Déa Trancoso
Déa Trancoso atua como artista, pesquisadora, professora e coordenadora de projetos/programas que conectam Arte e Educação, Filosofia, Literatura e Ciências Divinatórias Antigas.
Possui experiência docente em Artes da Existência, Artes da Presença, Artes do Corpo e Artes da Voz, Metodologias, Cartografias e Atividades Emancipatórias de Pesquisa, Língua Portuguesa e Literatura Brasileira (leitura e redação/escrita criativa).
Doutora em Educação pela Unicamp, é cantora, compositora, atriz e ensaísta com 36 anos de exercício artístico e científico.
Segue abaixo entrevista exclusiva com Déa Trancoso para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 26/01/2026:
01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?
Déa Trancoso: Nasci no dia 17/03/1964 em Almenara, Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Registrada como Alcidéia Margareth Rocha Trancoso.
02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.
Déa Trancoso: Minha mãe cantando no “Chiquita Bacana” chuveiro e meu pai ouvindo os discos da Velha Guarda na voz de Nelson Gonçalves.
03) RM: Qual sua formação musical e/ou acadêmica fora da área musical?
Déa Trancoso: A formação musical é a prática: completo, em 2026, 36 anos com o ofício da palavra-som.
A formação extramusical é: uma graduação em Jornalismo pela PUC Minas Gerais. Um mestrado em Estudos Rurais pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Um doutorado em Educação pela Unicamp. Um pós-doc em Educação em Ciências na Amazônia pela Universidade do Estado do Amazonas.
E recentemente, meu mais novo feito: um primeiro lugar para o doutorado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de São João Del Rei.
04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?
Déa Trancoso: Com certeza, a mais importante e longeva é a Velha Guarda da MPB: Pixinguinha, Sinhô, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Conjunto Época de Ouro, Elizete Cardoso, Noel Rosa, Dilermando Reis, Garoto, João Nogueira, Nelson Gonçalves, Jamelão, Lupicínio Rodrigues, Clara Nunes, Clementina de Jesus.
Esses fazem parte da minha formação junto com os artistas populares do Vale do Jequitinhonha, minha terra natal tão fértil, além de Titane e Dércio Marques, que são, entre todas os artistas que ouvi, convivi e acompanhei de perto suas criações artísticas, os que mais atravessaram meu corpo, meu coração e minha alma. Todos ainda têm muita importância.
05) RM: Quando, como e onde você começou sua carreira musical?
Déa Trancoso: Na juventude, em Almenara, Baixo Jequitinhonha, cantando “Parcela”, de Elomar Figueira Mello, junto com o grande cantadô Tau Brasil (in memoriam), no projeto “Canto de Beco”, da antológica produtora cultural Hilda Porto.
06) RM: Quantos álbum lançados?
Déa Trancoso: Oito álbuns: O violeiro e a cantora, com Chico Lobo.
Tum Tum Tum, minha estreia, indicado ao Prêmio da Música Brasileira em quatro categorias, concorrendo com Maria Bethânia, Chico Buarque, Marisa Monte e Alceu Valença.
Serendipity, meu primeiro álbum autoral que traz parcerias com Chico César e Badi Assad.
Flor do Jequi, com Paulo Bellinati.
Líricas Breves para a Construção de uma Alma, meu segundo disco totalmente autoral, com participações especiais de Egberto Gismonti, Mônica Salmaso, Ná Ozzetti, Ceumar, Kristoff Silva, Letícia Bertelli, Marcelo Veronez, Pedro Morais, Raquel Coutinho, Manu Saggioro e Daísa Munhoz. Vencedor do Prêmio Flávio Henrique de Música 2021, concedido pelo BDMG Cultural, categoria Composição.
Canções Guardadas nas Dobras do Tempo, com Regina Machado. Vencedor do Prêmio Flávio Henrique de Música 2024, categoria Composição.
Cartas ao Vento.
Eu Vejo o Mundo nos Olhos de Exu.
07) RM: Como você define seu estilo musical?
Déa Trancoso: Autoral xamânico.
08) RM: Você estudou técnica vocal?
Déa Trancoso: Não. Tive a enorme sorte de fazer umas oficinas, aqui e ali, com Lígia Jaques e Titane, grandes cantoras que moram em Belo Horizonte – MG.
09) RM: Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?
Déa Trancoso: Tem alguma importância o estudo da técnica vocal, mas não define nenhum canto. Ajuda, mas a estrada, no meu caso, foi mais definitiva. Minhas universidades foram os grandes violonistas que passaram pela minha trajetória: Rubens Espíndola, Luiz Gibson, Tabajara Belo, André Siqueira e, agora, meu conterrâneo Álamo Cardoso, o Gnynbeat, com quem ando dividindo os palcos por aí.
10) RM: Quais as cantoras (es) que você admira?
Déa Trancoso: Tita Parra, Ná Ozzetti, Cássia Eller.
11) RM: Como é seu processo de compor?
Déa Trancoso: A palavra e o som vêm pela nuca. A melodia está sempre associada a alguma voz feminina dentro da minha cabeça. Antes de eu ganhar o Cuatro da Tita Parra era assim. Agora, o Cuatro tem um certo protagonismo. Os dois últimos álbuns (ainda em andamento) foram pensados, criados e produzidos a partir desse instrumento latino-americano tão caro às mulheres compositoras.
12) RM: Quais são seus principais parceiros de composição?
Déa Trancoso: Regina Machado, Luiz Gabriel Lopes, Ceumar, Consuelo de Paula.
13) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?
Déa Trancoso: É um caminho árduo e lento. No entanto, tem aquilo que nehum dinheiro compra: liberdade de criação e produção.
14) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?
Déa Trancoso: Nunca pensei sobre isso. Fui me organizando com a ajuda de muita gente. Entre essas pessoas, destaco Egberto Gismonti, com quem aprendi que artista é aquele que pega o boi pelo chifre: joga em todas as posições, conhece e participa do processo de A a Z.
É como disse Mário de Andrade: artista não é quem compõe ou canta, mas, sim, quem sabe tocar a vida. A grande obra de arte, como formulou genialmente Deleuze, é a vida.
15) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira musical?
Déa Trancoso: Mantenho meu MEI em dia. Faço pequenas concentrações de trabalho de produção (tipo 3 vezes ao ano, cato editais que valham a pena). Conecto minha produção artística à minha produção científica. Escrevo, produzo, dirijo e divulgo meus próprios trabalhos.
16) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?
Déa Trancoso: Até agora, só ajudou, só ampliou, só favoreceu, especialmente o contato com o público real que gosta do que faço.
17) RM: Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia de gravação (home estúdio)?
Déa Trancoso: Democratização de acesso e certa tendência a uma falta de rigor estético (por exemplo, trabalhos sem encarte, sem ficha técnica).
18) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?
Déa Trancoso: Nada. Não faço mais nada. Apenas vou reexistindo. Sempre fazendo uma canção aqui e ali. Sempre atravessando outros campos artísticos com meu corpo, minha voz, minha presença e meu pensamento. Estou cada vez mais descrente do formato grandes shows para pequenos artistas como eu. Acredito que cada vez mais cantarei em espaços mais íntimos, mais sagrados, mais pessoais, mais contracoloniais.
19) RM: Como você analisa o cenário da Música Popular Brasileiro. Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas últimas décadas? Quais artistas permaneceram com obras consistentes e quais regrediram?
Déa Trancoso: Desde sempre, amarei Ednardo, Belchior, Alceu Valença, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dércio Marques, Diana Pequeno, Cátia de França.
Acho que Marisa Monte veio e inscreveu seu nome. Adriana Calcanhoto, a sinistra – gosto demais! Ná Ozzetti, Mariana Aydar, com sua releitura do Forró. Marina Sena é simplesmente um fenômeno!
Mas, há entre os independentes, muita gente! Impossível nominar. Aqui em Minas Gerais, entre muitas, há a Júlia Tizumba. No Brasil, vinda direto da Bahia, a Coral. Coral é absurda!!! Está no mesmo nível de Josyara e Juliana Linhares.
20) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado etc)?
Déa Trancoso: Cantando “Detalhes” do rei Roberto Carlos num bar com todo mundo bebendo e conversando alto. Parei, dei um grito no microfone e me retirei. Nunca mais voltei ali.
21) RM: O que te deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?
Déa Trancoso: É pura felicidade cantar uma música que você mesmo criou. É muito triste entoar palavras que a gente não crê.
22) RM: Existe o Dom musical? Como você define o Dom musical?
Déa Trancoso: Existe certa aptidão e muito, muito, muito suor, além de muita, muita, muita disciplina.
23) RM: Qual é o seu conceito de Improvisação Musical?
Déa Trancoso: Os povos originários e sua memória viva produzindo ágoras sonoras.
24) RM: Existe improvisação musical de fato, ou é algo estudado antes e aplicado depois?
Déa Trancoso: Eu acho que o grande exemplo de improvisação de fato e de direito é a Elis e o Hermeto em Montreux/1979 ou, como dizia o grande Ian Guest, nos ensaios.
O ensaio é muito mais musical do que o showtime. Improviso como acontecimento é muito raro. Existe e tem quem goste e saiba fazer, mas é raro. Agora, na cultura popular e tradicional dos povos originários, por exemplo, tudo é no improviso, no agora. No agora que um dia, e todos os dias, estão na memória viva.
25) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre Improvisação musical?
Déa Trancoso: Eu não saberia falar sobre isso mais do que disse acima.
26) RM: Quais os prós e contras dos métodos sobre o Estudo de Harmonia musical?
Déa Trancoso: Estudar nunca é demais. Mas, o mais legal é quando a gente reconhece que os estudos acadêmicos se nutrem de tudo que a cultura popular produz. A cultura popular e tradicional é um manancial. Toda arte é filha dela.
27) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?
Déa Trancoso: Às vezes, uma ou outra fura o padrão do jabá e toca nas pequenas rádios. Mas, hoje, nem são mais as rádios que são as réguas.
O streaming é quem dita as regras e ele é o mais miserável dos sistemas de fazer uma canção chegar ao posto de “hit”. Há tantas camadas políticas por detrás disso. O jabá é outro e é muito mais venenoso!
28) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?
Déa Trancoso: Paciência. Demora muito para quem quer fazer aquilo que realmente é ditado pelo coração. E, muitas vezes, não acontece nunca. Sucesso é uma medida do sistema e o sistema é muitíssimo desumano e miserável.
29) RM: Festival de Música revela novos talentos?
Déa Trancoso: Às vezes, sim. Entretanto, é uma estrutura muito grande, cheia de regras (para atender um número maior de pessoas) que não ajudam e não ampliam as novidades: aquelas canções que precisariam de dedicação mais singular para acontecer.
A estrutura de festivais é muito massiva. Infelizmente. Eu acho que a metodologia de festival que mais gostei foi o antigo Prêmio Visa. Ali, o modo era muito musical e competitivo ao mesmo tempo. Eles acharam um tom muito interessante para fazer tudo acontecer.
30) RM: Como você analisa a cobertura feita pela grande mídia da cena musical brasileira?
Déa Trancoso: Ainda atrelada aos grandes nomes ou aos nomes que conseguem conversar de modo mais dominante com o mercado. Aos artistas realmente independentes, a cobertura ainda é muito viciada.
31) RM: Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical?
Déa Trancoso: É muito importante. Abre muitas possibilidades de circulação e manutenção da cena artística brasileira.
32) RM: Quais os seus projetos futuros?
Déa Trancoso: Iniciei um doutorado em artes cênicas pela Universidade Federal de São João del Rei e estou focada em tornar professora universitária. Estou em cartaz com 3 espetáculos: a performance “Eu vejo o mundo nos olhos de Exu”, o concerto musical solo “Cartas ao vento” e o show “Tum Tum Tum 35 anos”.
33) RM: Quais seus contatos para show e para os fãs?
Déa Trancoso: Tanto para shows quanto para fãs, indico minha página oficial do https://www.instagram.com/deatrancoso_oficial
Canal: https://www.youtube.com/channel/UCQIPQtq9EmcqZU-yKC0-Kaw
A música impressionista com Déa Trancoso: https://www.youtube.com/watch?v=dGxov-eZXDE
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