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Uma Revista criada em 2001 pelo jornalista, músico e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.

Paulo Ró

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O cantor e compositor paraibano Paulo Ró tem um trabalho respeitado dentro e fora da Paraíba. Junto com seu irmão Pedro Osmar criaram o grupo de estudo e de música experimental Jaguaribe Carne. Passaram pelo grupo nomes como: Chico César, Vital Farias, Totonho, Paulinho Ditarso e Escurinho.

O grupo Jaguaribe Carne divide a sua discografia entre CDs instrumentais e de Canções. Em 2003 lançaram o CD – “Vem no Vento” – conta com a participação de vários artistas que passaram pelo grupo que hoje se destacam com trabalhos autorais e nomes como Lenine. Um CD com canções que mostrar todo amadurecimento e vanguarda musical do grupo.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Paulo Ró para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em março de 2005:

01) Ritmo Melodia: Fale do seu primeiro contato com a música. Qual a sua cidade de origem e data de nascimento?

Paulo Ró: Eu nasci no dia 11 de Março de 1958, no bairro de Jaguaribe – João Pessoa – PB. Desde pequeno tive contato com música, pois fui criado numa creche e lá, as freiras sempre tocavam violão para as crianças ouvirem.

Depois, já maiorzinho em casa, meu irmão mais velho Pedro Osmar, ouvia muito música clássica, ópera. No começo dos anos 70, Pedro Osmar começou a participar dos Festivais de Música Paraibana. E eu entrei mais efetivamente na atividade musical, pois muita gente ensaiava lá em casa, e eu ficava olhando, até que em 1972 eu comecei a tocar Violão.

02 ) RM: Quais foram as suas influências musicais?

Paulo Ró: Posso dizer, que praticamente foram os grupos folclóricos que via nas ruas do bairro: Caboclinhos, Boi de reis, Coco de roda. Depois, comecei a ouvir Naná Vasconcelos, Airto Moreira, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, o Clube da Esquina  e os estudos, através da música indiana, africana, andina, música experimental. Enfim, gostava e gosto até hoje de coisas que me façam aprender, que renove meu sentimentos com relação à música.

03) RM: Fale da sua formação musical.

Paulo Ró: Sou autodidata, tudo que sei, aprendi ouvindo música. E tentei por várias vezes estudar em Escola de Música, mas nunca consegui, pois os professores sempre faziam comentários a respeito da música que eu e meu irmão Pedro Osmar fazíamos.

Os professores assistiam os shows do Jaguaribe Carne e diziam que a escola em si não iria ajudar na composição daquela música estranha que nós fazíamos. Nosso primeiro professor de Violão foi Vital Farias (já sabíamos fazer alguns acordes) só que as aulas era conversas sobre música e improvisação, o que foi muito bom para nós.

04) RM: Fale de seu inicio na carreira musical.

Paulo Ró: Eu comecei a fazer música por influência de Pedro Osmar, depois, nós tínhamos um grupo de amigos poetas no bairro e a gente se juntava para escrever e fazer música, o mais freqüente na época foi Águia Mendes. Minha primeira apresentação em palco foi numa produção realizada em 1976: “COLETIVA DE MÚSICA DA PARAÍBA”.

Toda quarta – feira acontecia um show com vários compositores, eu tive a honra de tocar no mesmo evento que estavam Zé Ramalho, Hugo Guimarães, Dida Fialho, Ivan Santos, Carlos Aranha, Pedro Osmar. Enfim, os artistas que estavam atuando na época, tinham muito mais gente. Eu apresentei nesse dia um experimento com vozes e latas de leite com água.

05) RM: Fale do panorama musical de João Pessoa na década de 70 e 80 e Atualmente.

Paulo Ró: Na década de 70 até onde eu pude participar, o que rolava mesmo eram os Festivais de Música, de onde surgiu grande parte dos compositores paraibanos que hoje estão aí. Depois este pessoal: Vital Farias, Zé Ramalho, Luiz Ramalho, Cátia de França, Elba Ramalho foi pegando a estrada, indo pro Rio de Janeiro e São Paulo.

Nos anos 80 foi a época da galera tentar se organizar, e aí veio o MUSICLUBE DA PARAÍBA, uma espécie de laboratório onde se discutia desde a necessidade da organização até as novas tendências da música no Brasil e mundo.

O Musiclube foi à porta para os novos artistas da Paraíba mostrar seu trabalho e muitos deles estão aí até hoje. Musicalmente os trabalhos tinham muita energia e sensibilidade, tinha de tudo: forró, rock, samba, baladas, música romântica, política. Enfim, os músicos, tinham a consciência do que estava rolando, mas cada um trilhava seu caminho, sempre com muita seriedade. Já a década de 90 foi a época da “pop”ularização da música.

Muitos grupos principalmente de rock apareceram, excelentes músicos criavam bandas de pop, rock, instrumental, das escolas de música começaram a surgir grupos de excelente qualidade, que tocavam clássico e popular, grandes músicos falando técnica e criativamente.

Hoje a música da Paraíba é o resultado de todas essas experiências, toda essa mistura que a história permitiu fazer consciente e inconscientemente, grandes músicos, em todas as áreas da música. Eu, não gosto de citar nomes, pois com certeza vou esquecer muita gente, mas, a nossa música esta por aí, no Brasil e no mundo.

06) RM: Fale do inicio do Grupo Jaguaribe Carne.

Paulo Ró:  O Grupo Jaguaribe Carne nasceu experimental, fazíamos muita “zuada” no quintal de casa e na casa de alguns amigos, porque não tínhamos gravador.

E gravando o barulho de tudo, jogávamos latas pra cima, fazíamos pilhas de panelas e derrubávamos, jogávamos coisas dentro d’água, batíamos. Enfim, experimentávamos muito.

No primeiro show “Espadas” que fizemos com o nome Jaguaribe Carne colocamos todos esses elementos no palco. Éramos muito agressivos em nossas letras que tratavam sobre política e nossas letras eram censuradas, era a espinha no pescoço do sistema na época, mas chegamos até aqui, o que prova que não estávamos errados.

07) RM: Quais os objetivos do Jaguaribe Carne? Quem já passou pelo grupo?

Paulo Ró:  Nossos objetivos eram claros, queríamos avançar musicalmente. Acrescentar novos elementos a àquela música feita na época, uma busca nossa, por coisas novas, novos sons, uma nova maneira de se fazer e de se mostrar música na Paraíba.

Abrir caminhos, novos horizontes e acho que ajudamos à música da Paraíba a chegar aonde ela chegou. O Grupo Jaguaribe Carne, começou com Pedro Osmar, Paulo Ró e Vandinho de Carvalho (que não seguiu na música), depois apareceu um camarada chamado Damilton Viana, que mora hoje em Paris (França), toca percussão com músicos de Jazz.

Depois veio o percussionista Firmino, que também está por aí tocando com grandes estrelas da MPB. E aí eu cheguei um dia na casa de Pedro Osmar e tinha um menino tocando Violão e cantando, era lá de Catolé do Rocha (PB), Chico César, foi o primeiro compositor que entrou para o grupo, ficou até resolver ir para São Paulo.

Teve também Escurinho, Paulinho Ditarso (foi o outro compositor que entrou no grupo) além desses que entraram, se bem que ninguém entra nem sai do Jaguaribe Carne, muitos músicos tem nos dado a honra de participar de nossas doidices, como foi o caso da galera que encarou os shows e a gravação do CD – “Vem no Vento” de 2003.

08) RM: Defina a proposta de uma “música aleatória” ou experimentalismo proposto pelo Jaguaribe Carne.

Paulo Ró: A coisa do “aleatório” sempre esteve presente nas nossas cabeças, no nosso inconsciente. Viver a música de uma maneira mais livre, espontânea, como era a proposta da música aleatória. Nós sempre tivemos na cabeça essa ideia de experimentar sonoridades, sons de liquidificador, de enceradeira, de rádio sintonizando / sintonizado / desintonizado. Sons de vozes como percussão, como instrumento, instrumentos tocados desafinados ou fazendo melodias atonais, violões tocados como se fossem percussão, tudo música, tudo coração.

09) RM: Fale do universo das canções praticado pelo Jaguaribe Carne.

Paulo Ró: O universo de nossas canções é eminentemente popular, nós sempre falamos
das coisas do povo, as vezes poeticamente, as vezes cruamente, as vezes incompreensivelmente, mas do povo.

10) RM: Quantos CDs lançados pelo Grupo Jaguaribe Carne?

Paulo Ró: O Grupo Jaguaribe Carne como grupo, só tem duas produções: O JAGUARIBE CARNE INSTRUMENTAL de 1993 e o recente CD –  “VEM NO VENTO” de 2003. Temos uma produção (principalmente Pedro Osmar) individual. Pedro tem discos experimentais feitos em pequenas edições; SIGNAGEM em 1996; VIOLA CAIPIRA em 1997, PIANO CONFEITADO e NOVOIDE, estes dois ainda inéditos. Eu tenho o ETNIA com o Grupo Etnia (1992); O JARDIM DOS ANIMAIS (1998) feito em parceria com o poeta mineiro Ronald Claver E OLHOS DE PROA (2004) feito em parceria com o biólogo Vergara Filho.

11) RM: Como está sendo recebido pela mídia, crítica e público o novo lançamento?

Paulo Ró: Quem não conhecia nosso trabalho acha diferente, quem já conhecia o Jaguaribe Carne, acha normal. Mas a grande maioria das pessoas que opinaram gostou muito por várias razões: Os arranjos, as letras curtas, as letras longas, as melodias tristes, a qualidade dos músicos, enfim, tem som pra todo mundo neste CD – “VEM NO VENTO”, lançado pela Chita Discos.

12) RM: Se o Jaguaribe Carne tivesse trabalhado mais o universo das canções seria mais popular?

Paulo Ró: Eu não sei, porque essa coisa de “ser popular” é muito estranho. Em 1998 o poeta Águia Mendes ligou pra mim dizendo que tinha feito umas letras e queria que eu colocasse melodia, mas que fossem melodias bem fáceis, populares mesmo.

Daquelas que se ouve uma vez e já sai cantando. Ele veio numa sábado pela manhã e fomos para uma sala e eu comecei a fazer as tais melodias populares. Começamos eram dez da manhã, e quando deu uma da tarde eu tinha feito 18 músicas populares. No domingo, pela manhã peguei o violão e mais uma vez eu fui fazendo melodias populares e fiz mais oito.

O trabalho se chamou “Bangalafumenga” fizemos um show no Teatro Santa Roza. E uma das pessoas que subiu no palco pra nos cumprimentar, perguntou – onde é que eu ia buscar melodias tão complicadas, rebuscadas. Eu fiquei, logicamente, sem saber o que responder, achando que nossas melodias populares não eram tão populares assim.

Nossas canções são às vezes melosas demais, às vezes tronchas, estranhas demais, às vezes simples demais, mas tudo tem a ver com nossas influências, as coisas que estão nos nossos corações, nas nossas cabeças, sabem lá.

13) RM: Quais os prós e contras de fazer um trabalho na cena independente?

Paulo Ró: “Ser ou não ser independente, eis a questão”. Na verdade o que todo artista quer é vender milhões de CDs, estar em todas as estações de rádio, em todos canais de TV, mas pra isso ele tem que ser popular.

Eu já tentei, fazendo o “Bangalafumenga”. Só que existem pessoas que só sabem fazer o que lhes satisfaz só querem fazer aquilo que lhes dá prazer. Independente de ficar famoso e ganhar muito dinheiro, mas parece que o mercado não concorda com essa premissa e exige que as pessoas entrem na festa deles. No ritmo deles contra seus princípios e argumentos.

E sou contra, por isso, faço minhas músicas do jeito que manda o meu coração. Se isso me coloca no time dos independentes, ótimo. Um amigo nosso me diz sempre que nos encontramos que eu vou morrer pobre, me chama de idiota…

14) RM: Como você vê o mercado musical brasileiro ?

Paulo Ró: Alceu Valença em seu segundo disco VIVO, lançado pela Som Livre dizia em uma das faixas – O mercado do disco é cruel, isso em 1973, 74. Vários anos se passaram e ele continua cruel, é claro que hoje já se encontrou mecanismos de se amenizar essa crueldade.

E aí, o mercado que não é besta e só está interessado mesmo no dinheiro, teve que abrir. Uma vez numa entrevista o grande compositor Paulinho da Viola numa dessas emissoras de TV, quando perguntado se ele vendia muitos discos, respondeu que esse novo, o “BÊBADO SAMBA”, foi seu trabalho que mais vendeu, até aquele dia, na faixa de 100 mil cópias.

Enquanto isso, o novo CD do “É O TCHAN” da época, tinha vendido 300 mil cópias com uma semana de lançado. Como se explica? O mercado explica, só o mercado explica.

15) RM: Em sua opinião por que não houve ainda um movimento musical paraibano de repercussão nacional? Ou grupos no estilo Novos Baianos, Tropicália, Bossa Nova e Pessoal do Ceará?

Paulo Ró: Realmente a música paraibana não conseguiu se lançar como movimento, mas já teve seus momentos de “sucesso” na década de 70, por exemplo, com Zé Ramalho, Elba Ramalho, Cátia de França, Vital Farias.

Não foi lançado um movimento de música paraibana, mas os artistas estavam lá no “sul maravilha” fazendo seu trabalho. E sempre fizeram bem feito. Porque não existiu um movimento, eu não sei. Talvez tenha faltado pessoas para fazerem “aquele trabalho de mídia” que eleva, que se não resolve, ajuda muito, talvez tenha sido isso.

16) RM: Na música paraibana atualmente o que você indica?

Paulo Ró: São muitos os grupos e artistas que hoje assumiram a bandeira de fazer música em si; eu poderia citar grupos como o Soriedem Otsix Trio, Zé Filho, Cabruêra, Adeildo Vieira, Jp sax, Milton Dornellas.

Tem um menino que já é um grande músico com 22 anos de idade, Kayami Satomi, violoncelista de primeira linha. Tem o Escurinho, só para citar alguns. Tem muita gente boa seguindo o caminho do bem.

17) RM: A música paraibana avançou ou regrediu nos últimos anos?

Paulo Ró: Com certeza avançou e muito. A nossa música não deve à música de lugar nenhum, grupos de rock, de funk, jazz, samba, música contemporânea, forró, baladas, meu amigo, é muita música boa. Estamos num estágio bem avançado com relação a essa coisa da qualidade musical e vamos avançar muito mais, sempre.

18) RM: Fale dos projetos do Jaguaribe Carne para 2005 ?

Paulo Ró: São vários os projetos do grupo e meu e do Pedro Osmar. O Jaguaribe Carne vai gravar o seu JAGUARIBE CARNE INSTRUMENTAL. Agora com banda, possivelmente produzido por Chico César. Este projeto é muito importante para nossa história musical.

Eu tenho três projetos para realizar, a gravação do: CANTUS POPULARIS, um trabalho de resgate de música de grupos folclóricos com linguagem pop. Um disco de música para violões e o “RECEITAS DE OLHAR”, feito em parceria com a escritora carioca Roseana Murray, esses são os prioritários, vamos ver se conseguimos realizá-los.

19) RM: Paulo Ró, Quais seus contatos?

Paulo Ró: [email protected]

 


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Uma Revista criada em 2001 pelo jornalista, músico e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa.