Angelim
O violeiro, cantor e compositor mineiro Angelim dedica-se ao estudo da viola brasileira e da afinação Rio Abaixo.
É autor do livro Uma Viola Rio Abaixo, lançado em fevereiro de 2014 pela Editora Thesaurus, um importante material didático sobre a afinação Rio Abaixo, uma das mais belas afinações da viola brasileira.
Vencedor do Prêmio Rozini de Excelência da Viola Caipira 2013, como melhor site, através de seu trabalho no Sítio do Angelim (www.sitiodoangelim.com.br).
Segue abaixo entrevista exclusiva com Angelim para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em
01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?
Angelim: Nasci no dia 14/11/1968 em Itajubá, no sul de Minas Gerais. Registrado como Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho. Meu nome artístico Angelim é uma homenagem a minha avó Angelina que teve uma enorme importância na minha vida. Ela faleceu em 1981 quando eu tinha 13 anos.
02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.
Angelim: Minha paixão pela música vem desde criança. Lembro que eu era muito fã de filmes de faroeste e depois de um tempo percebi que uma das coisas que eu mais gostava nos filmes eram as músicas. Tanto que Ennio Morricone é um dos meus grandes ídolos até hoje. Com o tempo outros estilos foram chegando, fui conhecendo outros músicos e compondo a trilha sonora da minha vida.
03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?
Angelim: Eu não sou formado em música. Estudei com alguns excelentes mestres, mas nunca fiz um curso de formação. Meu primeiro professor se chamava Bastos, em Belém do Pará. Aprendi Violão com ele de uma maneira incrível. Ele tinha um método próprio, com uma didática inventada por ele mesmo. Era sensacional.
Na Viola tive o privilégio de ter aulas com o Valdir Verona, em Caxias do Sul, e com o Marcos Mesquita, em Brasília. São dois grandes mestres da Viola, tanto como instrumentistas, quanto como professores.
Fora da área musical eu fiz faculdade de Informática, mas me afastei da área com o tempo e trabalhei muitos anos no setor de Telecomunicações e Tecnologia, principalmente na área comercial.
04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?
Angelim: As músicas caipira, regional e MPB têm grande influência. As violas de Almir Sater, Paulo Freire, Ivan Vilela, Fernando Deghi e Sidnei de Oliveira foram as que mais me marcaram. Nenhuma influência deixou de ter importância. Até o rock que ouvi muito na minha juventude e ainda ouço. Todos os estilos que passam deixam um pouco deles com a gente.
05) RM: Você já tem algum álbum lançado?
Angelim: Eu estou trabalhando na produção do meu primeiro álbum. A maioria das músicas são autorais, muitas delas escritas com um parceiro de Fernandópolis/SP. Estou fazendo esse trabalho procurando aproveitar cada etapa do processo. Ainda mais por ser o primeiro. O principal é refletir o que a música significa pra mim. Tem sido uma jornada muito bacana.
06) RM: Será um álbum instrumental?
Angelim: Não. São músicas com viola e voz. Cantoria mesmo. Música regional brasileira. Eu compus vários instrumentais, mas ainda tem muito o que ser trabalhado em cada um deles e os instrumentais exigem um tempo e uma dedicação que no momento não consigo ter. Por isso esse será um segundo álbum.
07) RM: Como você se define como Violeiro?
Angelim: Um tocador de Viola. Simplesmente alguém que gosta de sentar, pegar a Viola e tocar. Nada mais. Viola pra mim é simplicidade, é uma viagem pelo interior, é uma conexão com o simples, é um instante de paz. O dia que eu perder isso, a Viola perde o sentido pra mim.
08) RM: Quais afinações você usa na Viola?
Angelim: Eu toco viola na afinação Rio Abaixo em Sol (Ré, Si, Sol, Ré, Lá). Comecei, como a maioria dos violeiros, na afinação Cebolão em Ré (D, A, F#, D, A) e em Mi (E, B, G#, E, B). Mas quando descobri a afinação Rio Abaixo não deixei mais. É um som encorpado. Lindo demais. Que cativa muito quando a gente descobre. Já faz muito tempo que só toco em Rio Abaixo.
09) RM: Quais as principais técnicas o violeiro tem que conhecer?
Angelim: Quanto mais o músico estuda, mais ele tem condições de tirar do instrumento aquilo que ele gostaria. Independentemente do tipo de música que se queira tocar. Mão direita, mão esquerda, escalas, acordes, tudo, lá na frente, vai fazer a diferença, ou vai fazer falta.
10) RM: Quais os violeiros que você admira?
Angelim: A lista é muito grande e certamente vou acabar esquecendo alguns músicos. Almir Sater, Tavinho Moura, Paulo Freire, Ivan Vilela, Fernando Deghi, Sidnei de Oliveira, Valdir Verona, Marcos Mesquita, Chico Lobo, Pereira da Viola, Roberto Corrêa e, como não poderia faltar, Tião Carreiro.
11) RM: Como é seu processo de compor?
Angelim: Eu tenho que me isolar do mundo. Se tiver ruído, gente falando do lado, carro da pamonha passando, ou qualquer outra distração, eu paro. Preciso estar totalmente imerso e concentrado no que estou fazendo. Eu vou estudando, tocando, brincando com acordes e escalas, trabalhando as poesias que recebo, e, de repente, aparece algum tema, alguma coisa que me desperta e eu começo a trabalhar com mais detalhes. Eu não forço nada. Quando eu sinto que encaixou eu continuo.
12) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?
Angelim: Pra maioria dos artistas independentes tudo é mais lento. Você vai se capitalizando e produzindo. É a história do cobertor curto. Sem aporte financeiro externo é sempre mais difícil. Mas em contrapartida você tem uma independência total. Seu trabalho sai 100% com a sua cara e a sua alma. Isso tem um valor enorme.
13) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de uma carreira musical?
Angelim: A internet só ajuda. Graças a ela, qualquer músico hoje consegue lançar seus trabalhos em plataformas dos mais diversos tipos e se mostrar para o mundo. Antes os músicos eram totalmente reféns. Se eles chegassem na hora errada, pois o mercado acreditava que outro estilo deveria ser trabalhado, eles ficavam de fora. Hoje isso não existe mais, graças a internet.
14) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?
Angelim: Eu não consigo ver desvantagem em um home estúdio. O músico pode até achar que algumas vezes precisa procurar um estúdio com melhores recursos, mas dá pra fazer muito em casa. Veja quantos trabalhos de alto nível foram feitos em casa, na época da pandemia. O projeto “The Lockdown Sessions”, do Roger Waters, por exemplo, foi todo gravado em home estúdio. Ficou excepcional. Lógico que os equipamentos dele são infinitamente melhores do que os meus. Mas, mesmo assim, dá pra se fazer muita coisa bacana. O ótimo é inimigo do bom e muita gente perde boas oportunidades por não entender isso.
15) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar o CD não é mais o grande obstáculo. Mas a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?
Angelim: Eu não consigo enxergar outros músicos como concorrentes. Trabalhar com cultura é um desafio sem fim. Independentemente da área. O maior desafio pra qualquer um é encontrar quem apoie um projeto cultural, ou então quem valorize o músico da cidade, por exemplo. Tem espaço pra todos. Ações simples mudariam muito a situação da cultura no país.
16) RM: Como surgiu a ideia do seu site: Sítio do Angelim?
Angelim: O Sítio do Angelim (www.sitiodoangelim.com.br) surgiu inicialmente como um blog, o Blog do Angelim. No final de 2005 eu havia saído de Minas Gerais e no ano seguinte procurei uma forma de escrever minha saudade. Pouco depois, resolvi criar um site onde os violeiros que estavam começando pudessem encontrar material de referência.
Eu sofri muito no começo da minha jornada com a viola, tentando achar informações e material de estudo. Era uma dificuldade sem fim. Tudo fragmentado. Por isso, motivado pela dificuldade que eu mesmo tinha, resolvi criar um site, pra servir de apoio para violeiros como eu. Esse ano o Sítio do Angelim completará 18 anos que está no ar.
17) RM: Como o site Sítio do Angelim é atualizado e de onde você tira as ideias de conteúdo?
Angelim: Quem faz todo o trabalho de criação sou eu mesmo, mas boa parte do que está lá foram os próprios violeiros que me pediram. “Por que você não coloca isso, ou aquilo”, etc., e com as ideias que chegavam eu ia aumentando o conteúdo. Corria atrás das informações, pesquisava em todo lugar e colocava no site. Tanto que em 2013 foi muito gratificante, pois por meio de uma votação online o Sítio do Angelim ganhou o Prêmio Rozini de Excelência da Viola Caipira, na categoria de melhor site. Devo muito a cada um dos violeiros que passaram e que ainda passam por lá e me ajudaram.
18) RM: Conte sobre a ideia de escrever seu livro “Uma Viola Rio Abaixo”?
Angelim: Não. A ideia do livro surgiu em 2012. Posso dizer que as motivações são parecidas, pois era muito difícil achar material de estudo na afinação Rio Abaixo. Naquele momento só existia um livro específico sobre essa afinação. Por isso resolvi contribuir de alguma forma e tentar servir de inspiração para que outros violeiros fizessem o mesmo e resolvessem compartilhar o conhecimento que tinham. O livro “Uma Viola Rio Abaixo” foi lançado em 2014 e até hoje recebo mensagens de pessoas me dizendo que compraram o livro e que o material tem ajudado no estudo da afinação Rio Abaixo. Isso não tem preço.
19) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?
Angelim: O que mais me entristece é ver que alguns músicos criam uma competição sem sentido. Umas situações que realmente não consigo entender. Trabalhar com arte já é tão difícil sem nada disso. Já o que me alegra é justamente o contrário. É o apoio, o incentivo, a ajuda, que chegam sempre de onde menos se espera.
20) RM: Quais os outros instrumentos musicais que você toca?
Angelim: Toco Violão e tenho me aventurado no charango.
21) RM: Quais os vícios técnicos o violeiro deve evitar?
Angelim: Eu acho difícil pensar em violeiro que não tenha algum tipo de vício. Pra mim o importante é o violeiro tocar da maneira que se sinta mais confortável, logicamente desde que consiga executar os movimentos que precisa e que o vício não gere nenhum tipo de lesão. Se não tiver esse problema, pode tocar sem medo e sem deixar que isso vire uma preocupação exagerada.
22) RM: Tocar muitas notas por compasso ajuda ou prejudica a musicalidade?
Angelim: O principal é o sentimento que o músico passa. Existem violeiros muito virtuosos que tocam muitas notas por compasso e, ainda assim, tocam a alma da gente. Mas também a gente vê alguns que tem uma técnica apuradíssima, mas que tocam uma viola fria, sem sentimento nenhum. Toque quantas notas quiser, mas não tire o sentimento do compasso.
23) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?
Angelim: Siga seu coração. Só não se esqueça que nada na vida é fácil. Não espere que algo caia do céu. A ajuda pode até vir lá de cima, mas desde que você dê o primeiro passo e persevere. Quando a gente faz o que ama, tudo vale a pena.
24) RM: Existe o Dom musical? Qual a sua definição de Dom musical?
Angelim: Com certeza existe o dom. Mas é aquela história, não se pode, mesmo quem nasce com um dom, contar só com isso. Só com o estudo da teoria e das técnicas de execução do instrumento, o músico vai fazer 100% do que poderia. Caso contrário, o trabalho dele pode ficar maravilhoso, por conta do dom, mas jamais será sublime, pois vai faltar a dose de conhecimento que precisaria para chegar lá.
25) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro?
Angelim: Acho muito ruim a cobertura feita pela grande mídia do cenário musical brasileiro. Pobre mesmo. A grande mídia está mais interessada no que vende e quase nunca no que é bom. Foi-se a época em que se buscava músicos com talento. Hoje se procura qualquer outra coisa. Às vezes me assusto com o que assisto na grande mídia.
26) RM: Qual a importância de espaços como SESC, Itaú Cultural, Caixa Cultural, Banco do Brasil Cultural para a música brasileira?
Angelim: São fundamentais não só pra música, mas pra arte de maneira geral. Muitos músicos conseguem levar seus trabalhos a vários locais do Brasil graças a esses espaços e aos convênios que eles fazem. Valorizo demais cada um deles. Poderiam inspirar outras instituições a fazer o mesmo. A cultura precisa e agradece.
27) RM: Quais os seus projetos futuros?
Angelim: Primeiro preciso concluir meu álbum. Ainda tenho um bom chão pra percorrer, mas essa é minha prioridade atualmente. Depois disso, retomei um projeto de um documentário. Acredito ser um projeto diferente e que terá muito pra agregar no mundo da viola. E ainda tem o álbum instrumental, mas esse é pra depois. Tudo tem o seu tempo.
28) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?
Angelim: [email protected] | www.instagram.com/angelimvioleiro | www.sitiodoangelim.com.br
Canal: https://www.youtube.com/c/angelimvioleiro
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