Marco Antonio Bouquard
Marco Antonio Bouquard é um artista multidisciplinar, agente cultural e advogado, com formação acadêmica em História e Direito. Cantor, instrumentista e compositor, busca transformar realidades por meio da arte, do direito e da preservação da memória, criando pontes entre passado, presente e o desenvolvimento comunitário.
Adolescente, interessou-se por violão, o que o levou a investir em teoria musical, ajudado pelo avô, que era maestro das sociedades musicais Carlos Gomes e Sete de Setembro.
Logo cedo, sua dedicação ajudou na conquista do prêmio de “aluno destaque”, quando cursava o Conservatório de Música Lia Salgado, em Leopoldina-MG. Atuou como professor de música em cursos ofertados pelo “fórum das artes”, “clube da música”, “casa da cultura”, cursos particulares e projetos sociais sempre em Além Paraíba-MG.
Tornou-se músico profissional como guitarrista da banda de rock Apollo XI, criada com o irmão e alguns amigos. Acompanhou outros artistas participando de bandas de bailes e conjuntos de rock. E investiu na carreira solo, apresentando-se em bares, clubes, casas de show e eventos culturais realizados em toda a região, transpondo as divisas de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
Conta com mais de vinte anos de estrada e já realizou um grande sonho: lançou no ano de 2014 seu primeiro álbum solo ‘Marco Antonio Bouquard’ com canções autorais. Nele mistura mpb, folk e rock, onde apresenta suas bem elaboradas letras com a força da juventude, do amor pelo trabalho e disponibilidade para parcerias.
Além da paixão pela música, pela poesia e pela ousadia, carrega na sua mochila uma grande experiência e muitos troféus de participações em festivais, atuando como intérprete, compositor ou instrumentista.
Ainda cabe nela projetos sociais como o “Clube da Música” (com aulas gratuitas para crianças e adolescente em áreas de risco), o Ponto de Cultura ‘Instituto Casa’ e o projeto “Além de um Porto” (que durante os domingos das férias escolares levou música gratuita à espaços públicos da zona rural e distritos de Além Paraíba-MG), promovendo a circulação de ações culturais, fortalecendo a autoestima e apropriando o espaço público para promover cultura.
Mas, melhor que estar falando do artista é apreciar a sua arte. O álbum Tangram lançado em julho de 2020 traz belas canções. Neste trabalho, nos é apresentado um músico mais experiente, inovador e cada vez mais apaixonado pelo que faz.
No ano de 2025 realizou o lançamento do EP Filhos da Mata, um registro sonoro nascido do encontro entre raiz e modernidade. Composto durante a residência, o EP reúne canções que são verdadeiros poemas musicais à Zona da Mata. Cada faixa é fruto de conversas, memórias e paisagens que formam um mosaico sonoro que celebra a identidade regional com profundidade e sensibilidade.
Marco Antonio Bouquard vem lançando singles de seu terceiro álbum, Bouquard Rock, um trabalho que dialoga com diversas influências musicais como rock rural, Clube da Esquina, folk e soft rock sem perder sua raiz na música mineira e na MPB.
Parte das composições foi criada durante a pandemia, em parceria com amigos musicais como Antônio Carlos, Gladson Morais e o saudoso Serginho de Souza. O álbum também conta com a participação especial do músico João Fera na faixa ‘Além de Mar’, contribuindo com teclados e arranjos de cordas.
Além das novas canções, o disco resgata composições que quase se perderam no tempo incluindo regravações das primeiras parcerias de Bouquard com seu irmão. Com um conceito estético de cunho existencialista, Bouquard Rock busca refletir sobre o lugar do indivíduo no mundo contemporâneo e expressa uma contínua procura pelo “eu maior”.
Marco Antonio Bouquard segue, com voz própria e coração aberto, tecendo canções que honram a memória, celebram o presente e sonham o futuro porque, para ele, fazer arte é também cuidar do mundo.
Segue abaixo entrevista exclusiva com Marco Antonio Bouquard para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 28/01/2026:
01) Ritmo Melodia: Qual o seu dia e mês de nascimento e a sua cidade natal?
Marco Antonio Bouquard: Nasci no dia 11 de Abril de 1984, em uma cidade da zona da mata mineira, denominada de Além Paraíba (MG), onde vivo até hoje.
02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.
Marco Antonio Bouquard: Foi quando ainda criança, através dos discos de rock progressivo de meu pai (Márcio) e do contato com meu avô, Luiz Pinto da Cunha (maestro de sociedades musicais Carlos Gomes e Sete de Setembro de Além Paraíba – MG).
03) RM: Qual a sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?
Marco Antonio Bouquard: Na música, tive meus primeiros estudos em violão e, posteriormente, aprofundei meus conhecimentos em teoria musical por meio da tradição herdada do meu avô, Luiz Pinto da Cunha, que atuou nas sociedades musicais Carlos Gomes e Sete de Setembro de Além Paraíba – MG. Também passei um período no Conservatório de Música Lia Salgado, em Leopoldina – MG.
Na área acadêmica, sou graduado em História, graduando em Direito e possuo especialização em Gestão de Sistemas e Serviços de Saúde. Atualmente, realizo especializações em Direito Tributário e Direito do Trabalho.
Paralelamente à música, atuo na gestão de projetos no terceiro setor, assessoria e consultoria em gestão de Saúde e exerço a advocacia.
04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?
Marco Antonio Bouquard: Em minha casa se ouvia muita música, minha mãe (Benedita) gostava de canções que tocavam no rádio, meu pai (Márcio) com seus discos de rock e ao lado de minha casa meu avô, Luiz Pinto da Cunha com seus dobrados e a música instrumental.
Porém minha juventude foi marcada por Rock Progressivo, Rock “Clássico” e Rock Brasileiro, era aquela coisa de ter cabelos longos, uma guitarra elétrica e andar por ai de calça rasgada.
Um pouco mais para frente à canção brasileira bateu muito forte em minha vida: “Clube da Esquina”(principalmente), Tropicalismo, Bossa Nova, Samba, Canções Nordestinas. Também existe a influência da música Erudita, Sertaneja Caipira, Jazz, Instrumental Brasileira e Blues…
Atualmente o que menos escuto é o rock, porém acredito que o espírito transgressor deste gênero sempre vai estar presente em minha vida! Hoje posso afirmar que minhas maiores influências são as experiências vividas e as pessoas.
05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?
Marco Antonio Bouquard: Comecei no final dos anos 90 tocando em bandas de “garagem”, me apresentando em festas de colegas, bares, Festivais de Música estudantis e encontro de motociclistas.
Em seguida veio a fase das bandas de baile, assim como acompanhar artistas da região e lançar meu trabalho autoral. Também trabalhei por bastante tempo com cursos livres de música em projetos sociais, aulas particulares e escolas de música.
06) RM: Quantos álbuns lançados?
Marco Antonio Bouquard: Tenho dois álbuns lançados, um EP e o álbum “Bouquard Rock” em fase de conclusão.
Comentários sobre o perfil do primeiro álbum: “O álbum de estreia do músico, cantor e compositor Marco Antonio Bouquard mexe com os sentidos e a mineiridade ao trazer algo leve como a brisa dos vales, no cantar de canções que trazem um toque disso tudo que evoca essa gente nascida nas Minas Gerais. O disco tecido como uma “colcha de retalhos” costurada com a linha de uma sonoridade regional, traz diferentes gêneros e sonoridades.
O trabalho foi lançado em setembro de 2014 (após uma odisseia que levou um pouco mais de um ano para sua concepção). O artista adicionou ao seu novo trabalho uma soma de experiências vividas com outros grandes músicos da cidade e outras regiões, a exemplo do renomado maestro Luís Nascimento, responsável pela produção e arranjo do CD e das participações especiais dos músicos Adriano Chaves, Brasilino Bittencourt, Maria Elisa Couto França Coité, Marcio Bouquard e Luiz Keller, que marcou presença com uma de suas composições.
Também foram parceiros em composições Daniela Saad, Fred Antunes, Lucas Aragão, Marcio Bouquard e Fernando Bamboo. O projeto visual é do artista gráfico Fred Antunes, com fotos do mesmo e Mariana Quintão.
O trabalho ainda conta com mais duas regravações de compositores da música popular brasileira, união que resultou em um disco embalado por uma melodia harmoniosa e que valoriza a canção da terra”.
Sobre o perfil do segundo álbum: Tangram representa a maturidade de um artista que constrói sua obra como um quebra-cabeça sensível, cultural e humano. Inspirado no milenar jogo oriental, o projeto foi concebido peça por peça, reunindo participações diversas, múltiplos colaboradores e um amplo leque de referências artísticas e culturais, todas encaixadas com precisão e propósito.
Após superar os desafios inerentes ao processo criativo e de produção, o álbum foi finalizado com extremo cuidado e afeto, revelando um músico mais experiente, inovador e profundamente comprometido com sua arte.
Lançado em 2020, em meio ao contexto da pandemia da COVID-19, Tangram teve sua estreia realizada de forma on-line, respeitando o isolamento social e utilizando as plataformas digitais como espaço de encontro, partilha e escuta.
O projeto foi apresentado ao público de maneira contínua e orgânica: ao longo dos meses, Marco Antoniocompartilhou histórias das canções, bastidores do processo criativo e conteúdos exclusivos, culminando, a cada etapa, no lançamento de singles inéditos que compõem o álbum.
As doze canções autorais, criadas em novas e instigantes parcerias, formam o eixo central de um trabalho que dialoga com pesquisa musical, experimentação estética e diversidade de linguagens.
Do ponto de vista conceitual, Tangram se ancora na ideia de multiplicidade. Assim como o jogo permite inúmeras formas a partir das mesmas sete peças, o disco propõe diferentes leituras, sensações e caminhos sonoros, sempre em harmonia com sua essência.
As músicas falam por si, carregadas de signos e simbolismos presentes nas letras, melodias, ritmos, arranjos e imagens, desafiando o ouvinte a construir sua própria experiência.
O álbum assume uma postura antropofágica, absorvendo referências culturais diversas e devolvendo algo genuinamente autoral. Não busca uma identidade pura ou rígida, mas encontra força exatamente na mistura, no encontro e no diálogo entre diferenças.
É um trabalho que nasce da coletividade, das trocas e da soma de desejos, ideias e sensibilidades, com o objetivo de sensibilizar e convidar o público a fazer parte dessa construção.
Participam do projeto, entre outros artistas de Além Paraíba e região: Marco Antonio Bouquard, Luis Nascimento, Maria Eliza, Wanderlan, Sérgio Marcelo, Serginho de Souza, Marcelão, Banjo, Fred, Márcio Bouquard, Fred Antunes, Gilberto, Edson Leão e Mayara Bouquard.
Tangram não é um álbum sem estilo, mas um trabalho que transforma a convivência de muitos conceitos em uma obra vibrante e coerente. Reúne pesquisa, poesia, instrumentos, imagens, certezas e incertezas em um processo contínuo de transformação.
Um disco que propõe sentir para saber, saber para transformar e que reafirma a crença de que a cultura sempre atrai gente boa e que sonhar continua sendo um ato essencial.
O EP – Filhos da Mata: Um registro sonoro nascido do encontro entre raiz e modernidade. Composto durante a residência, o EP reúne cinco canções que são verdadeiros poemas musicais à Zona da Mata. “Violeiro da Mata Mineira”, inspirada na poesia de Emanuel Messias, a “Shairon e os Torreões”, um grito da nova geração em conflito com a tradição, cada faixa é fruto de conversas, memórias e paisagens. “Raiz e Horizonte”, “Recanto das Garças”, “Filhos da Mata” são as composições que formam um mosaico sonoro que celebra a identidade regional com profundidade e sensibilidade.
O álbum Bouquard Rock: lançando paulatinamente singles de seu terceiro álbum, um trabalho que dialoga com diversas influências musicais como rock rural, Clube da Esquina, folk e soft rock sem perder sua raiz na música mineira, caipira e na MPB.
Parte das composições foi criada durante a pandemia do COVID-19, em parceria com amigos musicais como Antonio Carlos, Gladson Morais e o saudoso Serginho de Souza.
O álbum também conta com a participação especial do músico João Fera (tecladista dos Paralamas do Sucesso) ‘Além de Mar’, contribuindo com teclados e arranjos de cordas.
Além das novas canções, o disco resgata composições que quase se perderam no tempo incluindo regravações das primeiras parcerias de Bouquard com seu irmão Márcio. Com um conceito estético de cunho existencialista, Bouquard Rock busca refletir sobre o lugar do indivíduo no mundo contemporâneo e expressa uma contínua procura pelo “Eu maior”.
Marco Antonio Bouquard segue, com voz própria e coração aberto, tecendo canções que honram a memória, celebram o presente e sonham o futuro porque, para ele, fazer arte é também cuidar do mundo.
A produção artística de que tem assinatura do jornalista, poeta, multi-instrumentista paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa e produção executiva da produtora cultural Mayara Bouquard.
07) RM: Como você define seu estilo musical?
Marco Antonio Bouquard: Uma mistura entre MPB, Música Mineira e Caipira, Folk e Rock.
08) RM: Você estudou técnica vocal?
Marco Antonio Bouquard: Já participei de corais e grupos vocais, nos quais tive acesso a noções básicas de técnica vocal, mas nunca dei continuidade efetiva a esses estudos.
Aprendi muito sobre canto ao longo dos anos atuando em bares, onde costumava cantar por mais de quatro horas seguidas. Também aprimorei minha arte sob as lentes do microscópio, ou melhor, com o cuidado e a produção do maestro Luizinho Nascimento, durante a gravação do meu primeiro álbum.
09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?
Marco Antonio Bouquard: A voz é como um instrumento e para executá-lo bem, é necessário estudar a técnica e ter cuidado com ele. Pessoalmente, porém, sou bastante caótico nessas questões.
Dentro das minhas limitações técnicas, busco inspiração estética em uma mistura de Chet Baker, João Gilberto e Beto Guedes. Com o tempo, passei a entender melhor minhas limitações e potencialidades, e hoje tenho o cuidado de sempre escolher um tom confortável para a minha voz.
10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?
Marco Antonio Bouquard: Como certa vez, disse Elis Regina: “Se Deus cantasse, ele cantaria com a voz deMilton Nascimento!”… Sou apaixonado pela voz desse cara!
11) RM: Como é o seu processo de compor?
Marco Antonio Bouquard: O processo criativo surge de forma intuitiva e espontânea, numa busca por sons que expressem ideias e sentimentos. Gosto muito da criação coletiva e procuro sempre parcerias com pessoas sensíveis em alguns casos, inclusive, que nunca tinham composto antes.
Atualmente, também venho compondo sozinho, uma experiência que surgiu após o período de isolamento da pandemia de COVID-19 e se consolidou diante da correria do dia a dia e das dificuldades para marcar encontros presenciais.
12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?
Marco Antonio Bouquard: Minha lista de parceiros vem crescendo ao logo do tempo. Porém poderia dizer que meus principais parceiros em composição são: Meu irmão Márcio Bouquard em meu primeiro disco, o saudoso amigo Serginho de Souza no segundo disco Tangram, Antonio Carlos e Gladson Morais no álbum Bouquard Rock.
13) RM: Quem já gravou as suas músicas?
Marco Antonio Bouquard: Até o momento apenas eu gravei minhas canções, porém tenho uma postura aberta para disponibilizar canções para outros artistas que tenham interesse em gravar.
14) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?
Marco Antonio Bouquard: Creio que os prós estão relacionados à liberdade artística e a liberdade para se gerenciar a carreira. Já os contras estariam relacionados ao excesso de funções: Desenvolvimento de planejamento de marketing, produção de material, gestão de redes sociais, vendas e desenvolvimento de formas e estratégias para custear todo esse processo.
É necessário tomar conta de todas as etapas do processo de produção, já que para o artista independente as coisas são mais complicadas, além da falta de recurso.
Isso tudo não é irrelevante, pois muitas vezes toda a parte estratégica e burocrática engole o fazer artístico.
15) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?
Marco Antonio Bouquard: Fora dos palcos, já gerenciei meu trabalho com foco em metas de médio e longo prazo. Além dessas metas, utilizei instrumentos de controle e estratégias ligadas a marketing, produção e vendas.
Hoje, busco me conectar comigo mesmo e com as pessoas por meio do meu trabalho, de forma orgânica sem cobranças nem exigências internas excessivas.
Sigo devagar, sem pressa, mas sem parar. Algo como: “Ando devagar porque já tive pressa…”
16) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?
Marco Antonio Bouquard: Já tive uma fase em que buscava estudar o mercado musical e aplicar técnicas e instrumentos de gestão à minha carreira. Também me empenhava em desenvolver projetos para disseminar minhas canções e produzir eventos próprios.
Naquela época, minha missão se concentrava em cativar pessoas por meio da música, semear cultura e gerar sustentabilidade através da arte. Havia uma frase que me inspirava profundamente no que diz respeito ao empreendedorismo:
“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.” — Sun Tzu
Naquele momento, fui muito guiado por essa lógica estratégica — ou seja, tentava controlar o vento, moldar o que estava fora do meu alcance e antecipar resultados incertos.
Hoje, sigo de forma mais leve: compondo e produzindo minhas canções com calma, aberto a encontros com pessoas que tenham afinidade com o meu trabalho e participando de editais que reconheço como alinhados ao meu fazer artístico.
17) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?
Marco Antonio Bouquard: Ela é um ótimo canal de comunicação e distribuição das obras! Por meio dela, podemos compartilhar nosso trabalho, estabelecer contatos e interagir tanto com o público quanto com parceiros.
O desafio está nas limitações dos algoritmos, nas bolhas sociais que se formam dentro das redes e, de certa forma, na pressão constante que essas plataformas exercem para impulsionar postagens pagas.
Mesmo diante desse cenário, ainda acredito que a internet, o streaming e as redes sociais são canais poderosos e valiosos para disseminar minha obra autoral.
18) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?
Marco Antonio Bouquard: A principal vantagem do home studio é democratizar a produção musical, permitindo que artistas realizem seus projetos com um custo relativamente acessível.
Do ponto de vista mais individualista, uma possível desvantagem seria a proliferação de uma enorme quantidade de material, o que intensifica a “concorrência” pela atenção do público.
Particularmente, porém, acredito que “o sol nasce para todos” e o acesso à tecnologia amplia as possibilidades criativas, gerando mais oportunidades para vozes diversas serem ouvidas.
Durante a pandemia do COVID-19 e o isolamento social, iniciei um processo de aprendizagem em técnicas de gravação em home studio. Aos poucos, fui vendendo alguns instrumentos e equipamentos antigos e reinvestindo em ferramentas essenciais para gravação, mixagem e masterização. Muito do que aprendi veio de canais no YouTube, e alguns foram fundamentais nessa jornada como: https://www.youtube.com/@pauloanhaia,https://www.youtube.com/@GraveVoc%C3%AAmesmo , https://www.youtube.com/@ChrysGringo , https://www.youtube.com/@JorgeEstevesProdutorMusical
Além disso, tive o apoio valioso de amigos que sempre me deram dicas preciosas sobre minhas produções. Gostaria de citar especialmente o músico e produtor Nando Oliver e ao amigo e parceiro musical Antonio Carlos, cuja visão sensível e apurada como um A&R, tem sido um grande estímulo.
Atualmente, na sede do Instituto Casa, ponto de cultura do qual faço parte da administração, venho aprimorando minhas técnicas de produção e adquirindo equipamentos de melhor qualidade.
Nesse espaço que batizei carinhosamente de Bouquard Home Studio — realizei diversas produções, como o EP Juízo Final, do artista Beto do Aurino; o EP de Vivi Lobão; e diversos singles de artistas de Além Paraíba e região.
Também é lá que estou produzindo meu recente álbum, Bouquard Rock, e onde gravei integralmente o EP, Filhos da Mata.
Esse caminho me mostrou que, mesmo com limitações técnicas, é possível criar com intencionalidade, cuidado e beleza — desde que haja dedicação, escuta atenta e abertura para aprender.
Hoje, observo também o surgimento de uma nova camada nesse ecossistema: a inteligência artificial.Creio que ela veio ocupar um espaço que antes era quase exclusivo dos home studios.
Por meio de plataformas generativas de música por Inteligência Artificial, muitos compositores conseguem consolidar suas ideias rapidamente, com resultados frequentemente bem-produzidos.
Contudo, há questões complexas envolvidas como direitos autorais, originalidade e a própria natureza da criação artística. Na minha percepção, muitas dessas produções soam “pasteurizadas”, tecnicamente competentes, mas muitas vezes carentes de alma, como se todas seguissem a mesma fórmula.
Apesar disso, entendo plenamente que artistas optem por esses recursos, especialmente diante das demandas do mercado atual. Acredito que esse é um caminho sem volta e que realidades distintas coexistirão.
Aliás, já vemos isso acontecer: enquanto uns abraçam a IA, outros buscam justamente o oposto, há um movimento de retorno a estúdios analógicos, com fitas de rolo, equipamentos valvulados e processos mais lentos e táteis, valorizando a imperfeição humana como parte essencial da arte. E talvez seja justamente nessa diversidade de caminhos que resida a riqueza da música contemporânea.
19) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?
Marco Antonio Bouquard: Para os artistas do interior assim como eu, gravar um álbum ainda é um grande desafio! Para produzir meus trabalhos vivenciei aventuras “homéricas”, para custear a produção dos CDs.
Lancei mão de “festivais de prêmios” (bingos), Financiamento coletivo (fui o primeiro artista da cidade a realizar esta iniciativa), shows com o intuito de angariar fundos, ofertar publicidade para empresas locais, além de outros percursos, tudo tendo em mente a vontade de ter um sonho materializado.
Com relação a diferenciação com relação ao nicho musical, busco apenas ser o mais sincero possível, compondo e tocando apenas aquilo que acredito de verdade, sem me importar com os modismos ou padrões estéticos em vigor no mundo do entretenimento.
20) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?
Marco Antonio Bouquard: O cenário musical independente no Brasil é rico. Há uma infinidade de artistas talentosos criando, produzindo e oferecendo trabalhos de grande qualidade, verdadeiras joias artísticas.
O grande desafio, porém, é a dificuldade desses projetos chegarem ao grande público. O artista independente tem pouco ou quase nenhum poder de escala, e o simples fato de postar canções em redes sociais ou plataformas de streaming não garante visibilidade nem alcance significativo.
Gostaria de destacar alguns nomes de amigos cujos trabalhos admiro profundamente pela consistência, autenticidade e coragem de seguir criando mesmo diante das adversidades: Reggaebelde, Gladson Morais, Beto do Aurino, Thadeu Camargo, Juçara Freire, Sérgio Salles Oigers, Emanuel Messias (Mariquito), Edson Leão, Sapin Manca, entre tantos outros artistas resistentes, cujo valor artístico merece muito mais reconhecimento.
Infelizmente, não me sinto à vontade para apontar quem “regrediu” ou fazer julgamentos definitivos sobre trajetórias alheias a arte é um caminho complexo, e cada artista tem seu tempo, suas escolhas e seus contextos. Prefiro celebrar aqueles que seguem firmes, com integridade e paixão pelo ofício, independentemente do tamanho do palco.
21) RM: Como é sua relação com artistas cover?
Marco Antonio Bouquard: Minha relação com artistas cover começou cedo e de forma intensa. Fui guitarrista da banda de Ayrton Ramos, um dos principais covers de Raul Seixas, com quem toquei por anos. Mesmo após sair do grupo, continuei fazendo participações pontuais em seus shows.
Foi uma experiência marcante: através dele, tive acesso a estruturas maiores de produção, tocando em exposições agropecuárias, festas municipais e eventos com públicos que variavam de 5 mil a 10 mil pessoas.
Percorri inúmeras cidades nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, subi em bons palcos, trabalhei com sonorização profissional e vivi momentos únicos como tocar ao lado de Rick Ferreira, guitarrista que acompanhou Raul Seixas, em três ocasiões, sendo uma delas no Teatro Rival, num show profundamente emocionante.
Por intermédio do Ayrton, também acompanhei artistas que interpretavam Renato Russo, Cazuza, Cássia Eller e outros, além de participar de encontros de motociclistas e eventos temáticos.
Claro, nem tudo foram flores: enfrentamos palcos com sonorização precária, shows em chão de terra batida, logística caótica. Mas foram experiências que me enriqueceram imensamente musicalmente e humanamente.
Principalmente por me reconectar, de forma viva e prática, ao universo de Raul Seixas, com quem sempre tive, desde a juventude, uma afinidade quase íntima tanto musical quanto mística.
22) RM: Qual sua relação com projetos de audiovisual?
Marco Antonio Bouquard: Sou apaixonado por cinema, e foi essa paixão que primeiro me aproximou do audiovisual. Com o tempo, essa afinidade se transformou em necessidade: precisei aprender a realizar minhas próprias ideias musicais em formato de videoclipes, performances gravadas e shows online.
Durante a pandemia, dediquei-me intensamente ao desenvolvimento de habilidades em fotografia, roteiro, edição de vídeo e direção, muitas vezes de forma autodidata. Essa jornada também esteve ligada ao trabalho com minha esposa, Mayara Bouquard, nutricionista e ativista cultural, para quem editei vídeos e curtas-metragens.
Meus próprios clipes e registros de shows são fruto desse envolvimento direto com a direção audiovisual. Neles, busco contar histórias a minha, a da minha cidade e a das pessoas que me cercam, usando como cenário as paisagens, os rostos, os pontos turísticos e os cantos esquecidos de Além Paraíba (MG), muitos dos quais nem mesmo moradores da região conhecem.
Há, portanto, uma intenção clara de preservar a memória e o patrimônio material e imaterial da minha terra. Para mim, o audiovisual não é só suporte da música: é ferramenta de afeto, resistência e pertencimento.
23) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?
Marco Antonio Bouquard: Dentre os artistas amplamente reconhecidos pelo público, cito com grande admiração Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Chico Buarque. Em minha visão, esses nomes representam não apenas genialidade musical, mas também um compromisso raro com a coerência artística e ética ao longo de décadas.
Eles souberam equilibrar inovação e tradição, resistência e diálogo com seu tempo, sempre mantendo altíssimo padrão estético mesmo diante de contextos políticos, sociais e tecnológicos em constante transformação. Além disso, demonstram um profundo respeito pelo ofício: cuidam da obra, honram suas raízes e, ao mesmo tempo, seguem abertos à experimentação.
Para mim, são referências não só de talento, mas de integridade artistas cuja trajetória prova que é possível ser popular sem renunciar à profundidade, e relevante sem perder a humanidade.
24) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?
Marco Antonio Bouquard: São mais de vinte anos de estrada, atuando em bares, bailes, festas populares e muito rock and roll e posso dizer com certeza: já vivi quase tudo. Já toquei em todos os tipos de lugares imagináveis: casamentos, aniversários, bodas, boates, botecos, praças, ruas, calçadas, padarias, palcos grandes… e até em velório! Aqui na minha região, só me falta tocar em casa de tolerância!
Já levei calote, toquei para plateias vazias, aguentei bêbados caídos em cima do violão, ouvi “vai!” ecoar no meio de uma balada lenta e recebi, incontáveis vezes, o clássico pedido: “Toca uma música mais animada!” .
Mas também vivi momentos lindos: vi gente se emocionar, dançar, chorar de alegria, se apaixonar ao som de uma canção.
Uma das histórias mais marcantes foi quando saí correndo de um show após fazer um discurso sobre a falta de respeito com músicos e artistas em um encontro de motociclistas. Foi tenso, mas necessário.
Também já fiz Réveillons, shows de Natal, carnavais, blocos de rua, bailes do sereno… e viajei na boleia de caminhão para chegar a alguns desses compromissos.
No lançamento do meu primeiro CD, fiz uma apresentação linda, cheia de significado e, logo em seguida, subi num carro rumo a um show bem tosco, num lugar estranho, sem nenhum glamour, numa estrada de chão batido, bem longe de tudo. Nunca tive medo de público nem de gente, e sempre segui tocando o que gosto e acredito, mesmo quando o cenário não era dos mais favoráveis.
Hoje, porém, meu ritmo de apresentações desacelerou drasticamente. Busco tocar em espaços onde sinta que há empatia com meu trabalho e uma escuta atenta. Prefiro privilegiar a troca de experiências, a intimidade com a música e a conexão genuína com quem está ali não apenas como plateia, mas como parte viva do momento.
25) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?
Marco Antonio Bouquard: O que me deixa mais feliz são as experiências boas que vivi, as pessoas e lugares que conheci. Quando existe a possibilidade de tocar as pessoas através de canções as conexões e vínculos são muito marcantes! O triste é quando existe a falta de respeito e a indiferença com nosso trabalho.
26) RM: Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?
Marco Antonio Bouquard: Além Paraíba (MG) é uma cidade muito pequena, situada bem no interior do estado. Por isso, não existe propriamente uma “cena musical” organizada. Raramente surge alguém com coragem ou loucura, como costumo dizer de produzir um trabalho autoral.
Há, sim, pessoas criativas, mas que trabalham de forma bastante isolada. Muitas sequer chegam a apresentar seus trabalhos ao público. O que observo é que, em geral, são artistas de gerações mais antigas, que mantêm viva uma chama silenciosa. Entre os mais jovens, já vi alguns se envolverem com hip hop, por exemplo, mas o sistema é cruel: chega a fase adulta, os boletos apertam, as responsabilidades aumentam, e muitos acabam abandonando esse caminho.
Ainda assim, vejo resistências. Existem folias de Reis, poetas, pintores, músicos de terreiro e de quintal, gente que cria mesmo sem palco, sem visibilidade, muitas vezes apenas para si. Infelizmente, tudo isso acontece de forma muito tímida, quase invisível.
Nunca foi fácil ser artista por aqui, mas hoje, em tempos de redes sociais e rolagem infinita de feed, sinto que há ainda menos espaço para essas vozes locais. A pressa do mundo digital parece sufocar justamente aquilo que nasce devagar, em silêncio e com raiz.
27) RM: Quais os músicos, bandas da cidade que você mora, que você indica como uma boa opção?
Marco Antonio Bouquard: Maria Elisa, uma grande intérprete e compositora.
28) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?
Marco Antonio Bouquard: Nas rádios locais, minhas músicas já chegam a tocar e isso se deve, em grande parte, ao apoio dos radialistas do interior. Sempre que levo um lançamento, eles costumam dar uma força. Inclusive, há programas locais com quadros específicos dedicados ao “som da terra”, que de vez em quando incluem nossos trabalhos na programação.
Porém, para uma execução consistente e recorrente especialmente em emissoras de maior alcance, infelizmente, sim: é necessário o pagamento do chamado jabá. Isso porque, na prática, esses espaços são tratados como publicidade comercial, e o tempo de antena acaba sendo negociado como tal.
Curiosamente, muitas rádios do interior seguem os mesmos padrões das grandes emissoras: reproduzem o que está tocando nas capitais, como se houvesse um único gosto possível. A diferença é que as grandes recebem jabá sistematicamente, enquanto as pequenas, não.
E aí surge uma contradição: por não dependerem financeiramente desse esquema, poderiam ter mais autonomia em suas programações, mas, na maioria das vezes, optam por repetir o que consideram “novidade” ou o que imaginam ser “o que o povo quer ouvir”.
Já nas rádios de grande expressão, o jabá é uma prática estruturada e difícil de contornar. Não dá para negar sua existência nem seu peso na decisão do que vai ao ar.
Hoje em dia, aliás, o jabá no rádio é quase análogo aos impulsionamentos em plataformas de streaming e redes sociais: quanto mais você investe, mais pessoas seu trabalho alcança.
Ainda acredito que o rádio mantém certo poder especialmente em nichos regionais e entre públicos específicos, mas o foco estratégico do mercado musical claramente migrou para os algoritmos e os investimentos digitais. O rádio resiste, mas já não é o principal canal de descoberta que um dia foi.
Esse seria meu entendimento e visão pessoal sobre essa pauta.
29) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?
Marco Antonio Bouquard: Às vezes não somos nós que escolhemos a música ou a arte, elas é que nos escolhem. E, a partir desse encontro, cada um vai naturalmente seguindo seu caminho e encontrando seu lugar no mundo.
Acredito que o estudo técnico é fundamental, assim como desenvolver um sólido arcabouço cultural. Mas tão importante quanto isso é ser sincero consigo mesmo, saber se relacionar com as pessoas e cultivar boas amizades, porque, na arte, quase nada se faz sozinho.
Se eu pudesse encontrar o Marco Antônio de vinte anos atrás, diria: “Seja mais leve. Faça, de verdade, aquilo em que acredita, aquilo que te dá prazer na música. Porque temos muito pouco ou quase nenhum controle sobre os resultados. O que realmente está ao nosso alcance é o nosso fazer artístico: compor, ensaiar, produzir, tocar. Tudo o mais é incerto, difícil, cheio de luta. Então, faça por amor, e encontre prazer no próprio processo.”
E aqui vai uma opinião talvez polêmica, mas honesta: se você tem um viés mais artístico e criativo, considere ter outra fonte de renda além da música. Ter outra atividade que garanta alguma estabilidade pode ser libertador.
A criação de uma obra autêntica exige liberdade e essa liberdade muitas vezes só existe quando você não depende exclusivamente do mercado para sobreviver. Quando não precisa moldar sua arte apenas para atender demandas comerciais, você pode ouvir melhor a si mesmo… e à música que só você pode fazer.
30) RM: Quais os prós e contras do Festival de Música?
Marco Antonio Bouquard: Gosto muito de Festivais de Música, sabia? Sempre sinto aquele frio na barriga ao subir no palco, conhecer pessoas e lugares, além de ser uma ótima oportunidade para fazer novos contatos.
Minha esposa Mayara Bouquard produziu esse ano o 1º Festival de Voz e Violão de Além Paraíba e tive a oportunidade de trabalhar na produção artística do evento, foi uma experiência muito rica principalmente no sentido de conhecer o trabalho de artistas independentes e cultivar novas amizades. O lado ruim é o modelo de competição, sinceramente creio que todos que participam são vencedores!
31) RM: Festivais de Música ainda revelam novos talentos?
Marco Antonio Bouquard: Sinceramente creio que não, não percebo que os grandes meios de comunicação abram espaço para revelar novos talentos de artistas que tem expressão em Festivais de Música. Porém é uma ótima oportunidade do artista apresentar a sua canção para o público e criar vínculos, além de ter a oportunidade de desenvolver material / portfólio e fazer network!
32) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?
Marco Antonio Bouquard: Creio que a grande mídia não cobre a “cena musical brasileira”. O artista acaba de uma forma geral sendo “obrigado” a custear o processo de distribuição de seu trabalho, seja através jabás ou planos de marketing com orçamentos robustos, talvez desta forma possa alcançar um público significativo e atrair a atenção da grande mídia.
Agora acredito no trabalho de formiguinha, que através de um fenômeno espontâneo esse artista caia nas graças do povo e venha despertar desta forma a atenção da grande mídia; creio que esse contexto é exceção no meio da regra.
33) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?
Marco Antonio Bouquard: Conheço pouco esse circuito na prática, pois aqui no interior temos acesso muito limitado a essas instituições. Mesmo assim, sempre procuro me inscrever em editais como os do Itaú Cultural, por meio da internet, na esperança de integrar esses espaços.
Percebo que há uma curadoria bastante específica por trás das programações dessas instituições, alinhada a diretrizes artísticas, temáticas ou regionais. Para artistas já consagrados, imagino que o acesso seja mais fluido, seja pelo reconhecimento prévio ou pela facilidade de contato direto com programadores e curadores.
Já para artistas independentes de regiões periféricas, como eu, o caminho costuma ser mais distante e burocrático, muitas vezes dependente exclusivamente de editais ou de indicações. Ainda assim, reconheço o valor dessas instituições como importantes fomentadoras da cultura brasileira, e sigo tentando me aproximar delas da melhor forma possível.
34) RM: O circuito de Bar ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?
Marco Antonio Bouquard: Pela minha experiência, acredito que tocar em bares é uma forma válida e até necessária de ganhar experiência e complementar a renda, mesmo que de maneira modesta.
É fundamental, porém, ter clareza sobre o contexto: na maioria das vezes, as pessoas não estão ali para assistir ao seu show. O foco delas é conversar, tomar uma cerveja gelada e comer um tira-gosto. Quando entendemos essa função social do bar, as coisas ficam mais leves, como diz um amigo meu: “dói menos”.
Assim como os bailes, acredito que essa fase de atuação em bares seja quase um “estágio” essencial na formação do músico e do artista. É nesses ambientes que se aprende humildade, disciplina, a lidar com plateias indiferentes ou hostis, a negociar com contratantes e, muitas vezes, a carregar e operar o próprio equipamento. No meu caso, sempre levei tudo do violão à caixa de som, o que me fez desenvolver autonomia técnica, especialmente em sonorização e operação de áudio.
Dito isso, acredito que essa deve ser uma fase transitória. Como ouvi de um amigo recentemente: “Chega uma hora em que esse tipo de contexto já não te soma mais, e é preciso abrir novos horizontes.” Claro, há quem escolha seguir nesse caminho por toda a vida e, se for uma escolha consciente e alinhada com seus desejos, tudo bem. Respeito totalmente.
Contudo, é importante notar que, na minha região, esse circuito vem encolhendo. Há cada vez menos bailes com bandas ao vivo e menos bares que oferecem espaço para música autoral ou diversificada. Predomina uma demanda quase monocultural por sertanejo contemporâneo, com pouco ou nenhum espaço para outros gêneros. Isso restringe ainda mais as possibilidades para artistas que buscam explorar repertórios diversos ou linguagens próprias.
Por isso, embora o bar tenha sido e ainda seja, para muitos uma porta de entrada, ele não pode ser visto como único destino. O desafio hoje é construir outros caminhos, mesmo que mais lentos, onde a música possa ser ouvida de verdade.
35) RM: Como você se define como violeiro?
Marco Antonio Bouquard: Não me considero um violeiro no sentido tradicional ou técnico do termo, mas sim um instrumentista com afinidade por instrumentos de cordas.
Toco viola, sim, porém minha maior intimidade está com o violão (tanto de nylon quanto de aço) e a guitarra elétrica. Também toco contrabaixo e ukulelê, explorando cada instrumento conforme as necessidades da música e da expressão que desejo alcançar.
Meu primeiro contato mais intencional com a Viola surgiu da vontade de participar do Festival de Viola de Piacatuba, distrito de Leopoldina (MG), um evento muito expressivo na nossa região. Foi esse festival que me acendeu o desejo de tocar o instrumento.
Minha estreia foi com a canção “Máquina Gigante”, do meu primeiro álbum, originalmente gravada com violão de nylon. Para a ocasião, adaptei a música para um violão de 12 cordas, afinando o último par de cordas (o bordão) em Ré (D). Em outra edição do Festival, participei com a canção “Além de um Mar”, dessa vez tocando Viola afinada em Rio Abaixo (Sol–Ré–Sol–Si–Ré).
Logo depois, junto a pessoas queridas, montei o projeto “Bouquard & Rural Band”, no qual toco Viola, interpretando tanto canções autorais quanto versões acústicas elaboradas de clássicos do rock.
36) RM: Quais afinações você usa na Viola?
Marco Antonio Bouquard: Costumo usar a afinação Rio Abaixo, cujas notas da corda mais grave para a mais aguda são: Sol (G), Ré (D), Sol (G), Si (B), Ré (D).
Essa afinação dialoga bem com minhas referências musicais, especialmente no folk, blues e rock, e se encaixa de forma natural na minha abordagem rítmica e harmônica.
37) RM: Quais as principais técnicas o violeiro tem que conhecer?
Marco Antonio Bouquard: Entendo que, no sentido mais profundo, ser violeiro vai além da técnica é quase um estilo de vida, assim como são os bluesmen no universo do blues: figuras que carregam consigo uma tradição, uma postura e uma relação íntima com o instrumento.
Mas, do ponto de vista técnico, é fundamental desenvolver uma boa digitação, um fraseado expressivo e uma sólida noção rítmica, especialmente nas levadas típicas da música brasileira, como moda de viola, sertanejo raiz, cateretê, entre outras.
Além disso, é essencial ter repertório, domínio do ponteado e muita limpeza na execução, tanto na melodia quanto na harmonia. Afinal, a viola exige precisão, sensibilidade e escuta atenta, qualidades que se afinam com o tempo, com o estudo e com a vivência.
38) RM: Quais os violeiros que você admira?
Marco Antonio Bouquard: Tenho poucas referências diretas de violeiros, mas quando penso na Viola, logo me vem à mente “Luzeiro”, de Almir Sater uma canção que representa, para mim, uma grande referência estética e emocional.
Além de Almir Sater, carrego na memória ecos da Viola que ouvi desde criança ao acompanhar as Folias de Reis em Além Paraíba (MG). Também me marcam as levadas de Pena Branca e Xavantinho, o universo sonoro de Tião Carreiro e aquelas aberturas típicas de programas caipiras ligados à vida rural, muitas vezes transmitidos por rádios locais.
Não sou um especialista no gênero, mas essa sonoridade da música caipira, sertaneja de raiz e das tradições populares sempre esteve presente na minha formação musical, mesmo que de forma indireta. É uma linguagem que me toca pela simplicidade, profundidade e conexão com o chão e com a história do interior do Brasil.
39) RM: Como você analisa o cenário da Música Sertaneja. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?
Marco Antonio Bouquard: É uma pergunta complexa, principalmente por causa da própria ambiguidade do termo “sertanejo”. Ele evoca múltiplos sentidos: por um lado, remete à música feita com temáticas do campo, da vida simples, das pessoas do interior; por outro, traz à mente um “Brasil profundo” aquele que ressoa no som renascentista de Elomar, nos violeiros nordestinos, nas raízes rurais e espirituais da nossa cultura.
Nesse universo, tenho grandes referências, como Renato Teixeira e Almir Sater artistas cuja obra une poesia, identidade regional e profundidade musical. São, para mim, pilares de uma tradição sertaneja autêntica e artística.
Inclusive durante alguns meses fiz um trabalho pautado em covers de Renato Teixeira e Almir Sater, ‘defendendo um cachê’ me apresentando em um hotel fazenda chique da região de Além Paraíba (MG), chegava até mesmo a me caracterizar, porém começaram a solicitar sertanejo contemporâneo no repertorio, ai a coisa desandou…
Há também a geração dos anos 1990: Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano cuja música dialoga fortemente com o country americano e a pop music, mas ainda carrega elementos melódicos e narrativos ligados ao imaginário rural brasileiro.
Já o chamado “sertanejo universitário”, predominante nas últimas décadas, me soa mais como música pop contemporânea: com produções enxutas, batidas eletrônicas e letras centradas em relacionamentos efêmeros, festas e consumo. Musicalmente, pouco tem a ver com as raízes do sertanejo tradicional embora use o rótulo por conveniência de mercado.
Acredito firmemente que o mundo é livre para todos se expressarem, e todo trabalho feito com honestidade merece respeito e dignidade.
O que me incomoda, porém, é a monocultura dominante no cenário musical brasileiro atual como se só existisse espaço para um único tipo de som, uma única narrativa, um único modo de fazer arte. Isso ofusca outras vozes, outros gêneros, outras formas legítimas de expressão.
É difícil apontar com exatidão, pois a Música Sertaneja contemporâneo atingiu tamanha hegemonia. Talvez seja porque realmente toca algo profundo no imaginário popular, tanto na sonoridade quanto nas mensagens. Ou talvez seja fruto de um poderoso aparato de investimento: presença massiva em mídias, rádios, plataformas de streaming e redes sociais.
Sinceramente, hoje mantenho-me alheio a essa lógica. Prefiro seguir ouvindo e criando aquilo com que realmente me identifico, aquilo em que acredito. E nisso encontro sentido, beleza e liberdade.
40) RM: Quais os vícios técnicos o violeiro deve evitar?
Marco Antonio Bouquard: O maior “vício” não é técnico, mas afetivo: deixar de ser feliz com seu instrumento, perder a sinceridade e a verdade na relação com a música. Quando há amor pelo que se faz, os aspectos técnicos — como digitação, articulação da mão direita, precisão rítmica — tendem a se aprimorar naturalmente com o tempo, a dedicação e a escuta atenta. A técnica se constrói, mas a autenticidade precisa estar presente desde o primeiro acorde.
41) RM: Quais os erros no ensino da Viola?
Marco Antonio Bouquard: Assim como em qualquer instrumento, um dos principais equívocos é negligenciar a vivência do aluno, suas referências, sua história, seus desejos e motivações. Existem diversos caminhos e escolas na tradição da viola, mas todos deveriam ter como foco central aquilo que a pessoa busca ao se aproximar do instrumento.
Ao mesmo tempo, é essencial respeitar o papel do mestre, que carrega suas próprias referências, saberes e uma visão do que se pode alcançar musicalmente. Há, nessa relação, algo quase orgânico: como diz o ditado, “quando o aluno está pronto, o mestre aparece”.
Nesse sentido, os “erros” são menos importantes do que parecem afinal, fazem parte do processo de aprendizado. O que realmente conta é a escuta mútua, a troca e a intenção verdadeira de ambos: tocar com alma, crescer com humildade e manter viva a tradição, não como museu, mas como caminho vivo.
42) RM: Tocar muitas notas por compasso ajuda ou prejudica a musicalidade?
Marco Antonio Bouquard: A velocidade impressiona, há um espetáculo nisso, e muitas pessoas se encantam ao assistir a uma performance técnica e ágil. Mas, quando o assunto é música de verdade, o que realmente importa é o som, a intenção, a verdade e a musicalidade.
Música não é uma corrida de Fórmula 1, nem uma prova de 100 metros rasos. Não se trata de quem chega primeiro ou de quem toca mais rápido, mas de quem consegue tocar com alma, silêncio, fraseado e escuta. Às vezes, menos notas dizem muito mais.
43) RM: Qual a sua definição de Improvisação?
Marco Antonio Bouquard: Improvisar é tocar o próprio vocabulário musical em um espaço livre, trazendo à tona a própria vivência, referências e linguagem para servir à música que está sendo feita no momento, não como exibição, mas como entrega.
44) RM: Existe improvisação de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?
Marco Antonio Bouquard: Muitas vezes, o que chamamos de improvisação acaba sendo a aplicação de frases, escalas ou padrões previamente ensaiados ou memorizados o que, por si só, não é errado, mas pode limitar a verdadeira essência do improviso. Quando isso acontece, corremos o risco de deixar de lado a liberdade, o erro, o risco e a singularidade do instrumentista no momento da execução.
Dito isso, acredito sim que existem momentos de improvisação genuína, aqueles em que o músico se entrega ao instante, sem roteiro, sem segurança total, e simplesmente responde ao que sente, ao que ouve e ao que o momento pede. É nesses instantes que a magia da improvisação realmente acontece.
45) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?
Marco Antonio Bouquard: Os métodos de improvisação têm um grande mérito: oferecem ferramentas. Escalas, sequências rítmicas, padrões harmônicos, frases-modelo, tudo isso pode ampliar o vocabulário do músico e dar segurança nos primeiros passos. Para quem está começando, esses caminhos estruturados podem ser portas de entrada importantes.
O risco surge quando o método se torna uma gaiola. Quando o músico passa a reproduzir fórmulas decoradas sem ouvir o que está acontecendo ao seu redor, sem se conectar com a emoção do momento, com os outros músicos ou com sua própria voz interior. Aí, a improvisação deixa de ser espontânea e vira mero exercício técnico, repetitivo e despersonalizado.
Na minha visão, a verdadeira improvisação nasce da escuta, da coragem de errar e da vivência musical acumulada, não apenas do estudo isolado, mas da experiência em tocar com outros, em sentir a música circular. Os métodos podem preparar o terreno, mas a magia só acontece quando há liberdade, sinceridade e presença.
Por isso, acredito nos métodos como referência, nunca como regra. E sempre lembro: o mais importante não é o que você sabe tocar, mas o que você tem a dizer.
46) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?
Marco Antonio Bouquard: O estudo da harmonia é fundamental: dá estrutura, amplia possibilidades criativas e facilita o diálogo musical. Os métodos ajudam a nomear o que antes era só intuição.
O perigo está quando viram dogma, quando regras substituem a escuta e a emoção. Na minha visão, harmonia deve ser ferramenta de liberdade, não prisão. Estudo as regras para saber, com consciência, quando e por que quebrá-las. Afinal, o que importa não é a teoria dominada, mas a verdade que o acorde expressa.
47) RM: Quais os seus projetos futuros?
Marco Antonio Bouquard: Tenho alguns projetos em foco para o curto e médio prazo. Em breve, pretendo lançar o single “Carijó: A Lenda de Adelaide”, uma canção que conta a história de luta de uma figura histórica e folclórica de Além Paraíba (MG).
Logo em seguida, quero finalizar e lançar o álbum Bouquard Rock. Ao longo dos últimos tempos, venho divulgando singles desse trabalho todos disponíveis no meu site, assim que a produção estiver concluída, o álbum será disponibilizado na íntegra em todas as plataformas de streaming, redes sociais e no meu site oficial.
Além disso, meu maior projeto é seguir vivendo a música com alegria e leveza: compondo, criando sons, contando histórias e tocando para quem demonstra interesse genuíno pela minha obra. Quero continuar construindo minha trajetória artística com integridade, prazer e presença porque, no fim das contas, é isso que me faz feliz: o fazer musical como forma de conexão, expressão e celebração da vida.
48) RM: Quais seus contatos?
Marco Anonio Bouquard: (32) 99137 – 8884 | https://www.marcoantoniobouquard.com
| https://www.instagram.com/marcoantoniobouquard | https://www.facebook.com/marcobouquard
Canal: https://www.youtube.com/channel/UCDypqumaPSOWbA5hrMkz64Q
VIDEOCLIPES, SHOWS E PROJETOS: https://www.marcoantoniobouquard.com/v%C3%ADdeos
Primeiro Álbum: https://sl.onerpm.com/7870661782?_ga=2.45436388.1924969062.1591674622-1271600820.1591674622
Tangram: https://sl.onerpm.com/8593778386?_ga=2.96356380.1466631784.1597957574-1520197399.1597957574
Filhos da Mata: https://onerpm.link/182202585037
Violeiro da Mata Mineira – Marco Antonio Bouquard: https://www.youtube.com/watch?v=MDcs4nofGm4
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