passaram a dialogar de maneira natural com a tradição oral.

Com o tempo, algumas influências deixaram de ocupar um lugar central — não por perda de valor, mas porque cumpriram o seu papel formativo. Hoje, as minhas referências nascem menos de nomes ou estilos específicos e mais do cruzamento entre esses universos: a música de raiz, o repertório histórico europeu e a investigação sonora a partir das afinações, da escuta e do silêncio.

Esse percurso ensinou-me que grande parte do que hoje se chama tradição é, na verdade, apenas repetição sem escuta. E onde não há escuta, não há continuidade — apenas simulacro. (o que imita a aparência de uma coisa, mas já não contém a sua essência, a sua função ou o seu sentido original.)

05) RM: Quando, como e onde começou a sua carreira musical?

Fernando Deghi: A minha carreira musical começou quando percebi que a música deixava de ser apenas expressão pessoal e passava a exigir responsabilidade, continuidade e compromisso artístico. Esse processo deu-se no Brasil, de forma gradual, através de concertos, projetos culturais, gravações e trabalho pedagógico.

Mais do que um ponto de partida exato, houve um momento de tomada de consciência: a compreensão de que a música não era apenas algo que eu fazia, mas algo que estruturava a minha vida. Ao longo dos anos, essa trajetória consolidou-se em diferentes contextos e formatos, expandindo-se posteriormente para o cenário europeu, onde hoje desenvolvo o meu trabalho com base em Portugal.

06) RM: Quantos álbuns lançados?

Fernando Deghi: Lancei sete CDs: Violeiro Andante; Brasil Violado; Navegares; Ensaios; Violas Encantadas (Trio); Viola Beiroa – Tradição da Música da Beira Baixa (Trio); Camerata Sénior de Guitarra Clássica.

Participei em inúmeros trabalhos de gravação no Brasil e na Europa como músico convidado, em projetos de diferentes linguagens e contextos musicais.

Além dos discos, publiquei livros ligados à investigação, à pedagogia e ao desenvolvimento do repertório da viola e da guitarra clássica, entre eles: Viola Brasileira e Suas Possibilidades (vol. 1), Viola de um Brasileiro (desenvolvimento de repertório), Ensaios (desenvolvimento técnico e repertório), Arranjos para Viola de 10 Cordas, Álbum Navegares ( obras do cd navegares), um álbum de repertório para Camerata Sénior e uma metodologia de guitarra clássica voltada ao universo sénior, inédito na Europa.

07) RM: Como você se define como violeiro?

Fernando Deghi: Defino-me como um violeiro que investiga. Mais do que executar um repertório, interessa-me compreender a viola como linguagem, como território histórico e como campo de criação contemporânea. A tradição, para mim, não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida.

Ao longo do tempo, fui percebendo que a identidade do violeiro não se constrói apenas pela técnica ou pelo estilo, mas pela forma como escuta, escolhe e assume responsabilidade artística. Nesse sentido, o meu trabalho procura equilibrar respeito pela tradição, liberdade criativa e consciência do tempo presente.

08) RM: Quais afinações você usa na viola?

Fernando Deghi: Utilizo diversas afinações tradicionais e não convencionais, sempre em função da obra, do contexto e da intenção musical. Entre elas estão afinações consagradas da viola brasileira, como Rio Abaixo (D, B, G, D, A), Cebolão Mi (E, B, G#, Mi E, B) e Paraguaçu (D, B, G, D, A), além de afinações provenientes do universo das violas portuguesas e de criações próprias.

Para mim, a afinação não é um recurso secundário nem uma escolha meramente prática. Ela determina o campo harmónico, influencia o gesto instrumental, condiciona a forma de pensar a melodia e a textura, e define o próprio carácter da música. Muitas vezes, a composição nasce justamente da relação entre afinação, ressonância e silêncio.

09) RM: Quais as principais técnicas que o violeiro tem que conhecer?

Fernando Deghi: Mais do que um conjunto fechado de técnicas, o violeiro precisa desenvolver uma compreensão global do instrumento. Ponteios tradicionais, rasgueados, arpejos, articulação rítmica, controlo das ressonâncias e consciência das cordas soltas são fundamentais, mas só ganham verdadeiro sentido quando integrados a uma escuta atenta e a uma intenção musical clara.

A técnica, para mim, não é um fim em si mesma. Ela deve servir à música, à afinação escolhida e ao carácter expressivo da obra. Cada afinação exige um gesto diferente, uma relação distinta com o tempo e com o corpo. Ignorar isso é reduzir a viola a um objeto mecânico, quando ela é, antes de tudo, um instrumento de relação sonora.

Com o tempo, fui compreendendo que a técnica mais importante do violeiro talvez seja a capacidade de escutar — o próprio som, o silêncio entre as notas e os limites do corpo. Sem essa escuta, a técnica transforma-se apenas em automatismo. E onde a técnica se torna automatismo, a música deixa de ser linguagem e passa a ser apenas repetição.

10) RM: Quais os violeiros que você admira?

Fernando Deghi: Admiro violeiros que construíram uma relação profunda e honesta com o instrumento, independentemente de estilos, gerações ou visibilidade mediática. Mais do que virtuosismo, interessa-me a coerência entre som, gesto e pensamento musical.

Admiro aqueles que compreenderam a tradição como um campo de responsabilidade, e não como um repertório de fórmulas. Violeiros que escutam antes de tocar, que respeitam o tempo da música e que conseguem transformar experiência em linguagem própria.

Com o passar dos anos, fui percebendo que a admiração deixa de estar centrada em figuras específicas e passa a estar ligada a atitudes: a escuta, a integridade artística e a capacidade de fazer da viola um lugar de sentido — e não apenas de exibição.

11) RM: Como é o seu processo de compor?

Fernando Deghi: O meu processo de composição raramente começa por uma ideia abstrata ou por um plano pré-definido. Na maioria das vezes, ele nasce da relação direta com o instrumento, sobretudo a partir da afinação. A afinação cria um campo específico de possibilidades: define intervalos, zonas de tensão e repouso, tipos de ressonância e até o gesto corporal necessário para fazer a música acontecer.

A formação no repertório histórico do violão, especialmente da música renascentista, barroca e classicismo ensinou-me a pensar em vozes, em condução melódica e em equilíbrio formal. Já a tradição oral ensinou-me o valor da repetição, da variação e do tempo interno da música. Esses dois universos convivem no meu processo de forma natural, sem hierarquias.

Componho também imaginando um cenário. Muitas vezes a música nasce associada a um espaço, a uma paisagem, a uma situação ou a uma narrativa implícita. Talvez por isso o meu processo esteja tão ligado à escuta do ambiente, ao silêncio e à construção de atmosfera — uma influência clara do cinema documental na forma como organizo o tempo musical.

Compor, para mim, é sobretudo um exercício de escuta prolongada. Escutar o instrumento, o corpo, o espaço e o silêncio. Muitas vezes, a música não surge como invenção, mas como revelação — algo que já estava ali, à espera de ser organizado em forma sonora.

12) RM: Quais as principais diferenças técnicas entre a viola e o violão?

Fernando Deghi: Apesar de aparentados, viola e violão operam a partir de lógicas técnicas e musicais bastante distintas. O violão, sobretudo no universo clássico, desenvolveu-se com uma organização mais vertical do som, com forte ênfase na harmonia, na condução polifónica e no controlo preciso do timbre.

A viola, por sua vez, estrutura-se a partir das afinações abertas, das cordas soltas e das ressonâncias naturais do instrumento. O pensamento musical tende a ser mais modal e horizontal, e a relação com o tempo assume um papel central. Na viola, a afinação não é apenas um ponto de partida técnico, mas parte integrante da linguagem.

Nesse contexto, o silêncio tem um papel fundamental. Não como ausência de som, mas como espaço onde a ressonância se organiza, onde o gesto encontra sentido e onde a música respira. Saber quando não tocar é, muitas vezes, tão determinante quanto o próprio gesto sonoro.

Quando se tenta transferir mecanicamente técnicas do violão para a viola, corre-se o risco de empobrecer ambos os instrumentos. Compreender as diferenças não significa hierarquizá-los, mas reconhecer que cada um exige uma escuta específica, um corpo específico e uma forma própria de pensar a música.

13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Fernando Deghi: O principal benefício de uma carreira independente é a liberdade artística. A possibilidade de decidir repertório, linguagem, formatos e caminhos estéticos sem a imposição de interesses externos permite uma relação mais íntegra com a música e com o próprio tempo de maturação artística.

Por outro lado, essa liberdade tem um custo elevado. O músico independente precisa assumir funções que vão muito além da criação: produção, gestão, comunicação, captação de recursos e construção de público. Isso exige energia, disciplina e uma capacidade constante de adaptação.

Com o tempo, compreendi que a independência não é ausência de estrutura, mas a responsabilidade de construir a própria. Quando isso não é entendido, a independência pode transformar-se em isolamento; quando é assumido conscientemente, pode tornar-se um espaço fértil de coerência e continuidade artística.

14) RM: Quais as estratégias de planeamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Fernando Deghi: Dentro do palco, a minha principal estratégia é a coerência. Penso o concerto como um percurso, não como uma sucessão de peças. A escolha do repertório, das afinações, dos silêncios e da forma de comunicar com o público faz parte de uma mesma narrativa. O palco, para mim, é um espaço de escuta partilhada, não apenas de exibição.

Fora do palco, o planeamento exige outra natureza de atenção. Envolve organização, continuidade e visão de médio e longo prazo. Isso passa pela documentação do trabalho, pela criação de projetos consistentes, pelo diálogo com instituições culturais e pela formação de público. Hoje, esse planeamento acontece de forma muito consciente no contexto europeu, sem romper com o percurso construído no Brasil.

Procuro equilibrar rigor artístico e sustentabilidade prática. Quando essas duas dimensões caminham juntas, a carreira deixa de ser apenas reativa e passa a ser construída com intenção.

15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Fernando Deghi: Entendo o empreendedorismo artístico não como um fim em si mesmo, mas como uma extensão da responsabilidade com o próprio trabalho. Ao longo do tempo, desenvolvi ações que me permitissem dar continuidade à criação sem depender exclusivamente de estruturas externas.

Essas ações incluem a produção de gravações independentes, a criação e publicação de livros e materiais pedagógicos, o desenvolvimento de metodologias próprias, a realização de concertos comentados e a construção de projetos em parceria com instituições culturais e educativas. Hoje, esse pensamento é aplicado tanto no Brasil quanto no contexto europeu, procurando sempre alinhar criação artística, investigação, pedagogia e sustentabilidade.

16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da sua carreira?

Fernando Deghi: A internet ampliou de forma decisiva o alcance do trabalho artístico. Ela permite atravessar fronteiras, criar diálogo com públicos diversos, documentar processos e dar visibilidade a projetos que, de outro modo, permaneceriam restritos a contextos locais.
Ao mesmo tempo, a internet impõe uma lógica de velocidade, excesso de estímulos e consumo rápido que nem sempre é compatível com a música que faço.

Procuro, portanto, usar a internet como ferramenta, não como horizonte estético. Quando ela serve à escuta, ao encontro e à continuidade do trabalho, é extremamente positiva. Quando passa a ditar o ritmo e o sentido da criação, torna-se um obstáculo silencioso.

17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?

Fernando Deghi: A principal vantagem do acesso à tecnologia de gravação é a autonomia. Hoje é possível registar ideias, processos e obras com grande liberdade, respeitando o tempo da criação e permitindo um contacto mais direto com o próprio som.

Por outro lado, essa facilidade pode gerar uma ilusão perigosa: a de que gravar bem tecnicamente é o mesmo que ouvir bem musicalmente. Vejo o home estúdio como um espaço de trabalho e reflexão, não como um atalho. Quando a tecnologia serve à música, ela amplia possibilidades; quando passa a conduzir as decisões artísticas, corre-se o risco de produzir registros tecnicamente corretos, mas musicalmente vazios.

18) RM: No passado, gravar um disco era o grande obstáculo. Hoje a concorrência tornou-se o principal desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Fernando Deghi: Procuro diferenciar-me não pela velocidade da produção, mas pela profundidade do percurso. Em vez de responder às exigências imediatas do mercado, concentro-me na construção de um pensamento musical coerente, que articula tradição, investigação e criação contemporânea.

Isso passa pelo uso consciente das afinações como elemento estruturante da linguagem, pela integração entre música, narrativa e pedagogia, e pela valorização do tempo de escuta. Num contexto de excesso de oferta, acredito que a diferença não está em produzir mais, mas em produzir com sentido.

19) RM: Como você analisa o cenário da música sertaneja caipira/raiz?

Fernando Deghi: Vejo o cenário da música sertaneja de raiz como um território de enorme riqueza cultural, mas também marcado por tensões e contradições. Há um património musical profundo, sustentado por práticas, repertórios e modos de transmissão que atravessaram gerações e continuam a existir, muitas vezes longe dos grandes centros de visibilidade.

Ao mesmo tempo, observo uma tendência crescente de cristalização dessa tradição, como se preservar significasse repetir formas fixas. Quando a música de raiz deixa de ser atravessada por escuta, reflexão e criação consciente, corre-se o risco de transformar um património vivo em objeto museológico.

A tradição só se mantém viva quando é capaz de dialogar com o tempo presente sem perder densidade. O desafio maior, a meu ver, é encontrar esse equilíbrio entre memória, responsabilidade histórica e liberdade criativa.

20) RM: Como você analisa o cenário da música sertaneja pop?

Fernando Deghi: Vejo a música sertaneja pop como um campo fortemente orientado pela lógica de mercado. Trata-se de um segmento altamente profissionalizado, com domínio de estratégias de produção, promoção e circulação, e com grande capacidade de alcançar públicos amplos. Isso, por si só, não é um problema.

O risco surge quando a música passa a responder exclusivamente a métricas de consumo e visibilidade, deixando em segundo plano a escuta, a elaboração musical e o tempo de maturação das obras. Nesse contexto, muitas produções tornam-se rapidamente descartáveis. Ainda assim, acredito que há espaço para propostas mais conscientes, desde que não se confundam sucesso imediato com consistência artística.

21) RM: O que o deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Fernando Deghi: O que mais me deixa feliz é quando a música cria um encontro verdadeiro: quando o som estabelece uma relação de escuta real entre quem toca e quem ouve, e quando o tempo parece suspender-se nesse espaço partilhado. O que mais me entristece é perceber como, em muitos contextos, a música é tratada apenas como produto, sujeita a lógicas de consumo rápido, descartável e pouco comprometido com o sentido artístico.

22) RM: Quais os outros instrumentos musicais que você toca?

Fernando Deghi: Além da viola, toco guitarra clássica (violão clássico), instrumento que teve um papel fundamental na minha formação musical, tanto do ponto de vista técnico quanto do pensamento sonoro e formal.

23) RM: Quais os vícios técnicos que o violeiro deve evitar?

Fernando Deghi: Um dos principais vícios técnicos é a tensão excessiva, tanto física quanto mental, que compromete a qualidade do som e a relação saudável com o instrumento. Outro vício recorrente é o automatismo: repetir gestos e padrões sem escuta real, apenas por hábito ou virtuosismo vazio. Há ainda o equívoco de confundir velocidade, complexidade ou quantidade de notas com musicalidade. Quando isso acontece, a técnica deixa de servir à música e passa a sobrepor-se a ela.

24) RM: Quais os erros no ensino da viola?

Fernando Deghi: Um dos erros mais frequentes no ensino da viola é a tentativa de padronização excessiva, como se todos os instrumentos, corpos e trajetórias exigissem o mesmo caminho pedagógico.Outro equívoco recorrente é separar técnica de musicalidade, tratando exercícios e repertório como universos distintos. Há ainda a desconsideração do corpo, da idade, da experiência prévia e do tempo de aprendizagem de cada aluno, o que pode gerar frustração e afastamento em vez de aprofundamento musical.

25) RM: Tocar muitas notas por compasso ajuda ou prejudica a musicalidade?

Fernando Deghi: Depende sempre da intenção musical, do contexto e da escuta. A quantidade de notas, por si só, não garante nem prejudica a musicalidade. O problema surge quando a densidade sonora não está sustentada por uma ideia clara. Muitas vezes, tocar menos permite que o som respire, que a ressonância se organize e que o gesto encontre sentido. Musicalidade é escolha. Saber o que tocar é importante, mas saber quando não tocar é, muitas vezes, decisivo.

26) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Fernando Deghi: Diria, antes de tudo, que é preciso tempo. Tempo para estudar, para escutar, para errar e para compreender o próprio percurso. Também diria que vale a pena construir identidade antes de buscar reconhecimento. O reconhecimento pode ou não vir; a identidade é o que sustenta o músico ao longo do tempo. Mais do que seguir modelos externos, é fundamental desenvolver escuta crítica, responsabilidade artística e paciência com os próprios processos.

27) RM: Quais os principais erros na metodologia de ensino de música?

Fernando Deghi: Um dos principais erros é tratar o ensino da música como mera transmissão de conteúdos técnicos, desconectados da escuta e da experiência musical real. Outro equívoco recorrente é ignorar a singularidade do aluno, tentando aplicar métodos rígidos sem considerar corpo, idade, trajetória e contexto. Há ainda a tendência de acelerar processos, confundindo rapidez com aprendizagem efetiva. A música exige tempo, assimilação e maturação.

28) RM: Existe o dom musical? Qual a sua definição de dom musical?

Fernando Deghi: Prefiro pensar o dom não como privilégio de poucos, mas como uma disponibilidade para escutar, para se dedicar e para se transformar ao longo do percurso. O que costuma ser chamado de dom é, muitas vezes, o resultado de convivência precoce com a música, de estímulos adequados e de continuidade no tempo. Sem escuta, trabalho e responsabilidade, o chamado dom permanece apenas como potencial não realizado.

29) RM: Qual a sua definição de improvisação?

Fernando Deghi: Improvisar é pensar musicalmente em tempo real. Não se trata de tocar qualquer coisa, mas de tomar decisões conscientes dentro de um campo de possibilidades. A improvisação envolve escuta, memória, técnica e presença. É uma forma de composição instantânea, sustentada pela experiência acumulada.

30) RM: Existe improvisação de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?

Fernando Deghi: A improvisação nunca surge do vazio. Ela é sempre sustentada por estudo, escuta e repertório interiorizado. O que acontece no momento do improviso é a reorganização, em tempo real, de materiais já vividos e compreendidos. Por isso, improvisar é, ao mesmo tempo, liberdade e responsabilidade.

31) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre improvisação musical?

Fernando Deghi: Vejo os métodos de improvisação como ferramentas úteis, desde que compreendidos como pontos de partida e não como fórmulas fechadas. Eles ajudam a organizar o pensamento, a ampliar o vocabulário musical e a desenvolver consciência harmónica e rítmica.

O risco surge quando o método substitui a escuta. Quando isso acontece, a improvisação perde vitalidade e transforma-se em aplicação automática de padrões. Nenhum método improvisa pelo músico; ele apenas oferece caminhos possíveis.

32) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o estudo de harmonia musical?

Fernando Deghi: O estudo da harmonia é fundamental para compreender as relações entre os sons, as tensões, os movimentos e as possibilidades de organização musical. Métodos de harmonia oferecem ferramentas importantes para análise, composição e improvisação.

O problema surge quando a harmonia é tratada como um sistema fechado, aplicado antes da escuta. A música nasce do som, não da regra. A harmonia deve ajudar a compreender o que se ouve, e não impor caminhos que empobreçam a experiência sonora.

33) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro?

Fernando Deghi: A cobertura feita pela grande mídia tende a apresentar apenas uma parcela muito reduzida da diversidade musical brasileira. O foco recai, em geral, sobre produtos de grande circulação, deixando à margem expressões musicais que exigem escuta mais atenta e tempo de maturação. Isso cria uma perceção distorcida do cenário musical, como se a música brasileira se resumisse a poucos estilos e linguagens. Ainda assim, reconheço que existem espaços alternativos e iniciativas independentes que procuram ampliar esse panorama.

34) RM: Qual a importância de espaços como SESC, Itaú Cultural, Caixa Cultural e Banco do Brasil Cultural para a música brasileira?

Fernando Deghi: Esses espaços desempenham um papel fundamental na preservação da diversidade cultural, na formação de público e na continuidade de projetos artísticos que dificilmente encontrariam lugar no mercado estritamente comercial.

Além de oferecerem condições técnicas adequadas, essas instituições permitem a realização de projetos de médio e longo prazo, estimulam o diálogo entre artistas e públicos diversos e contribuem para a circulação da música em diferentes regiões.

35) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical no exterior?

Fernando Deghi: Desenvolver uma carreira musical no exterior amplia horizontes, obriga a repensar práticas e estimula o diálogo com outras culturas e formas de escuta. É um processo de aprendizagem constante, tanto artística quanto humana. Por outro lado, exige adaptação, paciência e capacidade de reconstruir redes.

A experiência no exterior não é ruptura, mas continuidade em outro território, onde a identidade precisa ser reafirmada de forma consciente. A minha formação é profundamente brasileira, mas atualmente desenvolvo o meu trabalho artístico, pedagógico e investigativo entre o Brasil e a Europa, com residência em Portugal.

36) RM: Quais os seus projetos futuros?

Fernando Deghi: Pretendo dar continuidade a projetos que articulem criação artística, investigação e pedagogia, aprofundando o diálogo entre tradição e contemporaneidade. Entre esses projetos estão novas gravações, publicações editoriais, desenvolvimento de metodologias musicais e ações ligadas à educação musical, sobretudo no contexto europeu, sem perder o vínculo com o percurso construído no Brasil.

37) RM: Quais os seus contactos para shows e para os fãs?

Fernando Deghi: +351 963 228 833 (Portugal) | [email protected] | https://www.facebook.com/fernandodeghi |https://www.fernandodeghi.com.br

Canal: https://www.youtube.com/violeiroandante

Canal: https://www.youtube.com/@Camerataguitarracl%C3%A1ssica


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